Cinema e Argumento

The Post: A Guerra Secreta

He says we can’t, I say we can.

Direção: Steven Spielberg

Roteiro: Josh Singer e Liz Hannah

Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Bob Odenkirk, Carrie Coon, Tracy Letts, Bradley Whitford, Jesse Plemons, Matthew Rhys, Alison Brie, Bruce Greenwood, Sarah Paulson, Michael Stuhlbarg

The Post, EUA, 2017, Drama, 116 minutos

Sinopse: Ben Bradlee (Tom Hanks) e Kay Graham (Meryl Streep), editores do The Washington Post, recebem um enorme estudo detalhado sobre o controverso papel dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã e enfrentam de tudo para publicar os bombásticos documentos. (Adoro Cinema)

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Dá para entender a pressa do diretor Steven Spielberg em realizar o drama The Post: A Guerra Secreta, que chega aos cinemas brasileiros no próximo dia 25. Remontando todas as razões que levaram o jornal The Washington Post a publicar estudos que revelavam o papel controverso dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã e colocavam em xeque a reputação do governo Richard Nixon em meados dos anos 1970, o longa tem tudo a ver com o nosso momento, onde, novamente, um presidente dos Estados Unidos tenta calar a imprensa em prol de seus interesses políticos e pessoais. The Post ganha uma dimensão ainda maior porque centra boa parte de sua recriação em Kay Graham, a editora-chefe do jornal que tomou a corajosa decisão de enfrentar interesses e grandes poderes para enfim publicar os famosos The Pentagon Papers, que viriam a causar uma revolução em termos políticos e jornalísticos.

Após ler o roteiro da dupla Josh Singer e Liz Hannah em outubro de 2016, Spielberg logo tratou de acelerar a produção do filme, anunciando em março do ano seguinte que ele estaria à frente do projeto trazendo Meryl Streep e Tom Hanks como protagonistas. Oportunismo para surfar nas polêmicas do momento? Longe disso. Como se vê em The Post, o cineasta é pura inteligência ao se apropriar do assunto para discutir temas urgentes e pertinentes e aos dias de hoje. Sim, estamos falando de um filme de época que mais uma vez apresenta Spielberg com a sua narrativa clássica e edificante, mas com um pique muito acima da média para reforçar a tese de que o bom cinema pode e deve deixar de acontecer no vácuo para ser o estudo de um momento, contribuindo para importantes reflexões.

Na teoria e na prática, não é lá muito saudável comparar The Post ao célebre Spotlight só porque ambos são filmes que retratam o universo do Jornalismo. Isso porque há uma diferença fundamental que joga cada filme para um lado. Ao passo que Spotlight centrava a sua trama nos processos diários da profissão, The Post trata de algo anterior: as tomadas de decisões que vêm de cima e definem tanto a existência quanto a reputação de um veículo de comunicação. Com isso, o filme causa certa euforia ao trazer para a mesa a homenagem a um Jornalismo que não se acovarda, que decide ir em frente mesmo contra os poderosos, que é fiel aos seus princípios e que, principalmente, sabe que precisa servir aos propósitos dos governados e não dos governantes. É uma boa lembrança para a imagem de uma profissão que, como atuante do ramo, sinto dizer que parece cada vez mais utópica.

O total engajamento de Spielberg na tomada de lado de The Post se reflete em seu trabalho de direção, que, facilmente, é o mais fluído e empático em anos. Seu estilo tradicional de narrativa dramática segue sendo utilizado aqui, mas esse timing com a realidade atual dá um frescor extra à direção de Spielberg, cujo trabalho cênico confere agilidade e dinâmica a um filme de quase duas horas falado do início ao fim. Exigindo a atenção do espectador ao mesmo tempo em que os recompensa com um elenco de primeiro escalão e até com bom humor, The Post é um filme sobre política e Jornalismo que não inventa a roda. Por outro lado, ele administra muito bem um estilo que, dependendo do espectador, pode ser tachado de cafona e antiquado, especialmente depois de tantos trabalhos sem inspiração e no piloto-automático do diretor, como Cavalo de Guerra e Ponte dos Espiões.

Acompanhado de amigos e colegas de longa data — entre outros, o fotógrafo Janusz Kaminski, o designer de produção Rick Carter, o montador Michael Kahn e, claro, o amigo Tom Hanks no elenco —, Spielberg, contudo, pela primeira vez trabalha com Meryl Streep, fato que não chega a surpreender se você recuperar a carreira do cineasta e perceber que basicamente todos os seus filmes são protagonizados por homens. E ela encontra a fervura certa nas sutilezas de Kay Graham, uma mulher que tenta firmar sua voz em uma época machista, onde ela própria, que sempre esteve à sombra do pai e do marido, começa a desconstruir a sua própria crença na tola “superioridade” masculina ao herdar um jornal até então comandado por homens. Ela centraliza todas as importantes decisões que precisam ser tomadas na trama, trazendo uma perspectiva que, em boa parte, torna The Post irregular do ponto de vista estrutural (são dois filmes dentro de um: o dos jornalistas na redação e o de Kay trilhando seu caminho), mas que aprimora o tino temático e analítico de um projeto sobre valores que precisam ser lembrados ano após ano e que, ainda hoje, não são seguidos à risca como deveriam. Não à toa e isso não é mero pessimismo o mundo está do jeito que está.

Me Chame Pelo Seu Nome

Nature has cunning ways of finding our weakest spot.

Direção: Luca Guadagnino

Roteiro: James Ivory, baseado no livro homônimo de André Aciman

Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg,  Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois, Vanda Capriolo, Antonio Rimoldi, André Aciman, Peter Spears

Call Me By Your Name, Itália/França/Brasil/Estados Unidos, 2017, Drama, 132 minutos

Sinopse: O sensível e único filho da família americana com ascendência italiana e francesa Perlman, Elio (Timothée Chalamet), está enfrentando outro verão preguiçoso na casa de seus pais na bela e lânguida paisagem italiana. Mas tudo muda quando Oliver (Armie Hammer), um acadêmico que veio ajudar a pesquisa de seu pai, chega. (Adoro Cinema)

Entre os diretores de língua não-inglesa que começam a fazer carreira internacionalmente, o italiano Luca Guadagnino desponta como um dos mais bem sucedidos e instigantes de se acompanhar. Se olharmos para trás, hoje percebemos que sua trajetória ascendente se desenhou de forma muito sutil, o que faz com que sua atual celebração com o drama Me Chame Pelo Seu Nome não pareça sorte repentina: com uma carreira que acumula vários curtas e documentários, Guadagnino já viajava o mundo em 2009, quando colocou Tilda Swinton para falar italiano em Um Sonho de Amor, ou até mesmo três anos atrás, ao unir forças novamente com Tilda no subestimado Um Mergulho no Passado, refilmagem de A Piscina que contava ainda com outros nomes de repercussão internacional (Ralph Fiennes, Matthias Schoenaerts e até Dakota Johnson em um momento bacana).

Mesmo munido de uma filmografia encorpada, o cineasta só foi abraçado com igual entusiasmo por prêmios, público e crítica com esse Me Chame Pelo Seu Nome, que chega aos cinemas brasileiros no próximo dia 18. E o que mais me toca entre os méritos que justificam esse reconhecimento mais amplo é a forma como o filme trata o universo da sexualidade sem fazer dela uma questão de angústia ou sofrimento. Aqui, são ensolaradas as vivências de cada descoberta do corpo, do amor, do sexo, da juventude e inclusive do doloroso processo de se tornar adulto. Tal perspectiva não deixa de ser uma herança — ou ao menos uma feliz coincidência — do drama Carol, que, dirigido por Todd Haynes em 2015, celebrava o nascimento do amor entre duas mulheres colocando o romance muito antes do drama, escolha que trazia uma perspectiva otimista e esperançosa para uma parcela da sociedade retratada sempre de forma cômica ou trágica no cinema.

A lógica se repete em Me Chame Pelo Seu Nome, que, a partir do roteiro escrito por James Ivory com base no romance homônimo de André Aciman, em momento algum torna administra o desabrochar homossexual como o principal componente da tristeza de um personagem — aliás, se Elio (Timothée Chalamet, uma revelação) sofre, são por questões inerentes a qualquer ser humano em determinado momento da vida. Prova de que o longa é sabiamente desprovido de firulas acerca das problemáticas da homossexualidade é a doçura com que emerge uma conversa entre pai e filho, onde, em uma daquelas cenas de poucos minutos que atravessam milhares de universos, o próprio progenitor se confronta sobre o que é necessário na vida para cada um ser feliz, autêntico ou menos em paz com os próprios rumos tomadas ao longo da vida.

É sutil ainda o desenho que Me Chame Pelo Seu Nome faz das primeiras experimentações sexuais de Elio, que, sim, se apaixona por Oliver (Armie Hammer), um homem mais velho, mas também se aventura em um relacionamento com uma menina que, não, não é a clássica situação em que um menino gay faz uma garota de boba enquanto tenta se descobrir. Elio tem afeto, desejo e interesse pelos dois, reforçando a tese de que esse é um relato que dispensa estereótipos. Tratando rupturas como processos naturais da vida, Me Chame Pelo Seu Nome captura a fase juvenil de nossa existência com o espírito que ela merece, uma vez que o filme é vivo e veranil, utilizando a geografia como elemento primordial para a construção de seu romance.

Todas essas qualidades me levam a não culpar tanto a construção de certa forma imperfeita do roteiro de James Ivory, que, durante basicamente toda a primeira metade, na ânsia de trazer discrição e sutileza para o flerte entre os dois rapazes, pouco envolve o espectador, fazendo com que ele só sinta a paixão de seus personagens quando eles de fato passam a consumir uma história de amor. Falta ali a mesma alquimia que existe depois, quando Elio e Oliver vivem um um romance com pele e coração e quando o filme nos mostra, em sua reta final, que certas coisas têm, de fato, a habilidade de encontrar os nossos pontos mais fracos — e que o que nos resta é, de alguma forma, tentar transformar isso em sabedoria.

Rapidamente: “O Agente da U.N.C.L.E.”, “Armas na Mesa”, “Os Golfinhos Vão Para o Leste” e “Planeta dos Macacos: A Guerra”

Jessica Chastain interpreta uma mulher autêntica, bem sucedida e de personalidade em Armas na Mesa, filme cheio de pique que não complica o tema lobby político nos Estados Unidos.

O AGENTE DA U.N.C.L.E. (The Man from U.N.C.L.E., 2015, de Guy Ritchie): O Agente da U.N.C.L.E. reúne três lindos rostos de Hollywood — Henry Cavill, Armie Hammer e Alicia Vikander —, mas tal encontro deixa de soar qualquer chamarisco de bilheteria quando percebemos que o novo filme de Guy Ritchie tem mesmo o DNA desse diretor de estilo muito próprio. Nesse filme de 2015, ele volta aos anos 1960 para conduzir uma história onde Napoleon Solo (Cavill), um agente da CIA, é escalado para deter uma organização criminosa responsável pela proliferação de armas nucleares. O que sempre diferencia os filmes de Ritchie de outras aventuras comerciais é a sua vontade de, sim, fazer graça, orquestrar ação e proporcionar entretenimento, mas a partir de uma trama assumidamente mais consistente. Para isso, ele toma como base o seriado homônimo dos anos 60 criado por Ian Fleming, que tentava reproduzir na telinha a pegada do clássico James Bond, outra criação de Fleming. Ao fazer essa transposição, Ritchie estava em uma de suas épocas felizes, pois O Agente da U.N.C.L.E. tem charme, graça, um elenco que dá conta do recado e, principalmente, esse senso de diversão que é tão rato em filmes de época, que costumam ser predominantemente mais históricos e de cunho dramático tradicional. 

ARMAS NA MESA (Miss Sloane, 2016, de John Madden): O assunto é um tanto complicado — o poderoso lobby político, prática tão famosa e escancarada nos Estados Unidos —, mas Armas na Mesa, mesmo com um diretor que não inspira tanta curiosidade (John Madden, de Shakespeare ApaixonadoA ProvaO Exótico Hotel Marigold), é, de repente, uma das obras mais surpreendentes lançadas no circuito comercial brasileiro em 2017. Aliás, muito se falou sobre uma possível indicação ao Oscar de melhor atriz para Jessica Chastain, que acabou não aconteceu, marcando mais uma injustiça do prêmio com um desempenho forte e que vem a calhar bem em tempos de discussão sobre a representação da mulher no cinema. Aqui, Chastain interpreta uma lobista bem sucedida profissionalmente e que não tem receio algum em impôr seu talento e renome seja no trabalho ou em frente às câmeras. Complexa, a personagem ganha uma energia embasbacante nas mãos da atriz, que, mais elegante do que nunca, entende que as imperfeições e as dubiedades da protagonista são traços importantes para sua construção dramática. Lá pelas tantas, quando chega ao terço final, Armas na Mesa se atrapalha ao forçar reviravoltas para manter vivo o fator surpresa e ao ceder aqui ou ali para lições de moral. Tropeços que, ainda assim, não chegam perto de comprometer um filme bem atuado, contemporâneo e cheio de pique.

OS GOLFINHOS VÃO PARA O LESTE (Las Toninas Van al Este, 2016, de Gonzalo Delgado e Verónica Perrota): Vencedor do Kikito de melhor atriz em 2016 para a carismática Perónica Perrota, Os Golfinhos Vão Para o Leste trata com simplicidade e carinho temas corriqueiros e frequentemente explorados pelo cinema em suas mais diferentes origens, como o retorno à terra natal, a relação conturbada entre pais e filhos e o confronto com o passado — dessa vez, com charme de uma Punta Del Este em sua versão menos glamourizada e turística, mas por isso mesmo mais próxima e humana. Perrota, que dirige o filme com Gonzalo Delgado, faz um bom trabalho tanto como diretora quanto como atriz: atrás das câmeras, dosa muito bem o drama e a comédia de um filme deveras gracioso, enquanto, como intérprete, esbanja sintonia com Jorge Denevi, que interpreta o pai agora homossexual cuja afetação em momento algum descamba para a histeria. Frente a tudo isso, Os Golfinhos Vão Para o Leste pode até abordar temas que não são exatamente inovadores, mas o faz sem pretensão e de maneira espirituosa, o que, com o passar do tempo, tem se revelado uma qualidade cada vez mais preciosa em comparação a essa infinidade de produções mundiais realizadas a toque de caixa.

PLANETA DOS MACACOS: A GUERRA (War for the Planet of the Apes, 2017, de Matt Reeves): Conclusão menos reveladora do que se poderia esperar para essa que é uma das mais bem sucedidas trilogias do cinemão recente, Planeta dos Macacos: A Guerra preserva a impecável parte técnica de uma franquia que, ao longo dos anos, questionou, entre outras coisas, as fronteiras da atuação, tornando célebre o caso de Andy Serkis, que deu um show como o macaco Caesar através da chamada captura de movimento, termo usado para descrever o processo de gravação e transposição de movimentos de um ator para o modelo digital. Neste último capítulo, vemos a jornada final dos macacos para fazer justiça a sua espécie, cada vez mais ameaçada por exércitos humanos. Acompanhamos especificamente a batalha pessoal de Caesar para vingar uma recente baixa no seu clã, o que confere ao filme um tom menos grandioso e mais intimista. Todos os elogios para a parte técnica já foram feitos mundo afora (dessa vez, destaco a trilha de Michael Giacchino, que vem fazendo uma linda carreira com blockbusters, animações e projetos mais comerciais), situação que deixa uma carga de responsabilidade muito maior para a história em si, uma vez que a franquia já estabeleceu um notável padrão de qualidade técnica. Como filme isolado, Planeta dos Macacos: A Guerra talvez surpreendesse mais em termos dramáticos. Já como a peça final de uma história muito maior, não conversou tanto comigo quanto eu gostaria.

O Rei do Show

You clearly have a flair for show business.

Direção: Michael Gracey

Roteiro: Bill Condon e Jenny Bicks

Elenco: Hugh Jackman, Zac Efron, Michelle Williams, Zendaya, Rebecca Ferguson, Austyn Johnson, Cameron Seely, Keala Settle, Sam Humphrey, Yahya Abdul-Mateen II, Eric Anderson, Ellis Rubin

The Greatest Showman, EUA, 2017, Musical, 105 minutos

Sinopse: De origem humilde e desde a infância sonhando com um mundo mágico, P.T. Barnum (Hugh Jackman) desafia as barreiras sociais se casando com a filha do patrão do pai e dá o pontapé inicial na realização de seu maior desejo abrindo uma espécie de museu de curiosidades. O empreendimento fracassa, mas ele logo vislumbra uma ousada saída: produzir um grande show estrelado por freaks, fraudes, bizarrices e rejeitados de todos os tipos. (Adoro Cinema)

Uma das coisas mais fascinantes de ser um cinéfilo nas primeiras décadas do século XXI é ver como o cinema deu um salto sem precedentes em termos de possibilidades estéticas e narrativas. Das evoluções técnicas resultantes de descobertas tecnológicas às narrativas cada vez mais livres que descortinam histórias e personagens antes renegados ou preteridos pelas artes, a chamada sétima arte nunca produziu tanto, de forma tão plural e, dadas as proporções, com tamanha destreza. O curioso é que, na contramão, filmes como O Rei do Show nos lembra que, em certos casos, a evolução não é um processo geral e que, em tratando-se da solidez e dos conceitos de um filme, a sala de cinema ainda pode proporcionar espetáculos vazios e a artificiais.

Indicado sem surpresa alguma a três categorias do Globo de Ouro no segmento comédia/musical (melhor filme, melhor ator para Hugh Jackman e melhor canção para “This is Me”), O Rei do Show idealiza e distorce a história verídica de P.T. Barnum, empresário norte-americano que, logo no início do século XIX, tornou-se o primeiro milionário do ramo do entretenimento com um trabalho pioneiro no circo. Só que fazer ajustes em uma adaptação é uma coisa, trapacear é outra: O Rei do Show idealiza Barnum como um pai de família caridoso e filantrópico, quando, na verdade, uma rápida pesquisa virtual ou bibliográfica já dá conta de revelar que ele nada mais era do que um verdadeiro “príncipe das falcatruas”, capaz de inventar todo tipo de mentira sobre suas atrações apenas para atrair público e encher o bolso.

A intenção do desonesto reajuste para endeusar Barnum tem um propósito muito claro no roteiro assinado por Bill Condon e Jenny Bricks: criar uma história emocionante e edificante para guiar um musical colorido, alegre, movimentado e, no final das contas, muito mais comercial do que artístico, considerando o sentido pejorativo que essa expressão acarreta. Ainda assim, nem no reajuste a história é firme, pois O Rei do Show é o tipo de filme que prioriza fatos e surpresas acima de qualquer construção dramática, o que faz com que mudanças repentinas (e mal explicadas) de personalidade dos personagens sirvam de base para conflitos rasteiros, como quando o protagonista impede que seus amigos “estranhos” do circo participem de uma importante festa na cidade.

Criando e resolvendo problemas com a maior facilidade e agilidade do mundo, O Rei do Show não expande qualquer dimensão de outro personagem além de Barnum, que, ainda assim, sequer chega perto da dubiedade e das oscilações entre bondade e mau caratismo de Elsa Mars, protagonista da quarta temporada de American Horror Story: Freak Show que, vivida brilhantemente por Jessica Lange, também era uma entertainer cujo ganha-pão era explorar “aberrações” em um circo. Nada mais do que um homem bondoso que vence na vida, Barnum ganha energia nas mãos de Hugh Jackman, ator que não precisa mais provar sua desenvoltura como cantor e dançarino, mas, que, no geral, tem pouquíssimo material dramático para trabalhar, restringindo-se a olhar tudo somente com cara de maravilhamento ou tristeza.

Quando o próprio protagonista não tem estofo, o que resta para os coadjuvantes e para a infinidade de figurantes? A talentosa Michelle Williams, por exemplo, até causa certa vergonha alheia por ser apenas a esposa sorridente que acompanha o marido para todos os lados com as duas filhas embaixo dos braços. Aliás, o universo feminino é pobremente retratado: além de Williams, não deixem escapar o problema que é ver Zendaya apenas como a moça bonita que precisa ser conquistada pelo galã Zac Efron ou como o musical perpetua, por meio de outra figura feminina, a tese de que mulheres não aceitam ser renegadas romanticamente pelos homens sem logo em seguida arquitetar uma pequena vingança contra eles.

Sem entrar em detalhes do que de fato é feito o tal show criado pelo protagonista (as apresentações são apenas o clímax hiperbólico de números musicais iniciados em outro cenário mas concluídos no circo), o longa ganha certa graça e empolgação graças às ótimas canções, todas muito bem ritmadas, pontuadas e corretas no sentido ser componente de uma construção narrativa. E qual não é a surpresa em vê-las desperdiçadas por números tão artificiais, muitos deles carregados em efeitos visuais e quase todos sem qualquer sincronia entre a expressão facial do ator e a versão infinitamente mais potente gravada por ele próprio em estúdio para dublagem?

Musicais plastificados, repletos de otimismo e carregados em dublagem já foram feitos aos montes, assim como outros indiscutivelmente mal dirigidos que se tornaram hits hoje lembrados com carinho (nesse caso, cito Mamma Mia! como um favorito particular), mas, em todos os casos, se existe um punhadinho de alma, a situação já ganha algum tipo de frescor. O Rei do Show, que marca o trabalho de estreia do diretor Michael Gracey, não se encaixa nessa perspectiva. Por isso, para quem, por razões já citadas, não entra na batida e sequer compra a obra como um guilty pleasure, a experiência deve somente gerar um grande aborrecimento, ficando positivamente para a posteridade apenas com sua divertida trilha que, essa sim, vale ser revisitada.

Roda Gigante

When it comes to love, we often turn out to be our worst enemy.

Direção: Woody Allen

Roteiro: Woody Allen

Elenco: Kate Winslet, Justin Timberlake, Jim Belushi, Juno Temple, Jack Gore, Max Casella, David Krumholtz, Tony Sirico, Steve Schirripa, Robert C. Kirk, John Doumanian, Tom Guiry

Wonder Wheel, EUA, 2017, Drama, 101 minutos

Sinopse: A atriz Ginny (Kate Winslet), casada com Humpty (James Belushi), acaba se apaixonando pelo salva-vidas Mickey (Justin Timberlake). Mas quando sua enteada, Carolina (Juno Temple), também cai de amores pelo rei da praia, as duas começam uma forte concorrência. (Adoro Cinema)

Plataforma on demand que compete diretamente com a gigante Netflix, a Amazon vem trilhando um caminho diferente de sua concorrente ao apostar em uma estratégia de auto-promoção menos expansiva e em projetos menos comerciais assinados por realizadores conceituados do ponto de vista artístico, especialmente no âmbito cinematográfico. O mais recente êxito da Amazon foi seu voto de confiança para a produção de Manchester à Beira-Mar, magnífico filme de Kenneth Lonergan, indicado a seis Oscars e vencedor de dois (melhor ator para Casey Affleck e melhor roteiro para o próprio Lonergan). Mostrando que não está para brincadeira, a Amazon, ainda em 2015, também trouxe Woody Allen para o seu time, jogada que logo se revelou pouco frutífera: o desastroso seriado Crisis in Six Scenes não foi visto por ninguém e o próprio cineasta faz questão de dizer aos quatro ventos, com toda razão, que a experiência no formato foi mesmo catastrófica.

Agora, chegamos ao drama Roda Gigante, onde a Amazon se enroscou em um problema que ultrapassa as fronteiras artísticas: descortinados os casos de assédios sexuais em Hollywood, o interesse pelo filme se dissipou, e Allen, que tem um longo, nebuloso e problemático passado envolvendo o tema abuso sexual, viu sua mais recente obra ser boicotada mundo afora, reflexo também das lamentáveis e recentes declarações onde “alertava” sobre o início de uma possível temporada de caça às bruxas contra os homens em Hollywood, como se, de repente, eles agora fossem pobres coitados na história toda. A contextualização é importante porque nos leva à acertada estratégia de promoção da Amazon para Roda Gigante na temporada de premiações: nas peças publicitárias e nos famosos screeners enviados aos votantes, o nome de Woody Allen foi excluído de qualquer item da lista “for your consideration”, onde cada estúdio elenca quais aspectos do filme merecem ser lembrados pelos votantes na hora de escolher seus favoritos do ano. A medida da Amazon é justíssima porque é uma injustiça descomunal condenar ao esquecimento centenas de pessoas envolvidas em um filme por conta de polêmicas envolvendo apenas uma delas. E, na jornada contra Roda Gigante, há, pelo menos, dois grandes injustiçados que serão pontuados mais adiante nesse texto.

Tematicamente, o drama estrelado por Kate Winslet é mais um relato requentado de Woody Allen (como se isso fosse novidade em boa parte de sua carreira), mas o diretor estabelece uma espécie de diálogo entre o longa de agora e o celebrado Blue Jasmine, que é indiscutivelmente a fonte de material para sua mais nova obra. Se, em ambos os filmes, acompanhamos protagonistas femininas à beira de um ataque de nervos e afundadas em tragédias pessoais, uma diferencia crucial as separa: enquanto a Jasmine de Cate Blanchett escolhia viver em uma realidade paralela para acreditar que o universo conspirava contra cada movimento da sua vida, a Ginny de Kate Winslet assume, inclusive verbalmente, que muitas de suas tragédias foram causadas por ela própria — e o que ela (não) faz em relação a isso é o que dá a tônica ao longa, que se sai muito melhor como um estudo de personagem do que como o relato de um quadrilátero amoroso.

É melhor encarar Roda Gigante sob o prisma de sua protagonista porque, em termos práticos, o roteiro escrito por Woody Allen não apresenta desdobramentos tão interessantes quanto a personagem que radiografa. Por sinal, surpreende como alguns artifícios tenham chegado à versão final do roteiro, com destaque para a escolha de usar Mickey (Justin Timberlake) como narrador da trama. Há gracejo na opção, mas ela liquida com uma possibilidade mais instigante: a de Mickey ser trabalhado na dubiedade, algo que traria maior consistência a sentimentos e pensamentos mastigados demais por esse contador de histórias. Sendo assim, no turbilhão em que vive Ginny – casamento infeliz, trabalho desgastante, carreira frustrada como atriz, filho problemático – conta menos o que acontece a ela e mais os detalhes de cada personagem, inclusive dos coadjuvantes, como a construção de Carolina (Juno Temple), a enteada de Ginny, que, em tantas outras obras, seria a jovem sedutora que vem para competir com a madrasta (aqui, felizmente, ela ela não passa de uma boa moça que deseja colocar a vida nos eixos).

Sem grandes criações, Roga Gigante, em contraste, se alça ao status de filme mais relevante de Woody Allen desde Blue Jasmine graças ao desempenho sensacional de Kate Winslet, que conjuga técnica e emoção ao abraçar uma riqueza de protagonismo que, ao mesmo, tempo lhe é tão merecida, mas lhe é tão negada em sua carreira recente. No quase-monólogo que norteia a cena final de Kate com Justin Timberlake (bom galã, ainda que ator irregular), ela ganha força extra, em um daqueles momentos que entram para os mais marcantes de sua filmografia. Posto isso, é injusto que escanteiem Roda Gigante ignorando um desempenho especial como esse que, em outro recorte de tempo, seria celebrado por tudo quanto é tipo de premiação, bem como a estonteante fotografia de Vittorio Storaro, que trabalha com inteligência as oscilantes luzes de um parque de diversões para registrar as transições emocionais dos personagens. Storaro e Winslet formam a dupla que não merece pagar pelo boicote ao filme (se você se importa com métricas, Roda Gigante é o filme de Woody Allen com pior avaliação no Rotten Tomatoes), inclusive porque o que mais fica com o espectador depois da sessão é a qualidade ímpar do que cada um realiza. E de tudo que você pode falar do longa, nada depreciativo deve ser relacionado a eles.

Rapidamente: “Em Ritmo de Fuga”, “Gatos”, “Madame Satã” e “Nossas Noites”

Lázaro Ramos é visceral em Madame Satã, filme de Karim Aïnouz que contempla a vida de uma marcante figura da vida boêmia carioca dos anos 1920.

EM RITMO DE FUGA (Baby Driver, 2017, de Edgar Wright): Menos maneirista e artificial do que em Scott Pilgrim Contra o Mundo, o diretor Edgar Wright alcançou o momento mais célebre da sua carreira até aqui com Em Ritmo de Fuga, aventura que rendeu ao jovem Ansel Egort uma indicação ao Globo de Ouro de melhor ator no segmento comédia/musical. Menciono Scott Pilgrim porque foi o único trabalho de Wright que conferi antes de Em Ritmo de Fuga – e, vocês precisam me perdoar, mas a lembrança não era das melhores. Continuo com a impressão de que o diretor embala demais o seu trabalho para alcançar o status de pop, cult e descolado, o que me distancia da história em si, mas Em Ritmo de Fuga é um bom entretenimento por ter um protagonista devidamente carismático e humano, um bom elenco de suporte, uma trilha bacana e sequências de ação ao mesmo tempo dinâmicas e bem coreografadas. A trajetória pessoal do protagonista ainda dá um toque especial para uma história que, na essência de seus crimes e assaltos, não chega a ser esse espetáculo todo que celebraram desde a estreia. Um dos últimos filmes em que tivemos a oportunidade de ver Kevin Spacey com naturalidade antes da sua irreversível derrocada em Hollywood, Em Ritmo de Fuga tem qualidade técnica e vontade de divertir a qualquer custo. E, considerando mais uma vez a minha relação particular com o cinema de Wright, é justamente a consciência dessa vontade que acaba me distanciando de um mergulho completo na diversão.

GATOS (Kedi, 2016, de Ceyda Torun): Como um grande apaixonado por felinos, fiquei com um sorriso abert de ponta a ponta ao longo de toda a projeção de Gatos, documentário ambientado em Istambul, na Turquia, onde milhares dos bichanos-título circulam livremente pelas ruas. O maior mérito do filme dirigido pela estreante em longas Ceyda Torun é escapar da armadilha de fazer um registro apenas fofinho sobre os animais para de fato conferir personalidade a cada um deles, como se fossem personagens tão interessantes quanto qualquer um de nós. Percebam também a delicadeza do filme ao destacar a relação dos gatos com os seres humanos, inclusive em casos tocantes, alguns deles cercados de superstição, em que homens e mulheres relatam experiências que trazem à tona todo o afeto e o cuidado que detratores dos felinos insistem em dizer que eles não têm. Tratando-se de solidez cinematográfica, Gatos, em contrapartida, acaba se diluindo. Mesmo compactado em menos de 80 minutos, o documentário, lá pela metade, já começa a andar em círculos por não interseccionar histórias e personagens, aqui apresentados de forma independente, como em capítulos. Quando chegamos ao terceiro ou quarto animal, o longa segue mantendo a curiosidade muito mais pelo charme dos gatinhos e pela habilidade da diretora em acompanhá-los em situações curiosíssimas do que por sua habilidade em explorar novas possibilidades de narração.

MADAME SATÃ (idem, 2002, de Karim Aïnouz): Um dos trabalhos mais marcantes do diretor Karim Aïnouz, Madame Satã aborda, com notável segurança, a personalidade avassaladora de João Francisco dos Santos, que, sob o codinome que dá título ao filme, foi uma personagem marcante da noite carioca em meados dos anos 20. Pobre, analfabeto, negro, homossexual e travesti, Madame Satã tinha um temperamento dos mais fortes, o que o levou para a prisão inúmeras vezes, muitas delas por furtos, agressões e desacato à autoridade. Sobre seus encarceramentos, dizia que boa parte das brigas com os policiais era ocasionada por sua intolerância ao tratamento que eles davam às pessoas, principalmente quando elas eram negras e coincidentemente consideradas suspeitas. Dadas as linhas gerais desse personagem, é preciso aplaudir o trabalho de Karim Aïnouz ao abarcar o furacão Madame Satã sem jamais fazer com que o filme degringole em qualquer tipo de tom, seja da própria história ou da interpretação visceral de Lázaro Ramos, que está no desempenho mais desafiador e brilhante de sua carreira. Premiado em Havana, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, Madame Satã é um filme de época que, na escolha da simplicidade, captura a parte boêmia e marginalizada de um Rio de Janeiro de quase 100 anos atrás sem qualquer artificialidade. Para completar, uma força extra-fílmica: sob a luz dos dias de hoje, onde negros, gays e travestis não deixaram de seguir à margem da sociedade, Madame Satã permanece como um elegante grito de reivindicação.

NOSSAS NOITES (Our Souls at Night, 2017, de Ritesh Batra): Não vou esconder que tenho um tremendo fraco por filmes que reúnem atores veteranos, especialmente em propostas como a de Nossas Noites, que toca em questões tão camufladas na arte, como as mazelas cotidianas do envelhecimento e as pequenas alegrias que podem redimensionar essa fase da vida. Normalmente, na mesma proporção da imediata simpatia que projetos como esse me despertam, vem a decepção, pois nem sempre tais histórias são contadas com a devida dose de complexidade, carisma ou criatividade. E Nossas Noites, adaptação do romance homônimo escrito por Kent Haruf, é mais um exemplar que fica no meio do caminho. Jane Fonda e Robert Redord são ótimos, claro, especialmente juntos, mostrando que, muitas vezes, só mesmo a experiência pode trazer químicas instantâneas e naturais como a deles, mas o grande problema de Nossas Noites não é nem entregar o filme inteiro a eles para se esquecer de contar uma história, e sim tentar separá-los durante boa parte da trama. Quando se atenta demais a personagens secundários (o neto que chega para passar uma temporada na cidade, o filho problemático que passa por uma tumultuada separação, os vizinhos que morrem ou confabulam sobre a relação dos protagonistas), Nossas Noites cai em lugares-comuns, esquecendo-se que a preciosidade da experiência é acompanhar apenas aqueles duas pessoas em universo tão próprio e particular.

Sem Amor

Direção: Andrey Zvyagintsev

Roteiro: Andrey Zvyagintsev e Oleg Negin

Elenco: Maryana Spivak, Aleksey Rozin, Varvara Shmykova, Matvey Novikov, Daria Pisareva, Yanina Hope, Marina Vasilyeva, Maxim Stoianov, Andris Keiss, Aleksey Fateev

Nelyubov, Rússia/França, 2017, Drama, 127 minutos

Sinopse: Boris (Alexey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak) estão se divorciando. Depois de anos juntos, os dois se preparam para suas novas vidas: ele com sua nova namorada, que está grávida, e ela com seu parceiro rico. Com tantas preocupações eles acabam não dando atenção ao filho Alyosha (Matvey Novikov), que acaba desaparecendo misteriosamente. (Adoro Cinema)

Clássica na vida e no cinema em geral, a disputa pela guarda de um filho ganha contornos assustadoramente inversos em Sem Amor, novo filme assinado pelo russo Andrey Zvyagintsev, diretor do célebre Leviatã. Nesse duríssimo novo conto assinado por ele, pai e mãe se confrontam para, pasmem, jogar um ao outro a tutela do jovem Alyosha (Matvey Novikov), renegando abertamente as suas responsabilidades como progenitores. Enquanto ela é desprovida de qualquer senso ou vocação maternal, ele argumenta, a partir de uma tese deveras machista, que toda criança depende muito mais da mãe do que do pai. E, em um dessas peças que a vida nos prega com requintes de crueldade, a criança, um dia, desaparece sem deixar qualquer vestígio. Coincidência do destino? Castigo divino? Premonição infantil? Assombrosas, as duas horas densas e sem concessões de Sem Amor se movimentam a partir dessas interrogações, radiografando o que acontece quando perdemos aquilo que, lá no fundo, nós realmente queríamos perder de alguma forma.

Exibido em uma sessão única e disputadíssima da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo deste ano, Sem Amor preserva, em seus personagens, bastante do clima das paisagens russas: rígidos e frios, todos lidam com a vida de forma racional e pragmática. Tomem como exemplo os próprios relacionamentos que marido e mulher já nutrem fora do casamento: Boris (Alexey Rozin), que já engravidou a nova namorada, tem zero interesse em lidar com as carências e inseguranças da moça, ao mesmo tempo em que Zhenya (Maryana Spivak) parece não ser ouvida nem mesmo quando diz “eu te amo” para um namorado de idade e renda mais avançadas. A tônica das relações distantes e não tão humanas dos personagens termina por impregnar a grande jornada que o casal se vê obrigado a enfrentar antes de oficializar o término do matrimônio: na busca pelo filho desaparecido, inexiste qualquer faísca de reavaliação afetiva entre os dois, o que endossa a tese de que, se Boris e Zhenya estão juntos, é porque a situação exige ou porque, de alguma forma, também entendem que este é um calvário que, ante a uma vida de erros como pais, precisam enfrentar lado a lado.

Há justificativa e contextualização de sobra no roteiro para que os personagens sejam compreendidos por personalidades que, em geral, correriam o risco de cair na vilania. Zhenya, que só teve o filho para satisfazer convenções sociais e familiares e que vem de um ambiente familiar incrivelmente opressivo e conturbado, lança uma provocação atualíssima: afinal, por que lançamos sempre mais responsabilidades e julgamentos à mulher em situações familiares? Quanto ao relacionamento amoroso entre os dois protagonistas, o filme também pega pesado: em uma daquelas discussões que beiram o desrespeito emocional ao término de uma vida compartilhada, ambos remontam o passar dos anos na relação não com saudosismo por sentimentos que não voltam mais, mas sim reinterpretando cada decisão como se elas assinalassem ou fossem responsáveis pelo desmantelamento do matrimônio. Sem jamais mostrar uma luz no fim do túnel, o roteiro de Sem Amor é esperto o suficiente para compreender que o pessimismo dos personagens é matéria-prima para complexidade, sem nunca reduzi-lo a uma mera característica que confere algum tipo de personalidade aos protagonistas.

Por ter seus principais conflitos originados de um acontecimento baseado no suspense, Sem Amor precisa inevitavelmente se debruçar sobre uma narrativa de mistério. Mesmo que transfira grande parte dos dilemas para o plano emocional, o filme não esquece de sua grande interrogação ao dedicar quase todo o seu terço final para falar sobre o desaparecimento do menino, culminando em um desfecho que preza muito mais pelo drama do que por sua resolução racional, mantendo-se fidelíssimo às intenções do filme. Com grande potência, Sem Amor, que é o representante da Rússia para disputar uma vaga no Oscar 2018 de melhor filme estrangeiro, reverbera pela situação inimaginável de uma criança que se descobre renegada pelos pais, pela demolição final de um relacionamento já em frangalhos e pelas respostas francas que busca para todos os seus conflitos. Ainda não conferi The Square, que venceu a Palma de Ouro em Cannes este ano concorrendo com Sem Amor, mas é bom que o diretor sueco Ruben Östlund tenha realizado um filmaço, pois a obra de Andrey Zvyagintsev definitivamente não fica atrás disso.

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