Steve Jobs

I don’t want people to dislike me. I’m indifferent to whether they dislike me.

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Direção: Danny Boyle

Roteiro: Aaron Sorkin, baseado no livro “Steve Jobs”, de Walter Issacson

Elenco: Michael Fassbender, Kate Winslet, Jeff Daniels, Seth Rogen, Michael Stuhlbarg, Katherine Waterston, Makenzie Moss, Ripley Sobo, Perla Haney-Jardine, Sarah Snook,  John Ortiz,  Adam Shapiro

EUA/Reino Unido, 2015, Drama, 122 minutos

Sinopse: Três momentos importantes da vida do inventor, empresário e magnata Steve Jobs: os bastidores do lançamento do computador Macintosh, em 1984; do NeXT, em 1989; e o do iMac, em 1998.

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Entre meus desafetos cinematográficos que vão na contramão do que público e crítica celebram, o nome de Aaron Sorkin está certamente entre os primeiros da lista. A falta de identificação é questão de longa data: já considero quadradíssima a estreia de Sorkin nos cinemas, quando ele adaptou, em 1992, Questão de Honra (sua própria peça) para a tela grande. No meio do caminho, vieram trabalhos tediosos e desinteressantes que nem elencos consagrados conseguiram salvar (Jogos do Poder, lamentavelmente o último filme assinado por Mike Nichols, é um dos maiores desperdícios de talentos do cinema recente) ou, então, histórias que, por pura questão de gosto pessoal, simplesmente não me envolviam, como o distante e verborrágico A Rede Social. Na TV, Sorkin ainda me decepcionou profundamente com The Newsroom, aquela série sobre jornalismo que chegou a render um Emmy de melhor ator para Jeff Daniels. O programa era uma zona porque obrigava o roteirista a trabalhar em cima daquele que considero o maior de seus problemas: a dificuldade em eventualmente abandonar a racionalidade e dar calor humano a qualquer personagem. Por isso, dado o histórico, nunca escondi minha falta de interesse por Steve Jobs, um filme que, entretanto, só me fez comemorar: às vezes é delicioso estar redondamente enganado.

Humanizar Steve Jobs (Michael Fassbender) faz toda a diferença para o filme de Danny Boyle porque é muito fácil odiar um personagem como ele. Sujeito vaidoso e irredutível, o criador da Apple dizia ser indiferente à ideia das pessoas gostarem dele ou não. Ele fazia por onde em todas as instâncias para corroborar eventuais aversões: no plano familiar, ignorava seu papel e suas responsabilidades mais básicas como pai; no círculo de amizades, não pensava duas vezes antes de dar adeus a um amigo quando esse reivindicava autoria criativa em um projeto; e, por fim, no convívio profissional, era ciente de sua inegável genialidade e usava tal poder para tratar qualquer pessoa como bem entendia. Assim, ao cercar o protagonista de figuras que clamam constantemente por sua humanidade, como Joanna Hoffman, a executiva de marketing da Apple vivida por Kate Winslet, Sorkin evita que nosso protagonista se torne aquele estereótipo de gênio insensível e quase unilateral em sua frieza que já vimos o roteirista construir na figura de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) em A Rede Social, por exemplo. Em essência, Steve Jobs é o bom e velho Sorkin de diálogos rápidos e incessantes, mas, dessa vez, com o bônus de se atentar a outros aspectos que não sejam relacionados apenas à simetria perfeita das suas construções frasais.

A escolha de ambientar Steve Jobs em três momentos pontuais (os lançamentos de produtos assinados pelo protagonista) obviamente traz repetições porque tudo parece conspirar contra Steve sempre minutos antes de ele subir ao palco para apresentar ao público e à imprensa suas mais novas criações. A fórmula é basicamente sempre a mesma: enquanto se prepara para o grande momento do dia, ele recebe uma visita bombástica atrás da outra nos bastidores (o antigo chefe aparece, a assistente resolve se revoltar, o amigo reivindica reconhecimento e até a ex-mulher aparece com a filha!). São coincidências demais que exigem certa boa vontade do espectador em acreditar que tudo aconteça de forma tão agrupada, mas, ao mesmo tempo, o roteiro ganha muitos pontos ao delimitar tal recorte de tempo. Primeiro porque não existe melhor maneira de um filme mostrar sua excelência em uma biografia do que extraindo toda a personalidade e história de seu biografado a partir de situações específicas. E segundo porque a fórmula obriga Sorkin a ser o mais objetivo possível ao lidar com a emoção de seus personagens (o que acabava com The Newsroom era justamente o roteirista inventando paixonites e dramas bobos para preencher dramaticamente um considerável espaço de tempo). Dessa forma, a concisão traz força maior a Steve Jobs, proporcionando momentos realmente emblemáticos, como a nervosa discussão entre Steve e John Sculley (Jeff Daniels, ótimo) que remonta a noite em que o protagonista foi surpreendentemente demitido da Apple.

O diretor Danny Boyle orquestra muito bem todos os elementos de Steve Jobs, trabalhando obviamente com um tom mais teatral (afinal, o filme se divide em três blocos ambientados quase em um único local), mas sem perder o senso cinematográfico. A forma como Boyle explora o design de produção para não cair em repetições e dar a dimensão temporal das evoluções e retrocessos do protagonista em três recortes diferentes é fundamental para que Steve Jobs não se torne uma mera sucessão de diálogos e discussões em cima ou atrás de um palco (literalmente). Fora isso, como era de se esperar, o elenco é parte decisiva desse processo, e todos estão em momentos especiais. Chama a atenção, particularmente, a forma como Michael Fassbender consegue se despir de sua marcante e inegável beleza para mergulhar sem medo nas angústias deste homem brilhante mas que, de um jeito ou de outro, é atormentado por uma eterna batalha consigo mesmo. E se Kate Winslet faz maravilhas com uma personagem sem qualquer história prévia para contar (só sabemos que sua Joanna é de origem polonesa), pequenas participações são certeiras pelo que o roteiro proporciona e pela composição de atores como Seth Rogen e Michael Stuhlbarg. Steve Jobs é, enfim, uma vitória, já que, ao contrário do que qualquer desânimo com o projeto possa indicar (não são todos que superaram o total e recente fracasso de Jobs, estrelado por Ashton Kutcher em 2013), estamos diante de um dos mais surpreendentes filmes deste início de ano.

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