Diário das minhas artes #1

Todas as artes se complementam. O cinema se torna mais imersivo com a música. Uma peça de teatro pode ficar ainda mais brilhante se você leu o material de origem e pensa na adaptação do espetáculo. Coisas assim. O Cinema e Argumento carrega a sétima arte no título, mas sempre senti a necessidade de falar sobre tudo o que me encanta nas outras. É este o propósito dessa nova coluna que inauguro agora: fora o cinema e eventualmente as séries que comento aqui, decidi inaugurar este espaço mais democrático e informal para falar sobre música, teatro, literatura ou o que der na telha. E, já para a estreia, temos muito o que comentar… Vamos lá!

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ensina-me a viverTerminou neste domingo a nova temporada de Ensina-me a Viver, cuja última parada foi aqui em Porto Alegre. É o oitavo ano do espetáculo na estrada (o sucesso está em números: mais de 500 mil pessoas já viram essa adaptação estrelada por Glória Menezes e Arlindo Lopes), e o retorno dela à capital gaúcha tem um gostinho muito especial para mim. Conferi o espetáculo quando ele debutou anos atrás e, agora em 2015, fiz o trabalho de divulgação da peça na empresa onde trabalho como assessor de imprensa. Adoro essas coincidências da vida.

Na revisão, feita novamente no lindo teatro que é o São Pedro, passei a compreender melhor o espetáculo. E, quando digo compreender, é em termos de sentimentos mesmo, passando pelas vivências e aprendizados que tive desde os meus 17 anos até este novo encontro com a peça. Não gosto de dizer que Ensina-me a Viver é uma história de amor, mas sim uma homenagem à liberdade proporcionada pelas descobertas. Já dizia Six Feet Under que nessa vida não existem regras ou julgamentos, apenas aqueles que criamos e aceitamos para nós mesmos. É exatamente para isso que Harold (Arlindo Lopes) abrirá os olhos em seu encontro com Maude (Glória Menezes), que, antes de se tornar um interesse amoroso, é uma pessoa que lhe encanta pela falta de amarras com qualquer coisa. Não contive minhas lágrimas com essa mensagem da peça, principalmente porque a Rhineheart, canção do Beirut que toca no final, é de arrepiar – e João Falcão, em uma direção pra lá de carinhosa e criativa, a utiliza em momentos cruciais. O teaser abaixo usa essa linda música como trilha.

Ainda refletindo sobre a vida, terminei de ler recentemente o livro Tomo Conta do Mundo – Conficções de Uma Psicanalista, da gaúcha Diana Corso. Tenho um fraco pelo lance da psicanálise, pela liquidez de Zygmunt Baumant, pelas análises do dr. Paul Weston em In Treatment. Por isso era inevitável eu me apaixonar pelos escritos de Diana. O livro, que é uma coletânea de crônicas publicadas por ela ao longo de sua carreira como colunista, faz reflexões inteligentes mas comum a todos nós sobre pequenas coisas da vida, além de se utilizar das mais variadas fontes artísticas para propor discussões. Toy Story? Harry PotterA Bússola de Ouro? Tudo é material para Diana Corso pensar um pouquinho sobre o cotidiano. Irresistível.

Entre as séries, minha disciplina começou boa com as estreias, mas acompanhar cinco séries por semana deve logo se tornar um malabarismo, tenho certeza. Passado o badalo da vitória no Emmy, Viola Davis voltou em alto nível com How to Get Away With Murder, que não perdeu tempo ao já resolver um mistério da temporada passada no primeiro episódio e ao derrubar mil forninhos quando subverteu ainda mais a maravilhosa Annalise Keating em uma cena com Famke Janssen. O resto do elenco continua horrendo, mas Viola é tão sensacional que permanece como um motivo suficiente para manter a série na minha lista de prioridades. E perceberam como o programa está cada vez mais próximo de Damages no sentido de trabalhar mais afundo um caso jurídico que norteia acontecimentos futuros dos personagens? No mesmo balaio de atrizes maravilhosas está Taraji P. Henson, sempre impecável com sua Cookie Lyon, em Empire. Não tenho dúvidas de que a personagem é repetitiva, mas a persona criada por Henson é das mais marcantes – o que está totalmente de acordo com o tom novelão da série, que, apesar de continuar com um protagonista detestável e um roteiro cercado de previsibilidades, já estreou quebrando novos recordes: foi o programa que mais incrementou a sua audiência de uma primeira para uma segunda premiere (o recorde era de House).


Leftovers-2Enquanto isso, The Affair teve uma boa estreia de segundo ano, agora com novos personagens mostrando a sua percepção da história de traição do título. Gosto da série, e o retorno dela manteve o bom nível, mas o conflito principal já terminou e, como é de praxe na maioria dos projetos da Showtime, parece que o assunto acabou também. Tomara que surpreenda, especialmente agora com essa nova arquitetura de roteiro que pode dar certo (ou errado na mesma proporção). Em termos de ter que surpreender, o mesmo pode ser dito de The Good Wife, uma das melhores opções da TV aberta, que começou seu sétimo ano tendo como ponto alto um nome bastante inusitado: o coadjuvante Alan Cumming, que promete ter ótimos momentos ao lado da convidada Margo Martindale. Ao que tudo indica, a trama deve seguir o caminho da reciclagem… Afinal, alguém ainda se motiva com eleições e criações de novas empresas de advocacia? E o que dizer da nova personagem que é uma substituição descarada da Khalinda? Os roteiristas que me desculpem, mas a investigadora de Archie Panjabi é insubstituível. Não forcem a barra.

Deixo o melhor para o final: a nova temporada de The Leftovers. É bem possível que este seja o meu seriado favorito em exibição, e ainda tento aceitar o fato de que ele não é devidamente reconhecido (ficando apenas na parte técnica: Max Richter não ter sequer sido indicado ao Emmy por sua magnífica trilha sonora é um dos maiores absurdos em décadas!). Por outro lado, entendo a aversão, pois The Leftovers é drama dos mais desafiadores, seja no tema complexo (o luto de pessoas que perderam conhecidos em um repentino e inexplicável desaparecimento de 2% da população mundial), no flerte com a religião e o sobrenatural e na própria condução, que, no início deste segundo ano sofreu mudanças drásticas. É ousada a atitude da HBO de seguir contando uma história que já utilizou todo o seu material de origem (o livro homônimo de Tom Perrotta), colocando os personagens em novos cenários e situações – e com uma mistura que se assemelha cada vez mais a Lost (tomara que não!). E que coragem retomar os protagonistas só no terço final de Axis Mundi, o capítulo de estreia. O retorno do programa mexeu muito comigo, seja pela construção episódio em si ou pela beleza que é ver uma série arriscando e saindo do lugar comum em todos os sentidos, começando por uma bela introdução ambientada na pré-história. Assistam!

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