Carol

I miss you… I miss you…

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Direção: Todd Haynes

Roteiro: Phyllis Nagy, baseado no romance homônimo de Patricia Highsmith

Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Kyle Chandler, Sarah Paulson, Jake Lacy, John Magaro, Cory Michael Smith,  Kevin Crowley,  Nik Pajic, Carrie Brownstein, Trent Rowland, Sadie Heim

Reino Unido/EUA, 2015, Drama/Romance, 118 minutos

Sinopse: A jovem Therese Belivet (Rooney Mara) tem um emprego entediante na seção de brinquedos de uma loja de departamentos. Um dia, ela conhece a elegante Carol Aird (Cate Blanchett), uma cliente que busca um presente de Natal para a sua filha. Carol, que está se divorciando de Harge (Kyle Chandler), também não está contente com a sua vida. As duas se aproximam cada vez mais e, quando Harge a impede de passar o Natal com a filha, Carol convida Therese a fazer uma viagem pelos Estados Unidos. (Adoro Cinema)

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Todd Haynes sempre contou histórias de personagens em busca de suas verdadeiras identidades. Logo quando estreou no cinema em 1978, o diretor já falava, no curta The Suicide, sobre um garoto maltratado e abandonado pelo pai que tentava começar uma nova vida ao mudar de escola. Desde então, foram muitas as vezes em que a sexualidade e a identidade de gênero passaram a ser fatores decisivo nessa sua íntima investigação de pessoas em plena construção existencial: do efervescente mundo glamrock de Velvet Goldmine, passando pela vida de uma dona-de-casa nos anos 1950 que descobre ser casada com um homossexual em Longe do Paraíso às múltiplas leituras da vida e arte de Bob Dylan em Não Estou Lá, Haynes agora volta à ativa com Carol, mais um filme sobre pessoas que se reinterpretam sob a luz de uma natureza sexual repleta de questionamentos – e o melhor: o resultado não é uma versão genérica de qualquer outra experiência que o diretor já tenha nos proporcionado.

É lamentável constatar que quase nunca testemunhamos verdadeiros romances de temática gay no cinema. Mesmo grandes e celebrados filmes como O Segredo de Brokeback MountainAzul é a Cor Mais Quente são dramas focados muito mais no arco de um personagem se familiarizando com sua própria sexualidade ou nos fatores que tornam impossível uma determinada paixão. Já Daniel Ribeiro diz ter feito  Hoje Eu Quero Voltar Sozinho para trazer um alento ao tema e ir contra a corrente, mostrando que, de um jeito ou de outro, relações homossexuais também merecem ter finais felizes na sétima arte. Retomo tais filmes porque Todd Haynes consegue conciliar justamente as duas abordagens: em Carol, existe sim a impossibilidade do amor ser gritado em alto e bom tom (afinal, são duas mulheres apaixonadas nos preconceituosos anos 1950), mas nele também mora, de forma muito mais presente, a delicadeza, a verossimilhança e a força sentimental que marcam os romances que mais conquistam os nossos corações e sentidos.

A vibe esperançosa que Carol deixa é super valiosa, especialmente em uma história que envolve tanto como essa. Filmado com uma elegância de dar inveja – o que não é mérito exclusivo da indefectível parte técnica, mas também da habilidade do diretor em acompanhar com a câmera a vida das duas mulheres em questão -, o filme é irrepreensível ao construir toda a atmosfera de envolvimento gradual das protagonistas. Assim como a inexperiente Therese Belivet (Rooney Mara, vencedora do prêmio de melhor atriz em Cannes 2015 por seu desempenho aqui), também nos apaixonamos facilmente pela elegância, maturidade e beleza (mas também sutil fragilidade) de uma mulher como Carol Aird (Cate Blanchett). O contrário se aplica: Therese pode até ser uma jovem que não sabe muito bem o que quer, mas é exatamente essa sua ideia de ser cercada de infinitas possibilidades em uma vida ainda facilmente aberta a todas elas que mexe com Carol e todos nós. Dessa forma, a demora em finalmente consumir o sentimento das duas é escolha muito acertada, pois é como se fossemos gradualmente entrando no universo de cada uma e nos apaixonando no mesmo timing que o delas.

A roteirista Phyllis Nagy, em seu primeiro trabalho para o cinema (ela só havia roteirizado até então o mediano telefilme Mrs. Harris para a HBO), adapta o romance de Patricia Highsmith com muita dignidade e respeito ao material da autora, que publicou o livro originalmente em 1953 com o título de The Price of Salt e sob o pseudônimo de Claire Morgan devido a sua homossexualidade e o preconceito da época (cinco anos antes de morrer, Highsmith conseguiu finalmente relançar a obra com o título Carol e assiná-la com o seu nome verdadeiro). O que Nagy entrega, no entanto, é um material que, nas mãos erradas, poderia se tornar um filme dos mais novelescos. Por sorte e talento, Haynes não sucumbe a nada disso e, assim como em Longe do Paraíso, utiliza todas as ferramentas de um filme de época para criar um clima nostálgico e de homenagem ao estilo de fazer romances à moda antiga em Hollywood – e, neste sentido, é fundamental a colaboração do compositor Carter Burwell na trilha sonora, que reproduz a elegância das imagens de Haynes e cria um tema marcante que reverbera após a sessão.

Entregues em pleno espírito às personagens, Cate Blanchett e Rooney Mara constroem personagens bastante distintas no seus estilos de vida mas semelhantes na delicadeza que as une. Blanchett, que nunca esteve tão bem produzida e fotografa, tem um dos melhores momentos de sua carreira e tira de letra cenas decisivas como aquela em que enfrenta o marido para decidir o destino de sua filha. Já Mara, apesar do papel relativamente mais convencional e de conflitos atenuados, imprime sensibilidade a sua Therese, atuando à altura do ícone que é a sua colega de cena. As duas são ótimas juntas e surgem como as grandes estrelas do passado, radiantes e cheias de classe. Sem tirar nem por, são as escolhas perfeitas para um filme que nos desperta essa vontade de querer fugir por alguns dias para viver um grande amor. Entre os críveis conflitos familiares e sociais que trazem à tona preconceitos ainda pulsantes no mundo mesmo depois de cinco décadas, sempre existe, como na própria vida, a esperança de um final feliz, mas também a mensagem de que o primeiro passo para que ele possa se tornar uma realidade está nas nossas próprias mãos ou, quem sabe, em um simples sorriso.

4 comentários em “Carol

  1. Infelizmente, vejo que “Carol” vai sofrer do mesmo problema que “Spotlight – Segredos Revelados”: uma péssima distribuição nos cinemas brasileiros. Uma pena, pois queria tanto conferir os dois filmes, principalmente este, por causa da habitual elegância de Todd Haynes como diretor.

  2. Assino embaixo de tudo o que você escreveu. Nem me lembro a última vez que fiquei tão encantado com um filme, passei dias pensando nele. Aquela cena final transborda de esperança e romance ao mesmo tempo que é delicadamente dirigida, cheguei a ficar sem fôlego! Direção, roteiro, atuações e técnica admiráveis constroem essa bela obra. Devo ressaltar também a trilha magnífica de Carter Burwell (que em vários momentos me lembrou de Philip Glass em “As Horas”). Ele constrói algo doce, romântico, marcante e sensual. “Lovers” é música mais bela que escutei ano passado.

    • Clóvis, esse foi um filme que ficou, mas muito tempo comigo… Até hoje penso demais nele, especialmente naquela cena final que é mesmo de tirar o fôlego!

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