A falência narrativa da terceira temporada de “The Affair”

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A francesa Irène Jacob, musa do diretor Krzysztof Kieslowski em A Fraternidade é Vermelha, é uma das desperdiçadas aquisições da terceira temporada de The Affair.

Quando o criador de uma série anuncia que está abandonando um programa que ajudou a tornar realidade por diferenças criativas com a emissora é porque algo está muito, mas muito errado em todo o processo. É o que aconteceu com Hagai Levi em The Affair, uma das séries recentes mais célebres do canal Showtime, que, convenhamos, é especialista em arruinar boas ideias (e não há a trajetória mais desastrosa para ilustrar essa afirmação do que a de Dexter). A situação é lamentável porque, partindo de uma ideia altamente criativa – a de narrar um caso extraconjugal a partir das diferentes perspectivas dos envolvidos na história -, o programa segurou bem a peteca mesmo na segunda temporada, quando já havia solucionado o principal conflito de sua trama.

Com o passar do tempo, The Affair passou a se debruçar cada vez mais sobre a imperfeição de seus personagens, todos seres humanos confusos que mentem, traem e, principalmente, agem por impulso. O Globo de Ouro, única premiação que reconheceu o programa em sua primeira temporada com os prêmios de melhor série e atriz drama, seguiu comprando a ideia ao inclusive premiar merecidamente a coadjuvante Maura Tierney pelo segundo ano. Contudo, a terceira temporada, que terminou no fim de janeiro deste ano, cumpre o trágico destino de basicamente todas as séries concebidas pela Showtime – e nem o Globo de Ouro, que costuma ser fiel a séries que só ele celebra (Mozart in the Jungle é outro exemplo) pode defender o que o programa se tornou.

Saltando no tempo para mostrar a nova vida de todos os personagens após a prisão de um deles, o terceiro ano de The Affair já não sabe mais o que fazer com o quarteto principal e muito menos com novos coadjuvantes que entram para o elenco, como a francesa Irène Jacob, musa do cineasta Krzysztof Kieślowski em A Fraternidade é Vermelha, cujo desperdício é tão lamentável quanto o de Charlotte Rampling na última temporada de Dexter. Pior ainda é que, por não dar conta de criar conflitos realmente interessantes para seus personagens, o programa cai novamente na armadilha de apostar em um mistério com a intenção de colocar algum tipo de tempero à mistura.

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Quase irreconhecível, Brendan Fraser é outra adição da temporada, amargando a storyline mais desinteressante e ineficiente de toda a série até aqui.

Só que além do tom do suspense não casar com a série (algo que já deveriam ter aprendido com as temporadas passadas), a investida resulta em uma das narrações mais pobres e inexpressivas já criadas por The Affair, o que não tem nada a ver necessariamente com a resolução profundamente decepcionante ou com o fato de tal problemática dar destaque excessivo a Brendan Fraser, um ator sempre inexpressivo. A situação misteriosa dispersa o espectador em relação ao que realmente importa na discussão dos roteiristas: a influência mesmo negativa que Noah Solloway (Dominic West) causa em todos a sua volta. Ele é de fato um personagem que faz de tudo para que o espectador o deteste – e West continua tomando frente dessa proposta com competência -, mas as desculpas que o roteiro inventa para que Noah, de um jeito ou de outro, nunca saia da vida dos outros personagens são frequentemente esfarrapadas.

Por colocá-lo como protagonista cada vez mais absoluto de The Affair (Ruth Wilson, que dividia acirradamente o estrelado com ele, hoje é quase coadjuvante), todos os múltiplos olhares da drama acabam se virando para o personagem. Mesmo quando não está em cena, Noah é a pauta dos acontecimentos, o que se revela um tremendo obstáculo que os roteiristas criem conflitos que não sejam relacionados a ele. Tomem como exemplo Cole (Joshua Jackson), o ex-marido de Alison (Wilson), que não tem mais razão de estar na história e que encara a ingrata missão de contracenar com uma personagem estereotipada vivida por uma insossa Catalina Sandino Moreno. É uma storyline perfeitamente descartável que a série não sabe como incrementar ou até eliminar de vez.

Estruturalmente, as narrativas distintas perderam também sua criatividade: enquanto antes elas acusavam as diferentes percepções de cada personagem acerca de importantes situações (até mesmo penteados e figurinos oscilavam entre os capítulos, reforçando que, dependendo do contexto, o ser humano é mesmo propenso a interpretar contextos como bem entende), agora servem apenas para, em uma distribuição previsível, se encaixar na linearidade da trama como um todo. Tudo parece ter falido em The Affair, das interpretações à vontade da série de fazer algo realmente original. O próprio visual, mais soturno do que o habitual, dá um certo cansaço ao resultado que, não restam dúvidas, só comprovam que o criador Hagai Levi tomou a mais sábia das decisões ao se afastar do projeto. Assim como ele, corto meus laços com a série por aqui.

Um comentário em “A falência narrativa da terceira temporada de “The Affair”

  1. Não concordo, acho que a terceira temporada abordou de uma forma bem interessante as consequências do “Affair”, tanto do lado do Noah, quanto da Alison que percebe que cometeu um erro ao ter jogado no lixo o relacionamento que tinha com Cole. A nova esposa do Cole mostra o lado complicado de quem começa a se relacionar com uma pessoa que ainda ama outra. Cada personagem com sua importância.

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