O Brasil desacomodado em Cannes

Aquarius Cannes

Hoje acordei pensando no Festival de Cannes porque a programação do evento prometia. Primeiro pela a exibição de Julieta, filme cujas expectativas ficavam em torno do retorno de Pedro Almodóvar ao universo feminino depois de A Pele Que Habito e Os Amantes Passageiros, obras claramente distantes dessa temática. Almodóvar, no entanto, fez questão de avisar: Julieta, baseado no livro “Runaway”, da canadense vencedora do Nobel de literatura Alice Munro, não é um “almodrama”. Pena. E, apesar da aprovação, a crítica não se entusiasmou muito com o longa, chegando a considerá-lo, inclusive, um dos mais convencionais já feitos pelo diretor.

Depois desse certo banho de água fria, veio a recompensa, já que a segunda expectativa para o dia de hoje em Cannes era a primeira projeção de Aquarius, novo filme de Kleber Mendonça Filho. Ativamente político nas redes sociais, o crítico de cinema agora aposentado da profissão chegou ao evento para exibir seu segundo longa-metragem. A ansiedade é livre: além de ter uma bela carreira como curta-metragista, Kleber fez sucesso mundial com O Som ao Redor, longa que chegou a ser elencado pelo New York Times em 2012 como um dos melhores do ano e que abriu precedentes para uma série de outros trabalhos que buscam fazer uma radiografia do Brasil contemporâneo em suas particularidades sócio-políticas, como Casa Grande e o mais recente Que Horas Ela Volta?.

O pernambucano chegou fazendo bonito: no Tapete Vermelho, junto com sua equipe, empunhou pequenos cartazes denunciando o que é acertadamente defendido por uma expressiva parcela da população como um golpe político no presidencialismo brasileiro. “Misóginos, racistas e impostores como ministros”, “O mundo não pode aceitar um governo ilegítimo”, entre outros dizeres, colocaram mais uma vez a conturbada e equivocada situação política do Brasil na imprensa internacional . Bravo. É papel da arte se posicionar em tempos que ministérios como o da Cultura são extintos no Brasil. Afinal, como já dizia Glauber Rocha, sem liberdade e democracia, não existe cinema. Desde já, uma das imagens mais emblemáticas do ano.

No entanto, as alegrias trazidas por Aquarius, filme sobre uma jornalista aposentada que mora no último prédio modelo antigo da orla de Boa Viagem e resiste às tentativas dos novos planos de uma construtora para o terreno, não ficaram apenas no Tapete Vermelho. Após estampar capa da Variety e ser considerado pelo Los Angeles Time como um dos trabalhos mais aguardados da seleção deste ano, o longa pernambucano foi aclamado pela crítica, e recebeu um veredito para lá de expressivo: se Sônia Braga não levar o prêmio de melhor atriz, testemunharemos a maior injustiça da premiação deste ano.

Só que minha curiosidade com Aquarius vem antes desse estouro em Cannes ou do inegável prestígio e talento de Kleber Mendonça Filho como realizador. O que mais comove no projeto é a sensibilidade do diretor em tê-lo oferecido para uma atriz como Sônia Braga. Não tem nada a ver com talento, mas sim com oportunidade. Todos nós sabemos que Sônia é uma das nossas grandes atrizes, mas o tempo não é justo com os atores, especialmente com as mulheres. Enquanto nos Estados Unidos ótimas atrizes como Dianne Wiest e Susan Sarandon precisam se submeter a papeis bobocas em dramas inexpressivos ou comédias de gosto duvidoso só para pagar as contas e se manter na indústria, o cinema brasileiro sequer dá chances para suas divas.

Sônia Braga, indicada três vezes para o Globo de Ouro (entre elas por seu desempenho em O Beijo da Mulher-Aranha), firmou uma certa carreira no exterior, mas no Brasil se via reduzida a novelas e minisséries. Não vamos longe: a agora saudosa e igualmente talentosa Marília Pêra só atuava em seus últimos anos em função de seu fiel escudeiro Miguel Falabella, que lhe deu papeis no cinema, no teatro e na TV (antes disso, sua última aparição na telona havia sido em 2007 com o documentário Jogo de Cena). Grandes mulheres. Intérpretes superlativas. Todas lutando contra o tempo.

Por isso mesmo é tão bonito ver nossa Sônia Braga protagonizando Aquarius. Ela diz ter se sentido honrada por Kleber ter pensado em seu nome para um roteiro como esse. Com toda razão: afinal, são poucas, quase inexistentes, as atrizes de seu calibre e idade que recebem tamanho prestígio de um diretor em franca ascensão e reconhecimento. Kleber merece todos os aplausos do mundo por voltar a dar espaço para um talento assim, principalmente porque tal chance sublinha a representatividade feminina em tempos que as mulheres só precisam ser belas, recatadas e do lar. Aquarius arrasou em Cannes, e nos deu um alento em tempos tão conturbados por aqui. Que o filme venha logo para as nossas telas!

2 comentários em “O Brasil desacomodado em Cannes

  1. Kleber Mendonça Filho e equipe possuem todo o direito de protestar. Tendo dito isso, ainda preciso assistir a “O Som ao Redor” antes de conferir “Aquarius”.

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