Comentando os indicados e os favoritos ao Oscar 2016 – parte 2

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MELHOR ATOR

O sofrimento como excelência

Nunca entendi muito bem as brincadeiras em torno do Oscar que nunca chega para Leonardo DiCaprio. Basta olhar ligeiramente o histórico do ator na premiação para perceber que ele nunca foi franco favorito ou merecedor da estatueta (com O Aviador ele não tinha como rivalizar com o Ray Charles de Jamie Foxx e em O Lobo de Wall Street ele nunca bateria a transformação física de Matthew McCounaghey em Clube de Compras Dallas, citando suas performances mais lembradas). De qualquer forma, não deixa de ser desestimulante a ideia de vê-lo ganhando por um de seus papeis menos emblemáticos. Ele literalmente quase morre em O Regresso para ganhar um Oscar, mas o que impede DiCaprio de estar superlativo aqui é o papel quase desprovido de arco dramático e que leva as premiações a acreditarem que sofrimento é sinônimo de excelência. Em contramão, a fórmula é perfeita para que seu favoritismo seja absoluto: um bom histórico no prêmio, um papel de empenho físico e o protagonismo do filme com mais indicações este ano. Ainda assim, é tarefa árdua ter qualquer empolgação com a sua futura consagração, inclusive porque, pelo segundo ano consecutivo, teremos mais uma láurea preguiçosa para alguém que merecia mais do que isso (contextualizando: sigo inconformado com todos os prêmios para Julianne Moore por Para Sempre Alice).

É pela celebração de um papel errado e por não compreender muito bem essa obsessão injustificada de entregar logo o prêmio ao ator que de certa forma me indigno com a ideia de que esta categoria esteja tão decidida. Concorrentes não faltam e dois deles são muitíssimo dignos. Primeiro tem o visceral Michael Fassbender desaparecendo por completo no protagonista-título do subestimado Steve Jobs. Ele é ótimo em todas as fases desenhadas pelo filme, e os saltos temporais não representam qualquer problema para o ator em termos de reprodução física ou construção dramática. E segundo – e sei que dividirei opiniões – continuo achando Eddie Redmayne digno de aplausos agora com A Garota Dinamarquesa. Sinceramente, não vejo a caricatura que muitos apontam, e considero tocante e envolvente a sua composição para a primeira pessoa que se submeteu à cirurgia de troca de sexo. O mistério dessa categoria é a lembrança de Matt Damon por Perdido em Marte (aliás, a indicação a melhor filme também é questionável), principalmente porque o ignorado Jacob Tremblay é soberbo em O Quarto de jack e porque não seria ruim ver Samuel L. Jackson, por exemplo, lembrado por seu ótimo desempenho em Os Oito Odiados (viu só como basta deixar a preguiça de lado para encontrar atuações de atores negros dignas de indicação, Academia?).

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MELHOR ATOR COADJUVANTE

O carinho como alternativa

Sylvester Stallone deu muita, mas muita sorte este ano. Comemorando 40 anos de Rocky, o ator volta ao seu papel mais emblemático dessa vez como coadjuvante em Creed: Nascido Para Lutar. Desgosto profundamente do filme, que é um amontoado de clichês e reciclagens da clássica história envolvendo um lutador destemido e um treinador veterano (procurem Guerreiro, de 2011, e vejam o que, apesar de novelesco, consegue ser um filmaço cheio de emoção e adrenalina no gênero), e a presença de Stallone só tem algum impacto mesmo em função desse seu retorno ao papel de Rocky Balboa. Não é culpa necessariamente dele, e sim do roteiro de Aaron Covington e Ryan Coogler, que abusa demais dessa metáfora entre ator e personagem sobre como o tempo passa e derrota, mas mesmo assim não derruba uma história de glória. E que preguiça só de lembrar que tem doença no meio…

Mesmo solenemente ignorado pelo Screen Actors Guild Awards e pelo BAFTA, que premiaram Idris Elba (Beasts of No Nation) e Mark Rylance (Ponte dos Espiões), respectivamente, Stallone chega como favorito ao Oscar 2016 de ator coadjuvante justamente em função dessa lembrança de carinho que cultivou na indústria – e basta rever sua vitória no Globo de Ouro para reforçar a teoria da comoção. A categoria é a mais fraca entre as listagens de atuação, e é por isso que nem dá para reclamar tanto da vitória do ator. Vamos aos fatos: Mark Rylance adota a fórmula de menos é mais (algo raríssimo de ser valorizado pela Academia), Mark Ruffalo tem seu show em uma cena particular de Spotlight, mas esse é um filme de grupo, Christian Bale misteriosamente roubou uma vaga que era para ser de Steve Carell por A Grande Aposta e Tom Hardy, mesmo sendo ótimo em O Regresso, só foi lembrado pelo Oscar, algo que matematicamente desqualifica qualquer possibilidade de vitória. Ou seja, o Oscar não deve nada a ninguém e a seleção não traz nenhum grande desempenho. A saída é ir pelo coração, e nisso há certa razão: o desempenho de Stallone é o único da lista que segue mais a emoção do que a técnica.

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CATEGORIAS TÉCNICAS

O peso do nome e do espetáculo

O BAFTA já deu a dica e é bom ficar de olho: não será surpresa alguma ver Mad Max: Estrada da Fúria levando menos prêmios do que o esperado. Afinal, O Regresso vem crescendo tanto nos últimos tempos que já consolidou sua consagração na categoria de melhor fotografia (o histórico terceiro Oscar consecutivo para Emmanuel Lubezki!) e invadiu outras que pareciam certas para o filme de George Miller, como edição e mixagem de som. O que se percebe, no entanto, é a predileção do Oscar por grandes espetáculos nesta seleção de 2016. Tanto O Regresso quanto Mad Max são filmes indiscutivelmente grandiosos (e com o bônus de serem, cada um a sua forma, revolucionários ou marcantes em muitos aspectos), o que não abre qualquer espaço para que outras obras calcadas na sutileza triunfem aqui ou ali: Carol, por exemplo, deveria ser aposta fácil em melhor figurino, enquanto o mestre Roger Deakins merecia ser finalmente premiado por seu pequeno grande trabalho como diretor de fotografia no quase independente Sicario: Terra de Ninguém.

Em 2016, os votantes da Academia também parecem muito propensos a não discutir com grandes nomes do cinema e da música. Um exemplo disso é a categoria de melhor trilha sonora, que é uma das barbadas da noite com a provável vitória do mestre Ennio Morricone depois de cinco indicações sem vitórias. Seu talento é incontestável, claro, mas, no caso específico de Os Oito Odiados, a vitória vem apenas como compensação. Na lista, Carol novamente se sobressai com uma trilha muito mais narrativa e que expressa, de forma sutil e elegante, a viagem emocional das protagonistas. Já no caso de Morricone, o tema criado por ele é ótimo, mas, ao longo do filme, a trilha se revela como um dos elementos menos marcantes. Entre as canções originais, o Oscar ficou de mãos dadas com o Globo de Ouro e resolveu celebrar tudo o que é estrela do momento: Sam Smith, The Weeknd e Lady Gaga. A última é a favorita para ganhar a estatueta, e me abstenho de comentar porque não vi o filme, mas, no caso de Sam Smith e The Weeknd, as lembranças são absurdas, pois as duas músicas não tem qualquer função no filme e surgem completamente avulsas nos respectivos contextos. Música em cinema precisa conversar com a obra em questão, o que é feito com perfeição pela ópera “Simple Song #3”, do belíssimo Juventude, outra indicação menor que corre totalmente por fora.

Um comentário em “Comentando os indicados e os favoritos ao Oscar 2016 – parte 2

  1. Para mim, Leonardo Di Caprio deveria ter vencido em duas oportunidades: por “O Aviador” e por “O Lobo de Wall Street”, filmes em que ele esteve impecável. Entretanto, a consagração, como no caso de muitos outros atores/atrizes tão bons quanto ele, virá por um filme em que ele está bem, mas que não o oferece um arco narrativo interessante. Acho que ele vai vencer mesmo pelo fato de Hugh Glass ter sofrido o pão que o diabo amassou em “O Regresso”.

    Na categoria de Melhor Ator Coadjuvante, temos o canto de cisne de Stallone, que deve lhe render um novo Oscar. O curioso é que Stallone, nos últimos anos, tem retornado à personagens clássicos de sua carreira para se manter em evidência. Quem diria que, numa dessas tentativas, ele estaria no Oscar???

    Tendo dito isso, meu favorito em Ator Coadjuvante é Mark Rylance. E lamento muito a não indicação de Steve Carell, por “A Grande Aposta”. Pra mim, ele está muito melhor neste filme do que o indicado Christian Bale.

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