As Sufragistas

Never surrender. Never give up the fight.

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Direção: Sarah Gavron

Roteiro: Abi Morgan

Elenco: Carey Mulligan, Helena Bonham Carter, Ben Whishaw, Anne-Marie Duff,  Romola Garai, Grace Stottor,  Geoff Bell, Adam Michael Dodd, Sarah Finigan, Lorraine Stanley, Adam Nagaitis, Finbar Lynch

Suffragette, Reino Unido, 2015, Drama, 106 minutos

Sinopse: No início do século XX, após décadas de manifestações pacíficas, as mulheres ainda não possuem o direito de voto no Reino Unido. Um grupo militante decide coordenar atos de insubordinação, quebrando vidraças e explodindo caixas de correio, para chamar a atenção dos políticos locais à causa. Maud Watts (Carey Mulligan), sem formação política, descobre o movimento e passa a cooperar com as novas feministas. Ela enfrenta grande pressão da polícia e dos familiares para voltar ao lar e se sujeitar à opressão masculina, mas decide que o combate pela igualdade de direitos merece alguns sacrifícios. (Adoro Cinema)

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O momento mais impactante de As Sufragistas não está entre os sofridos dias de Maud Watts (Carey Mulligan) resistindo às más e preconceituosas condições de trabalho que lhe são oferecidas em uma lavanderia. A maior denúncia do filme de Sarah Gavron também não está estampada nos dramas pessoais que o roteiro de Abi Morgan coloca em meio a um relato histórico. Na realidade, As Sufragistas deixará mesmo o espectador de boca caída com seus créditos finais, que, por meio de uma linha do tempo relativamente comprida, coloca na tela a cronologia dos países que aderiram ao voto feminino. E surpresa! O ano de 2015 está lá. Isso mesmo, foi apenas em 12 de dezembro de 2015 que a Arábia Saudita, último país do mundo a negar o direito de voto às mulheres, realizou a sua primeira eleição recebendo o público feminino como votantes e candidatas a cargos políticos. É o melhor momento do filme não porque As Sufragistas divague sobre o tema de forma inexpressiva, mas porque sua relevância temática, infelizmente, é muito maior do que a cinematográfica.

É importante ressaltar que, conceitualmente, As Sufragistas faz o dever de casa. O filme tem figuras femininas por toda sua equipe: na direção, Sarah Gavron; no roteiro, Abi Morgan; no elenco, praticamente apenas mulheres (e ótimas atrizes, vale destacar). Esse passo é sim significativo para a igualdade de sexos no fazer cinematográfico, já que ainda vivemos tempos em que atrizes do calibre de Meryl Streep precisam promover laboratórios para que mulheres possam exercitar sua criação no segmento de roteiros e ingressar nesse mercado de trabalho. Tudo bem que essa concepção da equipe seria o mínimo para um filme que fala justamente sobre justiça entre homens e mulheres, mas nunca é demais comemorar que composições como essa realmente saiam do papel. O que acontece é que, dramaticamente falando, As Sufragistas não entrega absolutamente nada de criativo, talvez cometendo o erro de acreditar que a força do tema que tem em mãos é o suficiente para dar conta do impacto da experiência. Não deixa de ter sua parcela de razão, mas, para realmente se tornar um produto de discussões e grandes dimensões, é necessário muito mais. Cinema não pode ser apenas um mero registro histórico sem criação. Para isso, existe uma infinidade de programas de grandes reportagens na TV.

Não precisamos ir fundo na memória para resgatar outras produções que se entregam ao tema de igualidade sem exercitar muitas ideias. The Normal Heart, sobre a disseminação da AIDS nos Estados Unidos, é uma delas. Até mesmo – e sei que muitos vão me crucificar aqui – o oscarizado 12 Anos de Escravidão parece muito mais um simples relato sobre o horror da escravidão do que propriamente um cinema de grandes criações. De forma alguma esses filmes perdem sua relevância temática (e só a existência de obras que contemplem tais temas já vale a iniciativa), mas, se formos falar além dessas fronteiras, a impressão que fica é bem menor. As Sufragistas não foge à regra e é possivelmente o longa mais tradicional entre os já citados. As feministas de plantão certamente terão muito a contribuir em relação à fidelidade dos fatos, mas, cinematograficamente falando, o longa de Sarah Gavron se utiliza de ferramentas cômodas demais para ambientar o mundo de injustiças  vivido pelas mulheres britânicas no início do século XX. Percebam a jogada mais básica: em menor ou maior escala, todos os homens da história são tiranos ou insensíveis. Não existe saída mais óbvia do que vilanizar de forma unilateral uma maioria para vitimizar as minorias, e uma história como a de As Sufragistas merecia um pouquinho mais de requinte.

No geral, todo o arco dramático escrito por Abi Morgan (é sempre complicado ter boa vontade com ela depois do desastre que foi A Dama de Ferro) segue caminhos já conhecidos, como o fato da protagonista obviamente se entregar ao movimento sufragista depois de tanto renegá-lo. Existe também a figura de uma garota mais jovem em quem a Maud de Carey Mulligan obviamente vê o seu reflexo de adolescente sofrida e sem chances na vida de anos atrás – e precisa algum esforço para adivinhar como se desenhará o destino dessa relação? Este é o clássico caso de um filme basicamente certinho e inofensivo, mas que em momento algum expande suas ambições. Público para isso tem de sobra, e não podemos dizer que As Sufragistas não é dotado de elementos para satisfazê-los. Mesmo os mais exigentes devem reconhecer o bom elenco feminino, especialmente Mulligan, em seu trabalho mais relevante desde Educação. Aos curiosos, vale o comentário: Meryl Streep, apesar da divulgação, tem apenas uma cena, mas sua escalação faz todo sentido, já que somente uma atriz de sua grandeza poderia dar a força de presença necessária para Emmeline Pankhurst, a líder foragida do movimento sufragista que era raramente vista e só discursava para suas seguidoras em momentos e lugares estratégicos.

Com uma boa parte técnica (destaque para a trilha de Alexandre Desplat), As Sufragistas tem um claro comodismo ao construir a dramaticidade de sua trama, mas termina cumprindo sua missão como produto temático, se isso for suficente. Na estreia do filme em Londres, um grupo de mulheres protestantes ultrapassou as barreiras de segurança e invadiu o tapete vermelho bradando pelas gerações que morreram sem direito ao voto e lembrando que o sufragismo ainda está aí. Helena Bonham Carter comemorou a iniciativa delas e disse estar feliz pelo filme ter tido algum efeito, e que é justamente para isso que ele existe. Só vou discordar um tantinho de Helena e voltar a afirmar que, sim, o bom cinema é aquele que provoca e que mais questiona do que responde, mas a forma também me parece fator preponderante para uma experiência mais instigante. As Sufragistas pode fazer um belo serviço para as discussões envolvendo os direitos da mulheres. Já nos debates sobre cinema em si, o papo deve ser menos empolgante…

2 comentários em “As Sufragistas

  1. Infelizmente, “As Sufragistas” ainda não estreou aqui na minha cidade. Quero conferir muito, especialmente pelo tema, que sempre é relevante de ser contado, e por causa do elenco feminino de atrizes do longa.

  2. Kamila, se você for pelo tema, pode sair bem satisfeita mesmo, mas o que desaponta é a falta de inspiração de “As Sufragistas” como cinema mesmo…

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