Rapidamente

citizenruth

No trabalho mais ácido e autoral de Alexander Payne, Laura Dern brilha como a problemática Ruth, em um desempenho injustamente ignorado pelas premiações.

CIDADES DE PAPEL (Paper Towns, 2015, de Jake Schreier): Mesmo sendo mais uma adaptação de um sucesso literário de John Green, Cidades de Papel não chegou a fazer nem um terço da bilheteria de A Culpa é das Estrelas. A arrecadação inferior é compreensível, pois a história não tem o mesmo apelo emocional e o próprio elenco é infinitamente menos interessante (como Shailene Woodley faz falta!). De qualquer forma, excetuando comparações, Cidades de Papel é um filme perfeitamente convencional: uma aventura adolescente sobre Quentin (Nat Wolff) um garoto que, apaixonado pela vizinha repentinamente desaparecida (Cara Delevingne), resolve procurá-la com a ideia de que ela deixou pistas justamente para ser encontrada. Neste sentido, Cidades de Papel é um tanto confuso na questão do gênero que segue, começando como um romance adolescente para logo em seguida ganhar tons de mistério, flertar com as comédias colegiais e terminar no drama. A mistura não é das mais harmônicas, deixando o filme fique quase sem personalidade. O que faz mesmo a diferença em Cidades de Papel é o fato de seu desfecho ser dos mais atípicos para produções do estilo. Há grandes chances do grande público desaprovar ou pelo menos considerar estranho o final mais reflexivo e longe de ser romantizado, mas a conclusão mostra uma maturidade rara em histórias populares como essa. Quem dera o cinema acostumasse mais o público com esses encerramentos.

RUTH EM QUESTÃO (Citizen Ruth, 1996, de Alexander Payne): Celebrei Nebraska, de 2013, como o retorno do verdadeiro Alexander Payne. Caso esse filme não existisse, poderia continuar considerando o diretor como um dos mais “domesticados” dos últimos anos. Famoso por sua acidez, por seus personagens atípicos e por tramas com belas doses de comédia e drama, ele vinha cada vez mais caindo na normalidade, e é até estranho lembrar que um longa tão convencional quanto Os Descendentes leve a sua assinatura, por exemplo. Minha teoria se confirmou conferindo Ruth em Questão, o primeiro filme de Payne e também o mais ácido e desafiador de toda a sua carreira. Se você acha Eleição ou até mesmo As Confissões de Schmidt sarcásticos, espere para ver o longa de estreia dele, que, além do afiado drama de Ruth (Laura Dern), jovem inconsequente e presa diversas vezes cheirando cola e até mesmo grafite, coloca no centro de seus conflitos a questão do aborto em dimensões raras no cinema. Ruth em Questão mostra a vida de sua protagonista de forma tragicômica (é o que Payne sempre faz de melhor) e traz um maravilhoso desempenho de Laura Dern solenemente ignorado pelas premiações, conferindo a este longa difícil – e por isso mesmo único – o estilo que Alexander Payne, pouco a pouco, diluiria em seus próximos filmes mas recuperaria de forma admirável em Nebraska.  

SICARIO: TERRA DE NINGUÉM (Sicario, 2015, de Denis Villeneuve): Se existe qualquer semelhança entre SicarioTraffic, celebrado filme de Steven Soderbergh de 2000, ela para na questão temática. Isso porque o diretor canadense Denis Villeneuve não é inexperiente ao ponto de fazer um filme sem identidade própria. Muito pelo contrário: um dos melhores realizadores de sua época, Villeneuve novamente traz força e disciplina a uma história complexa e que não segue os caminhos esperados dentro do gênero. Até a metade dá para discordar disso, já que é quando Sicario parece apenas um filme sobre estadunidenses investigando um império de drogas na fronteira com o México. Nada de muito novo até aí, com exceção da bela escolha de personagens: os dois agentes escalados para a missão são um homem negro e uma mulher, sendo que ela, vivida por uma Emily Blunt cada vez mais merecedora de papeis fortes e dramáticos como esse, é a mais respeitada de seu segmento e quem dá ordens ao parceiro de trabalho. Por outro lado, aos poucos Sicario vai envolvendo e, no silêncio quase imperativo de sua trama (tudo se revela sutilmente, fazendo com que o espectador tenha que ficar atento aos detalhes), chega até mesmo a sufocar nos momentos derradeiros, mostrando até que ponto vão nossos princípios na busca pela justiça e na nossa avaliação do que é certo ou errado. A direção de Villeneuve é mais consistente que o roteiro do estreante Taylor Sheridan, e as parcerias que ele volta a estabelecer são fundamentais (a perturbadora trilha de Jóhann Johannsson e a fotografia de Roger Deakins são um show a parte), o que amortece eventuais fragilidades da trama, ilustrada ainda por um marcante desempenho de Benicio Del Toro.

4 comentários em “Rapidamente

  1. Não vi Cidades de Papel, mas também não tô com muita vontade, não. Talvez um dia.

    Não conhecia “Ruth em Questão”, mas acabou se tornando uma prioridade agora… Fiquei com MUITO curioso! Gosto de “Eleição”, do diretor, mas preciso pegar a filmografia dele pra dar uma boa conferida em tudo! hehe

    • Alan, a acidez de “Ruth em Questão” é nível “Eleição”. O Alexander Payne bem que poderia fazer mais filmes como esses de antigamente…

  2. Dos filmes comentados, assisti a “Cidades de Papel”, que gostei, apesar da personagem interpretada por Cara DeLevigne; e “Sicario – Terra de Ninguém”, que achei um filmaço, com uma grande personagem feminina interpretada por Emily Blunt.

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