Mãe!

Am I gonna lose you?

Direção: Darren Aronofsky

Roteiro: Darren Aronofsky

Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Domhnall Gleeson, Brian Gleeson, Jovan Adepo, Amanda Chiu, Patricia Summersett, Eric Davis, Raphael Grosz-Harvey, Emily Hampshire

Mother!, EUA, 2017, Drama/Suspense, 121 minutos

Sinopse: Um casal vive em um imenso casarão no campo. Enquanto a jovem esposa (Jennifer Lawrence) passa os dias restaurando o lugar, afetado por um incêndio no passado, o marido mais velho (Javier Bardem) tenta desesperadamente recuperar a inspiração para voltar a escrever os poemas que o tornaram famoso. Os dias pacíficos se transformam com a chegada de uma série de visitantes que se impõem à rotina do casal e escondem suas verdadeiras intenções. (Adoro Cinema)

É bem verdade que o diretor Darren Aronofsky tinha um crédito imenso, seja por reputação ou até mesmo por êxito financeiro (Noé faturou mundialmente quase três vezes o valor de um pesado orçamento de 125 milhões de dólares), mas não deixa de ser uma surpresa constatar o fervor com que a Paramount comprou e apostou na distribuição de Mãe!, facilmente o longa-metragem mais difícil e transgressor de um cineasta cuja carreira sempre foi marcada por produções de propostas diferenciadas. É uma surpresa porque, apesar do apelo cult de Aronofsky (como não confiar no diretor de Cisne NegroRéquiem Para Um Sonho?) e da força de um elenco encabeçado pela estrela Jennifer Lawerce e pelo espanhol Javier Bardem, dificilmente algum estúdio da dimensão da Paramount apostaria tanto as fichas em um filme que não se assemelha a nada já que tenha sido feito, o que, costumo dizer, é o maior elogio que uma obra pode receber. O curioso da situação toda, no entanto, é que Mãe! não se garantiu nem com o público que supostamente poderia compensar a carreira comercial fadada ao fracasso: a crítica, que, entre tantas hipérboles usadas para intensificar de forma máxima o descontentamento com a experiência e acumular acessos, likesviews, já o classificou como “o pior filme do século”.

A rejeição impiedosa mundo afora me leva a retomar uma questão que já havia levantado na crítica de Personal Shopper, outro longa misteriosamente enxotado desde a sua primeira exibição no Festival de Cannes. Afinal, teriam os críticos em si a maturidade e a capacidade de transgredir que ela tanto exige do cinema? É uma perspectiva muito particular deste escriba que vos fala, mas fica realmente difícil entender as razões que levam Personal Shopper e, agora, Mãe! a serem amplamente detestados se eles entregam justamente narrativas diferenciadas, propostas atípicas e provocações que clamamos em metade dos longas exibidas anualmente nas mais diversas plataformas. Possivelmente o grande evento cinematográfico de 2017 no sentido de causar discussões e reflexões, Mãe!, que Aronofsky diz ter escrito o primeiro rascunho de roteiro em meros cinco dias, foi indiscutivelmente gestado como um projeto para mexer com os nervos da plateia. E, se o diretor já fazia isso em praticamente todas as suas obras anteriores, aqui ele o faz elevado à décima potência, deixando ainda mais tênue a linha que separa o real da metáfora e do plano interpretativo.

Novamente trazendo à tona uma personagem que está em busca de algum tipo de realização, Mãe! começa como um suspense de mecanismo aparentemente identificável – e não há dúvidas de que o diretor, como em seus outros trabalhos, filma a tensão como ninguém, o que é consequência direta de capturar a história toda do ponto de vista da protagonista – para, aos poucos, sem qualquer pontuação perceptível, chegar às parábolas, às metáforas. É fundamental perceber esse movimento e regular a forma de encarar a história porque, caso contrário, a totalidade do longa pode parecer a coisa mais absurda e sem nexo já feita na vida. Ao invés de procurar lógica e respostas para os fatos de Mãe!, é preciso interpretá-los, o que não é uma tarefa complicada e não significa apenas se atentar às claras referências e representações bíblicas que Aronofsky propõe (e que parecem ter se tornado uma paixão sua depois do esquecível Noé). Sem entregar spoilers, o que existe de mais marcante é forma como ele interpreta, através de alegorias, as dificuldades cotidianas de ser mulher: em Mãe!, estamos falando de uma protagonista que grita e jamais é ouvida, que se violenta emocionalmente ao nunca se sentir suficiente perante um homem e que perde qualquer resquício de amor próprio ao se agarrar à ideia de que, fazendo todas as vontades do marido, será, de alguma forma, finalmente recompensada (o que nunca acontece).

Ao registrar o lado negro de um distorcido amor incondicional, Mãe! não poupa no trabalho físico de seus atores e, especialmente, ao final do último ato, no discurso por vezes explícito para mostrar que, independente do que aconteça, a sociedade historicamente condena sempre a mulher e nunca o homem. Um universo inteiro é sugado para dentro da casa dos protagonistas, cuja falta de comunicação se revela a maior de todas as tragédias. Mesmo em movimentos banais, Mãe! é um belíssimo exercício cinematográfico: para além da questão temática, observem como a trama cresce em tensão mesmo em momentos onde a protagonista sem nome apenas percorre o imenso casarão onde vive, como se, em cada cômodo, pudesse acontecer alguma coisa a qualquer momento. Com a câmera constantemente acompanhando a protagonista de perto, quem sai ganhando é, claro, Jennifer Lawrence, atriz extremamente prejudicada pela superexposição de sua figura nos últimos anos (incluindo o excesso de indicações ao Oscar) e que aqui exibe uma força única, além de uma inteligência admirável ao construir, em baixa fervura, uma mulher de voz mansa e amena, reproduzindo a total falta de influência da personagem em um ambiente que, ironicamente, ela tanto domina em tarefas domésticas. É um desafio que deve ter exigido muito da jovem atriz e que ela articula com escolhas vitoriosas.

Tratando-se das aparentes fragilidades de Mãe!, elas são plenamente justificadas pelo roteiro: se Jennifer Lawrence e Javier Bardem não são exatamente a escalação perfeita como casal, logo o texto já brinca com isso ao fazer com que o personagem também sem nome de Ed Harris diga que eles mais parecem pai e filha do que marido e mulher ou ao colocar a protagonista na parede quando a visitante interpretada por Michelle Pfeiffer questiona a diferença de identidade entre o casal, com direito até a deduzir que a vida sexual dos dois é problemática. De escala e temática ambiciosas, Mãe! confunde de forma proposital e pisa no acelerador em diversos momentos para intensificar suas alegorias. Polêmicos, os momentos derradeiros podem ser interpretados como o auge sádico de uma via crucis, mas, dependendo do ponto de vista, são muito mais de cortar o coração do que qualquer outra coisa. Pode até ser que Mãe! não verse, discute ou esmiúce as interpretações que suscite, mas aí segue outra provocação de Aronofsky: será que o cinema precisa mesmo percorrer todo o processo? O espectador não tem parte nesse ciclo para que o filme se complete? É preciso sempre trazer respostas e tomar lados? Em carta aberta ao diretor postada no Facebook, a renomada artista Marina Abramović defendeu Mãe!, dizendo que o filme foi pobremente avaliado pela crítica e que, caso a atual geração o compreenda, a próxima certamente irá. Tomara que ela esteja certa. Afinal, vale sempre lembrar: não existe maior prêmio do que o tempo.

Um comentário em “Mãe!

  1. Acho que Aronofsky foi totalmente intencional com “mãe!”. Ele queria que o filme causasse barulho e encontrasse sentido nas interpretações que a plateia fosse fazer da obra. Mesmo assim, eu confesso que me decepcionei um pouco, pois acho que o longa perde muito o caminho no decorrer de sua duração, perdendo por completo o nexo. Uma pena! Mas, mesmo assim, admiro a coragem de Aronofsky em fazer o diferente, numa época em que o cinema anda muito sem inovações criativas!

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