Talvez Deserto, Talvez Universo

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Direção: Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes

Roteiro: Miguel Seabra Lopes

Elenco: Documentário

Brasil/Portugal, 2016, Documentário, 97 minutos

Sinopse: A Unidade de Internamento de Psiquiatria Forense é uma estrutura de regime fechado, de segurança média, com vertente reabilitadora. Presta acompanhamento psiquiátrico, psicológico, médico, terapêutico e social. Os homens que a habitam foram considerados inimputáveis pelo tribunal. Sentem o tempo passar, lento. É neste tempo individual que o filme se instala.

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A imobilidade da câmera do diretor Miguel Seabra Lopes sugere muito mais do que a mera observação dos pacientes da Unidade de Internamento de Psiquiatria Forense do hospital psiquiátrico Julio de Matos. Na verdade, essa estática está diretamente ligada ao que (não) acontece dentro de cada um dos personagens. Isso porque, dentro da Unidade, o tempo é outro, a vida parece imóvel e não há nada a ser feito em um cotidiano cujo senso de dimensão é castrado por centenas de remédios diários. Partindo dessa claustrofóbica e angustiante condição, o documentário Talvez Deserto, Talvez Universo, também assinado por Karen Akerman na direção, instiga ao mesmo tempo em que incomoda, engrandecendo-se ao capturar inteligentemente uma situação complicadíssima sem qualquer artifício ou conceito que flerte com a obviedade.

Quando se fala na imobilidade da câmera exclusiva de Lopes, é bom elucidar: por se tratar de uma instituição destinada apenas a homens, a também diretora Karen Akerman, que tem carreira consolidada como montadora (ela assinou esse segmento do excepcional O Lobo Atrás da Porta), foi proibida de entrar no local, trabalhando, dessa forma, com o recebimento dos materiais de Lopes para, a partir daí, com sua visão de montadora, começar a dar os contornos de Talvez Deserto, Talvez Universo. Felizmente, não há, na tela, qualquer resquício de limitação imposta por essas condições: além do documentário ter personalidade muito bem definida, todos os conceitos traçados pela dupla são consistentes, desde o ritmo propositalmente lento para casar com o cotidiano de seus documentados ao próprio preto e branco que descolore ainda mais um mundo já acromático por si só.

Desviando-se da forma clássica do gênero, o documentário se preocupa apenas em observar o dia a dia do local, julgando certeiramente, assim como o recente Fogo no Mar, que o simples registro sem maiores interferências é o suficiente para garantir impacto dramático. Mesmo quando coloca determinado personagem frente à câmera para contar histórias particulares, Talvez Deserto, Talvez Universo se entrega por completo a quem fala e reproduz, basicamente na íntegra e sem cortes, os relatos precisamente escolhidos. O espaço para que cada um se expresse é livre, ao passo que, ao contrário do que se poderia imaginar, a loucura dos pacientes não descamba para a incoerência de discurso. Existe muito a ser contado sobre as mais variadas histórias de vida de personagens dramáticos, divertidos ou que simplesmente tomam como missão de vida conseguir um mero cigarro.

Vencedor do Prêmio Olhares Brasil de melhor longa-metragem na quinta edição do festival Olhar de Cinema, onde fez sua estreia no Brasil, Talvez Deserto, Talvez Universo é contado rodo a partir do olhar dos próprios pacientes e pouco se vê sobre o mundo exterior ou até mesmo sobre as pessoas que trabalham no hospital. A decisão é sábia porque nos sentimos tão parte daquele cotidiano quanto os próprios personagens, mas também porque engrandece a proposta assumida da dupla diretora de fazer um documentário não de denúncia, e sim de questionamento sobre o tipo de psiquiatria que já se promove há muito tempo. Afinal, o que mais instiga no filme é a sua ideia de falar sobre pessoas que, como a própria Akerman define, não deixam de estar mortas, pois vivem mesmo uma espécie de vida adormecida.

Um comentário em “Talvez Deserto, Talvez Universo

  1. Não conhecia o documentário, mas parece ser interessante! A conferir!

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