Okja

And most importantly… They need to taste fucking good!

Direção: Bong Joon-ho

Roteiro: Bong Joon-ho e Jon Ronson, baseado em história de Bong Joon-ho

Elenco: Seo-Hyun Ahn, Tilda Swinton, Paul Dano, Jake Gyllenhaal, Giancarlo Esposito, Lily Collins, Byun Hee-Bong, Jungeun Lee, Steven Yeun, Shirley Henderson, Devon Bostick, Jose Carias

EUA/Coréia do Sul, 2017, Drama/Aventura, 118 minutos

Sinopse: Nova York, 2007. Lucy Mirando (Tilda Swinton), a CEO de uma poderosa empresa, apresenta ao mundo uma nova espécie animal que foi descoberta no Chile. Apelidada de “super porco”, ela é cuidada em laboratório e tem 26 animais enviados para países distintos, de forma que cada fazenda que o receba possa apresentá-lo à sua própria cultura local. A ideia é que os animais permaneçam espalhados ao redor do planeta por 10 anos, sendo que após este período participarão de um concurso que escolherá o melhor super porco. Uma década depois, a jovem Mija (Seo-Hyun Ahn) convive desde a infância com Okja, o super porco fêmea criado pelo avô. Prestes a perdê-la devido à proximidade do concurso, Mija decide lutar para ficar ao lado dela, custe o que custar. (Adoro Cinema)

Quando meio mundo resolveu alimentar a mal interpretada polêmica de que Okja, um filme produzido originalmente pela Netflix e sem lançamento previsto para as telas de cinema, talvez não devesse integrar a mostra competitiva no Festival de Cannes por não ser uma obra pensada para a tela grande, a atriz Tilda Swinton deu o argumento definitivo para encerrar qualquer discussão: nem todo filme que ganha as telas da Riviera Francesa durante o célebre evento chegam aos cinemas mundiais, o que, na realidade, deveria fazer com que o público fosse grato à Netflix por disponibilizar Okja menos de dois meses após a premiação de Cannes e ao alcance de um clique. Tilda está certíssima, mas prefiro levar a discussão também para o plano criativo: como espectador, é mais gratificante ver, nem que seja em casa, um filme onde o resultado final é fiel ao que foi idealizado no papel do que conferir, na sala de cinema, uma obra que, para ganhar distribuição de grandes dimensões, precisou ser transformada e reconfigurada por uma série de produtores mais preocupados em garantir a bilheteria do que dar vida a um projeto autoral. Por isso – e pelo argumento de Tilda, claro – é tão bom ver Okja levando o selo da Netflix, uma vez que, para viajar o mundo nas telonas, o filme do sul-coreano Bong Joon-ho certamente passaria por uma série de modificações que, sem dúvida, não foram solicitadas pela plataforma on demand.  

Com uma clara denúncia em pauta (às vezes até explícita e didática demais, diga-se de passagem), Okja reafirma o talento de Bong Joon-ho de criar alegorias para falar sobre temas muito próximos da realidade. É bem provável que o pouco visto Expresso do Amanhã tenha naufragado comercialmente justamente por essa proposta de negar o óbvio e de não fazer apenas o entretenimento pelo entretenimento. A situação se repete com Okja, que, entre as tantas coisas que traz à tona, a última é ser uma mera história de monstro. A reflexão que a história faz em cima do abate animal na indústria alimentícia norteia o roteiro escrito por Joon-ho em parceria com Jon Ronson, cujo maior mérito reside na escolha do ponto de partida para a comovente denúncia. Inteligentemente, Okja opta por dispensar uma leitura macro da indústria para propôr um olhar muito mais íntimo. Ao acompanhar tudo pelo percepção da pequena Mija (Seo-Hyun Ahn), é muito mais fácil e natural se afeiçoar aos personagens, em especial ao super porco que, no terço final da projeção, terá protagonismo fundamental. É isso o que compensa o claro problema estrutural do texto que, no irregular segundo ato, se dilui em discursos fáceis, caricaturas um tanto descontroladas (o que também se estende ao elenco) e cenas perfeitamente dispensáveis. 

Ao retomar a abordagem particular de sua protagonista e o quão fundamental é para ela salvar a vida do animal que lhe acompanha há tantos anos, Okja recupera a força emocional perdida em seu miolo. Aliás, ela só é ampliada na medida em que o filme se encaminha para os momentos derradeiros, já que a crítica em relação ao modo ostensivo como o mundo industrializado é impiedoso com os animais se torna muito mais comovente visto todo o laço emocional que criamos com os personagens. Do ponto de vista técnico, o longa é de uma eficiência envolvente e funcional: dos dias desbravando as montanhas da Coreia às eletrizantes perseguições em movimentadas rodovias dos Estados Unidos, Okja impressiona pela qualidade com que torna cada situação crível, sem que o super porco pareça artificial esteticamente ou incoerente com o mundo real. A fotografia de Darius Khondji, que já trabalhou com diretores do calibre de Woody Allen, David Fincher, Michael Haneke e Wong Kar-Wai, ainda cria com precisão o tom bucólico das montanhas coreanas ao passo em que rebusca a sujeira e a palidez de uma Nova York sem alma. Em seu melhor, Okja é uma contundente reflexão que poderá comover até o mais carnívoro dos espectadores. E, no final das contas, o fato do filme ter sido concebido ou não para a tela grande é o que menos interessa.

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