Três atores, três filmes… com Sheron Neves

sherontresDessa vez, a coluna deveria se chamar “Três atores, três séries”, mas vamos manter a tradição do título. Ela deveria ter nome diferente porque a convidada é uma grande pesquisadora de TV, segunda tela, storytelling e transmídia, e também porque a conheci justamente em um curso sobre séries (mais especificamente sobre as produções da HBO) anos atrás. Sheron Neves, mestre em Media Studies pela Birkbeck, University of London e professora na ESPM-Sul, PUCRS e Unisinos, vem hoje ao Cinema e Argumento para comentar, excepcionalmente, três grandes atuações da TV. As escolhas particularmente me fascinaram porque fogem do previsível, conforme ela mesma explica na introdução abaixo. E como não pular de alegria ao ver Six Feet Under, meu seriado favorito de todos os tempos, lembrado na seleção? Ah, e não deixem de conferir o trabalho da Sheron no Meditations in an Emergency!

Antes de listar minhas três atuações favoritas da TV, preciso fazer um parênteses: não incluí os britânicos, pois precisaria de uma lista bem maior do que a que me foi encomendada. Sejam eles jovens como Nicholas Hoult (Skins) ou tarimbados como Maggie Smith (Downton Abbey), são todos responsáveis por performances impecáveis. Falando em impecável, mais um parênteses: deixei de fora Bryan Cranston (Breaking Bad), um dos meus favoritos. Afinal, o que dizer que ainda não foi dito pela imprensa ou pelas inúmeras premiações que recebeu pelo papel? Optei, portanto, por três performances menos conhecidas, mas não menos extraordinárias.

Sofia Helin (The Bridge)
Para viver Saga Norén, a brilhante policial com síndrome de asperger de The Bridge, a atriz sueca optou por uma interpretação sem grandes afetações, mas extremamente convincente. Vários remakes do drama sobre um maquiavélico assassino em série já foram feitos, mas nenhuma atriz parece ser capaz de interpretar a personagem com tamanha naturalidade como Helin, cujo carisma conseguiu destronar a até então diva número um do nordic-noir, a atriz Sofie Gråbøl (da série sueca The Killing). Ao mesmo tempo em que ajuda a compor a dureza monocromática da série, a detetive criada por Helin faz também o perfeito contraponto. Como um Spock de saias, é seu distanciamento emocional e sua inabilidade social que a tornam uma boa observadora. É a sua honestidade brutal que a torna autêntica, e o seu caráter que a leva a construir a principal “ponte” do título: a amizade com seu parceiro, o passional detetive Rohde. Deliciosamente trágicos, os dois acrescentam um componente humano a um thriller gélido e cerebral.

Michael K. Williams (The Wire)
Natural do Brooklyn, o ator já possuía alguns pequenos papéis no currículo quando foi chamado para desempenhar Omar Little na premiada série The Wire (HBO, 2002-2008). Sua performance como o temido gangster/Robin Hood de Baltimore lhe rendeu inúmeros elogios da crítica, e até mesmo de Barack Obama, na época senador. O contraditório personagem parece ter sido feito sob medida para o ator que, com seu rosto carrancudo (marcado por uma enorme cicatriz obtida em uma briga no dia do seu 25º aniversário) pode parecer assustador à primeira vista. Entretanto, à medida que a trama se desenvolve, o ator consegue transmitir a complexidade deste que é um dos melhores personagens da série: apesar do rosto duro e dos atos inquestionavelmente cruéis, ele permanece a pessoa mais honesta e altruísta dentro de uma cidade repleta de políticos e policiais corruptos. Williams consegue transmitir esta dualidade com total sutileza e maestria.

Frances Conroy (Six Feet Under)
Formada pela prestigiada Juilliard School de Nova Iorque, a veterana atriz de teatro conquistou o grande público como a matriarca da família Fisher em Six Feet Under (HBO, 2001-2005). Mais conhecida até então no circuito independente, Conroy usou sua experiência nos palcos da Broadway para construir uma personagem absolutamente cativante e tragicômica. Uma das personagens mais imprevisíveis da série, Ruth Fisher surpreende desde uma das primeiras cenas do episódio piloto, quando atira longe uma travessa de comida ao receber um telefonema com más notícias. Inicialmente o retrato típico da esposa baby boomer, recatada, perfeccionista e submissa, na pele de Conroy a personagem ganha uma dimensão surpreendente. O fim abrupto de seu casamento de 35 anos é o estopim de uma transformação que irá confundir a seus filhos e a ela mesma. Acredito que poucas atrizes conseguiriam interpretar com tamanha sensibilidade a jornada de uma mulher que descobre, no auge de seus anos dourados, sua própria sexualidade e individualidade.

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