Rapidamente: “Laerte-se”, “Loving”, “Other People” e “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”

Disponível no catálogo da Netflix, Other People fez sua estreia no Festival de Sundance e chegou a vencer o Independent Spirit Awards de melhor atriz coadjuvante para Molly Shannon.

LAERTE-SE (idem, 2017, de Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva): É realizado quase de forma caseira esse documentário extremamente singelo que se engrandece, na verdade, em função de sua personagem, a cartunista Laerte. Colaboradora de importantes publicações brasileiras como Istoé, Folha de São Paulo e Estadão, Laerte, homem até então, colocou a transexualidade em pauta quando, no ano de 2004, assumiu a sua identidade feminina publicamente, tornando-se uma figura fundamental no ativismo desse tema que, até hoje, é tão renegado pela sociedade. O filme lança um olhar para o mundo particular de Laerte ao discutir desde os efeitos que a morte precoce do filho em um acidente de carro trouxe para sua vida a tudo o que observa e pensa em relação ao conturbado momento político do Brasil. Claro que o desabrochar público da identidade feminina e a própria homossexualidade de Laerte ocupam boa parte do documentário dirigido de forma muito jornalística por Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva, mas Laerte-se tem o mérito tornar a personagem uma figura próxima do espectador justamente por contemplá-la como um todo, e não pela mera curiosidade de sua identidade sexual. Afinal, Laerte tem muito mais a dizer: sensível, inteligente e de grande retidão de caráter, ela realmente é maior do que o próprio documentário (o primeiro produzido originalmente pela Netflix no Brasil), especialmente ao abrir mão de qualquer vaidade para (literalmente) se desnudar frente às câmeras.  

LOVING: UMA HISTÓRIA DE AMOR (Loving, 2016, de Jeff Nichols): O que o casal Richard (Joel Edgerton) e Mildred Loving (Ruth Negga) viveu nos anos 1960 foi realmente barra pesada: ele, branco, e ela, negra, travaram uma batalha legal contra o estado de Virginia, nos Estados Unidos, quando decidiram se casar. Naquela época, o casamento interracial era proibido por lei e, até conseguirem provar nos tribunais que tal lei era inconstitucional, sofreram perseguições diárias por todos os lados imagináveis. O material era riquíssimo para um filme impactante e grandioso, mas Loving: Uma História de Amor não está à altura do pioneirismo de seus personagens. É compreensível a decisão do diretor Jeff Nichols de comandar o relato com uma pegada mais branda, o que imediatamente o livra de qualquer estereótipo ou do risco de cair na tentação da panfletagem. No entanto, a baixa fervura não traz impacto ou emoção: toda e qualquer reflexão trazida por Loving vem da história em si e não necessariamente do filme que, arrastado e beirando o monótono, não consegue nem engrandecer o desempenho quase monocórdico de Ruth Negga, que, de última hora, chegou até a disputar o Oscar 2017 de melhor atriz. O relato é importante, o filme tem boas intenções e todo o projeto as trabalha com os conceitos certos, mas Nichols, ao contrário do que realizou em O Abrigo, jamais faz com que Loving, de alguma forma, maximize toda sua discrição e sobriedade. 

OTHER PEOPLE (idem, 2016, de Chris Kelly): A quantidade de conflitos dramáticos poderia facilmente fazer com que um diretor de mão pesada transformasse Other People em um verdadeiro dramalhão. Felizmente, com a experiência do diretor Chris Kelly como roteirista (até agora, já são seis indicações ao Emmy de roteiro pelo programa Saturday Night Live), esse filme que estreou no Festival de Sundance em 2016 jamais descamba para o melodrama. Ao invés disso, Other People trilha o caminho da sobriedade e da ideia de que, muitas vezes, a vida por si só já é o suficiente para ficção. Reproduzindo aquela que é melhor característica do cinema norte-americano independente (a capacidade de dosar, com muita refinação, o drama e a comédia), o filme não fala sobre câncer, homossexualidade, relacionamentos falidos e carreiras profissionais com qualquer desespero ou afetação, o que é uma sábia decisão. Parte fundamental desse acerto se amplia na personalidade do protagonista David (Jesse Plemons), um roteirista gay que, ao ter que voltar para casa com o objetivo de ajudar no tratamento da mãe enferma, se vê impossibilitado de falar sobre as próprias angústias com a família porque o pai não aceita a sua homossexualidade mesmo depois de nove anos e a mãe enfrenta um tipo raro de câncer. A emoção de Other People, seja ela relacionada ao drama ou à comédia, é muito bem regulada, especialmente em função do impecável elenco, cujo maior destaque é a ótima Molly Shannon, que brilha não somente por ser a personagem que faz quimioterapia ou raspa cabeça, mas por, assim como o filme em si, encontrar total força na delicadeza dos pequenos momentos. 

A VIDA IMORTAL DE HENRIETTA LACKS (The Immortal Life of Henrietta Lacks, 2017, de George C. Wolfe): Depois de uma superestimada aparição no péssimo O Mordomo da Casa Branca e de um pequeno papel em Selma: Uma Luta Pela Igualdade, Oprah Winfrey finalmente tem uma chance à altura de sua presença em A Vida Imortal de Henrietta Lacks, filme produzido pela HBO que, desde já, coloca Oprah entre as favoritas para conseguir uma vaga na disputada categoria do Emmy 2017 de melhor atriz em telefilme/minissérie. Ao contrário do que o título pode indicar, ela não interpreta Henrietta Lacks, mulher negra que, entre a década de 1940 e 1950 descobriu ter um tumor cervical cujas células produziam metástases anormalmente rápidas e se reproduziam infinitamente. Oprah, na verdade, dá vida à Deborah, filhe de Henrietta, que, buscando justiça pela mãe, cujas células foram usadas pela medicina no estudo pioneiro de doenças como a AIDS e a tuberculose sem consentimento algum, seja moral ou financeiro da família, é procurada por uma jornalista (Rose Byrne) que deseja fazer justiça à história de sua mãe através de um livro que está escrevendo. A história é verídica e, apesar de eventuais caricaturas e leituras muitos simplistas, retrata a vida de Henrietta pelo eficiente ponto de vista que adota: o da busca traçada por Deborah ao lado da jornalista. É a partir da palavra dos outros que descobrimos quem foi a personagem-título, o que se revela um relato muito mais carinhoso e respeitoso. É também o melhor momento de Oprah em anos, principalmente porque ela vence um desafio dificílimo: o de fugir de sua persona forte e marcante para criar uma personagem crível, que, apesar da total instabilidade emocional, conquista nossa torcida e até nos comove.

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