Mãe Só Há Uma

É Pierre, porra!

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Direção: Anna Muylaert

Roteiro: Anna Muylaert

Elenco: Naomi Nero, Dani Nefussi, Matheus Nachtergaele, Luciana Paes, Helena Albergaria, Lais Dias, Daniel Botelho, Luciano Bortoluzzi, June Dantas,  Renan Tenca, Douglas Luckiys,  Ulisses Sakurai

Brasil, 2016, Drama, 82 minutos

Sinopse: Pierre descobre que sua família não é biológica quando a polícia prende sua mãe. Confuso, ele vai atrás de seus parentes verdadeiros, que o conhecem como Felipe, e a nova realidade faz com que o rapaz encontre finalmente sua real identidade. (Adoro Cinema)

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A diretora e roteirista Anna Muylaert preferiu trabalhar em menor escala após o sucesso mundial de Que Horas Ela Volta?. Claro que fazer Mãe Só Há Uma com orçamento mais modesto, elenco praticamente desconhecido e divulgação discreta foram também maneiras da realizadora se desvencilhar de expectativas inevitavelmente altas acerca do que ela realizaria após a impecável narrativa do filme estrelado por Regina Casé e Camila Márdila. No entanto, Muylaert diz que existe um outro propósito por trás das circunstâncias mínimas: o de realizar uma história mais autoral sem ser vítima de eventuais amarras, sejam elas de qualquer natureza. De fato, Mãe Só Há Uma, que adapta livremente o verídico caso Pedrinho, de 2002, toca em questões mais sensíveis ao grande público, mas todas as boas ideias e as importantes discussões propostas pela diretora são limitadas por um filme abrupto cuja história não dá fluidez à criatividade de uma contadora de histórias sempre atenta aos temas mais pertinentes da nossa contemporaneidade.

Filmes com metragem mais enxuta automaticamente propõem a seus diretores e roteiristas um árduo desafio: o de apresentar, de forma objetiva mas igualmente envolvente, toda a essência de uma história em um espaço de tempo, claro, consideravelmente menor. Fácil é expandir um universo ao longo de duas horas; difícil é dizer somente o necessário dele em 80 minutos. Infelizmente, Anna Muylaert tropeça nessa jornada com Mãe Só Há Uma, longa que se esquece de aprofundar pontos importantes de sua trama enquanto perde tempo com outros inegavelmente dispensáveis. Por que, por exemplo, querer fazer tanta graça com os amores juvenis do pequeno Joca (Daniel Botelho) ao invés de de dar mais caldo aos efeitos emocionais que as revelações envolvendo Aracy (Dani Nefussi) causam nos seus filhos? Além da personagem ser plenamente esquecida, nunca sabemos de que forma a desconstrução de sua figura atinge efetivamente Pierre (Naomi Nero, excelente), citando alguns dos prejuízos que o malabarismo atrapalhado entre profundidade e curta duração traz ao resultado. 

Se existe algo que permanece intacto na transição de Que Horas Ela Volta? para Mãe Só Há Uma são as leituras críticas de Anna Muylaert aos preconceitos (expostos ou não) da nossa sociedade, com ênfase naqueles tão enraizados em boa parte das pessoas de classe alta. Dessa vez, a realizadora paulista surpreende ao compreender muito bem as expressões de uma geração cada vez mais livre na busca de sua própria identidade. Nesse ponto, o filme só ganha pontos ao não trazer qualquer rótulo para o protagonista, que, ao mesmo tempo em que pinta as unhas e gosta de vestidos, também transa com meninas e aqui ou ali experimenta um beijo com garotos. Quando Muylaert coloca esse jovem tão autêntico em sua efervescência de experimentações com a nova família rica e tradicional, Mãe Só Há Uma expõe todos os preconceitos que muitos insistem em dizer que não têm, mas que simplesmente não conseguem esconder quando o filho homem não gosta de futebol ou não quer vestir as camisas certinhas de gola polo que os pais querem colocar na composição de seu figurino. Novamente, a diretora provoca ao tornar a sessão uma experiência incômoda para uma certa parcela do público que é obrigada a se ver na tela com todas as suas infundadas intolerâncias.

Ao mesmo tempo em que essa encenação crítica é um aspecto fortíssimo do longa, também não deixa de ser estranho como ela de certa forma limita a dramaticidade de toda a história: basicamente, o único conflito de Pierre ao ter que conviver com a nova família é ter dificuldades em fazer com que suas expressões sejam aceitas, quando, na realidade, também deveria ser muito mais sobre não sair de um lar destruído para outro que desconhece. A unilateralidade dos novos pais também não deixa de incomodar, visto que, apesar do bom trabalho de Matheus Nachtergaele e Dani Nefussi, eles são figuras insensíveis ao momento do filho recém descoberto, tratando-o meramente como um garoto que precisa ser urgente e literalmente doutrinado conforme suas regras. Da busca por um novo modelo de vida aos anseios de uma adolescência hoje cada vez mais livre, o filme é rico na pluralidade e na importância de seus temas, mas a falta de convergência dos assuntos e de uma história que realmente vá para algum lugar além da convencionalidade dos fatos impede que a sessão tenha uma riqueza narrativa maior. Na verdade, Mãe Só Há Uma soa como um ensaio relevante e obviamente incômodo pela situação que encena, mas incompleto e apressado na carreira de Muylaert, quando, na verdade, era digno de, no mínimo, ter a mesma costura sofisticada de ideias de Que Horas Ela Volta?.

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