Conspiração e Poder

Courage.

truthposter

Direção: James Vanderbilt

Roteiro: James Vanderbilt, baseado no livro “Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power”, de Mary Mapes

Elenco: Cate Blanchett, Robert Redford, Dennis Quais, Elisabeth Moss, Topher Grace, Bruce Greenwood,  John Benjamin Hickey, Stacy Keach, Dermot Mulroney,  Rachael Blake, Andrew McFarlane

Truth, EUA/Inglaterra, 2015, Drama, 125 minutos

Sinopse: A produtora da CBS Mary Mapes (Cate Blanchett) suspeita que o presidente George W. Bush usou a influência de seu sobrenome e acionou seus contatos para não combater na Guerra do Vietnã. Com a ajuda de uma fonte, ela consegue os documentos necessários para a comprovação da denúncia e leva a história ao ar no programa 60 Minutes, apresentado pelo lendário Dan Rather (Robert Redford). Ao invés de abalar a campanha de reeleição de Bush, no entanto, o que se vê após a exibição é um processo de descrédito das informações que coloca em xeque todo o trabalho da equipe de reportagem. (Adoro Cinema)

truthmovie

Timing é tudo na vida, e Conspiração e Poder é uma prova disso. Afinal, o filme de James Vanderbilt, roteirista de Zodíaco e que aqui assina seu primeiro trabalho como diretor, sofre inevitáveis comparações por ser lançado logo após o sucesso de Spotlight – Segredos Revelados, o grande vencedor do Oscar 2016. A temática é a mesma, o formato idem e até o teor de jornalismo investigativo se repete. Fora as semelhanças temáticas, vem aquele cansaço de ter que assistir um filme com a mesma proposta de estrutura tão cedo. Spotlight ainda está fresco demais na memória, o que nos impede de ver Conspiração e Poder com um olhar mais apurado e também constatar que, caso fosse lançado em outra época, o longa estrelado por Cate Blanchett certamente teria o tempo e os espectadores mais ao seu lado.

Em contrapartida, vamos dar os louros a quem merece. Mesmo com tropeços, Conspiração e Poder não abraça aquilo que mais incomodava em Spotlight: a confiança excessiva no texto e a opção por preterir outras ferramentas cinematográficas em detrimento disso. Aqui, Vanderbilt se preocupa sim em entregar um roteiro bem costurado, mas também tem a consciência de que o uso da trilha, por exemplo, amplia os sentidos da história. Pode ser um tanto cafona ver Cate Blanchett chorando em slow motion ao receber uma má notícia por telefone, mas certas passagens de tempo e espaço ficam mais dinâmicas e envolventes com a dramatização dos fatos a partir da técnica. Conspiração e Poder também não esquece que jornalista tem vida pessoal e novamente sai ganhando ao mostrar uma protagonista tão submersa no trabalho que não consegue nem completar direito a simples tarefa de colocar leite e sucrilhos na mesa para que seu filho faça uma refeição matinal.

O problema é que Conspiração e Poder não se engrandece com os fatos investigados pelos jornalistas da equipe do 60 Minutes, programa televisivo da CBS liderado pela produtora Mary Mapes (Blanchett). Enquanto os temas igreja e pedofilia faziam toda a diferença para envolver e impactar em Spotlight, uma específica investigação envolvendo um conturbado passado militar do ex-presidente dos Estados Unidos George Bush não dá ao filme de Vanderbilt o gás que merecia. E a razão do tema não surtir grande efeito é muito simples: toda a busca aconteceu nas eleições estadunidenses de 2004, período que não é devidamente contextualizado pela história. Bush supostamente havia usado de influências para não combater na Guerra do Vietnã, e tal desconstrução da reputação do presidente faria toda a diferença para os eleitores da época, principalmente por se tratar de um assunto militar, algo tão enraizado no cotidiano dos Estados Unidos. No entanto, pouco se fala (e muito menos se mostra) sobre aquele período político.

Em Conspiração e Poder, tudo é visto exclusivamente de dentro da redação, o que deixa a errada impressão de que aquela é apenas mais uma importante mas corriqueira reportagem do programa. Ou seja, toda a cruzada dos personagens para confirmar as suspeitas de que Bush havia fugido da missão de ir ao Vietnã parece não ter tanta influência assim até o momento em que o resultado vai ao ar e passa a sofrer uma série de tentativas de descrédito por parte dos simpatizantes do presidente em busca de reeleição. Com isso, o filme ganha uma maior força cinematográfica e jornalística, discutindo importantes questões como o fato de telejornais, apesar de influentes, não renderem dinheiro até determinada época da profissão ou sobre até que ponto um jornalista deve ter seu trabalho analisado a partir de suas posições políticas. Os processos cotidianos da profissão também são retratados corretamente pelo roteiro, que repete o belo serviço de pontuar muito bem o que cabe ou não a um jornalista em uma complicada investigação repleta de interesses.

A única beneficiada pela aproximação temporal entre Conspiração e PoderSpotlight é Cate Blanchett, pois aqui ela pode reafirmar sua grande versatilidade. Como Mary Mapes, a atriz se distancia do tipo socialite cheia de classe que apresentou em filmes como Blue JasmineCarol para criar uma personagem que em nada se assemelha às citadas, seja na entonação de voz ou em qualquer gesto. Blanchett compreende a força, a vulnerabilidade e a competência de uma mulher comum que claramente sabia o que estava fazendo em uma profissão que viria a abandonar em 2004 após os eventos do filme. Ela rouba por completo a cena de um elenco onde Robert Redford não tem muito a fazer além de emprestar seu inegável prestígio a um personagem que exigia esse simbolismo e onde coadjuvantes pouco acrescentam à narrativa (ainda fazendo comparações com Spotlight, Elisabeth Moss é apenas a Rachel McAdams da vez que só está ali para fazer perguntas). Blanchett é, pelo menos até agora, a força de um longa tradicional e pouco inventivo, mas que nunca chega a parecer cópia. Conspiração e Poder é apenas vítima do acaso. Quem sabe o tempo não conseguirá lhe fazer alguma justiça?

2 comentários em “Conspiração e Poder

  1. Como jornalista, sempre me interessa muito as tramas que abordam a nossa profissão. Tendo dito isso, espero que “Conspiração e Poder” estreie aqui na minha cidade.

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