Doutor Estranho

We never lose our demons. We only learn to live above them.

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Direção: Scott Derrickson

Roteiro: C. Robert Cargill, Jon Spaihts e Scott Derrickson, baseado nos quadrinhos de Steve Ditko

Elenco: Benedict Cumberbatch, Tilda Swinton, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Mads Mikkelsen, Benjamin Bratt, Michael Stuhlbarg, Scott Adkins, Alaa Safi, Katrina Durden, Topo Wresniwiro

Doctor Strange, EUA, 2016, Aventura, 115 minutos

Sinopse: Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) leva uma vida bem sucedida como neurocirurgião. Sua vida muda completamente quando sofre um acidente de carro e fica com as mãos debilitadas. Devido a falhas da medicina tradicional, ele parte para um lugar inesperado em busca de cura e esperança, um misterioso enclave chamado Kamar-Taj, localizado em Katmandu. Lá descobre que o local não é apenas um centro medicinal, mas também a linha de frente contra forças malignas místicas que desejam destruir nossa realidade. Ele passa a treinar e adquire poderes mágicos, mas precisa decidir se vai voltar para sua vida comum ou defender o mundo. (Adoro Cinema)

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Vem de longa data a minha rejeição aos filmes baseados em histórias de quadrinhos, e isso não tem nada a ver com qualquer aversão aos personagens em si ou ao fato de que as adaptações dão origem, em sua quase totalidade, a blockbusters meramente descompromissados. Não há problema algum em abraçar a diversão pela diversão. Minha rejeição vem pela constante redundância dessas obras. Mercadologicamente, é inevitável que cada vez mais tenhamos aventuras derivadas de HQ’s e que todas elas, apesar de seus universos e heróis distintos, assemelhem-se em estrutura porque o alto investimento dos estúdios precisa ter resultados financeiros – e é fácil reconhecer a fórmula que o público gosta para mantê-la em looping. Já artisticamente, o cansaço também é compreensível: como não ser um geek e ainda ter expectativas ou até mesmo paciência com filmes que apenas se encaixam dentro de uma mesma cartilha repetida há anos? Pois Doutor Estranho invade os cinemas provando que não é necessário fazer escolhas tão diferentes para entregar uma experiência indiscutivelmente acima da média para o gênero.

O que pode parecer apenas um detalhe se revela um acerto fundamental na mistura diferenciada do filme dirigido por Scott Derrickson: o elenco. Habitualmente estreladas por atores reconhecidos mais pela beleza ou pela famosidade do que propriamente pela excelência em atuação (Chris Hemsworth, Ryan Reynolds, Henry Cavill, Chris Evans), as adaptações de quadrinhos raramente ganham pontos nesse quesito. Pode ser que Robert Downey Jr. tenha carisma como o Homem de Ferro ou que Hugh Jackman já tenha criado suas marcas como Wolverine. No entanto, são raros os casos como o de Doutor Estranho, onde todos os atores do elenco vêm de uma boa trajetória no cinema ou na TV e conferem uma verossimilhança significativa aos seus personagens ao invés de apenas ligarem o piloto-automático no meio de tantos uniformes e efeitos especiais. O resultado é visto na prática, em especial nas figuras de Benedict Cumberbatch, que é ótimo ao dar visceralidade a um personagem que carrega o arco dramático clichê do homem arrogante que precisa passar por uma tragédia para se transformar, e de Tilda Swinton, sempre distribuindo versatilidade (e dubiedade, quando preciso) para até mesmo emocionar em sua cena derradeira. Inclua ainda nomes Rachel McAdams, Mads Mikkelsen e Chiwetel Ejiofor na mistura e encontre um elenco seguro, consistente e realmente diferenciado.

Dos tradicionais cenários estadunidenses que são destruídos a cada lançamento, vamos para o Nepal (e um pouco mais além para Hong Kong), onde a geografia asiática se torna a circunstância perfeita para uma trama que não se origina a partir de experimentos tecnológicos e muito menos evolui em função de vilões com planos hiperbólicos: Doutor Estranho é sobre um neurocirurgião que, ao sofrer um grave acidentes nas mãos, viaja o mundo para corrigir sua nova incapacidade física com a ajuda de um misterioso grupo que está muito mais para o plano espiritual do que para o prático – e é por causa dessa abordagem que a experiência se torna, na medida do possível, uma aventura muito mais identificável a todos nós, pois, assim como Stephen Strange (Cumberbatch), embarcamos na jornada realmente nos questionando sobre tudo aquilo que não sabemos e que supostamente sempre subestimamos ser possível. O desconhecimento desse mundo de explicações menos racionais é a porta de entrada para uma ação mitológica em que personagens passam a adquirir poderes imprevisíveis: ao mesmo em que um portal para o outro lado do planeta pode se abrir com um simples movimentos das mãos, toda uma cidade fica literalmente de ponta-cabeça quando esses poderes se aperfeiçoam com a prática. Tal imprevisibilidade encanta em termos de adrenalina porque tudo pode acontecer na luta entre dois personagens que conseguem tornar realidade basicamente tudo aquilo que é imaginação.

Com uma carreira que evidencia seu talento para contar histórias focadas mais em pessoas do que em artificialidades (enquanto o remake da ficção O Dia em Que a Terra Parou é uma tremenda decepção, O Exorcismo de Emily Rose é uma marco por ter uma pegada até mais dramática do que de terror), Scott Derrickson nunca cria um filme esteticamente fake mesmo com a obrigatoriedade do espetáculo visual: as cenas em que os cenários se deslocam como em A Origem, de Christopher Nolan, são realmente impressionantes, mas todas as outras também são bem executadas, o que é reflexo de uma parte técnica frequentemente criativa (nesse aspecto podemos citar ainda a ótima trilha sonora assinada por Michael Giacchino). Derrickson orquestra tudo com competência – inclusive o elenco, já que, vale lembrar, nada adianta um casting incrível se um diretor que não sabe conduzi-los, como no desastroso Esquadrão Suicida –, e o resultado se reflete muito além das bilheterias: até a data de publicação desse texto, Doutor Estranho alcança a marca de 90% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes em um universo de mais de 250 avaliações. Reconhecimento merecido e diversão mais do que garantida para você que, assim como eu, precisa de muita boa vontade para conferir um filme de super herói.

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