44º Festival de Cinema de Gramado #11: uma premiação justa (ou pelo menos coerente)

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Os vencedores do 44º Festival de Cinema de Gramado. Em uma cerimônia pautada por prêmios justos ou pelo menos coerentes, Barata Ribeiro, 716, de Domingos Oliveira, foi o melhor filme.

Foi no último dia de competição que o grande vencedor do 44º Festival de Cinema de Gramado deu as caras. Barata Ribeiro, 716, de Domingos Oliveira, encerrou a programação do evento serrano, consagrando-se, no dia seguinte, nas categorias de melhor filme, direção, atriz coadjuvante (Glauce Guima) e trilha sonora. Tive dificuldades em embarcar nessa obra em preto e branco mais saudosista e gordardiana de Domingos que completa sua trilogia sobre a juventude carioca dos anos 1960 iniciada em Edu, Coração de Ouro e sequenciada em Todas as Mulheres do Mundo. Lembro de ter me divertido muito mais com Infância, citando um trabalho do diretor mais recente, mas a vitória tem lógica inquestionável porque é um filme memorialístico que finalmente consagra o diretor e roteirista no evento (apesar de ter muitos Kikitos em casa, Domingos nunca havia faturado a categoria de melhor filme). Também fico feliz porque, ao contrário do que se poderia apostar, o júri não fugiu para o drama em um ano marcado por comédias.

Mais do que isso, essa foi a premiação mais coerente em anos no Festival de Cinema de Gramado. Ainda nas comédias, foi gratificante ver o reconhecimento ao divertido O Roubo da Taça que surpreendentemente – e não de forma injusta – faturou o prêmio de melhor ator para Paulo Tiefenthaler que todos (inclusive eu) davam como certo para Leonardo Sbaraglia (O Silêncio do Céu) ou até mesmo Caio Blat (Barata Ribeiro, 716). É sempre gratificante a celebração do gênero, principalmente em uma situação como essa, já que O Roubo da Taça precisa quebrar preconceitos por adotar um humor certeiramente caricato e frequentemente desprezado. O filme assinado por Caíto Ortiz também levou para casa os Kikitos de melhor roteiro, direção de arte e fotografia (os dois últimos são particularmente merecidos). O único filme a sair de mãos abanando – com toda razão – foi Tamo Junto, de Matheus Souza. Por mais que goste do protagonista Leandro Soares (o único aspecto realmente louvável do longa), não havia chances para ele em sua respectiva categoria.  

O que reivindico na lista de vencedores de longas-metragens é maior amor por O Silêncio do Céu, que, se dependesse do júri oficial, levava apenas a categoria de desenho de som e um prêmio especial como consolação. Por sorte, o troféu da crítica consagrou o filme de Marco Dutra, que, na minha lista pessoal, poderia muito bem ter se saído vitorioso em melhor filme e direção, no mínimo. Já Elis, estranhamente bem recebido (deve ser o afeto pela cantora e pela exibição em sua terra natal, já que a cinebiografia é uma bagunça só), conquistou a categoria de melhor montagem e outra que já era dada como certa desde sempre: melhor atriz para Andreia Horta. Abrindo meu coração, digo que o filme me incomoda tanto que tenho até dúvidas se não gosto mais da irresistível Taís Araújo em O Roubo da Taça do que da própria Horta.

Entre os curtas, não deixo de lamentar o total esquecimento de Aqueles Anos em Dezembro, de Felipe Arrojo Poroger. Não gosto tanto de Enquanto o Sangue Coloria a Noite, Eu Olhava as Estrelas, apresentado por ele ano passado em Gramado na mesma mostra, mas me comovi demais com seu novo curta, que une afeto, criatividade e apuro técnico em uma química instigante. Rosinha, o grande vencedor, é muito simpático e carinhoso, mas não vejo nada além disso (o que não quer dizer que seu apelo não seja compreensível). No mais, gosto bastante do reconhecimento para Aqueles Cinco Segundos (em especial o prêmio para a ótima Luciana Paes, que já era uma revelação em Sinfonia da Necrópole!) e creio que houve mobilização demais para Super Oldboy, que levou mais prêmios do que merecia. No geral, no entanto, a premiação do 44º Festival de Cinema de Gramado ocorreu sem surpresas mais desagradáveis – e o mais importante: é impossível dizer que a maioria dos prêmios foi injusta ou sem lógica. Vindo de um histórico recente que nos reservou o prêmio principal para A Estrada 47 em ano de A DespedidaSinfonia da Necrópole, é para sair de alma lavada.

Confira abaixo a lista completa de vencedores (incluindo os da mostra latina, que não comentei por só ter conferido o bom filme uruguaio Las Toninas Van al Este, mas cuja lista tem a bela surpresa de ter um filme gay premiado pelo júri popular, o que é muito simbólico!):

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: Barata Ribeiro, 716, de Domingos Oliveira
MELHOR DIREÇÃO: Domingos Oliveira (Barata Ribeiro, 716)
MELHOR ATRIZ: Andréia Horta (Elis)
MELHOR ATOR: Paulo Tiefenthaler (O Roubo da Taça)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Glauce Guima (Barata Ribeiro, 716)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Bruno Kott (El Mate)
MELHOR ROTEIRO: Lucas Silvestre e Caíto Ortiz (O Roubo da Taça)
MELHOR FOTOGRAFIA: Ralph Strelow (O Roubo da Taça)
MELHOR MONTAGEM: Tiago Feliciano (Elis)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Domingos Oliveira (Barata Ribeiro, 716)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Fábio Goldfarb (O Roubo da Taça)
MELHOR DESENHO DE SOM: Daniel Turini, Fernando Henna, Armando Torres Jr. e Fernando Oliver (O Silêncio do Céu)
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Elis, de Hugo Prata
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: O Silêncio do Céu, de Marco Dutra
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: O Silêncio do Céu, pelo domínio da construção narrativa e da linguagem cinematográfica

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS

MELHOR FILME: Guaraní, de Luis Zorraquín
MELHOR DIREÇÃO: Fernando Lavanderos (Sin Norte)
MELHOR ATRIZ: Verónica Perrotta (Las Toninas Van al Este)
MELHOR ATOR: Emilio Barreto (Guaraní)
MELHOR ROTEIRO: Luis Zorraquín e Simón Franco (Guaraní)
MELHOR FOTOGRAFIA: Andrés Garcés (Sin Norte)
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Esteros, de Papu Curotto
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Sin Norte, de Fernando Lavanderos
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Esteros, pela direção delicada e inteligente da história de amor dos atores mirins.

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
MELHOR FILME: Rosinha, de Gui Campos

MELHOR DIREÇÃO: Felipe Saleme (Aqueles Cinco Segundos)
MELHOR ATRIZ: Luciana Paes (Aqueles Cinco Segundos)
MELHOR ATOR: Allan Souza Lima (O Que Teria Acontecido ou Não Naquela Calma e Misteriosa Tarde de Domingo no Jardim Zoológico)
MELHOR ROTEIRO: Gui Campos (Rosinha)
MELHOR FOTOGRAFIA: Bruno Polidoro (Horas)
MELHOR MONTAGEM: André Francioli (Memória da Pedra)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Kito Siqueira (Super Oldboy)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Camila Vieira (Deusa)
MELHOR DESENHO DE SOM: Jeferson Mandú (O Ex-Mágico)
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Super Oldboy, de Eliane Coster
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Lúcida, de Fabio Rodrigo e Caroline Neves
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Elke Maravilha (Super Oldboy) e Maria Alice Vergueiro (Rosinha), pela contribuição artística de ambas
PRÊMIO AQUISIÇÃO CANAL BRASIL: Rosinha, de Gui Campos

3 comentários em “44º Festival de Cinema de Gramado #11: uma premiação justa (ou pelo menos coerente)

  1. Fiquei mega curiosa com Rosinha e com Silêncio do Céu. Mas O Roubo da Taça mereceu toda atenção que recebeu. Bem como Rubinho disse, a vida já anda tão pesada e esta comédia realmente anima qualquer um. E infelizmente, Elis, apenas lamentar, porque ainda não parece que a conheci. Vem 47º Festival de Cinema de Gramado <3

  2. O bom da premiação em Gramado é que “O Roubo da Taça”, por exemplo, já encontrou espaço e distribuição nos cinemas daqui de Natal, estreando já nesta semana, olha que coisa maravilhosa! :)

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