Ator certo, Oscar errado – parte 2

Esta é a segunda parte do nosso especial sobre atores certos que ganharam Oscar pelo papel errado. Cabe reforçar e esclarecer aqui a proposta do post. Não estamos falando da probabilidade de outra pessoa ter vencido em determinado ano, questionando a qualidade do desempenho vencedor ou muito menos nos atendo apenas aos desempenhos indicados ao Oscar de determinado ator para julgar um prêmio equivocado. A lógica é simples: tudo parte do nosso gosto pessoal, da nossa escala de preferência em uma categoria e do quanto achamos que o Oscar em questão realmente simboliza algo para a carreira de um ator. Portanto, nessa seleção em particular, você pode dizer que o Oscar de George Clooney era inevitável (era mesmo, sem dúvida) ou que Morgan Freeman é ótimo ator e está bem em Menina de Ouro (as duas afirmações estão corretas), mas isso não quer dizer que, na nossa avaliação, ambos eram realmente merecedores de festa por esses papeis, seja qual for a “desculpa”. O que conta única e exclusivamente para o Cinema e Argumento nessa série de posts é a excelência dos desempenhos no ano em questão.

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clooneyoscarGeorge Clooney (Syriana – A Indústria do Petróleo, 2006): Como não premiar um astro que começava a dar rumos completamente diferentes para sua carreira? O problema é que, em 2006, George Clooney merecia um Oscar não por sua atuação no complicadíssimo Syriana – A Indústria do Petróleo, e sim pelo auge de sua sofisticação como diretor em Boa Noite, e Boa Sorte. No entanto, ele não tinha chances contra Ang Lee por O Segredo de Brokeback Mountain, e acabou levando a estatueta, como compensação, pelo filme de Stephen Gaghan. A pressa, como sempre, foi inimiga da perfeição: além do tempo ter mostrado que, de fato, Syriana não é nem de longe um dos momentos mais memoráveis do ator, Clooney teve chances muito mais dignas ao longo dos próximos anos. Mesmo que tenha vencido o prêmio como produtor por Argo, o galã poderia ter facilmente levado para casa uma estatueta de melhor ator por seu trabalho em Os Descendentes (Jean DuJardin só ganhou por O Artista justamente em função de Clooney já ter sido consagrado como intérprete) ou até mesmo como roteirista pelo inteligente Tudo Pelo Poder. Roubou o Oscar de: Paul Giamatti (A Luta Pela Esperança), considerando que Jake Gyllenhaal não é coadjuvante em O Segredo de Brokeback Mountain.

judidenchoscarJudi Dench (Shakespeare Apaixonado, 1999): Sou defensor de praticamente todo e qualquer prêmio para Judi Dench, mas não dos que recebeu por Shakespeare Apaixonado. Embalada pelo sucesso do filme, a veterana recebeu a estatueta em mais um daqueles momentos em que o Oscar resolve consagrar, com atraso, uma grande atriz, custe o que custar. Não é exatamente um problema ela ser coroada por um desempenho de oito minutos em um filme de 123 (Viola Davis tem mais ou menos isso em Dúvida e me assombra até hoje), só que sua aparição em Shakespeare Apaixonado parece mais uma curiosidade do que algo fundamental para a construção da história. A própria atriz brincou, ao receber o Oscar, que merecia apenas um pedacinho da estatueta – e com toda razão. Entre tantos papeis diferenciados e dignos do prêmio, merecia ter na estante uma estatueta por um momento mais marcante, seja como a complexa professora de história Barbara Covett de Notas Sobre Um Escândalo (era minha favorita em um ano fortíssimo para as atrizes) ou pela transgressora Laura Henderson, a protagonista de Senhora Henderson Apresenta, que, nos anos 1930, choca toda Londres ao abrir um teatro com espetáculos de nudez (se fosse para perder, que pelo menos Felicity Huffman tivesse a honra de ser derrotada por um ícone como Judi Dench e não por Reese Witherspoon). Roubou o Oscar de: Rachel Griffiths (Hilary & Jackie), a única candidata que conferi e que, mesmo assim, já merecia mais a lembrança.

freemanoscarMorgan Freeman (Menina de Ouro, 2005): Talvez não seja o caso de colocá-lo em uma lista de grandes injustiças do Oscar, mas aí quando você pensa em papeis marcantes de Morgan Freeman, certamente não é Menina de Ouro que a memória puxa. Muito antes, tem Conduzindo Miss DaisyUm Sonho de LiberdadeSeven: Os Sete Crimes Capitais, só para começo de conversa. Nem no próprio Menina de Ouro o ator é um dos aspectos que reverberam até hoje: o que fica mesmo com o espectador é a direção minuciosa de Clint Eastwood, a força emocional do trágico drama da protagonista e o desempenho excepcional de Hilary Swank. Novamente, lá atrás, vem a lembrança de Morgan Freeman. Por mais que a matemática apontasse uma vitória de Clive Owen por Closer – Perto Demais (ele levou o Globo de Ouro e o BAFTA por sua performance), a aposta em Freeman era uma das mais fáceis daquele ano, já que era uma nova oportunidade dos votantes finalmente darem atenção a um veterano há muito tempo querido pelo público e também pelo próprio Oscar (ele estava na quinta indicação). O ator faz muito bem o feijão com arroz em Menina de Ouro e não é possível dizer que sua performance é sem inspiração (especialmente em um ano não tão forte para a categoria), mas, verdade seja dita, em um filme de emoções complicadíssimas para qualquer um dos intérpretes, seu personagem basicamente não demanda maiores complexidades. Roubou o Oscar de: Clive Owen, que tem a árdua missão de encarnar o personagem mais antipático de Closer.

bridgesoscarJeff Bridges (Coração Louco, 2010): Pouco conheço a carreira de Jeff Bridges (tanto que não conferi nenhuma de suas outras indicações ao Oscar), mas reservo esse espaço para falar de um crime inafiançável que me bate de forma muito particular. Não é difícil constatar que Jeff Bridges ganhou o Oscar por ser um veterano que veio com o papel certo no momento certo para agradar os votantes, mas tanto o papel quanto o momento são altamente discutíveis. Primeiro porque não há novidade alguma no cantor decadente e alcoolista que resolve retomar as rédeas de sua vida, e segundo porque, independente do que a Academia supostamente devia a Jeff Bridges, não existia atuação mais indefectível naquele ano do que a de Colin Firth em Direito de Amar. Dilacerante, o filme representa até hoje o auge da maturidade de Firth como ator, que mergulha com perfeição na generosidade e na camuflada dor de um homem que raramente se mostra de verdade, seja pela sua própria sexualidade em uma época preconceituosa ou pela dor que julga ter que superar em silêncio. Não há correção de injustiça com qualquer ator que justifique a derrota do britânico, simples assim – e, por isso, nem preciso dizer de quem Jeff Bridges roubou o Oscar, certo?

3 comentários em “Ator certo, Oscar errado – parte 2

  1. Concordo com você em praticamente todos os vencedores, até porque acho mesmo que, de um modo geral, eles foram premiados em momento inoportuno. Minha única exceção, talvez,, seja por Judi Dench, já que a acho, por si e comparada às outras concorrentes, merecedora do prêmio que recebeu. Talvez, se muito, concorria com Brenda Blethyn, uma possível vencedora; as outras corriam por fora, e a vitória de Dench, a meu ver, é tanto mérito dela quanto demérito das outras (situação parecida com Melhor Atriz em 2010, quando Bullock sagrou-se a eleita).

    Clooney poderia ter vencido em outra oportunidade, mas a minha aposta realmente fica pela sua direção ou roteiro, nunca como ator até agora. Sempre o vi concorrendo contra nomes cujas interpretações me agradavam mais. Freeman poderia ter vencido no meio da década de 1990, em vez de perder para Hanks por “Forrest Gump: O Contador de Histórias” (1994).

    Colin Firth pode ter uma bela interpretação em “O Discurso do Rei” (2010), mas concordo com você em relação à sua intensa interpretação em “Direito de Amar” (2009), que certamente merecia o prêmio. Na real, acho que um bom momento para premiar Bridges seria em 2001, pelo seu desempenho em “A Conspiração”, sua dobradinha com Joan Allen é muito boa.

    • Hugo, ainda não conferi a Saoirse Ronan, mas a Briel Larson, para mim, já perde disparado para a Charlotte Rampling e depois para a Cate Blanchett!

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