Roda Gigante

When it comes to love, we often turn out to be our worst enemy.

Direção: Woody Allen

Roteiro: Woody Allen

Elenco: Kate Winslet, Justin Timberlake, Jim Belushi, Juno Temple, Jack Gore, Max Casella, David Krumholtz, Tony Sirico, Steve Schirripa, Robert C. Kirk, John Doumanian, Tom Guiry

Wonder Wheel, EUA, 2017, Drama, 101 minutos

Sinopse: A atriz Ginny (Kate Winslet), casada com Humpty (James Belushi), acaba se apaixonando pelo salva-vidas Mickey (Justin Timberlake). Mas quando sua enteada, Carolina (Juno Temple), também cai de amores pelo rei da praia, as duas começam uma forte concorrência. (Adoro Cinema)

Plataforma on demand que compete diretamente com a gigante Netflix, a Amazon vem trilhando um caminho diferente de sua concorrente ao apostar em uma estratégia de auto-promoção menos expansiva e em projetos menos comerciais assinados por realizadores conceituados do ponto de vista artístico, especialmente no âmbito cinematográfico. O mais recente êxito da Amazon foi seu voto de confiança para a produção de Manchester à Beira-Mar, magnífico filme de Kenneth Lonergan, indicado a seis Oscars e vencedor de dois (melhor ator para Casey Affleck e melhor roteiro para o próprio Lonergan). Mostrando que não está para brincadeira, a Amazon, ainda em 2015, também trouxe Woody Allen para o seu time, jogada que logo se revelou pouco frutífera: o desastroso seriado Crisis in Six Scenes não foi visto por ninguém e o próprio cineasta faz questão de dizer aos quatro ventos, com toda razão, que a experiência no formato foi mesmo catastrófica.

Agora, chegamos ao drama Roda Gigante, onde a Amazon se enroscou em um problema que ultrapassa as fronteiras artísticas: descortinados os casos de assédios sexuais em Hollywood, o interesse pelo filme se dissipou, e Allen, que tem um longo, nebuloso e problemático passado envolvendo o tema abuso sexual, viu sua mais recente obra ser boicotada mundo afora, reflexo também das lamentáveis e recentes declarações onde “alertava” sobre o início de uma possível temporada de caça às bruxas contra os homens em Hollywood, como se, de repente, eles agora fossem pobres coitados na história toda. A contextualização é importante porque nos leva à acertada estratégia de promoção da Amazon para Roda Gigante na temporada de premiações: nas peças publicitárias e nos famosos screeners enviados aos votantes, o nome de Woody Allen foi excluído de qualquer item da lista “for your consideration”, onde cada estúdio elenca quais aspectos do filme merecem ser lembrados pelos votantes na hora de escolher seus favoritos do ano. A medida da Amazon é justíssima porque é uma injustiça descomunal condenar ao esquecimento centenas de pessoas envolvidas em um filme por conta de polêmicas envolvendo apenas uma delas. E, na jornada contra Roda Gigante, há, pelo menos, dois grandes injustiçados que serão pontuados mais adiante nesse texto.

Tematicamente, o drama estrelado por Kate Winslet é mais um relato requentado de Woody Allen (como se isso fosse novidade em boa parte de sua carreira), mas o diretor estabelece uma espécie de diálogo entre o longa de agora e o celebrado Blue Jasmine, que é indiscutivelmente a fonte de material para sua mais nova obra. Se, em ambos os filmes, acompanhamos protagonistas femininas à beira de um ataque de nervos e afundadas em tragédias pessoais, uma diferencia crucial as separa: enquanto a Jasmine de Cate Blanchett escolhia viver em uma realidade paralela para acreditar que o universo conspirava contra cada movimento da sua vida, a Ginny de Kate Winslet assume, inclusive verbalmente, que muitas de suas tragédias foram causadas por ela própria — e o que ela (não) faz em relação a isso é o que dá a tônica ao longa, que se sai muito melhor como um estudo de personagem do que como o relato de um quadrilátero amoroso.

É melhor encarar Roda Gigante sob o prisma de sua protagonista porque, em termos práticos, o roteiro escrito por Woody Allen não apresenta desdobramentos tão interessantes quanto a personagem que radiografa. Por sinal, surpreende como alguns artifícios tenham chegado à versão final do roteiro, com destaque para a escolha de usar Mickey (Justin Timberlake) como narrador da trama. Há gracejo na opção, mas ela liquida com uma possibilidade mais instigante: a de Mickey ser trabalhado na dubiedade, algo que traria maior consistência a sentimentos e pensamentos mastigados demais por esse contador de histórias. Sendo assim, no turbilhão em que vive Ginny – casamento infeliz, trabalho desgastante, carreira frustrada como atriz, filho problemático – conta menos o que acontece a ela e mais os detalhes de cada personagem, inclusive dos coadjuvantes, como a construção de Carolina (Juno Temple), a enteada de Ginny, que, em tantas outras obras, seria a jovem sedutora que vem para competir com a madrasta (aqui, felizmente, ela ela não passa de uma boa moça que deseja colocar a vida nos eixos).

Sem grandes criações, Roga Gigante, em contraste, se alça ao status de filme mais relevante de Woody Allen desde Blue Jasmine graças ao desempenho sensacional de Kate Winslet, que conjuga técnica e emoção ao abraçar uma riqueza de protagonismo que, ao mesmo, tempo lhe é tão merecida, mas lhe é tão negada em sua carreira recente. No quase-monólogo que norteia a cena final de Kate com Justin Timberlake (bom galã, ainda que ator irregular), ela ganha força extra, em um daqueles momentos que entram para os mais marcantes de sua filmografia. Posto isso, é injusto que escanteiem Roda Gigante ignorando um desempenho especial como esse que, em outro recorte de tempo, seria celebrado por tudo quanto é tipo de premiação, bem como a estonteante fotografia de Vittorio Storaro, que trabalha com inteligência as oscilantes luzes de um parque de diversões para registrar as transições emocionais dos personagens. Storaro e Winslet formam a dupla que não merece pagar pelo boicote ao filme (se você se importa com métricas, Roda Gigante é o filme de Woody Allen com pior avaliação no Rotten Tomatoes), inclusive porque o que mais fica com o espectador depois da sessão é a qualidade ímpar do que cada um realiza. E de tudo que você pode falar do longa, nada depreciativo deve ser relacionado a eles.

Um comentário em “Roda Gigante

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