Rapidamente: “Ave, César!”, “O Menino e o Mundo”, “Pelo Malo” e “Zootopia”

pelomalo

Para fazer sessão dupla: assim como o ótimo Tomboy, da França, o venezuelano Pelo Malo retrata a infância sob à luz de gênero, sexualidade e expectativas acerca de expressões.

AVE, CÉSAR! (Hail, Caesar!, 2016, de Joel e Ethan Coen): A comédia é um terreno muito perigoso na carreira dos irmãos Coen. Ao longo dela, a dupla já assinou obras muito afiadas (O Amor Custa CaroQueime Depois de Ler e, claro, Fargo), mas também trabalhos bastante tediosos (Matadores de Velhinhas, Um Homem Sério), o que despertava certa curiosidade acerca de Ave, César!, filme que abriu o Festival de Berlim deste ano e que traz um elenco para ninguém botar defeito. De George Clooney (em sua quarta colaboração com os Coen) a Ralph Fiennes, a má notícia, no entanto, é que Ave, César! não passa de uma tremenda decepção, onde qualquer admiração maior por parte da crítica vem exclusivamente do fato do filme ser uma homenagem à era de ouro do cinema dos anos 1950. Excetuando o tributo à sétima arte e o inegável carisma dos atores (vale mencionar a cena musical com Channing Tatum, ator que vem, aos poucos, incrementando sua carreira), Ave, César! sofre do mesmo problema do recente Deadpool: referências de mais e história de menos. Em ambas as obras é possível sim se divertir, mas falta consistência e principalmente envolvimento. Os irmãos Coen entregam um filme bem produzido e beneficiado por ótimos intérpretes, só que vazio até mesmo para quem embarca aqui ou ali no humor dedicado aos bastidores do fazer cinematográfico.

O MENINO E O MUNDO (idem, 2013, de Alê Abreu): Primeira animação de língua portuguesa indicada ao Oscar de melhor animação, O Menino e o Mundo fez uma bela carreira no exterior. Além da merecida lembrança no prêmio da Academia, o filme de Alê Abreu se consagrou ao levar o prêmio Cristal e o troféu do público no festival de Annecy, realizado na França e um dos mais importantes do segmento de animação do mundo. É muito carinhoso o relato que o diretor faz sobre um garoto que viaja pelo mundo em busca do pai que foi embora de casa, transportando a ideia inicial do projeto de ser um documentário sobre a América Latina para o universo de uma animação extremamente criativa em detalhes e também na costura do visual com a própria narrativa. Muito próximo do que o Brasil realiza no gênero visualmente falando (para quem quiser fazer uma dobradinha, a dica é conferir Até Que a Sbórnia nos Separe, de Otto Guerra e Ennio Torresan Jr., que também concorreu no festival de Annecy no mesmo ano de O Menino e o Mundo), o resultado chega a ser tocante por sua delicada simplicidade. Abreu, que desenhou a próprio punho cada um dos desenhos da animação, não deixa de transparecer a vontade inicial do filme ser um documentário (quando o protagonista chega à metrópole, a pegada se torna outra, o que dá uma certa abalada no ritmo), mas os 80 minutos de metragem são sempre interessantes, seja pela narrativa ou pela estética – e isso é algo que boa parte das animações de orçamentos milionários sequer consegue alcançar.

PELO MALO (idem, 2013, de Mariana Rondón): Realizado quase paralelamente ao ótimo Tomboy, da França, o venezuelano Pelo Malo é outro drama muito necessário sobre a busca por uma identidade em plena infância. Enquanto em Tomboy acompanhávamos os dias de uma menina que se camuflava como menino em uma nova vizinhança, em Pelo Malo somos testemunhas da vida do pequeno Junior (Samuel Lange Zambrano), garoto de família humilde que sonha ter os cabelos lisos para reproduzir o visual de um famoso cantor. O que acontece é que a mãe não sabe lidar muito bem com a situação, acreditando que o filho, através dessa e de outras expressões, está colocando para fora a sua homossexualidade. Terceiro longa-metragem assinado por Mariana Rondón, Pelo Malo, assim como Tomboy, preza pelo naturalismo ao tratar com dignidade e delicadeza as confusões internas de uma criança que está começando a construir sua própria personalidade. Talvez o caso do filme venezuelano seja ainda mais complicado porque o protagonista tem a sua naturalidade podada por todos a sua volta – e até mesmo a avó, única figura que parece compreender (mesmo que com segundas intenções), os ímpetos do menino, tem uma relação extremamente conturbada com a família. Ainda assim, como vamos aos poucos descobrindo, Pelo Malo não é necessariamente sobre autodescoberta em relação à orientação sexual, mas sim em relação a qualquer identidade que vamos abraçar para a vida inteira, dos cabelos que queremos ter aos amigos que precisamos nos cercar. É inspirador vermos uma representatividade como essa registrada com grande sensibilidade no cinema. 

ZOOTOPIA – ESSA CIDADE É O BICHO (Zootopia, 2016, de Byron Howard, Jared Bush e Rich Moore): Seguindo no assunto diversidade, Zootopia é um belo exemplo de animação que ensina os pequenos a ter autenticidade desde sempre. Ao narrar a história de uma pequena e adorável coelhinha que tem o sonho de ir para a cidade grande e se tornar policial (profissão atribuída apenas a animais muito maiores e fortes, mas também menos espertos do que ela), a animação é belíssima ao envolver os pequenos nessa mensagem de que não devemos nunca nos acomodar com menos do que aquilo que queremos e precisamos ser. Até mesmo um discurso motivacional previsível ganha contornos emocionantes a partir dessa abordagem e, principalmente, da simpatia de nossa irresistível protagonista e também de seu agora-amigo raposo. Já a parte da trama em si não envolve tanto, mesmo com a admirável escolha de transformar Zootopia em um verdadeiro filme de investigação que envolve até corrupção política! Algo se perde na mistura e todo o recheio da história não é tão interessante quanto a cobertura. Talvez o problema seja o filme fazer mistério demais para chegar a revelações que não são particularmente consistentes, mas é fato que a animação fica no meio do caminho, caindo no velho defeito de ter uma ideia que renderia muito mais em um curta-metragem. 

2 comentários em “Rapidamente: “Ave, César!”, “O Menino e o Mundo”, “Pelo Malo” e “Zootopia”

  1. Só assisti a ‘Zootopia’, um filme que adorei! As cenas com as lesmas vai entrar para o rol das melhores do ano! rsrsrs

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