A Grande Aposta

Everyone, deep in their hearts, is waiting for the end of the world to come.

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Direção: Adam McKay

Roteiro: Adam McKay e Charles Randolph, baseado no livro “The Big Short”, de Michael Lewis

Elenco: Steve Carell, Christian Bale, Brad Pitt, Ryan Gosling, Marisa Tomei, John Magaro, Finn Wittrock, Jeremy Strong, Hamish Linklater, Wayne Pére, Melissa Leo, Margot Robbie, Selena Gomez, Tony Bentley

The Big Short, EUA, 2015, Comédia, 130 minutos

Sinopse: Michael Burry (Christian Bale) é o dono de uma empresa de médio porte, que decide investir muito dinheiro do fundo que coordena ao apostar que o sistema imobiliário nos Estados Unidos irá quebrar em breve. Tal decisão gera complicações junto aos investidores, já que nunca antes alguém havia apostado contra o sistema e levado vantagem. Ao saber destes investimentos, o corretor Jared Vennett (Ryan Gosling) percebe a oportunidade e passa a oferecê-la a seus clientes. Um deles é Mark Baum (Steve Carell), o dono de uma corretora que enfrenta problemas pessoais desde que seu irmão se suicidou. Paralelamente, dois iniciantes na Bolsa de Valores percebem que podem ganhar muito dinheiro ao apostar na crise imobiliária e, para tanto, pedem ajuda a um guru de Wall Street, Ben Rickert (Brad Pitt), que vive recluso. (Adoro Cinema)

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Não é por não vivermos nos Estados Unidos que A Grande Aposta é um filme de temática complicadíssima. Até mesmo para os estadunidenses falar sobre o mercado imobiliário de Wall Street parece uma tarefa desafiadora. Uma prova disso é o fato da Paramount, distribuidora do filme, só ter embarcado nele depois do diretor Adam McKay concordar em assinar uma sequência da comédia O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy. Ou seja, quiseram garantir um bom retorno financeiro caso o filme fracasse (e era exatamente isso o que o estúdio esperava). Além disso, a própria forma como McKay, em parceria com Charles Randolph, constrói o roteiro acusa a consciência de que o assunto é erudito: frequentemente, a história praticamente estaciona para colocar pessoas comuns como eu e você explicando, de forma simplista e comparada a ideias corriqueiras do cotidiano de qualquer pessoa, detalhes dos negócios imobiliários em questão.

É óbvio que não deixa de ser frustrante ter que acompanhar A Grande Aposta como uma aula de economia onde só falta você ter que usar um caderninho de anotações para não esquecer teorias importantes, mas, por outro lado, essa consciência de que não está lidando com um assunto fácil só ajuda o filme a se tornar mais digerível e, principalmente, a ter uma personalidade das mais autênticas. A Grande Aposta consegue achar um belo meio termo entre o inacessível (não é o caso de você sair da sala de cinema sem ter entendido coisa alguma) e o didático (muito menos ficamos com a sensação de que Adam McKay está ministrando um curso rápido de economia imobiliária), o que é consequência direta do tino cinematográfico do filme e da longa trajetória do diretor com as comédias. Um exemplo disso é que, em certo ponto, o narrador chega a nos perguntar se estamos entediados com tantas explicações sobre o assunto, o que simboliza tudo o que precisamos saber sobre a pegada cômica de A Grande Aposta.

Basicamente, sempre há algo de novo para se aprender em cada cena. Do início ao fim, o filme metralha novas siglas e teses para falar sobre a crise que afetou os Estados Unidos em 2008. Entretanto, por mais que não se capte tudo o que é explicado sobre o universo financeiro em que os personagens estão inseridos, isso não é fator decisivo para se compreender a dramaticidade e o humor essencial de A Grande Aposta. Isso mesmo, pode ser que depois da sessão ninguém mais lembre o que é subprime, mas a discussão moral sobre até que ponto se deve tirar proveito de uma crise e a inacreditável cruzada de personagens que apostaram em uma probabilidade quase ridícula são plenamente sentidas pelo espectador.

Além de ter esse mérito quase inalcançável de tornar tragável – e até mesmo divertido e dramático – esse texto tão desinteressante e distante de nossas vidas, McKay acerta em outros aspectos fundamentais. É admirável, por exemplo, o trabalho que ele firma com o montador Hank Corwin, tornando A Grande Aposta um filme rápido e dinâmico, mas nunca frenético e responsável por tontear ainda mais o espectador. No entanto, principalmente, o que que resume a maturidade do diretor é a forma como ele conduz seus personagens, tanto para o humor quanto para o drama. E não estamos falando apenas da piada intrínseca que existe em trazer alguém como a cantora pop Selena Gomez para explicar um dos tantos termos técnicos de economia imobiliária, mas dos próprios protagonistas mesmo.

Deixo de lado a performance celebrada de Christian Bale para falar de um injustiçado: Steve Carell. Enquanto Bale adicionou uma indefensável (e preguiçosa) indicação ao Oscar de coadjuvante por seu trabalho aqui, não há dúvidas que o verdadeiro show de A Grande Aposta é de Carell, que já era um grande ator muito antes do mundo descobri-lo dramaticamente em Foxcactcher – Uma História Que Chocou o Mundo (não deixem de procurar ou rever a força de sua sutileza em pequenos grandes filmes como Pequena Miss SunshineEu, Meu Irmão e Nossa Namorada). Ele rouba a cena aqui porque sintetiza todo o universo mostrado pelo filme: nervoso e irritado, seu Mark Baum parece sempre prestes a infartar tamanha a preocupação com os negócios. Elogiá-lo pela comédia é fácil (com o detalhe de que ele em nada repete trejeitos do seu clássico Michael Scott do seriado The Office) e aqui ainda existe espaço para que ele exercite novamente seu lado puramente dramático, já que o personagem é assombrado pelo suicídio do irmão e por sua parcela de responsabilidade em um negócio que tem o poder de abençoar ou destruir vidas.

O que mais influencia na avaliação final de A Grande Aposta é a discussão sobre até que ponto a falta de identificação com um tema pode minar o nosso interesse por um filme, mesmo que ele seja inegavelmente original e bem conduzido. É esse mesmo o caso da obra de Adam McKay, que, em sua forma é condução, dribla as complicações do tema que debate. Agora, se realmente vamos cair de amores por ele é uma história bastante diferente. Não deixo de lembrar de grandes professores que tive ao longo da minha trajetória acadêmica, em especial àqueles das ciências exatas que, de forma tão original e inovadora, descomplicavam as disciplinas já sabendo que elas eram extensivamente rejeitadas por boa parte dos estudantes. Apesar da minha admiração pelo talento deles, devo confessar: nunca tais professores me fizeram gostar de verdade do conteúdo que ensinavam mais do que eu apreciava uma aula convencional de português, inglês, história ou literatura. Às vezes, realmente é apenas uma questão de gosto. A Grande Aposta que me perdoe.

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