Rapidamente: “A Estranha Passageira”, “Amores Urbanos”, “Minha Vida de Abobrinha” e “Toni Erdmann”

Distante das mulheres geniosas e de temperamento forte que tanto marcaram sua carreira, Bette Davis tem, em A Estranha Passageira, um de seus desempenhos mais camaleônicos.

A ESTRANHA PASSAGEIRA (Now, Voyager, 1942, de Irving Rapper): Com a estreia da minissérie Feud, que conta os bastidores das filmagens de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, longa de 1962 estrelado por Bette Davis e Joan Crawford, volta a vontade de rever ou vasculhar o que ainda não vimos da filmografia das duas atrizes. Foi justamente o programa de Ryan Murphy que me levou a continuar a missão de ver, pelo menos, todas as indicações de Bette ao Oscar (foram dez, ao total, todas como protagonista). Nessa jornada, cheguei recentemente ao longa A Estranha Passageira, que traz uma das interpretações mais camaleônicas dessa atriz marcada por quase sempre interpretar mulheres de gênio difícil, temperamento forte ou simplesmente de má índole. Definitivamente não é o caso do filme de Irving Rapper, onde Bette dá vida a Charlotte Vale, jovem que, rejeitada e massacrada pela mãe, nunca viveu sua própria vida, até o dia em que resolve se libertar das amarras familiares e se tornar a mulher que sempre quis ser. A transição de filha submissa que se porta quase como alguém da terceira idade para uma figura feminina elegante, autêntica e dona de seu próprio destino ganha tônica surpreendente nas mãos da atriz, compensando a duração excessiva do filme e arcos dramáticos perfeitamente melodramáticos ou conduzidos de forma óbvia até para a época (é imperdoável que a mãe da protagonista seja reduzida a uma pessoa apenas maquiavélica e desagradável). Bette, sem dúvida, garante o encantamento que falta ao filme como um todo. Aos brasileiros, uma curiosidade extra: é durante uma viagem ao Rio de Janeiro que Charlotte finalmente se descobre uma nova pessoa.  

AMORES URBANOS (idem, 2016, de Vera Egito): Não vou negar que, como um jovem de 25 anos, saí da sessão de Amores Urbanos com um gosto amargo na boca. E isso se deve exclusivamente ao retrato fidelíssimo que a diretora Vera Egito faz da juventude contemporânea. Em seu filme de estreia como diretora, ela se diferencia da infinidade de filmes sobre adolescentes ao pegar uma faixa etária muito mais madura (os protagonistas já estão na casa dos 30 anos) e ao utilizar, como o próprio título indica, a questão urbana como elemento fundamental para todas as questões emocionais do roteiro, escrito pela própria Vera. Habitantes de uma São Paulo efervescente em histórias e oportunidades, mas também intimidante e excludente por conta de seu tamanho gigantesco, Júlia (Maria Laura Nogueira), Diego (Thiago Pethit) e Micaela (Renata Gaspar) pouco sabem o que estão fazendo da vida, seja na forma um tanto confusa como as relações se configuram nos dias de hoje, na compreensão deles próprios sobre suas personalidades e nos impulsos ou na indefinição de uma vida profissional cobrada cada vez mais cedo pela sociedade. É no turbilhão de tentar conciliar tudo isso e de encontrar um ponto de equilíbrio entre o que queremos fazer e que os outros esperam de nós que Amores Urbanos se revela um filme dramaticamente antenado e relevante. Pode ser que, na forma, a história não se esquive de estereótipos para chegar a determinadas discussões, mas o filme tem um tino tão grande sobre a geração em questão que fica fácil relevar seus caminhos fáceis.  

MINHA VIDA DE ABOBRINHA (Ma Vie de Courgette, 2016, de Claude Barras): Como não lamentar o fato do Oscar de melhor animação estar sempre reservado para produções Disney/Pixar? A mais recente vítima dessa sistemática preguiçosa dos votantes da Academia é Minha Vida de Abobrinha, a animação mais sincera e delicada que você verá em muito tempo. Partindo de uma premissa corajosa para o gênero (os dias de um garoto que, após perder a mãe em um acidente causado por ele próprio, passa a viver em um orfanato), o filme de Claude Barras já prometia uma imensidão de sutilezas somente por ter como roteirista a francesa Céline Sciamma, que dirigiu, com muita dignidade e humanidade, o ótimo Tomboy. E ela não desaponta em Minha Vida de Abobrinha: tratando de forma muito discreta, mas nem por isso rasteira, a identidade das crianças que foram parar no orfanato (algumas por terem pais abusivos, outras simplesmente por terem sido rejeitados ao nascimento), Sciamma extrai beleza da inusitada circunstância desse garoto que aprende o significado do amor justamente em um lugar habitado por crianças que não sabem o que é tal sentimento. De forma objetiva, Minha Vida de Abobrinha, que não chega a ter 70 minutos de duração, constrói dramas sem qualquer previsibilidade, além de fazer graça não com situações criadas exclusivamente para balancear o drama ou fisgar os pequenos, mas com a própria personalidade das crianças, todos únicas em suas características. É uma experiência emocionante e altamente expressiva, dos personagens feitos com massinha à maneira como lida com assuntos dificílimos, como o abandono infantil e a depressão.

TONI ERDMANN (idem, 2016, de Maren Ade): Poucas vezes fiquei tão ansioso com a ideia de Hollywood refilmar um filme de língua não-inglesa. Isso porque a versão estrelada por e a pedido de Jack Nicholson para Toni Erdmann pode reparar aquele que considero o maior problema do filme de Maren Ade: a quantidade expressiva de excessos. Demasiadamente longo tanto na metragem em si quanto na forma como o filme prolonga muitas de suas sequências, Toni Erdmann, em contrapartida, acerta na pegada curiosa que adota para tratar sobre o difícil relacionamento entre pai e filha. Obviamente, por abraçar tanto a comédia, o filme dividiu opiniões: há quem ache o resultado genial, enquanto outros chegam a dizer que é puro constrangimento. À parte identificações com o material cômico, é preciso compreender que é somente através dos absurdos dessa vertente que um sujeito como Winfried (Peter Simonischek) poderia se reaproximar de Ines (Sandra Hüller), uma filha bastante linha dura e avessa a diálogos. A química entre os dois atores é fantástica e muito de Toni Erdmann se sustenta em função da dupla, o que só aumenta a sensação de que, caso tivesse, no mínimo, meia hora a menos, essa comédia alemã poderia brilhar ainda mais em suas qualidades e resultar menos exaustiva. Se o remake já acumularia expectativas por finalmente trazer Jack Nicholson de volta e por dar um grande papel que parece cair como uma luva para Kristen Wiig, particularmente fico mais ansioso pela possibilidade da releitura aparar muitas arestas do filme original.

4 comentários em “Rapidamente: “A Estranha Passageira”, “Amores Urbanos”, “Minha Vida de Abobrinha” e “Toni Erdmann”

  1. Não assisti a nenhum dos filmes resenhados, mas tenho curiosidade sobre “Toni Erdmann”, especialmente por causa do remake que Hollywood vai fazer.

    • Kamila, conforme comentei acima com o Hugo, acho que Hollywood tem sim a contribuir para a história de “Toni Erdmann”, especialmente com essa ótima escalação de Jack Nicholson e Kristen Wiig!

  2. Acho que “Toni Erdmann” vai ser um dos primeiros remakes necessário. O filme original parte de uma premissa ótima, mas, como você destacou, peca pelos excessos.

    • Hugo, acho que é a primeira vez que não fico desconfiado com um remake! Que bom que não sou o único a considerar o filme cheio de excessos…

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