Na TV… os vícios e o excesso de consciência da segunda temporada de “How to Get Away With Murder”

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A veterana Cicely Tyson reprisa o papel de Ophelia, mãe de Annalise Keating (Viola Davis), em um dos episódios mais bem resolvidos da problemática segunda temporada de How to Get Away With Murder.

Gostando ou não, a primeira temporada de How to Get Away With Murder abriu muitos precedentes na TV aberta – e não foi apenas como uma importante janela para alguém como Viola Davis, uma profissional um tanto preterida no cinema, ter o espaço que merece, arrasar e fazer história como a primeira atriz negra da história a vencer o Emmy de melhor atriz em série dramática. O programa criado por Peter Nowalk trouxe, de forma muito natural, diversidade ao mundo do seriados, algo até então só tratado em produtos de TV fechada ou on demand como Orange is the New Black. É preciso coragem para propor e bancar a ideia de, por exemplo, ter uma protagonista negra difícil, complexa e de retidão de caráter muito duvidosa. Mas How to Get Away With Murder conseguiu, e foi além: em seu segundo ano, além de temas já abordados como a homossexualidade, colocou juízes latinos e orientais para comandar tribunais e centralizou todo um episódio na questão da transfobia. Ou seja, tudo muito orgânico, representando uma grande vitória para tempos que estranhamente se revelam cada vez mais conservadores.

O que acontece, então, com esse suspense irresistível que simplesmente desaba em qualidade na sua segunda temporada? Ora, acúmulo de vícios e excesso de consciência de seus maiores trunfos. Antes disso, valorizemos o que se destaca: Viola Davis segue maravilhosa em sua composição e tem aqui um dos grandes momentos da sua carreira: a tensa cena do episódio What Did We Do? que revela as razões de uma fatalidade até então escondida em flashforwardsHow to Get Away With Murder também segue provocativa quando questiona a índole de sua protagonista, com destaque para os momentos em que ela se utiliza de sérias mentiras sobre o passado de sua agora-não-tão-fiel escudeira Bonnie (Liza Weil, com momentos muito dignos) para livrar sua pele de situações complicadas. Nos primeiro nove episódios, a série se sai muito bem com esses méritos, mantendo o nível interessante de guilty pleasure da primeira temporada – e com o bônus de se aproximar ainda mais de Damages (uma referência assumida dos criadores) ao adotar um único caso jurídico para guiar os principais conflitos da drama.

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Fundamental para trazer ainda mais complexidade para o perfil da protagonista, a participação de Famke Janssen, no entanto, é um dos tantos aspectos que se diluem nos vícios da série.

A situação desanda mesmo na segunda parte da temporada, exibida após o recesso de final de ano e finalizada no último dia 17 de março. É triste constatar que How to Get Away With Murder se perca em problemas tão fáceis de evitar. O primeiro deles é o mais óbvio: dar atenção excessiva a um mistério envolvendo Wes Gibbins, personagem desinteressantíssimo interpretado pelo igualmente inexpressivo Alfred Enoch. E o segundo é o mais grave: descambar para a implausibilidade ao querer surpreender a cada resolução. Dessa forma, ao embolar o meio de campo com uma infinidade de situações que não surtem qualquer efeito a não ser o da surpresa momentânea, o programa estrelado por Viola Davis se agarra ao vício tão comum da TV aberta de achar que formar pares românticos aleatoriamente ou fazer um figura se tornar inesperadamente um assassino é o suficiente para segurar o interesse. Só que o efeito aqui é justamente o contrário: quase tudo o que acontece na segunda metade da temporada é inverossímil, fazendo com que se torne um eterno exercício de paciência ter que comprar momentos que claramente não combinam com a índole dos personagens ou com a própria realidade. How to Get Away With Murder agora é adepta do choque pelo choque antes da verossimilhança do roteiro, e isso transforma o seriado em uma completa bagunça.

Indo e voltando no tempo para, no fim, não nos reservar revelações tão instigantes assim, a atração conseguiu diluir até mesmo o impacto de Viola Davis com o objetivo de sempre pegar o espectador de surpresa. Mais do que isso, a segunda temporada de How to Get Away With Murder comete outro pecado que praticamente coloca mais um prego em seu precoce caixão: o de tomar a consciência que sua atriz protagonista é o que existe de mais valioso no programa. Essa tomada de consciência é um tropeço porque os roteiristas, na ânsia de conseguir mais um Emmy para Viola Davis e fazê-la brilhar, não hesitam em pensar nos mais variados tipos de problemas e transformações para colocar em seu texto. Com isso, tem Viola grávida, baleada, acidentada, bêbada, drogada com remédios, sem peruca e até mesmo atacada fisicamente por um sequestrador… Não dá para perdoar que o criador Peter Nowalk e sua equipe não compreendam que a atriz brilha com qualquer material e que um simples diálogo familiar dela com a veterana Cicely Tyson vale mais do que um acidente de carro em que ela está envolvida. Poxa, ela e nós, do lado de cá, merecemos muito mais!

4 comentários em “Na TV… os vícios e o excesso de consciência da segunda temporada de “How to Get Away With Murder”

  1. Adoro Viola Davis e acho-a uma grande atriz, entretanto nunca assisti a esse seriado. A verdade é que, dentro do meu tempo livre, falta justamente um tempo maior para poder me dedicar a seriados. Nem os do Netflix eu consigo assistir…

    • Kamila, também estou lutando contra o tempo para conseguir acompanhar seriados… Talvez seja por e isso (e pelo fato da segunda temporada ter sido bem ruim) que eu esteja quase desistindo de acompanhar “How to Get Away With Murder”.

  2. Concordo totalmente com vc. Cagaram mt na segunda parte dessa temporada! Foram episódios de pura enrolação, com desfechos nada impressionantes. Deixaram pra resolver o crime principal nos últimos minutos do episódio final, n tinha a menor necessidade de fazerem isso. Ficaram guardando história pra próxima temporada. Com as devidas ressalvas, gostava mt da série, mas esse final de temporada me deixou com sérias dúvidas se vou continuar acompanhando-a.

    • Hugo, até agora não entendi o porquê de tanto suspense para uma resolução tão convencional… E outra: quem aguenta aquele Wes? A segunda parte da temporada foi pura decepção!

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