Divinas Divas

Elas nunca foram estranhas pra mim.

Direção: Leandra Leal

Roteiro: Carol Benjamin, Leandra Leal, Lucas Paraizo e Natara Ney

Elenco: Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Eloína dos Leopardos, Fujika de Halliday, Marquesa, Brigitte de Búzios 

Brasil, 2017, Documentário, 110 minutos

Sinopse: Rogéria, Valéria, Jane Di Castro, Camille K, Fujika de Holliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios formaram, na década de 1970, o grupo que testemunhou o auge de uma Cinelândia repleta de cinemas e teatros. O documentário acompanha o reencontro das artistas para a a montagem de um espetáculo, trazendo para a cena as histórias e memórias de uma geração que revolucionou o comportamento sexual e desafiou a moral de uma época. (Adoro Cinema)

Os debates envolvendo forma versus conteúdo normalmente são mais calorosos quando os documentários entram em pauta. Um grande personagem compensa uma direção tradicional? Uma narrativa mirabolante eleva às alturas uma fonte sem muito a dizer? Contudo, o que deveria realmente definir um documentário – e ser fator decisivo na hora de considerá-lo primoroso – é a coerência do olhar de um realizador para aquilo que está sendo colocando na tela. Com isso, você pode até dizer que Divinas Divas, trabalho de estreia da atriz Leandra Leal atrás das câmeras, remete tecnicamente às dimensões televisivas, mas jamais poderá questionar a plena compreensão emocional e histórica que ela tem das personagens que documenta. E por lançar um olhar respeitoso e humano para temas ainda tão espinhosos e figuras relegadas ao caricatural, ela faz com que Divinas Divas se torne uma obra profundamente comovente e necessária.

Partindo de um ponto de vista muito pessoal da diretora, que, por influências familiares, frequentava as coxias de teatro (e até subia aos palcos!) quando ainda era bebê, Divinas Divas, no entanto, está longe de ser uma obra que gira em torno do umbigo de sua realizadora. A generosidade de Leandra está em justamente abandonar vaidades para compreender que, apesar de sua conexão íntima com a história, esse não é um filme sobre ela e sim sobre oito artistas que aprendeu a admirar desde cedo, sem jamais ver estranheza na ideia de todos eles serem homens vestidos de mulheres. Essa sacada é importante porque já dá firmeza na própria concepção do projeto, que, aliás, quando coloca Leandra em cena através de narrações em off, o faz apenas para trazer contextualizações históricas ou para ampliar a percepção dramática do espectador em relação ao valor artístico e o legado emocional que as artistas retratadas deixaram para toda uma geração. 

Há também grandes desafios estruturais vencidos por Divinas Divas, como o de contemplar todas as figuras em cena sem confundir o espectador ou torná-las superficiais. Pelo talento de Leandra como contadora de histórias e pela forte personalidade do grupo reunido, isso jamais acontece: o filme, além de extremamente disciplinado em sua estrutura (mérito também da eficiente montagem de Natara Ney), distingue muito bem as personagens em cena – e ainda deixa o espectador sempre curioso para ouvir muito mais delas. Como filme coral, funciona que é uma beleza, inclusive porque a multiplicidade de olhares é a bola da vez: entre as protagonistas, tem a que foi internada pela família quando começou a se vestir de mulher, outra que está casada há mais de 40 anos, uma que tem o maior orgulho de não querer se casar com homem nenhum e até a que já está cansada de se vestir mulher e se caracteriza apenas para os palcos. Tem história para dar e vender.

A humanidade não escapa em nenhum dos prazerosos 110 minutos de Divinas Divas, o que está diretamente associado ao olhar certeiro da diretora citado no início desse texto. Normalmente tratadas como alívios cômicos ou meras caricaturas, as travestis aqui são vistas sob a luz do plano artístico. Elas cantam, dançam, interpretam, pensam figurinos, ensaiam coreografias, fazem sua própria maquiagem… Por que isso não há de ser reconhecido como arte? E por que hoje, com tanta liberdade artística e de expressão, ser quem elas realmente são se revela tão mais difícil do que antigamente? É tocante a cena em que uma das personagens defende, sem qualquer prurido, a prostituição como forma de sobrevivência porque basicamente não há alternativa de sustentação financeira para essa parcela da população que misteriosamente recebe cada menos prestígio como classe artística – e tampouco são é com normalidade para empregos perfeitamente corriqueiros. 

O que talvez seja mais bonito em Divinas Divas é o fato do documentário registrar a história, as conquistas, os sonhos e as frustrações de pessoas que assumiram sua identidade feminina e agora chegam à terceira idade com os dilemas de qualquer ser humano. Muitas delas estão mais jovens do que nunca, enquanto outras já estão com a idade estampada no corpo e no espírito. Se quando jovens a vida já era difícil para elas, o que acontece, então, quando chegam a esse ponto da existência? A sociedade é mais justa ou mais dura com elas? É apenas uma entre várias reflexões propostas pelo filme, que, com a dignidade que retrata figuras tão incríveis, faz com que instantaneamente o espectador enxergue e respeite cada uma delas com a maior naturalidade do mundo. Assim como deveria ser na própria vida.

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