Cinema e Argumento

A Bela e a Fera

I want so much more than they’ve got planned!

Direção: Bill Condon

Roteiro: Evan Spiliotopoulos e Stephen Chbosky

Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Audra McDonald, Stanley Tucci, Nathan Mack, Haydn Gwynne, Hattie Morahan, Ray Fearon 

Beauty and the Beast, EUA, 2017, Musical, 129 minutos

Sinopse: Moradora de uma pequena aldeia francesa, Bela (Emma Watson) tem o pai capturado pela Fera (Dan Stevens) e decide entregar sua vida ao estranho ser em troca da liberdade dele. No castelo, ela conhece objetos mágicos e descobre que a Fera é, na verdade, um príncipe que precisa de amor para voltar à forma humana. (Adoro Cinema)

Sem reajuste de inflação, a versão live action de A Bela e a Fera ostenta, até o momento, o status de maior musical já produzido mundialmente para o cinema. Foram nada menos do que 160 milhões de dólares investidos nessa adaptação da animação homônima de 1991 dirigida pela dupla Gary Trousdale e Kirk Wise! O retorno financeiro que obviamente veio pelas bilheterias já era esperado pela Disney, mas o que justamente faz a diferença para o sucesso dessa versão dirigida por Bill Condon é o salto ambicioso dado pelo estúdio, o que, para total surpresa de quem assiste ao filme, logo se descobre que tem pouco a ver com dinheiro. Na verdade, A Bela e a Fera se diferencia do insosso Cinderela, por exemplo, ao redimensionar a animação em uma série de aspectos, principalmente no de dar ainda mais ênfase à música como pilar fundamental para a jornada da protagonista.

É o tipo de caso que vale alertar: A Bela e a Fera, muito antes de ser apenas uma transposição de um universo animado para outro de carne e osso, é um grande musical, com direito a diálogos cantados e até resoluções que se desenham a partir da música. Isso mesmo, a adaptação de Bill Condon se sustenta a partir de uma cantoria quase incessante, o que revela primeiro a já comentada ambição do estúdio de fazer algo diferenciado e segundo a confiança em um diretor que foi chamado justamente por sua aproximação com o gênero (para quem não lembra, Condon dirigiu, em 2006, Dreamgirls – Em Busca de um Sonho). Missão duplamente cumprida: não só A Bela e a Fera consegue brilhar no universo de repetitivas adaptações de animações como também tem pleno domínio da narrativa musical. E o fato do mestre Alan Menken, compositor do longa de 1991, ter retomado seu posto só qualifica ainda mais o projeto.

Mais longo do que a animação (são 45 minutos a mais, com três novas canções, três outras estendidas, novos personagens e detalhes adicionais sobre a vida dos protagonistas), A Bela e a Fera chegou a ser idealizado pela Warner Bros. com Guillermo Del Toro na direção. A ideia, entretanto, acabou ficando mesmo com a Disney, que custou a comprar a ideia de que a adaptação deveria ser um musical, algo rapidamente incentivado por Condon em suas conversas com o estúdio. O longo processo de idealização e o alto investimento financeiro são percebidos na tela muito mais pelo alinhamento técnico de todo o filme do que pela extensa etapa de pós-produção (as gravações terminaram em agosto de 2015!): é digna de nota a grandiosidade estética da adaptação, que, com figurinos exuberantes de Jaqueline Durran e imponente design de produção de Sarah Greenwood, faz jus ao imaginário de toda uma geração apaixonada pela animação e também de quem é fã de musicais. 

Em termos de história há de se considerar leituras cada vez mais consideradas nos dias de hoje como A Bela e a Fera narrar um romance que nasce a partir do aprisionamento da mocinha por um príncipe que logo a encantará com um castelo imenso e bibliotecas impressionantes. Ainda é válido questionar o quanto a representação de LeFou (Josh Gad) é correta, uma vez que ele não passa de um personagem gay que, obcecado pelo amigo hétero, unidimensional e até mesmo machista, abre mão a todo momento de sua própria personalidade para causar algum tipo de impressão ao moço. De resto, A Bela e a Fera, mesmo com alguns excessos na história, é uma experiência encantadora aos olhos e aos ouvidos, entregando, com doses certeiras de ambição, a transposição para o live action que há tempos merecíamos conferir. 

A Piscina

We’re all obscene. Everyone’s obscene. That’s the whole fucking point.

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Direção: Luca Guadagnino

Roteiro: David Kajganich, baseado em história de Alain Page

Elenco: Tilda Swinton, Matthias Schoenaerts, Ralph Fiennes, Dakota Johnson, Corrado Guzzanti, Aurore Clément, Lily McMenamy, Elena Bucci, Salvatore Gabriele, Francesco Lo Pinto, Youness Zrhaiba

A Bigger Splash, Itália/França, 2015, Drama, 125 minutos

Sinopse: A estrela do rock Marianne Lane (Tilda Swinton) passa férias em uma ilha italiana na companhia de seu parceiro (Matthias Schoenaerts) quando é surpreendida por Harry (Ralph Fiennes), um ex-caso que aporta no paraíso com a filha (Dakota Johnson) e desencadeia uma onda de nostalgia e perigosos jogos de sedução. (Adoro Cinema)

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Vivida por Tilda Swinton, a estrela do rock Marianne Lane é a perfeita síntese de toda a dramaticidade de A Piscina, longa que marca a quarta colaboração entre a atriz e o diretor italiano Luca Guadagnino. Recuperando-se de uma cirurgia nas cordas vocais, a cantora praticamente não consegue falar e precisa evitar ao máximo qualquer expressão de voz. Para tanto, Marianne opta por se refugiar com o namorado Paul (Matthias Schoenaerts, o par romântico de Marion Cotillard em Ferrugem e Osso) em uma belíssima ilha italiana, onde, por coincidência, acaba vivendo justamente o contrário, pois é lá que também está de férias o excêntrico Harry Hawkes (Ralph Fiennes), ex-marido da artista que também produziu e agenciou sua carreira musical durante anos. E se grande parte dos cineastas faria desse encontro um verdadeiro melodrama sobre um amor mal resolvido que renasce a partir do acaso, Guadagnino usa um pincel muito mais fino: quando Harry canta, dança, fala o tempo inteiro e faz o que bem entende em qualquer lugar como um verdadeiro furacão para qualquer círculo social, A Piscina se torna um estudo sobre tudo o que nasce a partir do silêncio em meio ao caos – e por isso é tão simbólico uma estrela da música se encontrar praticamente muda em um turbilhão interno tão intenso.

Inteligentemente, Harry está longe de ser um sujeito meramente insuportável. Sua necessidade de estar constantemente falando e chamando atenção revela, na verdade, uma autenticidade que, sim, extrapola a paciência e o limite de muita gente, mas que não deixa de ser… autenticidade. O próprio personagem questiona: por que ele precisa pedir desculpas por simplesmente ser quem é? Isso nos leva à ideia de que Harry tem um mérito que, parando para pensar, é raríssimo em boa parte das relações que estabelecemos. A própria Marianne compreende isso (e não à toa esse parece um dos aspectos que fizeram com que ela um dia caísse de amores por ele), o que, em contraste, não amortece a incômoda sensação de tê-lo de volta em sua vida que, no exato momento retratado por A Piscina, é muito bem estabelecida do ponto de vista profissional e amoroso. Toda a ação do filme de Luca Guadagnino parte dessa chegada turbulenta de Harry, que ainda viaja com uma filha adolescente (Dakota Johnson) que diz recém ter descoberto existir. Na convivência do quarteto (Marianne e seu namorado, Harry e sua filha), A Piscina apresenta dilemas sexuais, amorosos e até mesmo sociais partindo de cotidianidades. Os subtextos que surgem desde uma mera diversão no karaokê até um duvidoso passeio de campo reforçam o naturalismo do longa, que, como outros do diretor italiano, prefere lançar um olhar microscópico para situações corriqueiras ao invés de apostar em reviravoltas para criar estofo dramático.

Saindo dos registros bucólicos de Um Sonho de Amor para as paisagens veranis de A Piscina, Luca Guadagnino segue filmando histórias com grande requinte estético. Se Tilda Swinton novamente é um deslumbre com figurinos invejáveis (todo o guarda-roupa dela foi desenhado pela Gucci, incluindo o icônico óculos de sol usado do início ao fim) e as paisagens litorâneas da Itália são de encher os olhos, o diretor nunca deixa que a estética seja apenas um personagem extra do filme ou que  sirva apenas para tornar ainda mais atraente a inegável beleza de Matthias Schoenaerts, por exemplo. Tudo tem um propósito: a sofisticada roupagem de Tilda justifica seu status de estrela da música mundialmente reconhecida e as praias criam um clima de despojamento que é fundamental para a o desejo físico que se cria secretamente ou não entre os personagens. Afinal, assim são os filmes que reverberam como A Piscina: grandes também nos detalhes técnicos e não apenas no roteiro. Por falar em texto, aqui o roteirista David Kajganich revela um talento surpreendente. Responsável pelos péssimos Invasores (a ficção estrelada por Nicole Kidman e Daniel Craig em 2007) e Renascido das Trevas (mais uma bagunça dirigida por Joel Schumacher, dessa vez um terror com Henry Cavill), Kajganich é pontual ao administrar a ciranda de sentimentos entre os personagens de A Piscina, todos muitíssimos bem desenvolvidos em suas personalidades e na forma como elas se afetam.

Muito da verossimilhança de A Piscina se dá pelo alto nível de interpretação do quarteto de atores reunidos no longa, incluindo até mesmo Dakota Johnson, que, com um papel consideravelmente menor em tempo de projeção se comparado ao de seus colegas, consegue transmitir toda a esperteza de uma jovem que tenta compreender (ou quem sabe se aproveitar?) dos conflitos a sua volta. Mas se Tilda Swinton já dispensa comentários há anos (aqui está novamente fantástica com um papel que só poderia ser dela) e faz uma ótima dupla com Matthias Schoenaerts, que interpreta um homem atraente e comum na medida exata, quem realmente dá show é o sempre subvalorizado Ralph Fiennes. É claro que seu personagem, por ser o centro das atenções (e da ação), já ganharia destaque naturalmente, mas Fiennes sabe calibrá-lo com grande precisão, atentando-se a dois pontos fundamentais: primeiro o de Harry como um homem verborrágico que torna qualquer momento um grande acontecimento e segundo como sujeito confiante que, muito no fundo, aos poucos compreende que não pode controlar tudo nesse mundo (a cena em que Marianne pergunta por que Harry não consegue aceitar a ideia de ela ser feliz sem sua presença é uma das melhores do filme). Em uma das entrevistas que concedeu para divulgar A Piscina, Guadagnino diz que trabalhar com esses atores foi a melhor experiência que já teve com um elenco em toda a sua carreira. Se como espectador é fácil acreditar na grande verdade dessa afirmação, imagine estando lá…

Rapidamente: “A Estranha Passageira”, “Amores Urbanos”, “Minha Vida de Abobrinha” e “Toni Erdmann”

Distante das mulheres geniosas e de temperamento forte que tanto marcaram sua carreira, Bette Davis tem, em A Estranha Passageira, um de seus desempenhos mais camaleônicos.

A ESTRANHA PASSAGEIRA (Now, Voyager, 1942, de Irving Rapper): Com a estreia da minissérie Feud, que conta os bastidores das filmagens de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, longa de 1962 estrelado por Bette Davis e Joan Crawford, volta a vontade de rever ou vasculhar o que ainda não vimos da filmografia das duas atrizes. Foi justamente o programa de Ryan Murphy que me levou a continuar a missão de ver, pelo menos, todas as indicações de Bette ao Oscar (foram dez, ao total, todas como protagonista). Nessa jornada, cheguei recentemente ao longa A Estranha Passageira, que traz uma das interpretações mais camaleônicas dessa atriz marcada por quase sempre interpretar mulheres de gênio difícil, temperamento forte ou simplesmente de má índole. Definitivamente não é o caso do filme de Irving Rapper, onde Bette dá vida a Charlotte Vale, jovem que, rejeitada e massacrada pela mãe, nunca viveu sua própria vida, até o dia em que resolve se libertar das amarras familiares e se tornar a mulher que sempre quis ser. A transição de filha submissa que se porta quase como alguém da terceira idade para uma figura feminina elegante, autêntica e dona de seu próprio destino ganha tônica surpreendente nas mãos da atriz, compensando a duração excessiva do filme e arcos dramáticos perfeitamente melodramáticos ou conduzidos de forma óbvia até para a época (é imperdoável que a mãe da protagonista seja reduzida a uma pessoa apenas maquiavélica e desagradável). Bette, sem dúvida, garante o encantamento que falta ao filme como um todo. Aos brasileiros, uma curiosidade extra: é durante uma viagem ao Rio de Janeiro que Charlotte finalmente se descobre uma nova pessoa.  

AMORES URBANOS (idem, 2016, de Vera Egito): Não vou negar que, como um jovem de 25 anos, saí da sessão de Amores Urbanos com um gosto amargo na boca. E isso se deve exclusivamente ao retrato fidelíssimo que a diretora Vera Egito faz da juventude contemporânea. Em seu filme de estreia como diretora, ela se diferencia da infinidade de filmes sobre adolescentes ao pegar uma faixa etária muito mais madura (os protagonistas já estão na casa dos 30 anos) e ao utilizar, como o próprio título indica, a questão urbana como elemento fundamental para todas as questões emocionais do roteiro, escrito pela própria Vera. Habitantes de uma São Paulo efervescente em histórias e oportunidades, mas também intimidante e excludente por conta de seu tamanho gigantesco, Júlia (Maria Laura Nogueira), Diego (Thiago Pethit) e Micaela (Renata Gaspar) pouco sabem o que estão fazendo da vida, seja na forma um tanto confusa como as relações se configuram nos dias de hoje, na compreensão deles próprios sobre suas personalidades e nos impulsos ou na indefinição de uma vida profissional cobrada cada vez mais cedo pela sociedade. É no turbilhão de tentar conciliar tudo isso e de encontrar um ponto de equilíbrio entre o que queremos fazer e que os outros esperam de nós que Amores Urbanos se revela um filme dramaticamente antenado e relevante. Pode ser que, na forma, a história não se esquive de estereótipos para chegar a determinadas discussões, mas o filme tem um tino tão grande sobre a geração em questão que fica fácil relevar seus caminhos fáceis.  

MINHA VIDA DE ABOBRINHA (Ma Vie de Courgette, 2016, de Claude Barras): Como não lamentar o fato do Oscar de melhor animação estar sempre reservado para produções Disney/Pixar? A mais recente vítima dessa sistemática preguiçosa dos votantes da Academia é Minha Vida de Abobrinha, a animação mais sincera e delicada que você verá em muito tempo. Partindo de uma premissa corajosa para o gênero (os dias de um garoto que, após perder a mãe em um acidente causado por ele próprio, passa a viver em um orfanato), o filme de Claude Barras já prometia uma imensidão de sutilezas somente por ter como roteirista a francesa Céline Sciamma, que dirigiu, com muita dignidade e humanidade, o ótimo Tomboy. E ela não desaponta em Minha Vida de Abobrinha: tratando de forma muito discreta, mas nem por isso rasteira, a identidade das crianças que foram parar no orfanato (algumas por terem pais abusivos, outras simplesmente por terem sido rejeitados ao nascimento), Sciamma extrai beleza da inusitada circunstância desse garoto que aprende o significado do amor justamente em um lugar habitado por crianças que não sabem o que é tal sentimento. De forma objetiva, Minha Vida de Abobrinha, que não chega a ter 70 minutos de duração, constrói dramas sem qualquer previsibilidade, além de fazer graça não com situações criadas exclusivamente para balancear o drama ou fisgar os pequenos, mas com a própria personalidade das crianças, todos únicas em suas características. É uma experiência emocionante e altamente expressiva, dos personagens feitos com massinha à maneira como lida com assuntos dificílimos, como o abandono infantil e a depressão.

TONI ERDMANN (idem, 2016, de Maren Ade): Poucas vezes fiquei tão ansioso com a ideia de Hollywood refilmar um filme de língua não-inglesa. Isso porque a versão estrelada por e a pedido de Jack Nicholson para Toni Erdmann pode reparar aquele que considero o maior problema do filme de Maren Ade: a quantidade expressiva de excessos. Demasiadamente longo tanto na metragem em si quanto na forma como o filme prolonga muitas de suas sequências, Toni Erdmann, em contrapartida, acerta na pegada curiosa que adota para tratar sobre o difícil relacionamento entre pai e filha. Obviamente, por abraçar tanto a comédia, o filme dividiu opiniões: há quem ache o resultado genial, enquanto outros chegam a dizer que é puro constrangimento. À parte identificações com o material cômico, é preciso compreender que é somente através dos absurdos dessa vertente que um sujeito como Winfried (Peter Simonischek) poderia se reaproximar de Ines (Sandra Hüller), uma filha bastante linha dura e avessa a diálogos. A química entre os dois atores é fantástica e muito de Toni Erdmann se sustenta em função da dupla, o que só aumenta a sensação de que, caso tivesse, no mínimo, meia hora a menos, essa comédia alemã poderia brilhar ainda mais em suas qualidades e resultar menos exaustiva. Se o remake já acumularia expectativas por finalmente trazer Jack Nicholson de volta e por dar um grande papel que parece cair como uma luva para Kristen Wiig, particularmente fico mais ansioso pela possibilidade da releitura aparar muitas arestas do filme original.

Fragmentado

The broken are the more evolved. Rejoice.

Direção: M. Night Shyamalan

Roteiro: M. Night Shyamalan

Elenco: Anya Taylor-Joy, James McAvoy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica Sula, Izzie Coffey, Brad William Henke, Sebastian Arcelus, Neal Huff, Robert Michael Kelly, M. Night Shyamalan

Split, EUA, 2016, Suspense, 117 minutos

Sinopse: Kevin (James McAvoy) possui 23 personalidades distintas e consegue alterná-las quimicamente em seu organismo apenas com a força do pensamento. Um dia, ele sequestra três adolescentes que encontra em um estacionamento. Vivendo em cativeiro, elas passam a conhecer as diferentes facetas de Kevin e precisam encontrar algum meio de escapar. (Adoro Cinema)

Se o diretor M. Night Shyamalan tem senso de humor e é tão inteligente quanto gosta de se proclamar, o título Fragmentado pode ser interpretado como uma referência a sua carreira de altos e baixos desde que ganhou o mundo e chegou a concorrer ao Oscar em seis categorias com o marcante O Sexto Sentido. Um dos cineastas mais mitológicos do início dos anos 2000, Shyamalan conquistou notoriedade internacional ao dirigir outras obras célebres como Corpo FechadoSinais, mas passou a despertar, de forma plenamente compreensível, a aversão do público naquela que é a derrocada artística mais lamentável já enfrentada por um diretor nas últimas décadas. O declínio não começou tão cedo como muitos apontam (A Vila, de 2004, é sim uma grande obra incompreendida), o que, claro, não amortece os crescentes fiascos criativos de Fim dos TemposO Último Mestre do Ar Depois da Terra. Já em 2015, com orçamento muito menor, escala de produção mais comedida e ambição criativa redimensionada, o diretor retorna com A Visita, filme que considero implausível em sua premissa mais básica, mas que, segundo a razoável recepção da crítica, injetava uma considerável dose de ânimo na carreira desse cineasta que parecia ter esgotado todo seu talento e desaprendido a construir suspenses minimamente instigantes.

Eis, então, a brincadeira que pode ser levantada a partir de uma suposta ironia do título Fragmentado: afinal, como é possível um diretor ter sido ao mesmo tempo tão inovador e desprezível ao longo de quase duas décadas prolíferas de trabalho? Pois a fragmentada carreira de Shyamalan tem tudo para, agora sim, ganhar novo gás: ao contrário de A Visita, Fragmentado apresenta muitos dos elementos que tornaram o cineasta um dos mais cultuados de sua geração. Dessa forma, mesmo que, em algumas passagens, faltem as sutilezas que tornaram, por exemplo, O Sexto Sentido uma aula sobre como esconder dos espectadores um segredo que esteve o tempo inteiro embaixo de seus narizes, é tempo de baixar a guarda: neste novo suspense estrelado por James McAvoy e pela revelação Anya Taylor-Joy, que estrelou o já marcante A Bruxa, Shyamalan, depois de muitos anos, cria uma experiência repleta de atmosfera e boas ideias. Talvez não seja a grande obra que todos esperam (é sempre assim: todos exigem o máximo de quem já fez o máximo, principalmente quando o profissional em questão tenta se reerguer de uma fase ruim), mas pense na hipótese: caso esse fosse o primeiro filme assinado pelo indiano, é bem provável que fosse reverenciado como a estreia promissora de um cineasta independente.

Com um cartaz que remonta a Corpo Fechado sem se limitar apenas a essa brincadeira comercial (quem conhece a carreira do diretor encontrará, no filme, outras brincadeiras referentes ao filme de 2000 estrelado por Bruce Willis), Fragmentado volta a apresentar um Shyamalan que, antes de criar a atmosfera básica de um filme do gênero, pensa bastante no embasamento dramático de seus personagens e na situação em que eles estão inseridos, o que, vale lembrar, foi uma das fórmulas do sucesso de O Sexto Sentido, que sobrepunha o drama ao suspense. Ao criar uma trama centrada em personagens com distúrbios mentais ou ao menos assombrados por passados traumáticos – enquanto Kevin (James McAvoy) tem 23 personalidades distintas, Casey (Anya Taylor-Joy) é a jovem estranha de uma turma que ainda enfrenta os fantasmas de uma infância conturbada -, o roteiro, além de delinear com competência o estofo dramático individual dos protagonistas, aos poucos converge para o caminho que torna o suspense de Fragmentado ainda mais envolvente: o processo de percepção de Casey acerca de como suas inadequações sociais, emocionais e semelhantes as de Kevin podem apontar para saída do cativeiro em que ele a mantém junto a outras duas colegas de escola.

Quando faltam sutilezas a Fragmentado é porque Shyamalan prefere criar, por exemplo, uma narrativa paralela de flashbacks para explicar o passado da jovem Casey ao invés de simplesmente trabalhá-lo a partir das interações estabelecidas por ela com as 23 personalidades do sequestrador. Além disso, são muito mais fascinantes as simbologias criadas dentro do cativeiro para falar sobre qualquer assunto, como o momento em que Casey, vindo de uma crescente esperança de fuga, se depara com um desenho feito pela personalidade infantil de Kevin. Metaforicamente, ali é revelada a lógica que a jovem precisa adotar para se desenvencilhar da situação: a saída não está, digamos, em uma janela, mas sim no poder da imaginação. Para não ambientar toda a trama de Fragmentado em um único lugar (isso exigiria um exercício muito mais complexo de roteiro, além de infinitas exigências do estúdio para comprar a ideia), o diretor expande sua história para o olhar de Karen Fletcher (Betty Buckley), a psiquiatra de Kevin. É uma forma de tornar a história mais dinâmica e, principalmente, de dar verossimilhança médica ao filme, que jamais se perde no grande número de facetas de Kevin (nem todas são de fato apresentadas na história) e introduz muito bem todo o processo interno do distúrbio mental em questão. O único defeito a ser levantado em relação a Fletcher é que, por mais que ela funcione como um personagem explicativo de vida própria (também são pinceladas informações sobre a vida da psiquiatra, que diz ter nos pacientes os filhos que preferiu não ter), Fragmentado se aproveita demais de sua figura para, no fim, tratá-la como uma coadjuvante qualquer. Fletcher merecia um desfecho mais condizente com seu tempo em cena e sua função narrativa.

Apoiando-se na imprevisibilidade de como é estar refém de um homem que, a qualquer momento, pode assumir até a personalidade de uma mulher para criar seu suspense, Fragmentado é mais do que um filme de sequestro porque compreende que o mérito desse tipo de história não está no sequestro ou na fuga em si, mas na relação entre sequestrado e sequestrador. No plano psicológico, Shyamalan leva seu mais novo trabalho a uma abordagem que, repleta de representações que merecem releituras, foge do lugar-comum e o livra de ter que cumprir o passo a passo de um filme do gênero. Beneficiados pelo retorno criativo de um diretor que parecia fadado a não acertar mais estão James McAvoy e Anya Taylor-Joy, ambos merecedores de elogios pontuais por suas interpretações. Ele, que assume inicialmente destinado Joaquin Phoenix, tem aqui um dos grandes momentos de uma carreira já conhecida por bons papeis (O Último Rei da EscóciaDesejo e ReparaçãoDois Lados do Amor, os novos X-Men), onde seu maior é certo é nunca cair na caricatura e sempre tornar críveis cada uma das personalidades do protagonista. Já Anya confirma a presença forte que tinha em A Bruxa ao ultrapassar todas as leituras fáceis da jovem excluída e problemática que, no fundo, tem mais a oferecer do que qualquer uma de suas colegas supostamente mais bonitas e interessantes. É com uma construção muito climática (se atentem ao envolvente trabalho de West Dylan Thordson na trilha sonora!) que M. Night Shyamalan coloca tudo isso em uma mistura que, finalmente, podemos considerar a responsável por novamente fazer dele um cineasta interessante. Se a crítica não concordar, pelo menos a Universal pode comemorar com os bolsos cheios: Fragmentado, até a data de publicação desse texto, já faturou 28 vezes mais do que seu orçamento de 9 milhões de dólares. 

Logan

So this is what it feels like…

Direção: James Mangold

Roteiro: James Mangold, Michael Green e Scott Frank, baseado em história de James Mangold

Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen, Boyd Holbrook, Stephen Merchant, Elizabeth Rodriguez, Richard E. Grant, Eriq La Salle, Elise Neal, Quincy Fouse, Reynaldo Gallegos

EUA, 2017, Ação/Drama, 137 minutos

Sinopse: Em 2029, Logan (Hugh Jackman) ganha a vida como chofer de limousine para cuidar do nonagenário Charles Xavier (Patrick Stewart). Debilitado fisicamente e esgotado emocionalmente, ele é procurado por Gabriela (Elizabeth Rodriguez), uma mexicana que precisa da ajuda do ex-X-Men para defender a pequena Laura Kinney / X-23 (Dafne Keen). Ao mesmo tempo em que se recusa a voltar à ativa, Logan é perseguido pelo mercenário Donald Pierce (Boyd Holbrook), interessado na menina. (Adoro Cinema)

Quando o diretor James Mangold recebeu carta branca para fazer Logan com classificação indicativa máxima, a conquista foi motivo de celebração, já que, muito além de poder realizar um filme com violência infinitamente mais gráfica, ele poderia contar uma história sem ter a obrigação de agradar a todo tipo de plateia. Com isso, foram escanteados a significativa quantidade de alívios cômicos tão inerentes aos blockbusters, a predileção pelo CGI em cenas de ação grandiosas e principalmente os arcos dramáticos perfeitamente previsíveis. Tudo isso já poderia por si só diferenciar o último longa-metragem de Wolverine estrelado por Hugh Jackman, mas o conceito foi muito além: melancólico e com tom de urgência, Logan é uma produção que surpreende por sua abordagem profundamente triste ao acompanhar os dias de um herói que, com um rosto envelhecido e cansado, precisa enfrentar, literal e metaforicamente, a maior batalha que todos nós também estamos fadados a enfrentar: aquela contra nós mesmos.

Décimo filme da franquia X-Men e o terceiro protagonizado por Wolverine, Logan varre para baixo do tapete todos os longas anteriores de seu universo ao demonstrar que não só aprendeu como atualizar um personagem que surgiu pela primeira vez nas telas há 17 anos como também observou atentamente as possibilidades pioneiras da trilogia Batman dirigida por Christopher Nolan de unir entretenimento com sofisticação narrativa. James Mangold, um diretor que faz tudo que é tipo de filme mantendo uma boa média de qualidade (Johnny & JuneIdentidade, Garota, Interrompida), dá um notável salto artístico em seu trabalho atrás das câmeras: entre Wolverine: Imortal Logan existe uma clara vontade de proporcionar uma experiência diferente, algo que ele mesmo confessa quando fala sobre o roteiro, que, segundo Mangold, traz inspirações de longas célebres (Os Brutos Também Amam, no sentido de realizar um quase faroeste para um protagonista que procura uma mudança de vida rumo a dias mais isolados e pacíficos) e outros contemporâneos (Pequena Miss Sunshine, evocado aqui na abordagem de um road movie que oscila entre a melancolia e o humor com uma criança e um senhor no banco traseiro). 

Sem qualquer vilão querendo dominar o mundo ou tramas repletas de engenhosidades descartáveis (o que não deixava de sabotar Christopher Nolan em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, por exemplo), Logan é comandado com uma crueza embasbacante. Se antes Wolverine usava suas garras para aniquilar inimigos quase sem derrubar uma gota sequer de sangue em cenas de lutas mirabolantes, aqui Mangold abraça o realismo ao pesar a mão na medida certa em sequências que realmente encenam a gravidade do combate físico e cujas acrobacias foram de fato performadas pelos atores ou por seus dublês. É um ganho tremendo para um filme com clima de despedida como esse, já que o protagonista, ao atravessar cenários áridos e inóspitos, surge abatido pela idade (ele usa até óculos para ler!) e por seu duro passado. Em Logan, os heróis são falíveis, o que de certa forma não deixa, no sentido positivo, de desclassificar o filme de James Mangold como um filme herói. Antes de mais nada, a história é sobre seres humanos, onde os pés estão bem firmados no chão, o que não quer dizer que toda a mitologia dos quadrinhos não esteja presente aqui. 

Encenado em 2029, mas renegando futurismos idealizados (pelo contrário: é seguida a lógica de que, talvez, a humanidade realmente não melhore com o passar das décadas), Logan cumpre com louvor a missão de fazer uma despedida ao mesmo tempo em que introduz, com muita organicidade, possibilidades para que o universo tenha possíveis sobrevidas a partir de novos personagens e situações. É meticuloso esse roteiro que, em termos de ação, se sustenta a partir de uma única perseguição para falar sobre o quanto certas jornadas podem realmente nos transformar. Afinal, é meio ilusório acreditar que até mesmo o mais poderoso dos super heróis passe por tantas mortes, despedidas e traumas sem carregar pelo menos algumas cicatrizes internas. Pois Logan/Wolverine se abala sim: desesperançoso ao ponto de descontar a raiva com a vida no próprio carro, o personagem, por trás de uma barba mal feita, das rugas que o tempo trouxe e das garras que não saem de suas mãos com a naturalidade de antes, já nem mesmo compreende mais o que é se conectar com o próximo – e, por isso, não é à toa que se torna poderoso, tanto para ele quanto para nós, um carinho aparentemente cotidiano, mas tão negado a nosso protagonista, ao final da trama.

Hugh Jackman, que segura o personagem como poucos atores que estrelam filmes baseados em quadrinhos, alcança, em Logan, o seu auge como Wolverine. É injusto, no entanto, reduzi-lo a apenas a essa comparação: depois de ter apresentado performances grandiosas nos últimos anos em filmes como Os MiseráveisOs Suspeitos, Jackman entrega uma atuação digna de ser reconhecida independente de gênero cinematográfico. O trabalho, que desde já está destinado a ser lembrado como um dos seus pontos altos como intérprete, ainda é complementado por outro ator em momento digno de aplausos: Patrick Stewart. O veterano finalmente tem a chance que tanto lhe era negada nos filmes anteriores da franquia e abraça por completo a proposta de ser um homem tão abalado e fadigado quanto o protagonista. Com ação visceral e discussões comoventes, Logan marca uma revolução no cinema derivado de adaptação de quadrinhos, mas sem nunca negar sua origem ao brincar com referências, falar novamente sobre a caça aos mutantes e apresentar personagens com novos poderes. As decisões artísticas funcionaram porque, somente nos Estados Unidos, Logan foi a maior estreia de um filme com classificação indicativa máxima, ocupando mais de 4 mil salas de cinema. Ou seja, em termos de crítica e público, o filme é um sucesso. E com toda razão.

Moonlight: Sob a Luz do Luar

What’s a faggot?

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Direção: Barry Jenkins

Roteiro: Barry Jenkins, baseado na história de Tarell Alvin McCraney

Elenco: Alex R. Hibbert, Ashton Sanders, Trevante Rhodes, Naomie Harris, Mahershala Ali, Janelle Monáe, Shariff Earp, Duan Sanderson, Edson Jean, Patrick Decile, Herveline Moncion, Fransley Hyppolite

EUA, 2016, Drama, 111 minutos

Sinopse: Black (Trevante Rhodes) trilha uma jornada de autoconhecimento enquanto tenta escapar do caminho fácil da criminalidade e do mundo das drogas de Miami. Encontrando amor em locais surpreendentes, ele sonha com um futuro maravilhoso. (Adoro Cinema)

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Quando surge pela primeira vez em Moonlight: Sob a Luz do Luar, o pequeno Chiron está correndo incansavelmente. Perseguido por colegas da escola que gritam “bicha!” ao mesmo tempo em que tentam encurralá-lo, o protagonista do filme de Barry Jenkins aos poucos nos revela o seu universo aterrador: negro, pobre e filho de um pai que não conhece e de uma mãe drogada, Chiron, que nem entende muito bem o que é ser gay, mas que já enfrenta o julgamento da sociedade em função de sua natureza, carrega consigo uma série de minorias que o mundo não costuma tratar com muito zelo. Já não é fácil fazer parte de uma ou outra delas, e o que dizer, então, quando é preciso levar todas nas costas. E Moonlight, que não estereotipa qualquer uma das facetas de seu protagonista, é arrebatador por conta de uma escolha muito acertada: a de concentrar seu olhar não na jornada que Chiron enfrenta contra a sociedade, mas contra os fantasmas de sua própria vida e de um destino aparentemente imutável que parece ter sido traçado desde o momento de seu nascimento.

Narrando três momentos da vida de Chiron em uma uma parte de Miami, nos Estados Unidos, movida a drogas, violência e prostituição, Moonlight é um projeto muito pessoal do diretor Barry Jenkins, que gravou o filme com apenas cinco milhões de dólares no bolso. E tudo não poderia ter vindo em momento mais oportuno: quando o mundo discute cada vez mais questões de representatividade, seja de qualquer minoria, o longa surge como uma experiência para lá de catártica. Muito mais do que um filme de incrível relevância temática, Moonlight também é cinema de incrível qualidade e delicadeza. No primeiro capítulo, quando acompanha o protagonista ainda criança, a história tem foco maior nas pessoas que cercam Chiron e como elas serão decisivas para a personalidade que o pequeno virá a moldar. Se o turbilhão do convívio com a mãe drogada parece um beco sem saída, a figura de Juan (Mahershala Ali) vem para transformar sua vida em todos os sentidos, desde a forma como construímos o valor que cada relação familiar tem em nossa vida até a compreensão do quão natural é ser gay e não ser recauchutado por isso. É um desses encontros aleatórios da vida que chegam para mudar toda uma existência – e que, muitas vezes, só mais tarde, tomando certa perspectiva, compreendemos o papel fundamental que desempenham nas forças que encontramos para seguir em frente. 

Quando transporta Chiron da infância para a adolescência, Moonlight se entrega muito mais ao protagonista, que agora precisa enfrentar uma das piores partes da vida de qualquer pessoa: a escola. Cada vez mais perseguido por sua natureza sexual, o garoto, que permanece mais tempo no ambiente escolar após aulas para não ter que encarar os bulliers que o aguardam do lado de fora para lhe dar uma surra, faz descobertas muito pessoais em relação a si próprio (a cena em que tem um primeiro contato sexual com um homem é de arrepiar de tão natural), dessa vez trilhando o seu próprio destino, já com uma cota bem menor de ajuda do que esperava ter nessa altura da vida. E é nesse capítulo que Barry Jenkins, também roteirista do filme, entrega os momentos mais brilhantes de Moonlight, sendo cuidadoso em tudo o que discute nas entrelinhas (muita coisa está implícita na “brincadeira” que um garoto valentão da escola faz com Chiron em relação à possibilidade de comê-lo caso também fosse gay) e, principalmente, no poder das imagens (a cena na praia onde acontece o primeiro contato sexual do protagonista é arrebatadora, assim como os momentos com a mãe são por vezes assustadores tamanha a composição visual que lembra um filme de terror).

Ainda que dividido em capítulos, Moonlight consegue costurá-los com notável proeza, vencendo em um aspecto que considero particularmente decisivo: a capacidade de fazer com que nós, espectadores, continuemos a identificar Chiron em corpo e alma mesmo com a troca de atores e até mesmo de identidades visuais entre cada parte da história. Ironicamente, esse é o mesmo detalhe que sabota o filme em sua terceira e última parte. Afinal, quando Chiron chega à vida adulta, é difícil enxergá-lo na tela, como se não identificássemos, nem mais em seus olhos, o garoto por quem tanto nos afeiçoamos até ali, o que nada tem a ver com o fato do filme apontar para a ideia de que certos destinos são mesmo inevitáveis. Difícil constatar se é a escalação errada de elenco, as longas cenas que nunca alcançam a intensidade que deve vir de uma narrativa de baixa fervura ou simplesmente a personalidade por vezes misteriosa demais de um Chiron que já não encaramos da mesma forma. Tudo parece muito à parte do restante, e um bocado se perde – e até se acovarda – quando Moonlight se propõe a passar a régua e a fechar as contas. Por se tratar do capítulo derradeiro, isso é um problema, pois normalmente a impressão que fica é a do desfecho. 

Justiça seja feita, entretanto, a méritos que saem ilesos desse importante detalhe, como o alto nível do elenco. Os Chirons dos dois primeiros capítulos são simplesmente fantásticos, em especial Ashton Sanders, que, interpretando o personagem na adolescência, tem os momentos mais expressivos e marcantes de todo o filme (a cena que encerra essa parte é um grito dos mais libertadores). Entre os coadjuvantes, ainda que alguns deles sejam sabotados pelo o roteiro, como Mahershala Ali, que exerce com sabedoria e inteligência um papel importante demais para depois ser escanteado com tanto descaso, há um excelente nível, onde Naomie Harris também merece nota por um trabalho que se esquiva de histrionices e que ganha nova dimensão a partir da informação de que a atriz precisou gravar tudo em apenas três dias (e como sua personagem passa por mudanças significativas, isso é um verdadeiro elogio). Não deixem ainda que a conclusão frustrante de Moonlight amorteça a assombrosa trilha de Nicholas Britell e a fotografia inteligentíssima de James Laxton (Chrion aprendendo a nadar é uma das coisas mais lindas que você verá em 2017). Mais do que isso, leve, após a sessão, a mensagem forte, necessária e impactante que, com o talento de Barry Jenkins, certamente reverberá por muito, mas muito tempo.

Rapidamente: “É Apenas o Fim do Mundo”, “Até o Último Homem”, “Kubo e as Cordas Mágicas”, “A Qualquer Custo” e “A Tartaruga Vermelha”

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Dez anos depois de Apocalypto, Mel Gibson volta à direção de longas com Até o Último Homem, filme de guerra que constrói uma história curiosa a partir de uma narrativa clássica.

É APENAS O FIM DO MUNDO (Juste La Fin du Monde, 2016, de Xavier Dolan): Quando exibiu É Apenas o Fim do Mundo no Festival de Cannes de 2016, o diretor Xavier Dolan assumiu que seus filmes são mesmo histéricos – e quem não gosta que vá procurar outra coisa para assistir. A lógica não deixa de estar certa, mas Dolan precisa urgentemente tratar seus problemas em casa, já que, para corroborar essa sua afirmação, precisou menosprezar publicamente um crítico que odiou o seu filme, mas aprovou Creed: Nascido Para Lutar, como se a opinião dele não valesse nada por conta disso. O elenco europeu de alto nível que o jovem cineasta reúne em seu mais recente longa (Gaspard Ulliel! Léa Seydoux! Vincent Cassel! Marion Cotillard!) comprova a reputação conquistada nos últimos anos. Contudo, a histeria que ele acertadamente assume atrapalha demais a experiência. E o problema de É Apenas o Fim do Mundo não é nem necessariamente as incansáveis discussões dos personagens, e sim as razões (ou melhor, a falta delas) que despertam tais desavenças. Tanto barraco mal construído, gratuito e sem profundidade nos impede de ter alguma compreensão dos personagens. A partir disso, interpretações de tom muito menor como a de Ulliel e Cotillard se perdem porque os dois parecem apenas duas figuras inertes que vagam cabisbaixos o filme inteiro. Por outro lado, figuras explosivas como as de Cassel e Seydoux testam a nossa paciência ao despertar discussões com as situações mais avulsas possíveis, como quando a matriarca coloca no rádio uma música que, sem saber, um dos filhos detesta. É Apenas o Fim do Mundo merecia ser um impactante drama familiar e não, como bem Dolan reconhece, uma simples histeria. Vou mesmo seguir o conselho do diretor e procurar outra coisa para assistir a partir de agora.

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Hacksaw Ridge, 2016, de Mel Gibson): Expressivo retorno de Mel Gibson na cadeira de direção após o mediano Apocalypto, de 2006, Até o Último Homem vem colhendo uma série de críticas que, de certa forma, sempre foram associadas ao diretor: melodrama, pregação religiosa, sadismo e por aí vai… Há casos em que é possível concordar com uma coisa ou outra (A Paixão de Cristo é o maior exemplo nesse sentido), mas não me parece ser o caso desse ótimo filme de guerra dirigido por ele. Em Até o Último Homem, detratores enxergam melodrama ao invés da narrativa clássica, formato que sempre foi uma marca de Mel Gibson. Já a chamada pregação religiosa em momento algum se estende ao filme, restringindo-se unica e exclusivamente à construção dramática do protagonista, um católico fervoroso que leva os mandamentos de Deus ao pé da letra (e isso está muito bem enraizado em sua personalidade surpreendentemente bem defendida por Andrew Garfield). Por fim, é de se questionar até as críticas em relação ao sadismo, já que estamos falando de um filme de guerra, e nem assim a violência se revela exagerada ou muito menos grotesca. Ganhando muitos pontos com a história curiosíssima (o jovem que se alista no exército para salvar vidas como médico, recusando-se a sequer ter a posse de qualquer arma), Até o Último Homem é impressionante na grandiosidade, na eficiência e na condução de suas cenas de batalha, além de ser o raro caso de uma obra do gênero que, mesmo um tanto mal contextualizada historicamente e rasa nas discussões familiares, deve envolver inclusive quem tem um pouco de preguiça com relatos de guerra. Assim é bom ter Mel Gibson de volta.

KUBO E AS CORDAS MÁGICAS (Kubo and the Two Strings, 2016, de Travis Knight): Com graça e originalidade, Kubo e as Cordas Mágicas talvez seja a animação mais completa a competir na temporada de premiações deste ano. Mesmo perdendo basicamente todos os prêmios para Zootopia – Essa Cidade é o Bicho, o longa dirigido por Travis Knight abrange o público adulto e infantil preservando um aspecto muito importante: o de ser produzido nos Estados Unidos e ainda assim captar todo o espírito do mundo oriental onde a trama é encenada. Maior animação em termos de metragem já feita no formato stop-motionKubo e as Cordas Mágicas flerta com o pessoal, a imaginação e até mesmo o místico para contar a criativa história de um garotinho que precisa derrotar um espírito de seu passado. O filme funciona com grande fluidez e empatia porque os personagens são adoráveis, a história é instigante na construção de seus conflitos e o visual é frequentemente arrebatador (os destaques ficam com com o personagem dublado por Ralph Fiennes e com a dupla sombria de mulheres que persegue o protagonista). Tão impressionante é o trabalho técnico de Kubo e as Cordas que a animação conseguiu um feito raro no Oscar: faturar uma indicação na categoria de efeitos visuais, algo que não acontecia desde 1993 com O Estranho Mundo de Jack. E o melhor: por mais que seja impactante do ponto de vista técnico, a obra jamais deixa de ser um relato bastante particular de seu protagonista. Para um diretor que acaba de estrear na direção de longas, Travis Knight está realmente de parabéns.

A QUALQUER CUSTO (Hell or High Water, 2016, de David Mackenzie): Uma das boas surpresas do Oscar 2017, A Qualquer Custo é extremamente eficiente mesmo trabalhando com lógicas fáceis envolvendo filmes sobre assaltantes. Aliás, tematicamente, o longa assinado por David Mackenzie não deixa de ser torto na forma como quer tornar quase heroico, por exemplo, o sujeito branco e norte-americano que assalta bancos porque, vejam só, quer dar um futuro melhor ao filho e quitar todas as dívidas que tem com a ex-mulher. Se A Qualquer Custo procurasse acompanhar e construir com complexidade o ponto de virada em que o tal homem decide se entregar à ilegalidade, talvez a situação fosse também marcante no conteúdo. Como não o é, fica lembrado como um filme que conduz com destreza sua ação, atualizando a paisagem do western (os personagens usam até iPhone!) e se destacando em pontos técnicos dignos de nota, como a fotografia de Giles Nuttgens e a trilha sonora da dupla Nick Cave e Warren Ellis (lembram do trabalho magnífico deles para O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford?). Quanto ao elenco, Jeff Bridges continua repetindo o papel de Coração Louco e a situação ficaria muito mais curiosa se os papeis de Ben Foster e Chris Pine fossem invertidos, principalmente porque é fácil demais para o primeiro fazer o tipo tempestuoso enquanto o segundo é uma escolha óbvia para o irmão bonito e virtuoso. Entretanto, apesar das ressalvas, A Qualquer Custo prende o espectador com uma facilidade empolgante, o que é resultado de uma inspirada direção.

A TARTARUGA VERMELHA (La Tortue Rouge, 2016, de Michael Dudok de Wit): Animação francesa desprovida de diálogos, A Tartaruga Vermelha é uma experiência exclusivamente dedicada aos adultos por uma série de razões. Com estética simples, mas narrativa contemplativa e uma série de metáforas, o filme de Michael Dudok de Wit talvez funcionasse melhor como curta-metragem, visto que a história frequentemente cai na repetição ou até mesmo na necessidade de estacionar determinados assuntos visto o formato longo. Mesmo assim, é impossível ficar indiferente primeiro à curiosidade que a história desperta como o relato de sobrevivência de um homem que acorda em uma ilha após um acidente marítimo e depois como uma bonita homenagem ao poder que as relações humanas têm de transformar as nossas vidas. É a primeira animação não-japonesa do estúdio Ghibli, responsável por clássicos filmes orientais do gênero, como A Viagem de ChihiroMeu Amigo Totoro. O desvio de percurso no portfólio se deu a partir da admiração dos executivos do estúdio pelo trabalho do diretor Michael Dudok de Wit, que faz carreira como animador na Holanda e havia dirigido quatro curtas-metragens antes de realizar A Tartaruga Vermelha. O convite foi uma completa surpresa para Dudok, que não acreditava que pudesse receber um voto de confiança dessa magnitude. E ele pode respirar aliviado: ambiciosa em reflexões, a animação é um acerto delicado em termos de narrativa. 

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