43º Festival de Cinema de Gramado #9: “O Outro Lado do Paraíso”, de André Ristum

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O Outro Lado do Paraíso mostra a construção de Brasília e a ditadura brasileira pelos olhos de um garoto. A ideia é boa, mas o filme de André Ristum frequentemente confunde delicadeza com falta de conflitos.

Cercado de boas intenções, O Outro Lado do Paraíso se enquadra na categoria dos filmes “certinhos” demais para deixar qualquer impressão marcante. Ao narrar a construção de Brasília e o impacto do golpe militar pelos olhos do jovem Nando (Davi Galdeano), de 12 anos, o longa de André Ristum opta por seguir o caminho da inocência, seja no tom quase ingênuo empregado ao cotidiano do garoto com a escola, a primeira namorada e os pais, à própria estrutura, que, linear e didática, intensifica a pureza da história com uma narrativa de frases bonitas e apoiada em memórias. Em muitos casos, optar pela inocência para falar de períodos conturbados como a ditadura brasileira é uma grande jogada (Cao Hamburger esbanjou delicadeza em O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias), mas, no caso de O Outro Lado do Paraíso, a experiência tem simpatia demais e consistência de menos.

Com experiência em cinema na Itália e nos Estados Unidos, o diretor André Ristum, responsável por filmes como Meu País, tem história para contar: em 1995, foi assistente de direção de ninguém menos que Bernardo Bertolucci em Beleza Roubada. Em termos técnicos, fica a certeza de que Ristum realmente aprendeu lá fora, pois O Outro Lado do Paraíso tem elementos irrepreensíveis, como a calorosa fotografia de Hélcio “Alemão” Nagamine, e uma equipe que traz, inclusive, uma participação de Milton Nascimento na trilha sonora. A direção de arte de Beto Grimaldi é outro aspecto importante, sendo impecável ao reconstituir os primórdios de Brasília e a própria vida bucólica do interior de Minas Gerais nos anos 1960. Ou seja, conceitualmente falando, o longa é muito bem resolvido em sua técnica.

O Outro Lado do Paraíso tem coração de sobra, e é compreensível a decisão de Ristum de falar sobre a ditadura de forma mais disfarçada e delicada. Só que a vida do garoto Nando, mesmo que pincelada com interessantes detalhes da vida brasileira daquela época, não sustenta o filme como um todo. Assim, a lembrança que fica da história é de algo repetitivo e sem assunto, onde nem a noite que mudaria para sempre a vida do pequeno garoto surge de forma impactante. Além de tudo, percebam os clichês: a garotinha a frente do seu tempo que muda a vida do jovem protagonista, o romance rejeitado pela família entre a mocinha do clã e um militar, a mãe quase figurante que não tem personalidade frente ao marido, e assim por diante. Não é que O Outro Lado do Paraíso seja mal conduzido, mas termina didático demais e dificilmente desperta maiores emoções. E a indiferença é o pior mal que pode acometer um filme.

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