Os vencedores do Oscar 2017

violaoscarfinalQuem considera engraçada a situação envolvendo a leitura errada do vencedor de melhor filme certamente não compreende o quanto esse momento foi a coroação máxima da tragicidade da temporada de premiações de 2017. Em um ano que já havíamos comentado ser extremamente difícil do ponto de vista de discussões, onde cinéfilos fizeram da disputa uma arena onde filmes se digladiam como se tivessem nascido exatamente para isso, o equívoco só endossa o tom odioso das últimas semanas. Ver La La Land vencer para depois ter seu prêmio entregue para Moonlight foi algo muito trágico de se ver – e o que dizer, então, de quem vivenciou isso. Todos saem perdendo: independente de preferências, imaginem a frustração de quem subiu ao palco, estava prestes a terminar o discurso de vitória e de repente recebe um cochicho no ouvido de que aquele prêmio não foi entregue corretamente. Igualmente chata – e isso já foi declarado por Mahershala Ali, vencedor como melhor ator coadjuvante por Moonlight – é a situação da equipe do filme de Barry Jenkins, que precisou subir ao palco para comemorar uma vitória diante da desgraça alheia de outra equipe. Ali, coberto de razão, diz que não se sentiu à vontade para celebrar qualquer coisa diante daquela situação. 

O grande problema não está no erro em si, mas no tempo demorado para corrigir a situação. Afinal, se existe uma auditoria que, no backstage, tem em mãos o mesmo envelope que está sendo lido pelos apresentadores a fim de evitar qualquer tropeço, como demoraram tanto para barrar a vitória de La La Land, que, nesse meio tempo, se abraçou, subiu ao palco, pegou prêmio e ainda quase terminou um discurso? Houve também erro de Warren Beatty, que simplesmente não soube como agir quando percebeu que algo estava errado: qualquer vídeo que você assistir dá conta de mostrar o veterano visivelmente confuso com o resultado que tinha em mãos (ele ainda procura outro cartão dentro do envelope que esclarecesse sua dúvida), de Faye Dunaway olhando para ele com uma expressão de preocupação e de Beatty entregando a bomba a ela para depois sussurrar “está escrito Emma Stone”. Mais grave ainda, no entanto, é o fato de nenhum representante do Oscar ter tomado frente da situação, deixando a ingrata missão para os próprios vencedores de La La Land. Nem a auditoria, que já se desculpou publicamente pelo ocorrido, sabe como o envelope de melhor atriz foi parar nas mãos de Beaty (dizem que ainda estão investigando), o que desmonta ainda mais a credibilidade do prêmio.

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Toda a situação é lastimável porque a vitória de Moonlight nunca será lembrada antes da gafe. O mico foi o verdadeiro marco da 89ª edição do Oscar. Por mais que ainda restem dúvidas sobre o quanto o Oscar realmente abraça a diversidade com sinceridade, um filme como o de Barry Jenkins merecia uma lembrança mais emblemática do que essa que está fadado a ter. Primeira história de cunho LGBT a ganhar o prêmio principal da Academia, Moonlight pode até ser um filme estruturalmente imperfeito (já comentei várias vezes sobre como o terceiro ato me decepciona profundamente), mas tem qualidades inegáveis e é uma obra incrivelmente catártica para os tempos que vivemos. Quando digo que tenho minhas dúvidas sobre o quanto o Oscar realmente mudou é porque 12 Anos de Escravidão ganhou exatamente os mesmos prêmios de Moonlight – filme, roteiro adaptado e um de coadjuvante – e logo em seguida foi sucedido pelo ano do Oscar So White.

Mais do que isso: mesmo com a consagração do longa de Jenkins, o Oscar segue limitando os intérpretes negros a vitórias em categorias de coadjuvante e sem dar um prêmio de direção a um negro. Importante saber: o vencedor da categoria de melhor filme vem a partir de quem tem a melhor média de colocação no ranking de preferência que os votantes precisam fazer na hora de votar. Ou seja, de nada adianta La La Land ser o primeiro colocado em inúmeras listas se, em outras, aparece entre os últimos colocados. É mais benéfico para um filme, na categoria de melhor filme, estar em terceiro ou quatro lugar, mas de forma unânime na cédula da maioria dos votantes (eu próprio teria favorecido Moonlight, pois ele era o terceiro melhor na minha avaliação). Já o Oscar de de direção computa simplesmente quem recebeu mais votos. Ou seja, a vitória de Damien Chazelle por La La Land sugere mais sobre o Oscar do que estamos dispostos a admitir. A mudança poderia – e merecia – ser bem mais expressiva.

Em termos de distribuição de estatuetas, o Oscar preferiu seguir a tendência do BAFTA, que não deixou La La Land monopolizar os prêmios, fazendo suas escolhas de forma mais democrática. E, novamente, não podemos dizer que houve injustiças ali (até A Chegada foi lembrado)! É um saldo positivo, ainda que, particularmente, me entristeça Isabelle Huppert não ter vencido: poucas atrizes francesas tiveram uma trajetória tão promissora no Oscar por um filme tão atípico, o que, parando para pensar, já é por si só uma vitória tremenda. Jimmy Kimmel, que fez um bom trabalho como apresentador ao não ficar se enrolando em monólogos intermináveis e aparições infinitas, teve sacadas espertas e corajosas, como Twittar para Donald Trump em plena cerimônia e pedir para que Meryl Streep levantasse e recebesse o aplauso de uma plateia em pé, fazendo novamente uma clara provocação ao presidente estadunidense que, ao ser criticado por ela no Globo de Ouro, definiu a atriz como “superestimada”. Agora, um momento dessa cerimônia que precisa ficar mesmo marcado é a vitória de Viola Davis (merecida, por sinal), que fez um discurso emocionante e arrebatador sobre a honra que sente de fazer parte de uma profissão que tem o mágico dom de exumar corpos e dar protagonismo a histórias que, em vida, nunca foram contadas. Poucas vezes Viola esteve tão emocionada. E mal sabe ela que somos nós que recebemos o presente de vê-la consagrada. Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILMEMoonlight: Sob a Luz do Luar
MELHOR DIREÇÃO: Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações)

MELHOR ATRIZ: Emma Stone (La La Land: Cantando Estações)
MELHOR ATOR: Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Viola Davis (Um Limite Entre Nós)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALManchester à Beira-Mar
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Moonlight: Sob a Luz do Luar
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: O Apartamento (Irã)
MELHOR ANIMAÇÃOZootopia – Essa Cidade é o Bicho
MELHOR DOCUMENTÁRIOO.J.: Made in America
MELHOR FOTOGRAFIALa La Land: Cantando Estações
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃOLa La Land: Cantando Estações
MELHOR FIGURINOAnimais Fantásticos e Onde Habitam
MELHOR MONTAGEMAté o Último Homem
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “City of Stars” (La La Land: Cantando Estações)
MELHOR TRILHA SONORALa La Land: Cantando Estações
MELHOR MIXAGEM DE SOMAté o Último Homem
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: A Chegada
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Esquadrão Suicida
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Mogli: O Menino Lobo
MELHOR CURTA-METRAGEM: Sing
MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIOThe White Helmets
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃOPiper: Descobrindo o Mundo

Um comentário em “Os vencedores do Oscar 2017

  1. Infelizmente, o Oscar 2017 será lembrado pela gafe que o encerrou. Mas, acho que devemos celebrar o fato da Academia ter sido extremamente feliz na distribuição dos prêmios – apesar de “La La Land” ter recebido o maior número de prêmios. Mas, a sensação que eu tive foi a de que os votantes quiseram agradar a todos, nesse ano em que tivemos uma ótima safra de filmes indicados.

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