Rapidamente: Anomalisa, Boi Neon, Ex-Machina, Maze Runner e Ponte dos Espiões

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Melancolia, sexo, nudez frontal e uma versão de cortar o coração de “Girls Just Wanna Have Fun”: Anomalisa é uma das animações mais diferentes e realistas que você vai ver em muito tempo.

ANOMALISA (idem, 2015, de Charlie Kaufman e Duke Johnson): Claro que são estilos extremamente distintos, mas Anomalisa não deve absolutamente nada a Divertida Mente, a animação mais unânime realizada em anos. Aqui o público é outro pois Anomalisa leva a assinatura de Charlie Kaufman, um diretor de ideias e formas atípicas. Em seu novo trabalho, ele aposta novamente em toda a rejeição à convencionalidade ao contar uma história melancólica. Para embarcar mesmo no clima, é preciso entender que a amargura com que Michael (voz de David Thewlis) enxerga cada aspecto do cotidiano não é gratuita ou uma mera atitude rabugenta, mas sim reflexo de uma vida já cansada, estagnada e ainda afetada por escolhas erradas do passado. É quando o nosso protagonista encontra Lisa (magnífica voz de Jennifer Jason Leigh) que o jogo muda: enquanto ele volta a desabrochar para a vida, ela, que não acredita que possa ser interessante para qualquer pessoa, começa a descobrir felicidades até então desconhecidas. Adulta, a animação encena sexo e nudez frontal com a maior naturalidade possível, alcançando momentos realmente tocantes em uma bela sequência dos personagens em um quarto de hotel (acredite: você nunca mais conseguirá ouvir Girls Just Wanna Have Fund, da Cindy Lauper, sem ter um nó na garganta). Pode até ser que Kaufman perca um pouco a mão no terço final, descambando demais para a loucura e deixando o coração de lado, mas, no geral, a impressão que Anomalisa deixa é uma das mais tocantes.

BOI NEON (idem, 2015, de Gabriel Mascaro): Boi Neon viajou de Toronto a Veneza e aqui no Brasil foi eleito o melhor filme pelo júri oficial do Festival do Rio em 2015. Ainda assim, não foi o suficiente para que ganhasse uma distribuição digna nos cinemas brasileiros, onde nem mesmo o circuito alternativo abraçou a obra com muita perseverança. A situação é compreensível, já que o filme de Gabriel Mascaro é mais sobre personagens do que sobre situações, e indo mais além: é uma história sobre um determinado grupo de pessoas em uma região muito específica. É uma pena, porém, que o público não tenha tido as devidas chances de conferir essa obra que desenha a questão da identidade de gênero com um pincel muito fino (é maravilhoso o personagem de Juliano Cazarré, que veste camisa rosa e é apaixonado por costura, mas que nunca balança a nossa certeza sobre a sua sexualidade), além de encenar o sexo de forma bastante transgressora (a longa transa com uma mulher grávida pode ser até mesmo angustiante para os espectadores mais sensíveis). Boi Neon funciona como cinema de autor, estudo de personagens e um fiel registro da geografia brasileira, especialmente a nordestina. Para seu público-alvo, é uma experiência bastante recompensadora.  

EX-MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL (Ex Machina, 2015, de Alex Garland): Chegou discretamente em home video aqui no Brasil, mas já tem uma carreira consolidada no circuito alternativo, o que deve lhe garantir o status de filme cult pelos próximos anos. O que existe de mais precioso neste primeiro longa dirigido por Alex Garland é a sua ambientação insegura. Apesar dos ambientes cheios de tecnologia e segurança, parece que sempre algo está prestes a acontecer na isolada casa em que estão os personagens. Muitas das figuras em cena corroboram essa sensação que também não deixa de assombrar Caleb (Domhnall Gleeson, um ator estranho e exótico à la Eddie Redmayne que certamente terá um grande papel no futuro), em especial a Ava de Alicia Vikander, uma vez que Oscar Isaac frequentemente escorrega nos exageros para construir um personagem que deveria ser cheio de dubiedades. As discussões já são antigas (os robôs podem ter humanidade? Um dia eles circularão entre nós sem que consigamos distingui-los?), mas o que quase derruba Ex Machina é mesmo o desfecho com furos indesculpáveis (ainda tento entender como se deu com tanta naturalidade a busca do helicóptero) e um joguinho super clichê de reviravoltas onde um personagem tenta mostrar ao outro quem é mais esperto.  

MAZE RUNNER: PROVA DE FOGO (Maze Runner: The Scorch Trials, 2015, de Wes Ball): Maze Runner é puro entretenimento e faz questão de assumir isso, o que quer dizer que a saga dirigida por Wes Ball não tem muita preocupação em se levar a sério com metáforas políticas e sociais. O importante é a diversão. O primeiro filme era mais introdutório, e Prova de Fogo, a continuação, realmente abraça por completo a ideia de adrenalina. Por um lado, Maze Runner tem muito a ganhar com essa escolha, já que é muito melhor ser descompromissado do que pretensioso – e, para quem compartilha tal ideia, é fácil embarcar nas correrias incessantes e em sequências indiscutivelmente nervosas, como aquela em que uma personagem fica à beira de um abismo sustentada apenas por um chão de vidro prestes a rachar. Por outro, o filme se resume a uma correria sem fim, tornando-se uma espécie de videogame cansativo onde os personagens precisam enfrentar um novo vilão ou desafio a cada fase. No fim, Prova de Fogo é a clássica diversão de momento, e é bem provável que a sessão acabe e você já nem lembre direito do (pouco) que aconteceu em termos práticos.

PONTE DOS ESPIÕES (Bridge of Spies, 2015, de Steven Spielberg): Um cineasta como Steven Spielberg não deveria estar trilhando uma carreira tão desinteressante como a dos últimos anos. A aposta do diretor em filmes mais históricos e políticos como Cavalo de GuerraLincoln e agora Ponte dos Espiões certamente atrai uma ala mais tradicional, mas deixa muito a desejar na questão de trazer o diretor fazendo o seu melhor. No caso deste último, em particular, surpreende como não apenas a direção de Spielberg se limita a apenas aproveitar com proeza o excelente design de produção e a envolvente fotografia mas também como o roteiro escrito pelos irmãos Coen em parceria com Matt Charman engana o espectador ao nunca entregar uma reviravolta sequer em uma história que sugere a possibilidade de novos rumos o tempo inteiro. Com seis indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, o previsível Ponte dos Espiões é bem produzido, mas excessivamente morno e linear. Nem uma obra complicada chega a ser, o que só aumenta a sensação de que realmente a pior sensação que um filme pode deixar é a de indiferença.

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