Passageiros

A drowning man will always try to drag you down with him.

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Direção: Morten Tyldum

Roteiro: Jon Spaihts

Elenco: Chris Pratt, Jennifer Lawrence, Michael Sheen, Laurence Fishburne, Andy Garcia, Vince Foster, Kara Flowers, Conor Brophy, Julee Cerda, Aurora Perrineau, Lauren Farmer

Passengers, EUA, 2016, Ficção Científica, 116 minutos

Sinopse: Durante uma viagem de rotina no espaço, dois passageiros são despertados 90 anos antes do tempo programado. Sozinhos, Jim (Chris Pratt) e Aurora (Jennifer Lawrence) começam a estreitar o seu relacionamento. Entretanto, a paz é ameaçada quando eles descobrem que a nave está correndo um sério risco e que eles são os únicos capazes de salvar os mais de cinco mil colegas em sono profundo. (Adoro Cinema)

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Não faz sentido Jennifer Lawrence estar em Passageiros. Feminista ferrenha, a estrela favorita do diretor David O. Russell topou participar de um filme cujas ideias contradizem tudo o que ela já defendeu sobre os direitos de escolha e igualidade da mulher. Para isso, precisamos fazer uma significativa alteração na sinopse: Passageiros é, na verdade, sobre um homem que, fadado a viver 90 anos sozinho em uma nave após ter acordado por acidente antes de seus outros 4.999 colegas, resolve despertar uma moça que acaba de se tornar sua mais nova paixão só de observá-la dormindo. Existem muitos absurdos nessa proposta. O primeiro deles é obviamente esse amor mal concebido do nosso “herói” por uma moça que ele passa a investigar obsessivamente através de vídeos disponíveis sobre ela no sistema da nave que viaja em piloto-automático sem nunca poder alterar sua rota. O segundo é ele considerar acordá-la com a justificativa de que precisa de companhia após quase um ano sozinho, quando, na verdade, tal decisão revela não uma necessidade de contato humano, mas sim uma necessidade de consumo: ele se apaixonou e quer essa mulher na sua vida de qualquer jeito. E, por fim, o terceiro é realmente despertá-la, condenando a moça não somente a morrer antes da nave chegar a um sonhado destino (afinal, são 90 anos em que eles precisam ficar na nave impossibilitados de voltar a dormir), mas também a conviver com ele sem saber que foi despertada para ser seu próximo par romântico. 

Sob o ponto de vista realmente correto (e contemporâneo), Passageiros contaria essa história questionando moralmente toda a situação. Já como está nos cinemas, o contexto é amplamente romantizado, comprovando que todas as outras fragilidades presentes no filme seriam mesmo inevitáveis para uma equipe que não percebe o problema de uma ideia já em suas linhas mais gerais. Dirigido sem qualquer personalidade por Morten Tyldum (não era de se esperar mesmo algo diferente de um diretor que vem do formalíssimo O Jogo da Imitação), Passageiros tem a esperteza de trazer dois grandes astros que, sim, em tese são os nomes apropriados para um filme dessa dimensão. Entretanto, era quase impossível imaginar que Chris Pratt (sem qualquer carisma depois de ter se transformado em um galã hollywoodiano de tanquinho bem definido) e Jennifer Lawrence (que tem se preservado depois de Jogos Vorazes e de sua temporada de indicações ao Oscar) não teriam química alguma em cena. Amigos na vida real, não existe qualquer chama entre os dois que possa de alguma forma compensar a equivocada proposta do roteiro de romantizar uma situação moralmente questionável. Com a ineficiência do trabalho de Pratt e Lawrence (individual ou em dupla), Passageiros passa a depender ainda mais de sua concepção estética e, claro, dos conflitos que estabelece em uma trama que se resume basicamente a um longo dueto. Novos poréns surgem na fórmula: não há muita imaginação no universo criado por Tyldum (e dizer que os efeitos visuais são bons é redundante, pois, no atual cenário tecnológico, isso não é menos do que a obrigação de uma ficção) e nem nas problematizações feitas na história, que frequentemente costuma se levar a sério.

Escrito por Jon Spaiths (autor da boa surpresa que foi o recente Doutor Estranho), Passageiros é um filme frágil em tudo o que estabelece narrativamente. Expositivo, faz com que Jim (Chris Pratt) diga sozinho e em voz alta coisas como “eu acordei 90 anos antes!”, verbalizando o que já havia sido compreendido pela plateia muitos minutos antes. Em termos de criar e resolver problemas, Spaiths não hesita em se utilizar das ferramentas mais fáceis possíveis, a exemplo da criação de uma máquina capaz de ressuscitar pessoas ou da rápida e gratuita aparição de um personagem cuja única função é desatar nós dramáticos (e o fato de ele ser interpretado por alguém da relevância de Laurence Fishburne só engana o espectador – no mau sentido – sobre as reais intenções do roteiro). Como bom alívio cômico, Michael Sheen é um dos saldos positivos de Passageiros ao dar vida a um robô que, infelizmente, também é sabotado pelo roteiro ao ser o responsável por inexplicavelmente revelar um segredo, como se, de repente, fosse uma máquina provida de algum senso moral e de justiça, o que não é muito bem explicado pelo filme. Quando o cinema recebe uma enxurrada cada vez maior de filmes passados no espaço (o trailer de outros dois – VidaO Espaço Entre Nós – foram exibidos na minha sessão), é saudável ter um balanço entre obras mais complexas como Gravidade e o recente A Chegada e outras mais descompromissadas. A questão é que, em qualquer um dos casos, representações, por mais rasteiras que possam parecer, importam porque introjetam ideias em milhões de plateias. E Passageiros, que dá a sua protagonista o nome de Aurora (fazendo uma assumida referência A Bela Adormecida), acredita, em pleno 2017, que é mesmo necessário um “príncipe encantado” para salvar uma mocinha e torná-la uma nova pessoa com o “amor”. Aí realmente não dá para perdoar.

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