O som das trilhas

É APENAS O FIM DO MUNDO, por Gabriel Yared: Conhecido pela compilação de músicas  para seus filmes (Mommy era irresistível com uma coletânea que ia de Beck a Lana Del Rey, passando por Vivaldi, Andrea Bocelli e Simple Plan), o diretor Xavier Dolan preferiu seguir um caminho diferente em É Apenas o Fim do Mundo: dessa vez, a atmosfera musical fica muito mais a cargo de uma trilha instrumental do que de canções selecionadas especialmente para o filme. Quem recebe a missão é o experiente compositor libanês Gabriel Yared (O Talentoso RipleyA Vida dos OutrosCold Mountain), que entrega, como de costume, um trabalho elegante e funcional. Por outro lado, curiosamente, Yared procura o minimalismo musical em uma história quase sempre contada de forma hiperbólica pela direção e pelas atuações. Não deixe de ouvirAprès Toutes Ces Années-làLouis et Catherine e Louis et Antoine.
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ELLE, por Anne Dudley: Reflexo de uma deficiência que atinge o cinema como um todo, a ausência de mulheres na assinatura de trilhas sonoras é realmente lamentável. Entretanto, se dermos um pulinho na Europa, de vez em quando encontramos talentos como Anne Dudley, que já acumula mais de 20 trilhas no currículo e que recentemente apresentou um de seus momentos mais marcantes no excelente Elle. Com 17 faixas que exploram basicamente diferentes variações de instrumentos de corda, Dudley cria uma perfeita atmosfera de thriller, transitando entre a discrição e o alto som do suspense. É um resultado envolvente para um gênero que não costuma ser muito criativo nesse quesito e que aqui ganha excelente roupagem em mãos femininas. Não deixe de ouvirMain TitlesPrimal ScreamIt Was Necessary.
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FEUD: BETTE AND JOAN, por Mac Quayle: Frequente colaborador de Ryan Murphy em programas como American Horror Story e The People v. O.J. Simpson: American Crime Story, Mac Quayle volta a unir forças com o realizador na antologia Feud: Bette and Joan. Em 2016, Quayle levou o Emmy pela inventiva trilha da primeira temporada de Mr. Robot e é uma pena que não tenha levado este ano uma segunda estatueta por Feud. De melodias marcantes que contemplam tanto a era de ouro de Hollywood como o próprio drama pessoal de duas atrizes do calibre Bette Davis e Joan Crawford, a trilha de Feud é uma pérola por homenagear um período marcante da indústria hollywoodiana sem cair no comodismo da mera reprodução de estilo. Não deixem de ouvirThis Awful Silence, Feud: Bette and Joan (Main Titles) e Feud: Bette and Joan (Epilogue).
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FRAGMENTADO, por West Dylan Thordson: O desafio parecia impossível – não sentir falta de James Newton Howard, compositor que permaneceu firme e forte com o cineasta indiano M. Night Shyamalan mesmo nos tempos difíceis de A Dama na ÁguaO Último Mestre do ArDepois da Terra -, mas West Dylan Thordson, em seu primeiro grande momento no cinema, compensou a ausência. Elemento fundamental para a inegável tensão de Fragmentado, longa que pontua a recuperação de Shyamalan após uma sucessão de desastres, a trilha sonora idealizada por Thordson tem um ritmo invejável, além de uma personalidade marcante, alcançando o feito de nos remontar aos primeiros filmes do diretor, onde a música exercia pleno destaque na construção do suspense. Não deixe de ouvirA Way OutI Know You Want to Tell Me SomethingRejoice.
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JACKIE, por Mica Levi: Pode até ser que minha relação com Jackie seja extremamente problemática, mas não reconhecer a excelência da parte técnica é realmente coisa de maluco. E a trilha sonora de Mica Levi – ou simplesmente Micachu – imediatamente se destaca como um dos elementos que mais contribuem para a narrativa proposta pelo chileno Pablo Larraín em parceria  com o roteirista Noah Oppenheim. Anteriormente festejada pela crítica por seu trabalho em Sob a Pele, Mica ignora caminhos fáceis para criar uma trilha sonora devidamente atípica e incômoda, o que vai diretamente ao encontro da complicada situação vivida pela protagonista. É um álbum relativamente curto, mas que carrega uma qualidade rara: a de ser sempre imprevisível. Não deixe de ouvir: ChildrenVanityBurial.
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LION: UMA JORNADA PARA CASA, por Dustin O’Halloran & Hauschka: Se Lion frequentemente escorrega no melodrama, o mesmo não pode ser dito sobre a trilha sonora. Na verdade, é até tocante e admirável como a dupla Dustin O’Halloran e Hauschka traduz e complementa todo o drama verídico em que o longa é baseado. Segura, a trilha acerta mesmo no constante uso do piano, escolha que costuma simplificar as emoções de histórias motivacionais como a contada no filme de Garth Davis. Nada no conjunto musical de Lion resulta genérico ou enjoativo, muito pelo contrário: você não estará sozinho se perceber que a trilha terminou em um piscar de olhos e que, aqui ou ali, a emoção bateu. De quebra, ainda tem Sia com a ótima Never Give Up, escrita especialmente para o longa. Não deixe de ouvirLion Theme, TrainLayers Expanding Time.
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MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR, por Nicholas Britell: Moonlight é um filme incompleto em função de um terceiro ato altamente frustrante, mas o mesmo não pode ser dito da trilha sonora de Nicholas Britell, que exerce um efeito hipnotizante do início ao fim. Isso acontece porque Britell compreende perfeitamente o poder dos instrumentos tanto para faixas inegavelmente ambiciosas quanto para melodias que surgem cortantes não pela imponência, mas pela extrema delicadeza. Existe uma unidade muito sólida aqui, onde muitas das faixas se parecem, mas jamais soam redundantes ou repetitivas. É trilha de gente grande porque se dedica a construir um arco também através da música, como se ela tivesse o seu próprio ciclo. Não deixe de ouvir: Little’s ThemeThe Middle of the World The Culmination.
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THE LEFTOVERS (SEASONS 2 & 3), por Max Richter: Mais do que um grande drama, The Leftovers entra para a história como uma das séries mais transgressoras e afiadas, o que certamente se estende ao trabalho técnico. E Max Richter, que sempre foi grande compositor (é dele a dolorosa composição On the Nature of Daylight, que abre e encerra A Chegada), embarcou no alto nível do programa criado por Damon Lindelof e Tom Perrotta. Enquanto a primeira temporada serviu como terreno para a criação de temas que pontuariam personagens e situações, os dois anos seguintes exploraram, com criatividade, emoção e sensibilidade, as variações dos temas criados lá no início da série. É o caso raríssimo de uma trilha que esmiúça, em cada composição, o poder potente dessa ferramenta em uma narrativa seriada. Simplesmente inesquecível. Não deixe de ouvirThe Quality of MercyAnd Know the Place for the First TimeThat Solitary Moment Together.
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THE YOUNG POPE, por Lele Marchitelli: É inacreditável como todas as premiações conseguiram ignorar The Young Pope, facilmente uma das melhores séries exibidas nos últimos anos. Era obrigação do Emmy deveria ter dado, ao menos, uma enxurrada de indicações para a embasbacante parte técnica, que, sem dúvida, inclui a excelente trilha sonora assinada por Lele Marchitelli. Fugindo do óbvio ao ignorar as esperadas melodias religiosas, as criações musicais de The Young Pope marcam pela sutileza e pela total atenção aos personagens, apostando muito mais em traduzir universos particulares do que na grandiosidade de uma história passada no imponente mundo católico do Vaticano. Fora isso, o álbum traz ainda uma empolgante coletânea com músicas mundialmente famosas mas que aqui ganham novos tons ou sentidos, como I’m Sexy and I Know It, do grupo LMFAO, e Halo, da Beyoncé. Não deixe de ouvirCardinalsDussolierSister Mary.

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