De Onde Eu Te Vejo

Sabe o que eu descobri? Que as histórias infelizes é que são todas iguais. As felizes não. São felizes cada uma a sua maneira.

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Direção: Luiz Villaça

Roteiro: Leonardo Moreira e Rafael Gomes

Elenco: Denise Fraga, Domingos Montagner, Manoela Aliperti, Marisa Orth, Laura Cardoso, Juca de Oliveira, Fúlvio Stefanini, Laila Zaid, Théo Werneck, Marcello Airoldi

Sinopse: Ana Lúcia (Denise Fraga) e Fábio (Domingos Montagner) decidem se separar após vinte anos de casamento e ele se muda para um apartamento do outro lado da rua. Além da separação, eles passam por uma crise no trabalho e precisam enfrentar a iminente mudança de cidade da filha. Com todas essas mudanças, eles precisam aprender a viver essa nova realidade e reinventar o amor. (Adoro Cinema)

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Conforme o tempo passa, é cada vez mais comum, como cinéfilos dedicados, prezarmos pelo novo ou pelo menos por aquilo que procura se distanciar da normalidade. Considerando os filmes sobre separações de casais, por exemplo, são infinitos os relatos dramáticos e até mesmo trágicos sobre o fim de relações amorosas. Não que, dessa forma, Alabama Monroe ou Namorados Para Sempre se tornem filmes menores (eles sempre serão grandes por suas respectivas franquezas), mas, quando surge uma experiência como a proporcionada pelo belo De Onde Eu Te Vejo, voltamos a lembrar que precisamos de mais produções como essa assinada por Luiz Villaça e estrelada por Denise Fraga e pelo agora saudoso Domingos Montagner. Partindo do divórcio de um casal que dividia o mesmo teto há 20 anos, o longa conta a história dos protagonistas sob a luz desse desfecho. Até aí, nenhuma novidade, pois o que torna De Onde Eu Te Vejo tão especial vem em seguida: é verdade que Ana Lúcia (Fraga) e Fábio (Montagner) se separaram, mas, com o convívio próximo mesmo após a ruptura, eles encontrarão, por vontade do destino e deles próprios, uma nova forma de amar um ao outro.

De Onde Eu Te Vejo, contudo, não é sobre um casal que vira amigo e divide a cama de vez em quando. Quando um passa a morar de frente para o outro em apartamentos de uma mesma rua de São Paulo, o roteiro escrito pela dupla Leonardo Moreira e Rafael Gomes prefere encenar sutilezas mais cotidianas e individuais, como o exercício interno que Ana Lúcia precisa fazer quando a filha prefere estar com o pai – e, ao invés de sentir ciúmes da relação dos dois, ela só volta a lembrar o quanto seu ex-marido é um pai querido, devotado e atencioso. O filme faz coro à ideia de um dos personagens de que fins também podem simbolizar recomeços, utilizando situações e sentimentos corriqueiros para revelar que, no fundo, alguns rituais são necessários para compreender que o amor ainda pode existir, mas que ele nem sempre consegue compensar os percalços de uma convivência que não dá mais certo. É preciso maturidade para encarar essa verdade, e é exatamente isso o que não falta à equipe de De Onde Eu Te Vejo para colocar tal discussão na tela com uma abordagem muito nostálgica e agridoce.

Alegria e tristeza se misturam em função dessa consciência dos protagonistas do amor em comum, mas também da necessidade da distância. Existe algo de muito bonito em reconhecer o fim sem cortar laços, o que é plenamente compreendido também por Denise Fraga e Domingos Montagner. Eles, que têm atores de de luxo como suporte (Juca de Oliveira, Laura Cardoso, Marisa Orth, Fúlvio Stefanini), são perfeitos ao transitar, da primeira à última cena, pelas memórias e pelo presente de pessoas que – não temos dúvida – sempre se amarão. Montagner, falecido tragicamente há pouco tempo durante as gravações da novela Velho Chico, fica com uma fatia maior da comédia (o que não é um problema, pois, como diz a Ana Lúcia de Denise Fraga, as melhores comédias também são, na realidade, tristíssimas), enquanto ela, uma das nossas melhores e mais subestimadas atrizes, entrega sua humanidade de sempre para uma mulher em conflito com a ideia de querer sempre novidade ao mesmo tempo em que, inconscientemente, não se desapega do que já passou – e o fato da poltrona já gasta de sua mãe ser sempre esquecida no dia a dia, mas nunca descartada da mobília do novo apartamento é uma simbólica prova disso.

É importante não confundir a leveza e o bom humor presentes em De Onde Eu Te Vejo com superficialidade, pois isso seria uma injustiça com a refinação do roteiro e da direção do longa, que, além das leituras que fazem sobre relacões amorosas e familiares, entregam uma interpretação muito interessante e contemporânea de São Paulo. Normalmente retratada pelo cinema brasileiro recente como uma cidade imensa que isola pessoas, aqui a capital ganha contornos nostálgicos para a personagem de Fraga, que, através do seu relacionamento com o marido, até deixou de lado a falta que sentia do mar, que era tão importante em sua vida anterior no Rio de Janeiro. Os restaurantes, as janelas e os cinemas paulistanos ajudam a construir o mapa de uma cidade repleta de mudanças (em suas construções, em suas profissões, em suas relações), mas, principalmente, de um casal que se transformou junto e, simbolicamente, desenhou um mapa próprio com tantas histórias vividas em pontos dessa capital gigante. Com sutileza, De Onde Eu Te Vejo percorre todos esses temas e lugares sem qualquer sinal de dispersão, encerrando sua história no auge, com um simples mas emocionante diálogo entre Denise Fraga e Domingos Montagner que é a síntese da mistura perfeita entre simplicidade e maturidade desse filme precioso. 

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