A Chegada

If you could see your life from start to finish, would you change things?

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Direção: Denis Villeneuve

Roteiro: Eric Heisserer, baseado no conto “Story of Your Life”, de Ted Chiang

Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O’Brien, Jadyn Malone, Abigail Pniowsky, Tzi Ma, Julia Scarlett Dan, Anana Rydvald, Russell Yuen

Arrival, EUA, 2016, Ficção Científica, 116 minutos

Sinopse: Quando seres interplanetários deixam marcas na Terra, a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista especialista no assunto, é procurada por militares para traduzir os sinais e desvendar se os alienígenas representam uma ameaça ou não. No entanto, a resposta para todas as perguntas e mistérios pode ameaçar a vida de Louise e a existência de toda a humanidade. (Adoro Cinema)

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Não há diretor mais interessante para se acompanhar atualmente do que o canadense Denis Villeneuve. Após repercussão internacional com o ótimo Incêndios, em 2010, ele conseguiu um feito raro: se lançou em Hollywood com personalidade e provocação, o que obviamente lhe trouxe admiradores e detratores na mesma proporção. Por outro lado, é curioso perceber como o diretor, ao contrário de Christopher Nolan, por exemplo, amplia suas ambições em forma e conteúdo sem se perder na pretensão. Basta olhar em retrospecto: o magnífico Os Suspeitos, de 2013, hoje soa quase simples nas questões que suscita se comparado a O Homem DuplicadoSicario: Terra de Ninguém e, agora, A Chegada, longas consideravelmente mais complexos, mas jamais eruditos. Villeneuve veio para Hollywood querendo mexer com zonas de conforto, o que ganha novas dimensões nessa nova obra assinada por ele e estrelada pela pentacampeã em indicações ao Oscar Amy Adams. A diferença é que agora, o cineasta chega à ficção científica, um terreno infinitamente mais popular e consequentemente mais suscetível a polêmicas junto às plateias

Vendido de forma oportunista por trailers equivocados, A Chegada, desde os primeiros segundos de abertura com os acordes de On the Nature of Daylight, composição do grande Max Richter cedida para o filme, já renega o convencional ao abraçar uma profunda melancolia para introduzir sua heroína, uma linguista que guarda uma história pessoal calejada e despedaçada. É simbólico o filme começar tão próximo da intimidade de Louise Banks (Adams) porque todo o restante da trama se desenvolverá a partir do seu olhar particular, quebrando a expectativa de espectadores sedentos por pirotecnias e espetáculos visuais imediatos. As lembranças da protagonista permearão toda sua jornada como a profissional designada a compreender o idioma de alienígenas que estacionaram no planeta Terra sem motivo aparente, e é importante se atentar a elas não como meros relatos para dar algum embasamento dramático à personagem, mas sim como importantes ferramentas narrativas e imersivas. Compreender que a trajetória de Louise é tão grande quanto a da humanidade frente ao desconhecido é fator-chave para absorver o real sentido de A Chegada.  

Preferindo o silêncio à qualquer hipérbole audiovisual para criar o fascínio do suspense envolvendo o pouso dos alienígenas na Terra, Villeneuve sabe que é importante entregar uma ficção com uma pegada de reflexões em tempos que produções megalomaníacas na técnica, mas rasteiras no conteúdo chegam aos cinemas em grande quantidade. Ao conjugar com precisão todas as ferramentas audiovisuais a sua disposição, o cineasta também exige o mesmo tino de cada um dos profissionais envolvidos no projeto em suas respectivas áreas – e é impossível não destacar a trilha eficiente e frequentemente perturbadora do islandês Jóhann Jóhannsson e da fotografia assinada por Bradford Young, que é capaz de explorar a beleza e o horror de situações das situações vividas por Louise. Por abandonar muitos dos vícios do gênero, seja na estética mais refinada ou na história mais contemplativa, a sensação é de estranhamento ou pelo menos de readaptação a um nível de sofisticação que não encontramos nesse tipo de cinema com muita frequência. Entretanto, a partir do momento em que se compra a proposta de A Chegada, o estado pode muito bem ser de maravilhamento, especialmente quando as peças finalmente se encaixam nos momentos derradeiros.

A ficção, que tem se beneficiado e dado sorte com protagonistas femininas (Gravidade Mad Max: Estrada da Fúria arrasaram como unanimidade entre crítica e público), novamente aposta em uma mulher como estrela de uma trama. Com uma vida vazia e aparentemente dedicada apenas à vida acadêmica, Louise Banks hesita, tem pesadelos e às vezes não é levada a sério, mas tem conhecimento e principalmente sensibilidade de sobra para mostrar que o diálogo e o estudo comunicação são ferramentas tão complexas quanto subestimadas – e é na provocação dessa necessária reflexão que reside sua vitória como heroína. Conduzindo o roteiro de Eric Heisserer, que adapta o conto “Story of Your Life”, de Ted Chiang, o diretor, portanto, tem também a delicada missão de fazer com que discussões humanas dialoguem com elementos fantásticos da ficção. Nesse sentido, A Chegada apresenta lá seus tropeços, pois o estofo sci-fi vem mais pelo bom uso dos elementos técnicos do que pela concepção visual do universo em si (tanto as naves quanto os alienígenas não chegam a ser imponentes ou criativos aos olhos), além da parte dramática discutir de forma óbvia questões como a intolerância e a agressividade humana em situações de ameaça.

O caminho a passos lentos é constante em A Chegada, e a boa notícia é que a resolução compensa tanto o miolo um tanto repetitivo quanto as falhas nas relações que tenta estabelecer de forma mais prática entre o plano humano e fantástico. São poucos os filmes que, em uma resolução criativa, colocam automaticamente todo o filme em retrospectiva na cabeça do espectador para iluminar detalhes que até então pareciam aleatórios ou desconexos. A Chegada é exatamente assim, alcançando ainda níveis emocionantes quando, ao final, se propõe a versar sobre as escolhas que sabe fazemos ao longo da nossa existência e o quanto presumir ou saber os desfechos dela não anulam tudo o que pode existir de fascinante nesse caminho. Verdade seja dita que não são poucos os rodeios que o filme dá para dar simetria total a seu ciclo e chegar a toda emoção de seu terço derradeiro, mas a precisão a partir daí é admirável e o que vem a partir dela é muito íntimo. A Chegada reverbera muito além da sessão. Sorte de quem consegue perceber essa beleza.

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