O Rei do Show

You clearly have a flair for show business.

Direção: Michael Gracey

Roteiro: Bill Condon e Jenny Bicks

Elenco: Hugh Jackman, Zac Efron, Michelle Williams, Zendaya, Rebecca Ferguson, Austyn Johnson, Cameron Seely, Keala Settle, Sam Humphrey, Yahya Abdul-Mateen II, Eric Anderson, Ellis Rubin

The Greatest Showman, EUA, 2017, Musical, 105 minutos

Sinopse: De origem humilde e desde a infância sonhando com um mundo mágico, P.T. Barnum (Hugh Jackman) desafia as barreiras sociais se casando com a filha do patrão do pai e dá o pontapé inicial na realização de seu maior desejo abrindo uma espécie de museu de curiosidades. O empreendimento fracassa, mas ele logo vislumbra uma ousada saída: produzir um grande show estrelado por freaks, fraudes, bizarrices e rejeitados de todos os tipos. (Adoro Cinema)

Uma das coisas mais fascinantes de ser um cinéfilo nas primeiras décadas do século XXI é ver como o cinema deu um salto sem precedentes em termos de possibilidades estéticas e narrativas. Das evoluções técnicas resultantes de descobertas tecnológicas às narrativas cada vez mais livres que descortinam histórias e personagens antes renegados ou preteridos pelas artes, a chamada sétima arte nunca produziu tanto, de forma tão plural e, dadas as proporções, com tamanha destreza. O curioso é que, na contramão, filmes como O Rei do Show nos lembra que, em certos casos, a evolução não é um processo geral e que, em tratando-se da solidez e dos conceitos de um filme, a sala de cinema ainda pode proporcionar espetáculos vazios e a artificiais.

Indicado sem surpresa alguma a três categorias do Globo de Ouro no segmento comédia/musical (melhor filme, melhor ator para Hugh Jackman e melhor canção para “This is Me”), O Rei do Show idealiza e distorce a história verídica de P.T. Barnum, empresário norte-americano que, logo no início do século XIX, tornou-se o primeiro milionário do ramo do entretenimento com um trabalho pioneiro no circo. Só que fazer ajustes em uma adaptação é uma coisa, trapacear é outra: O Rei do Show idealiza Barnum como um pai de família caridoso e filantrópico, quando, na verdade, uma rápida pesquisa virtual ou bibliográfica já dá conta de revelar que ele nada mais era do que um verdadeiro “príncipe das falcatruas”, capaz de inventar todo tipo de mentira sobre suas atrações apenas para atrair público e encher o bolso.

A intenção do desonesto reajuste para endeusar Barnum tem um propósito muito claro no roteiro assinado por Bill Condon e Jenny Bricks: criar uma história emocionante e edificante para guiar um musical colorido, alegre, movimentado e, no final das contas, muito mais comercial do que artístico, considerando o sentido pejorativo que essa expressão acarreta. Ainda assim, nem no reajuste a história é firme, pois O Rei do Show é o tipo de filme que prioriza fatos e surpresas acima de qualquer construção dramática, o que faz com que mudanças repentinas (e mal explicadas) de personalidade dos personagens sirvam de base para conflitos rasteiros, como quando o protagonista impede que seus amigos “estranhos” do circo participem de uma importante festa na cidade.

Criando e resolvendo problemas com a maior facilidade e agilidade do mundo, O Rei do Show não expande qualquer dimensão de outro personagem além de Barnum, que, ainda assim, sequer chega perto da dubiedade e das oscilações entre bondade e mau caratismo de Elsa Mars, protagonista da quarta temporada de American Horror Story: Freak Show que, vivida brilhantemente por Jessica Lange, também era uma entertainer cujo ganha-pão era explorar “aberrações” em um circo. Nada mais do que um homem bondoso que vence na vida, Barnum ganha energia nas mãos de Hugh Jackman, ator que não precisa mais provar sua desenvoltura como cantor e dançarino, mas, que, no geral, tem pouquíssimo material dramático para trabalhar, restringindo-se a olhar tudo somente com cara de maravilhamento ou tristeza.

Quando o próprio protagonista não tem estofo, o que resta para os coadjuvantes e para a infinidade de figurantes? A talentosa Michelle Williams, por exemplo, até causa certa vergonha alheia por ser apenas a esposa sorridente que acompanha o marido para todos os lados com as duas filhas embaixo dos braços. Aliás, o universo feminino é pobremente retratado: além de Williams, não deixem escapar o problema que é ver Zendaya apenas como a moça bonita que precisa ser conquistada pelo galã Zac Efron ou como o musical perpetua, por meio de outra figura feminina, a tese de que mulheres não aceitam ser renegadas romanticamente pelos homens sem logo em seguida arquitetar uma pequena vingança contra eles.

Sem entrar em detalhes do que de fato é feito o tal show criado pelo protagonista (as apresentações são apenas o clímax hiperbólico de números musicais iniciados em outro cenário mas concluídos no circo), o longa ganha certa graça e empolgação graças às ótimas canções, todas muito bem ritmadas, pontuadas e corretas no sentido ser componente de uma construção narrativa. E qual não é a surpresa em vê-las desperdiçadas por números tão artificiais, muitos deles carregados em efeitos visuais e quase todos sem qualquer sincronia entre a expressão facial do ator e a versão infinitamente mais potente gravada por ele próprio em estúdio para dublagem?

Musicais plastificados, repletos de otimismo e carregados em dublagem já foram feitos aos montes, assim como outros indiscutivelmente mal dirigidos que se tornaram hits hoje lembrados com carinho (nesse caso, cito Mamma Mia! como um favorito particular), mas, em todos os casos, se existe um punhadinho de alma, a situação já ganha algum tipo de frescor. O Rei do Show, que marca o trabalho de estreia do diretor Michael Gracey, não se encaixa nessa perspectiva. Por isso, para quem, por razões já citadas, não entra na batida e sequer compra a obra como um guilty pleasure, a experiência deve somente gerar um grande aborrecimento, ficando positivamente para a posteridade apenas com sua divertida trilha que, essa sim, vale ser revisitada.

2 comentários em “O Rei do Show

  1. Eu não sou fã de musicais, acabei gostando de La la Land, e pelos atores desse uma pontinha de luz me diz que talvez eu também goste. Mas após ler algumas críticas, percebi que será daqueles musicais exagerados onde a cada passo se tem uma música pra contar a história. O que me fez amar La la Land foi justamente esse equilíbrio em não exagerar. Ótima resenha, estou mais curiosa pra conferir.

    • K Wade, para quem não gosta de musicais, o excesso de números podem realmente ser um problema. Acho que, se as músicas se propõe a contar uma história, não há problema nisso. O que acontece com “O Rei do Show” é que as músicas servem a esse propósito, mas a história é completamente capenga, superficial e, como comentei no texto, desonesta.

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