O Quarto de Jack

– You’re gonna love it.
– What?
– The world.

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Direção: Lenny Abrahamson

Roteiro: Emma Donoghue, baseado no livro “Room”, de autoria própria

Elenco: Jacob Tremblay, Brie Larson, Joan Allen, Sean Bridgers, Matt Gordon, William H. Macy, Randal Edwards, Wendy Crewson, Sandy McMaster, Amanda Brugel, Joe Pingue, Cas Anvar

Room, Irlanda/Canadá, 2015, Drama, 118 minutos

Sinopse: Joy (Brie Larson) e seu filho Jack (Jacob Tremblay) vivem isolados em um quarto. O único contato que ambos têm com o mundo exterior é a visita periódica do Velho Nick (Sean Bridgers), que os mantém em cativeiro. Joy faz o possível para tornar suportável a vida no local, mas não vê a hora de deixá-lo. Para tanto, elabora um plano em que, com a ajuda do filho, poderá enganar Nick e retornar à realidade. (Adoro Cinema)

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Presidindo o júri do Festival de Berlim em 2016, Meryl Streep recomendou aos seus colegas avaliadores que fossem de peito aberto às sessões ao adotar a seguinte tática: embarcar em cada um dos filmes concorrentes sabendo o mínimo possível sobre a história e evitando até mesmo entrar em contato com o catálogo oficial do evento. É uma missão árdua quando a internet nos introduz informações mesmo quando não estamos atrás delas. Não estamos no Festival de Berlim, mas, no caso específico de O Quarto de Jack, faz toda a diferença adotar o conceito da presidente Meryl Streep e assistir ao filme completamente no escuro. No entanto, isso não se relaciona em nada com o fato da obra assinada por Lenny Abrahamson ser repleta de reviravoltas. O que acontece é que o drama da jovem Joy (Brie Larson, vencedora do Oscar 2016 de melhor atriz por seu desempenho aqui) se torna muito mais imersivo quando nos coloca na pele do pequeno Jack (Jacob Tremblay). Afinal, O Quarto de Jack se engrandece toda vez que propõe que pouco a pouco o mundo, seja ele qual for, com os mesmos sentimentos de surpresa do garoto.

Não é de hoje que narrar uma tragédia ou dramas complexos a partir do ponto de vista da inocência pode resultar em experiências para lá de emocionantes. Lembram da difícil infância dos quatro garotinhos de Em Busca da Terra do Nunca que ganha um novo sentido quando J.M. Barrie (Johnny Depp) entra em suas vidas com o poder transformador da literatura? Pois a situação de O Quarto de Jack é muito mais delicada, e por isso é tão importante você acompanhar, junto ao personagem do título, cada informação que Abrahamson, em parceria com a roteirista e escritora do livro original Emma Donoghue, lança para que possamos reinterpretar todos os significados de um ambiente inicialmente inidentificável. Sabemos logo de cara, claro, que O Quarto de Jack é uma ode ao amor materno, mas é questão de tempo para que ele também se revele – e de forma ainda mais tocante – como a afirmação da ideia de que filhos podem ser uma força de amor e segurança igualmente poderosa para qualquer mãe. Nesse sentido, o roteiro de Donoghue é perfeito ao não depender da revelação sobre o que realmente é o tal quarto de Jack para que o espectador consiga se conectar emocionalmente com os personagens desde o princípio.

Outro ótimo exemplar do cinema independente, O Quarto de Jack não tropeça nos obstáculos de ter que encenar praticamente metade de sua história em um único ambiente. A mise-en-scène e o próprio design de produção colaboram para que nos tornemos íntimos dos protagonistas e para que o filme de Lenny Abrahamson se torne um mistério até mesmo nos detalhes. Não deixem de se atentar para como a decoração de set e até mesmo as vestimentas dos personagens nunca acusam nem mesmo o tempo ou o espaço em que O Quarto de Jack se passa: assim como Joy e seu filho podem estar em um espaço urbano contemporâneo, não deixa de ser aceitável a ideia de ambos estarem em um ambiente subterrâneo durante uma guerra. Obviamente todo esse contexto é um belo presente para qualquer ator brilhar, e a dupla formada por Brie Larson e Jacob Tremblay pega o espectador de jeito. Ele, em especial, é quem detém o brilho do filme por ser um excelente ator e principalmente por ter a seu favor uma história que depende inteiramente de seu personagem. Não há qualquer construção dramática que Brie Larson faça que não seja consequência direta do que Tremblay faz em cena, e por isso é um crime ela ter faturado todos os prêmios da temporada enquanto o pequeno tenha precisado se contentar apenas com uma indicação de melhor ator coadjuvante (?!) ao Screen Actors Guild Awards.

Ao chegar em sua metade, O Quarto de Jack dá uma completa guinada, tornando-se bastante diferente em comparação ao que vinha construindo. Apesar das necessárias discussões propostas, não deixa de ser um tanto frustrante constatar que, ao perder a circunstância do quarto em questão, o longa passa a ser apenas um (bom) drama sobre a reconstrução de duas vidas. Ao transferir sua geografia, O Quarto de Jack não deixa de se fragilizar, o que fica evidente em descuidos um tanto imperdoáveis, como a entrada do personagem de William H. Macy. Bom ator que é, ele não precisava estar aqui com um papel tão esquecível, pouco aproveitado e que quase não acrescenta nada à história. Em contrapartida, é bom ter uma Joan Allen eficiente e afetuosa em cena. Se o último terço do filme dá mais chances a Brie Larson, é Jacob Tremblay quem continua sendo mesmo a força do todo, compensando eventuais deslizes ou obviedades do roteiro. Por sua ótima atuação e por seu personagem plenamente compreendido pela equipe como o norte da produção, Tremblay merece todos os aplausos – e olha que não é missão fácil brilhar em um filme que já tem a emoção como uma grande marca.

4 comentários em “O Quarto de Jack

  1. Concordo com seu texto, Matheus. Aliás, faço disso um desafio para mim mesma. Tento sempre assistir aos filmes sabendo o mínimo possível sobre eles e tento ler as resenhas críticas somente após assistir às obras, pra justamente evitar entrar na sala de cinema ou começar o filme já com alguma opinião no meu subconsciente.

    Acho que o grande trunfo de “O Quarto de Jack”, como você bem disse, é narrar a trajetória da mãe e do filho por meio do olhar infantil e inocente de Jack. Achei sensacional a forma como o filme deu uma guinada, como você bem disse na sua metade, mas existe algo em comum entre as duas partes do filme: a força ali veio sempre da criança, ele foi a tábua de salvação de sua mãe.

    Não existiria a atuação de Brie Larson sem a grande atuação de Jacob Tremblay e vice-versa. Os dois são a alma e o coração de “O Quarto de Jack”.

    • Kamila, infelizmente não consegui escapar do spoiler principal sobre a trama de “O Quarto de Jack”. Uma pena, pois queria estar na pele de quem não sabia absolutamente nada!!

  2. A 1ª parte é boa, mas depois o filme vira um draminha familiar muito mal resolvido. Brie Larson é uma fofa, ótima atriz; mas o diretor quase não explorou a sua composição do personagem, quase não tem closes seus e ela desaparece no terço final do filme. Em ‘Short Term 12’, Brie teve um papel muito melhor desenvolvido. Não acho q merecia o Oscar, Saoirse Ronan e Charlotte Rampling estão muito melhores na minha opinião.

    Algumas pessoas consideram interessante o fato da história ser contada pelos olhos da criança; eu preferia que utilizasse o ponto de vista da mãe, mesmo sendo uma escolha mais óbvia, resultaria numa variedade maior de situações dramáticas. O único ponto positivo foi a atuação de Jacob Tremblay. Entretanto, foi muito forçado colocar q o personagem tinha acabado de completar apenas 5 anos de idade. Eu não sou nenhum especialista em crianças, mas acredito q não existam muitas com tamanho desenvolvimento intelectual nessa idade. O próprio ator já tinha 8 anos na época da gravações.

    O filme tem muitos fãs, mas eu não gostei. Acredito q grande parte da emoção q as pessoas sentem vem de coisas q ficam subtendidas, mas n são mostradas. Acho q a história poderia ter resultado em algo muito mais interessante.

    • Hugo, eu também acho que o filme cai bastante em impacto na segunda parte. E é aí que Jacob Tremblay se torna ainda mais essencial para o filme manter o interesse. É por essa e outras razões que acho muito errado Brie Larson ter levado todos os prêmios da vida enquanto o menino ficou a ver navios… Em “Temporário 12” ela estava muitíssimo melhor!

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