43º Festival de Cinema de Gramado #13: um balanço dos vencedores e da edição deste ano

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O tradicional registro dos vencedores do Festival de Cinema de Gramado. Ausência, de Chico Teixeira, foi o grande vencedor da 43ª edição. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Em maior ou menor grau, a desestruturação familiar foi o tema que norteou todos os longas brasileiros exibidos na 43ª edição do Festival de Cinema de Gramado. Por isso a vitória de Ausência como o melhor filme da edição é tão simbólica, já que o filme de Chico Teixeira é justamente o desolador retrato de um jovem menino abandonado pelo pai e que precisa ser o ponto de equilíbrio em uma família fragilizada. Além do prêmio principal, Ausência faturou ainda as categorias de direção, roteiro e trilha musical, quebrando o padrão dos últimos anos de distributivismo nas categorias principais. Isso é resultado direto de uma escolha mais cuidadosa do júri, que, entre recentes descobertas (Rita Carelli, atriz de Permanência) e grandes mestres (o compositor Jaques Morelembaum) na sua formação, compensou bem as escolhas desgovernadas do ano passado.

Gosto muito de Ausência, mas a minha preferência era toda – sem qualquer bairrismo – do gaúcho Ponto Zero, de José Pedro Goulart. Impecável em sua técnica (esse parece ser, conforme comentaram nos debates, o filme mais caro da história do Rio Grande do Sul), o longa é um sensorial mergulho nas angústias e fantasias de um jovem de 14 anos que, solitário, é agredido fisicamente pelos colegas e, por que não, emocionalmente em casa pelos pais, que, quando não ignoram sua existência, usam o menino para achar alguma solução para profundos problemas matrimoniais. É um estupendo trabalho que comentaremos futuramente aqui e que foi subavaliado pela premiação, onde saiu vitorioso apenas nos prêmios técnicos de desenho de som e montagem, quando merecia, na realidade, inquestionavelmente, os Kikitos de melhor trilha musical e fotografia – no mínimo. Também teria sido para lá de justo que o jovem Sandro Aliprandini fosse coroado por seu difícil desempenho em um filme onde quase não há falas para ele. A lembrança seria especial para um ano onde os pequenos e adolescentes roubaram a cena (ainda tínhamos as boas surpresas de Matheus Fagundes em Ausência e Davi Galdeano em O Outro Lado do Paraíso).

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Mariana Ximenes e Breno Nina foram os melhores atores por Um Homem Só e O Último Cine Drive-In, respectivamente. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Outros destaques entre os brasileiros foram O Último Cine Drive-In, de Iberê Carvalho, e Um Homem Só, de Cláudia Jouvin. O primeiro, uma obra pra lá de carinhosa, ganhou os prêmios de ator (Breno Nina), atriz coadjuvante (Fernanda Rocha) e direção de arte, além do troféu Cidade de Gramado entregue pelo júri da crítica. Um pouco demais, talvez, para uma obra que pega mais pelo afetivo do que necessariamente por sua força cinematográfica. Já o segundo não agradou a crítica presente em Gramado, o que é bastante lamentável. Muitos questionaram sua presença no evento (“isso não é filme de Festival!”), e o que chateia é que passe quase despercebido o fato de Jouvin fazer um filme de gênero e totalmente diferente do que estamos acostumados a ver. A própria diretora comentou que a ideia era fazer uma estranha história de amor, algo que a crítica parece não ter comprado. A vitória de Mariana Ximenes como melhor atriz também não repercutiu bem (vale lembrar que este não foi um grande ano mesmo para os desempenhos femininos), mas soa mais como uma implicância com a obra que, conforme já comentamos, seria saudada como um sopro contemporâneo de originalidade caso fosse realizada por nossos hermanos argentinos. O gramado do vizinho sempre parece mais verde.

Por falar em implicância, já estão ficando chatos e repetitivos os questionamentos envolvendo o ineditismo no Festival de Cinema de Gramado. A curadoria se posicionou diversas vezes: não vão deixar de exibir filmes bons só porque já passaram em outros Festivais. O trio formado por Eva Piwowarski, Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho também afirma que ineditismo não é sinônimo de qualidade, o que está refletido, inclusive, na seleção deste ano com o duvidoso Introdução à Música do Sangue. Em entrevistas e declarações em coletivas, a imprensa questiona o esquecimento de filmes como Beira-Mar, por exemplo, exibido em Berlim este ano – mas basta pesquisar um pouco para ver que o filme da dupla gaúcha Filipe Matzembacher e Márcio Reolon simplesmente não esteve presente em qualquer festival brasileiro. Quem sabe a dupla optou apenas por uma carreira internacional em tempos que quase todos os festivais exigem ineditismo? Por falar nisso, fica mais uma reflexão: o que será de nosso circuito se os filmes tiverem que optar por apenas um evento? Outro detalhe: um festival, ao contrário do Oscar, só pode selecionar filmes inscritos e não os que estiveram em cartaz, o que diminui consideravelmente o universo de possibilidades. A discussão é complexa, mas o drama parece ser debatido por público e crítica de forma displicente e pouco fundamentada.

Voltando à premiação, as escolhas entre os longas latinos seguiam dentro do esperado até a última categoria. A vitória de La Salada, da Argentina, como o melhor filme da edição deste ano foi um choque, já que o filme conquistou somente esta categoria (é até pior que a situação A Estrada 47, ano passado, entre os brasileiros) e foi unanimemente a produção menos expressiva da mostra. Nos curtas-metragens, uma distribuição sem maiores injustiças para uma seleção pouco surpreendente. O Corpo, o grande vencedor, não é um trabalho que me agrada, mas reconheço o apelo e sua boa execução técnica. Meu favorito, o transgressor Virgindade, não convenceu os votantes e até mesmo o público, que deu risadas de constrangimento ao se deparar com o franco e explícito relato de um homem sobre as suas fantasias sexuais como um garoto gay ainda virgem. Se não fosse para esse filme pernambucano, que tivessem dado mais atenção para o dinâmico e contemporâneo Quando Parei de Me Preocupar Com Canalhas, que levou merecidamente os prêmios de roteiro e ator para Matheus Nachtergaele. Enfim, os júris, no geral, acertaram nas escolhas, fazendo realmente um resumo das obras que mais agradaram e se destacaram nesta edição. É sempre impossível agradar gregos e troianos, mas este ano, pelo menos, os crimes foram quase inexistentes. Até 2016, Gramado!

Confira aqui lista completa de vencedores.

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