Na TV… como a HBO marca época com The Leftovers

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Justin Theroux e o grande momento de sua carreira no episódio I Live Here Now: submerso em uma atmosfera inspirada em David Lynch, o ator emociona ao cantar Homeward Bound

A HBO se tornou HBO por respeitar suas ideias e projetos. Não é toda emissora que aposta firme em suas escolhas até o fim. Vejam The Leftovers, por exemplo, que adapta o livro homônimo escrito por Tom Perrotta (para quem não lembra, ele é o autor das obras que originaram os filmes EleiçãoPecados Íntimos). A primeira temporada do programa, exibida em 2014, não pontuou bem em audiência (não que isso seja um fator decisivo para emissoras de TV fechada) e recebeu avaliações bastante mistas da crítica. Ainda que o primeiro ano dessa série criada pelo próprio Perrota e por Damon Lindelof (da amada e odiada Lost) adaptasse por completo o livro original, o que seria a desculpa perfeita para que o programa terminasse ali mesmo, a HBO reconheceu, apesar de tantos fatores contra, o potencial do enredo e de sua equipe, renovando The Leftovers para uma segunda temporada. Benditos sejam os executivos da emissora, já que, com a nova aposta, fomos presenteados com uma dessas temporadas que eventualmente chegam à TV para marcar época.

Assim como a temporada final de Breaking Bad mostrou como faz diferença um seriado ter roteiristas preocupados com a coesão de situações e personagens, além de comprometimento ferrenho com o planejamento do arco dramático de uma história como um todo (e não somente na temporada em questão), The Leftovers também segue o padrão do programa criado por Vince Gilligan, com a diferença de tomar uma decisão das mais ousadas: ter o reboot como conceito em seu mais novo ano. Isso mesmo, dessa vez Kevin Garvey (Justin Theroux, no papel mais expressivo da sua carreira) abandonou o trabalho como policial de Mapleton e se mudou para Jarden, no Texas, onde busca um recomeço com sua mais nova família. Em contramão, a problemática que dá tom ao seriado continua a mesma: o repentino e inexplicado desaparecimento de 2% da população mundial no dia 14 de outubro. Só que Jarden, a nova cidade de nosso herói, ostenta um importante fato: nela, ninguém sofreu perda alguma no fatídico dia em questão, o que trouxe o seu apelido de Miracle (milagre, em português) e até mesmo a maravilhada busca dos turistas por um pouquinho da água que percorre o rio desse lugar supostamente abençoado. Ou seja, tudo é novo na segunda temporada de The Leftovers (até mesmo a abertura!), o que, de certa forma, também não deixa de ser uma forma de se distanciar do primeiro ano que tanto dividiu opiniões.

Com cenário e personagens novos, a temporada começa com um prólogo ambientado na pré-História, exatamente no local que viria se tornar a milagrosa Jarden. Lindamente filmada, a sequência acompanha o momento trágico em que uma mulher grávida se separa de sua tribo após um grande deslizamento. Sozinha, ela precisa sobreviver na mata e inevitavelmente dar luz ao seu filho em condições nada adequadas. Descobrimos aos poucos que essa é uma bela introdução para a nova fase de The Leftovers porque ela sintetiza exatamente uma das propostas da nova temporada: todos nós sofremos perdas de um jeito ou de outro, e não é porque Jarden não foi atingida pelo inexplicado desaparecimento mundial que ela não vive dramas particulares envolvendo despedidas. Dessa forma, os Garveys podem continuar como protagonistas da série, mas, no epicentro dos novos dramas, está o clã dos Murphy, que, como descobrimos logo em Axis Mundi, o capítulo de estreia, precisarão lidar com um desaparecimento inesperado. Mas, afinal – e aí está o xis da questão -, um desaparecimento de qual natureza? É a partir desse ponto que a série concentra suas discussões nesta que é a análise mais interessante pontuada pela obra de Tom Perrotta: o luto e a dificuldade que temos em seguir em frente.

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Vencedora do Emmy 2015 de melhor atriz coadjuvante em minissérie por American Crime, Regina King também está ótima e digna de prêmios como a matriarca da família Murphy em The Leftovers.

A ruptura das convencionalidades estruturais surge logo no primeiro capítulo, quando The Leftovers, ao não mostrar o que de fato aconteceu com os personagens da série após a primeira temporada, prefere simplesmente nos jogar no universo de novas figuras ao longo de um episódio de quase uma hora. Kevin Garvey e cia só dão as caras nos últimos minutos de Axis Mundi, mostrando uma imensa maturidade por parte dos roteiristas, que claramente confiam em seu material e, principalmente, em seu público. Toda a primeira metade dessa temporada divida em 10 episódios é, na realidade, um primor de negação ao lugar-comum. Ao instalar um mistério envolvendo os Murphy, a série se utiliza de dois episódios posteriores para narrar outros pontos de vista daquele mesmo período. Isso significa que, após jogar aos espectadores um conflito repleto de questionamentos, The Leftovers só retoma as discussões do tal mistério no quarto episódio. Assim, em termos cronológicos, a série simplesmente não anda ao longo desses capítulos! Não é qualquer programa que tem culhões para uma decisão dessas – e o melhor: a jogada não é para segurar a audiência ou coisa do gênero, e sim outro movimento em direção a uma construção dramática mais completa e transgressora.

Uma das práticas mais inspiradas da primeira temporada da série é retomada aqui: a de produzir episódios-solo para determinados personagens. No ano anterior, tivemos Nora (Carrie Coon) e Matt (Christopher Eccleston) agraciados com essa escolha (sim, episódios assim são um presente para qualquer ator e personagem), e aqui a fórmula se repete com personagens como o próprio Matt e o protagonista Kevin. É um desafio começar narrando uma temporada a partir de diferentes pontos de vista e depois eventualmente estruturá-la com episódios-solo porque a trama como um todo pode se estagnar ou até mesmo atrasar questões importantes. Infelizmente, The Leftovers não está isenta de tropeços assim, conforme fica evidente no penúltimo episódio, dedicado a uma personagem que já não está entre as mais interessantes: Meg, interpretada por Liv Tyler. Nele, parece que resolvem tirar o atraso de muitas explicações da temporada de forma apressada e destoante do novo clima, tornando esse o único erro de uma temporada praticamente perfeita. Apesar dele, acompanhar capítulos dedicados exclusivamente a apenas um personagem é sempre uma experiência recompensadora, e o seriado sabe fazê-los como ninguém.

Mesmo com o avanço mais devagar em termos de acontecimentos por causa da constante estrutura diferenciada dos capítulos, The Leftovers nunca deixa de inserir novos e instigantes temperos à mistura, como a crescente loucura de Kevin, que ainda tenta superar (literalmente) importantes fantasmas de seu passado. E o que dizer das simbologias ou até mesmo das ironias que o inteligentíssimo roteiro propõe? Não é curioso que, em uma cidade tão religiosa e milagrosa como Jarden, o reverendo Matt seja justamente a pessoa cuja palavra é mais questionada? E também não chega a ser tocante a forma como o episódio Lens finalmente desvenda o que está por trás da cena em que Erika (Regina King) desenterra um pássaro na floresta? Esta segunda cena, em particular, é um dos pontos altos da temporada, pois, fora a precisa direção de Craig Zobel que torna claustrofóbico o diálogo da personagem com Nora, as duas atrizes dão um show em cena. E, de quebra, a sequência que dá continuidade a esse momento é um dos momentos mais assombrosos da TV em 2015, graças também à sempre marcante e poderosa trilha instrumental de Max Richter.

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Carrie Coon, sempre muito crível e humana como a sofrida Nora, é uma das tantas atrizes do elenco feminino que elevam a carga dramática de The Leftovers.

Falando em elenco, são poucos os grupos de atores tão irrepreensíveis como esse, especialmente se nos referirmos às mulheres. Começamos por elas: Regina King, a nova adição da temporada, tem momentos dignos de prêmios (a cena já citada do episódio Lens ou qualquer aparição sua na season finale, com destaque para a sequência na ponte); Carrie Coon segue esbanjado humanidade como a mulher que perdeu toda a família no desaparecimento do dia 14 de outubro e tenta se agarrar a qualquer vislumbre de esperança rumo a uma nova vida; Ann Dowd, como o tormento na vida do protagonista Kevin, transmite com perfeição toda a provocação e o incômodo oriundos de sua personagem; e, por fim, Amy Brenneman, ex-esposa de Kevin que se entregou aos Remanescentes Culpados (grupo, seita, culto ou como você preferir que acha que o mundo acabou após o desaparecimento mundial e que isso nunca deve ser superado), dá sua boa contribuição à verossimilhança dos personagens mesmo em momentos menores.

Na ala masculina, Justin Theroux, como um homem lindíssimo mas estranhamente inseguro e nada ciente de seu apelo físico, pela primeira vez está plenamente no controle de seu protagonista, surpreendendo nos seus dois episódios-solo e, principalmente, em I Live Here Now, capítulo derradeiro que entrega o grande momento da carreira do ator: aquele em que ele canta Homeward Bound, um dos clássicos da dupla Simon & Garfunkel. Enquanto isso, Christopher Eccleston continua impecável como o reverendo Matt e, assim como um bom padre, faz um magnífico uso das palavras. Fechando o expressivo grupo masculino está Kevin Carroll, debutante na série, que faz uma composição das mais instigantes: seu John Murphy é ao mesmo tempo um sujeito muito humano e perigoso, fazendo com que nossa compaixão por ele sempre seja alternada por uma incômoda insegurança. Se justiça existisse no mundo e prêmios significassem alguma coisa, o elenco de The Leftovers seria celebrado por todos os cantos (o único prêmio que fez justiça na temporada desse ano foi o Critics’ Choice Awards que, além de indicar o programa a melhor série, lembrou dos atores em todas as categorias de atuação). 

Sucesso de crítica e elencada por diversas publicações como uma das grandes séries de 2015, a atração, no entanto, pode realmente dividir opiniões quando chega a International Assassin, o oitavo episódio da temporada. Mergulhando em um universo à la David Lynch para ambientar a trama no subconsciente de um personagem e resolver um cliffhanger aparentemente defintivo, o episódio dá uma guinada brusca e momentânea de tom na série. A polêmica vem em função de International Assassin usar justamente um devaneio para ajustar um conflito crível e pé no chão. É preciso comprar a proposta da viagem para não se decepcionar com as resoluções – mas é garantido: para quem embarcar no espírito, esse é um dos melhores momentos da TV em 2015 (o episódio, inclusive, está indicado ao Writer Guilds of America, o sindicato de roteiristas, na categoria de melhor roteiro de episódio dramático).

Encaro, na realidade, a provocação de International Assassin como outra inovação de um programa em constante evolução e transgressão, o que nunca encontramos tão facilmente por aí. A HBO novamente saiu em defesa do programa que, mesmo com boas críticas, seguiu com a audiência despencando: em 2016, The Leftovers se despede da TV, mas tendo a oportunidade de planejar seu desfecho com uma nova temporada de 10 episódios. Por mais que o segundo ano pudesse perfeitamente encerrar a trama sem qualquer prejuízo (a cena final é de uma simbologia linda e definitiva), é empolgante ver que temos mais pela frente – e com o devido planejamento. Ainda assim, não será fácil se despedir de um programa como esse. A TV sempre merece curtir ideias inovadoras e bem conduzidas pelo máximo de tempo – e qualidade – que puder.

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