Ator certo, Oscar errado – parte 1

Este não é um post sobre tradicionais injustiças do Oscar envolvendo atores, afinal, todo mundo sabe que Gwyneth Paltrow não mereceu levar o prêmio por Shakespeare Apaixonado ou que Reese Witherspoon roubou o Oscar que deveria ser de Felicity Huffman. Motivado pela minha sessão de ontem do filme O Regresso, resolvi fazer essa pequena seleção de atores que ganharam o Oscar pelo papel errado. Sim, DiCaprio está prestes a ganhar o prêmio por razões preguiçosas, e minha lista explicará melhor isso ao longo dos próximos posts, mas ele não está sozinho: são vários os ótimos atores que, com uma infinita lista de bons papeis no currículo, foram coroados por momentos bastante desinteressantes. Às vezes, acontece para corrigir justamente as injustiças do passado, enquanto em outros casos é a pressa em celebrar um profissional reconhecidamente talentoso e em ascensão que precisa dos holofotes. Com isso, muitos atores queridos finalmente levam o prêmio, mas pelo papel errado. Eis, nessa primeira parte do post, alguns deles.

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Actress Julianne Moore poses with her Oscar for best actress for her role in "Still Alice" the 87th Academy Awards in Hollywood, California February 22, 2015. REUTERS/Lucy Nicholson (UNITED STATES TAGS:ENTERTAINMENT) (OSCARS-BACKSTAGE) - RTR4QPH7Julianne Moore (Para Sempre Alice, 2015): Poucas atrizes têm um currículo com personagens tão transgressoras e atuações minimalistas à altura, mas Julianne Moore foi ganhar logo por um dos papeis mais óbvios de toda a sua carreira. Ela é sempre ótima e faz o tema de casa em Para Sempre Alice, só que, nele, não existe desafio algum para atriz, que já interpretou uma atriz pornô em Boogie Nights e uma dona de casa dos anos 1950 que precisa lidar com a homossexualidade do marido em Longe do Paraíso, para citar somente dois trabalhos mais complexos. E o mais triste desse Oscar é que, neste mesmo ano, ela tinha um trabalho infinitamente melhor que trazia na bagagem o prêmio de melhor atriz em Cannes: o ácido Mapas Para as Estrelas, que sintetiza perfeitamente o que Julianne Moore é no cinema. Na TV, pelo menos, ganhou todos os prêmios da vida pelo papel certo: o da política republicana Sarah Palin em Virada no Jogo. Já na tela grande, merecia ter vencido por Boogie NightsAs HorasLonge do Paraíso (isso mesmo, na minha lista ela já teria três estatuetas!). Roubou o Oscar de: Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite) e Rosamund Pike (Garota Exemplar).

Rreneeoscarenée Zellweger (Cold Mountain, 2004): Reza a lenda que Renée Zellweger rasgou seu vestido depois de ter perdido o Oscar de melhor atriz em 2003 por Chicago. Na realidade, ela deveria ter rasgado quando venceu o prêmio por Cold Mountain, já que a tragédia foi grande: a) o filme está longe de representar algo expressivo na carreira da atriz, b) Renée está mais do que caricata nele, c) o prêmio foi pura consolação, tanto para ela após inúmeras indicações quanto para o filme que não levou nenhuma outra estatueta, e d) a maldição do Oscar se concretizou e ela nunca mais conseguiu segurar sua carreira. Para uma intérprete que transitou com tanta excelência entre o drama e a comédia e entre o popular e o autoral, esse foi mais um prêmio entregue no automático por um papel perfeitamente esquecível mas que caiu no formato que o Oscar adora premiar erroneamente (e isso que nem entramos nos méritos de Cold Mountain ser uma obra tediosa). Roubou o Oscar de: qualquer uma das outras indicadas, mas tenho um carinho especial por Shoreh Aghdashloo (Casa de Areia e Névoa) e Patricia Clarkson (Do Jeito Que Ela É).

blanchettoscaraCate Blanchett (O Aviador, 2005): Cate Blanchett é rainha, e isso é indiscutível. Por isso que sua primeira grande consagração (levanto as mãos para os céus e agradeço que houve uma segunda por Blue Jasmine!) até hoje soa tão frustrante. Ela empresta, claro, a sua incomparável elegância à Katharine Hepburn em O Aviador, o que infelizmente não chega a representar o melhor do que a atriz realmente é capaz de fazer. Tenho infinitos problemas com o sonolento filme de Martin Scorsese, mas o trabalho de Blanchett aqui realmente fica longe de outras interpretações suas como a de Elizabeth Não Estou Lá. Sou defensor ferrenho até mesmo de sua subestimada performance como a frustrada e confusa professora de artes Sheba Hart de Notas Sobre Um Escândalo. Foi outra coroação errada que aconteceu pelos motivos errados: primeiro para consagrar a injustiça de ter perdido por Elizabeth e segundo por ser uma atriz em franca ascensão. Se estivessem esperado um pouquinho mais, poderiam ter ficado sem essa, pois o que não faltou posteriormente foi uma carreira digna de Blanchett para se consagrar. Roubou o Oscar de: Natalie Portman (Closer – Perto Demais) e Sophie Okonedo (Hotel Ruanda).

jlawoscarsJennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida, 2013): Hoje a nova queridinha da América já é um caso à parte porque sua superexposição e supervalorização em todo e qualquer prêmio já dificultam qualquer avaliação menos passional. Por outro lado, é uma verdade absoluta para mim que seu Oscar de melhor atriz por O Lado Bom da Vida foi equivocado e prematuro. Sempre defendo o reconhecimento para papeis cômicos, mas não existe nada de tão especial no que ela faz no filme de David O. Russell para uma grande honraria como essa. Certamente venceu porque era uma estrela que começava a nascer e porque precisava ter recompensado o Oscar que mereceria vencer por Inverno da Alma caso não tivesse a imbatível Natalie Portman no seu caminho com Cisne Negro. E é bom lembrar que um hit como Jogos Vorazes sempre ajuda (e seria até mais digno Lawrence ter sido premiada pela saga, algo muito mais simbólico em sua carreira). Pena que não esperaram mais um pouco, pois é certo que a jovem estrela ainda terá muitas oportunidades pela frente… E mais interessantes. Roubou o Oscar de: não era um ano excepcional, mas tinha Emmanuelle Riva por Amor e até mesmo a garotinha Quvenzhané Wallis por Indomável Sonhadora (sei que estou sozinho nessa). 

5 comentários em “Ator certo, Oscar errado – parte 1

  1. Perfeito, Matheus, seu post. Concordo que Julianne Moore e Renée Zellweger venceram pelo filme errado. Mas, discordo, de um certo ponto, dos seus comentários sobre Jennifer Lawrence e Cate Blanchett. “O Aviador” merecia ser o segundo Oscar de Blanchett (que perdeu injustamente para Paltrow). Já Lawrence ganhou merecidamente, apesar de eu ter torcido para Riva naquele ano.

  2. Discussão bastante interessante, Matheus. Da lista , Julianne Moore e Cate são exemplos perfeitos para o título do post. Primeiro por serem intérpretes certas para um Oscar. E segundo pelo motivo de terem levado por seus trabalhos menos interessantes. Moore, premiada por Para Sempre Alice, um bom desempenho, porém de composição nada complicada para uma atriz como Julianne. Blanchett por O Aviador, numa performance que eu considero um pouco afetada. Ainda bem que Cate levou um segundo pela excelente atuação em Blue Jasmine.

    Por outro lado não concordo com a presença das atrizes Jennifer Lawrence e Renée Zellweger na lista. Na verdade, acho que elas nunca deveriam ter é vencido! A primeira é um caso menos grave. Teve uma grade atuação em o Inverno da Alma, mas naquele ano o desempenho perfeito da Natalie Portman não permite ver a sua derrota como uma injustiça. Já sua vitória por o Lado bom da vida… bem a coloco num TOP 10 das piores vitórias de todos os tempos. Contudo, acredito que Lawrence ainda vai ter uma atuação onde possa celebrar merecidamente seu Oscar. Já a vitória da Zellweger foi algo bizarro mesmo. É surpreende ela estar presente na lista do post, pois não vislumbro qualquer desempenho dela com o qual ela poderia ter sido merecidamente premiada. Em suma, não faz jus ao título “ Ator certo, Oscar errado ”.

    • Bruno, por mim, a Renée não teria mesmo Oscar, mas ela fez uma série de papeis tão interessantes que fica difícil que ela foi ganhar logo por algo como “Cold Mountain”…

  3. Concordo com você em praticamente todas as indicadas, menos em relação a Jennifer Lawrence. Não que eu ache a sua atuação extremamente difícil e ousada, mas particularmente não vejo contra quem ela concorria em 2013, a não ser, talvez, contra Jessica Chastain. Riva, para mim, sequer é a protagonista de “Amor” e Wallis me choca ali, sempre desconfio muito de crianças de 6 anos “atuando”.

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