Um Limite Entre Nós

Some people build fences to keep people out, and other people build fences to keep people in.

fencesposter

Direção: Denzel Washington

Roteiro: August Wilson, baseado na peça de teatro homônima e de autoria própria

Elenco: Denzel Washtington, Viola Davis, Stephen Henderson, Jovan Adepo, Russell Hornsby,  Mykelti Williamson, Saniyya Sidney, Christopher Mele, Lesley Boone,  Jason Silvis

Fences, EUA, 2016, Drama, 138 minutos

Sinopse: Baseado na aclamada e premiada peça teatral homônima. Um homem, que sonhava em se tornar um grande jogador de beisebol durante sua infância, acaba frustrado na vida como um catador de lixo. (Adoro Cinema)

Denzel Washington says his character, Troy, "thinks he can control death and the devil, and he finds out in the worst way that he can't." Washington stars alongside Viola Davis in Fences</em

De acordo com Denzel Washington, ele e Viola Davis se apresentaram 114 vezes nos palcos dos Estados Unidos com Um Limite Entre Nós. Revival da celebrada peça homônima de 1987 que chegou a vencer prêmios emblemáticos como o Tony e o Pullitzer, a nova versão estrelada pela dupla preservou o texto de August Wilson sem mexer uma vírgula sequer. O autor, falecido em 2005, era rígido quanto ao seu texto: antes de morrer, escrevia ele próprio uma adaptação cinematográfica, exigindo que, caso fosse de fato levada às telas, deveria ser assinada somente por um diretor afro-americano. Nada mais lógico, portanto, que Denzel Washington, profundo conhecedor do texto de Wilson, resolvesse comandar a primeira adaptação do espetáculo. As 114 apresentações contabilizadas por ele fizeram toda a diferença, pois, segundo Denzel, filmar Um Limite Entre Nós, depois de tantas experiências com a história nos palcos, foi mera questão de reajuste. Porém, se esse reajuste foi um facilitador para as questões de bastidores, o que recebemos do lado de cá da tela não deixa de ser frustrante, uma vez que o filme cai na clássica armadilha de se contentar em ser apenas um teatro filmado ao invés de construir uma identidade cinematográfica. Tanta proximidade simplesmente não fez bem ao projeto.

Considerando exemplos mais recentes, os dramas DúvidaÁlbum de Família também podem ser acusados do mesmo problema, mas de forma infinitamente menos prejudicial. Afinal, enquanto o primeiro transita por diversos pontos de uma grande escola católica para capturar o dia a a dia de professores, alunos, padres e freiras, o segundo, apesar de encenado exclusivamente em uma casa, conta com uma infinidade de personagens cujas relações se entrelaçam das formas mais diferentes possíveis. Já Um Limite Entre Nós não tem a configuração de nenhum dos dois, assemelhando-se mais ao que Roman Polanski fez em Deus da Carnificina (uma comparação bastante depreciativa, diga-se de passagem). Ou seja, na adaptação dirigida e estrelada por Denzel Washington, tudo se resume a um único ambiente com a ação concentrada em pouquíssimos personagens, sendo muitos deles figuras que estão apenas de passagem. A partir disso e com a ideia de manter tal e qual o texto escrito por August Wilson para o cinema, abre-se margem para cenas longuíssimas, diálogos verborrágicos, ritmo maçante e interpretações que, mesmo impactantes, estão muito mais para um palco de teatro do que para uma tela de cinema.

A proximidade de Denzel com o material surge como empecilho porque sua carreira como diretor não é lá muito expressiva (foram dois trabalhos antes desse: os medianos Voltando a ViverO Grande Debate), o que amplia a ideia de que, tratando-se de Um Limite Entre Nós, atuar é uma coisa e dirigir é outra. No entanto, o que falta nessa transição é mesmo estofo na direção para que a história ganhe contornos cinematográficos. Denzel não é lá muito criativo atrás das câmeras, aproveitando pouquíssimo do poder da tão fundamental mise-en-scène em adaptações teatrais e do próprio fluxo entre as cenas (é seca demais, por exemplo, a revelação de um segredo para a plateia e depois para o personagem que será abalada por ele). Isso faz com que Um Limite Entre Nós dependa ainda mais de seu texto, e é quase sempre nele que a maioria das adaptações cinematográficas de obras teatrais consegue ter alguma força. Não é diferente aqui, onde o autor August Wilson, ambientando muito bem a questão de ser um negro de origens humildes na racista sociedade estadunidense dos anos 1950, centraliza seus drama na influência da figura patriarcal e como ela reverbera por toda uma vida. E não qualquer patriarca: Troy Ryan, que acredita não ter obrigações de afeto com qualquer pessoa (nem mesmo com o filho) e que impõe sua autoridade como homem e pai até mesmo quando não é necessário.

Felizmente, a exemplo de Steve Jobs, Um Limite Entre Nós acerta ao ter um protagonista de difícil temperamento cercado por pessoas que clamam por sua humanidade. Isso é importante porque, se já é complicado acompanhar um teatro filmado (e de quase duas horas e meia!), a situação só piora com um protagonista difícil de gostar. São os demais personagens que tornam o retrato de Ryan complexo e interessante, afinal, essa é uma história sobre como sua presença forte e suas atitudes duras atingem os que estão a sua volta (não à toa, ele faria um ótimo par com a Violet Weston de Meryl Streep em Álbum de Família). É aí que Viola Davis, protagonista em tempo de cena, mas coadjuvante em função narrativa, emerge como o detalhe perfeito para balancear o clima quase sufocante que Troy constrói dentro de casa: emotiva e compreensiva, sua Rose não deixa de ser questionadora e combativa quando o marido ultrapassa certas barreiras. Viola, que a interpreta com a sua força habitual e natural, é grande junto a Denzel Washington, que, aí sim, mostra que a sua longa vivência com o projeto só incrementa uma excelência em atuação que ele já não precisa mais provar. Como filme de dupla, Um Limite Entre Nós é mesmo um show. Como obra de cinema em sua totalidade, desperdiça potenciais que muito provavelmente só seriam maximizados por um diretor que tivesse certa distância do projeto.

3 comentários em “Um Limite Entre Nós

  1. Pingback: Adeus, 2017! (e as melhores cenas do ano) | Cinema e Argumento

  2. Ainda não assisti a esse filme, mas imagino que o grande destaque de “Um Limite Entre Nós” seja mesmo as atuações de Denzel e de Viola.

    • Kamila, eles com certeza fazem valer o ingresso, já que “Um Limite Entre Nós” é, com o perdão do trocadilho, bastante limitado em termos de linguagem cinematográfica.

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