Cinema e Argumento

Mulher-Maravilha

It’s about what you believe.

Direção: Patty Jenkins

Roteiro: Allan Heinberg, baseado em história dele próprio com Jason Fuchs e Zack Snyder e na personagem criada por William Moulton Marston

Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, David Thewlis, Elena Anaya, Robin Wright, Danny Huston, Connie Nielsen, Saïd Taghmaoui, Ewen Bremner, Lucy Davis, Lisa Loven Kongsli, Ann Ogbomo, Eugene Brave Rock

Wonder Woman, EUA, 2017, Aventura, 141 minutos

Sinopse: Treinada desde cedo para ser uma guerreira imbatível, Diana Prince (Gal Gadot) nunca saiu da paradisíaca ilha em que é reconhecida como princesa das Amazonas. Quando o piloto Steve Trevor (Chris Pine) se acidenta e cai numa praia do local, ela descobre que uma guerra sem precedentes está se espalhando pelo mundo e decide deixar seu lar certa de que pode parar o conflito. Lutando para acabar com todas as lutas, Diana percebe o alcance de seus poderes e sua verdadeira missão na Terra. (Adoro Cinema)

Não deixe ninguém dizer o contrário: é importante e altamente gratificante que Mulher-Maravilha, um filme protagonizado e dirigido por mulheres a partir de uma história em quadrinhos, tenha finalmente chegado aos cinemas. Em tempos que a representatividade é pauta cada vez mais prioritária na indústria do entretenimento, a configuração do projeto se apresenta, no mínimo, como um reflexo histórico e pioneiro não apenas da evolução de um gênero mais dominado por homens do que a média, mas até mesmo do próprio cinema. Por outro lado, também é preciso achar um meio termo e ponderar muita coisa: ainda que catártico em sua representatividade, Mulher-Maravilha é, em termos criativos, um filme de super-herói como qualquer outro, inclusive no que se refere a problemas e vícios. A diretora Patty Jenkins, que não trabalhava com cinema desde 2003, quando fez Monster – Desejo Assassino, lapida e reajusta o que quase 100% dos homens faria, como objetificar a personagem a partir da forma como são capturados os detalhes do figurino, mas ainda está claramente de mãos atadas ao lidar com um filme dessa dimensão e com um estúdio que a obriga a usar a mesma paleta de cores dessaturadas de sempre e a infinidade de cenas de ação em slow motion que o diretor Zack Snyder tanto “consagrou” em suas adaptações de quadrinhos.

Totalmente independente do ponto de vista emocional e sexual, a protagonista Diana (Gal Gadot) acredita que os homens podem muito bem servir apenas para reprodução, trilhando o seu próprio caminho sem depender de ninguém. Seja em alto-mar ou entre os disparos de uma batalha de exército, ela é o que pode existir de mais simbólico para toda uma geração que precisa se ver representada na tela grande – e, nesse sentido, é inspirador observar crianças segurando hoje uma boneca da personagem com um orgulho inconsciente que, durante décadas, foi simplesmente impossível para gerações anteriores. É essa personagem forte que dá uma tônica diferenciada para Mulher-Maravilha, onde a israelense Gal Gadot, apesar de suas evidentes limitações como atriz dramática, defende a personagem à altura do que ela merece, respondendo tanto ao empenho físico exigido por um filme como esse quanto à personalidade decidida e tão fundamental para que a produção funcione em termos de representatividade. Fotogênica, Gadot também é estonteante com sua inegável beleza que, graças ao fato do filme ter uma mulher na cadeira de direção, jamais se torna uma muleta narrativa. Se a protagonista impressiona, não é por ser linda, mas por tudo que é e simboliza como uma figura feminina independente, algo que intimida quase todo homem hétero na vida real. É realmente importante que Diana esteja na tela dessa forma e chegando a tantas pessoas em nível mundial.

Obviamente é injusto aumentar as exigências em torno de um filme dessa natureza só por ele ser dirigido e protagonizado por mulheres, mas também é preciso reconhecer que não é por ele se configurar dessa maneira que seja deselegante falar sobre seus problemas, especialmente quando o roteiro não corresponde à relevância da produção como um todo. Escrito por Allan Heinberg, que nunca nunca havia trabalho com cinema e tem apenas séries populares de TV na bagagem (The O.C.Sex and the CityGrey’s Anatomy), Mulher-Maravilha começa muitíssimo bem ao encenar a vida da protagonista em uma ilha habitada apenas por Amazonas. Quando faz com que Diana saia de lá para desbravar uma Inglaterra em plena guerra com a Alemanha, a situação desanda, reforçando a ideia de que presença da personagem é muito maior do que o filme em si. Há algo de pouco instigante na relação entre o universo da heroína e a vida real, o que resulta ou em piadas datadas (Diana confundindo uma lingerie com uma perigosa armadilha e perguntando o que significa a palavra secretária é algo que já vimos centenas de vezes até em comédias desastrosas de Tim Burton como Sombras da Noite) ou em meras caricaturas, a exemplo do maquiavélico e unidimensional ditador alemão de sotaque pesadíssimo que precisa ser combatido. Ainda é um problema que o roteiro demore tanto para fazer a protagonista viver a sua própria história e não a do espião Steve Trevor (Chris Pine), que, lá pelo miolo do filme, ocupa um espaço bastante desproporcional em termos de tempo e destaque. Inexperiência por inexperiência em roteiros para o cinema, por que não dar essa chance também a uma mulher?

De ação limpa (Diana sequer sofre um arranhão em inúmeros confrontos violentos), clímax atrapalhado como o de quase todos os filmes de herói (é sempre a mesma megalomania onde os personagem precisam apresentar tudo que é tipo de poder e artimanha) e até motivações duvidosas (o que impulsiona a protagonista a arranjar forças para derrotar o grande vilão do filme pode muito bem ser interpretado como uma decisão machista do roteiro), Mulher-Maravilha volta a trazer a reflexão de que, sim, queremos histórias contadas e protagonizadas por mulheres, negros, gays e todo tipo de parcela da sociedade que a indústria subestima, não reconhece ou ignora. Da mesma maneira, queremos também histórias sofisticadas, diferentes, bem contadas, pois uma coisa não exclui a outra. Em maior e menor grau, tivemos excelentes exemplares recentes que comprovam como isso é possível (o feminismo ferrenho de Mad Max: Estrada da Fúria ou a completa catarse de Moonlight: Sob a Luz do Luar pelo menos em seus dois primeiros capítulos), enquanto Mulher-Maravilha fica no meio do caminho, acertando demais ao construir a força e a personalidade de uma personagem que já se torna marcante, mas perdendo muitos pontos no rasteiro conceito que emula de diversos outros filmes de herói. São problemas que surgem no vácuo? Não. A origem é clara: a diretora Patty Jenkins dançou conforme a música do estúdio, que já deve ter considerado a ideia de colocar uma mulher na direção algo suficientemente ousado para um produto dessa magnitude, o que deve explicar também a escolha de um homem inexperiente em cinema para escrever o roteiro. De qualquer forma, o primeiro passo foi importante dado. Nesse sentido, por ora, celebremos!

Baywatch: S.O.S Malibu

I’m oceanic, motherfucker!

Direção: Seth Gordon

Roteiro: Damian Shannon e Mark Swift, baseado em história de David Ronn, Jay Scherick, Robert Ben Garant e Thomas Lennon, e na série criada por Douglas Schwartz, Gregory J. Bonann e Michael Berk

Elenco: Dwayne Johnson, Zac Efron, Priyanka Chopra, Alexandra Daddario, Kelly Rohrbach, Ilfenesh Hadera,  Jon Bass, Yahya Abdul-Mateen II, Hannibal Buress, Rob Huebel, Amin Joseph, Jack Kesy

Baywatch, EUA, 2017, Comédia, 116 minutos

Sinopse: Mitch Buchannon (Dwayne Johnson) é um devoto salva-vidas, orgulhoso do seu trabalho. Enquanto está treinando o novo e exibido recruta Matt Brody (Zac Efron), os dois descobrem uma conspiração criminosa no local que pode ameaçar o futuro da baía. (Adoro Cinema)

Quer provocar polêmica em uma conversa sobre cinema? Então é só propor uma discussão sobre comédias para o assunto se tornar repleto de discordâncias e debates inconclusivos. Por ser algo muito particular, o humor é imediatamente decisivo na hora de julgar um filme do gênero. Ou vai dizer que é tarefa fácil desassociar o que você acha engraçado daquilo que uma comédia de pegada oposta propõe? Há, por exemplo, quem ache As Branquelas um guilty pleasure divertidíssimo enquanto meio mundo considera uma tremenda bobagem de mau gosto. Tem também que julgue um absurdo gostar de seriados como The OfficeExtras ou Getting On por eles rirem de coisas sérias como terceira idade, deficiência e homossexualidade, sendo que, na realidade, podem ser considerados até corajosos pelo humor politicamente incorreto. Já comédias como Baywatch: S.O.S. Malibu chegam ao cinema cercadas de preconceitos: afinal, será mesmo que algo de bom pode sair de um besteirol com homens que parecem praticar halterofilismo em seu maior grau, mulheres que desfilam na praia com maiôs cavadíssimos e brincadeiras envolvendo ereções, pelos pubianos e líquidos expelidos por cadáveres? A lógica da identificação com o humor se aplica aqui: quase nada é engraçado ou digno de reconhecimento em Baywatch se você não consegue rir do que está na tela, mas, na realidade, o problema se revela mais amplo, já que é muito tortuosa a forma com que o diretor Seth Gordon tenta construir alguma graça para o filme.

A crítica Isabela Boscov escreveu e dá perfeitamente para assinar embaixo: é preciso certo talento para fazer uma comédia ruim ao ponto de ela se tornar boa. Certamente não é o que acontece com Baywatch, que, no geral, é mesmo um besteirol, mas que frequentemente acredita envolver o espectador com uma trama de investigação quando, na verdade, ela é apenas desinteressante, ineficiente e enrolada. Ao invés de simplesmente deixar os personagens salva-vidas vivendo mil e uma besteiras na beira da praia, o filme prefere colocá-los como investigadores de um grande esquema de tráfico de drogas. Toda a função não é divertida, especialmente porque o roteiro escrito pela dupla Damian Shannon e Mark Swift falha em tirar graça da investigação e prefere despertar algum tipo de curiosidade no espectador, como se alguém estivesse realmente interessado por aquela situação. Com isso, Baywatch se vê obrigado a tirar humor de qualquer outro lugar, e é exatamente aí que o filme se mostra incrivelmente frágil. O problema não é ter piada envolvendo sexo, ereções e vômitos, mas sim a inserção aleatória de cada uma dessas piadas. Sem talento para criar uma história divertida de tão absurda, a dupla de roteiristas resolve espalhar tudo que é tipo de situação constrangedora no filme para formar alguma identidade cômica. O resultado é um desastre: além do longa não se assumir como uma baixaria assumida, sequer dá para dizer que ele debocha de si próprio ou se inspira na cafonice do seriado homônimo criado nos anos 1980 em que se baseia (e as participações rapidíssimas de Pamela Anderson e David Hasselhoff sequer imprimem alguma nostalgia, reforçando o espírito mal resolvido do filme).

Uma bela solução para comédias problemáticas como Baywatch pode ser a escolha de um elenco afiado e em plena sintonia para amortecer a situação. E não é errada a ideia de escalar Zac Efron para o papel do jovem gostoso, acéfalo e cheio de si, mas o ator há muito tempo deixou de ter qualquer carisma, preocupando-se apenas em ter braços cada vez mais estourados para aparecer descamisado em comédias que parecem todas iguais. Limitadíssimo, Zac não impressiona nem com atributos físicos (sua forma muscular já é desproporcional, quase ao ponto de deformá-lo e engessá-lo), abrindo espaço para que Dwayne Johnson, também interpretando a si mesmo como o brutamontes fitness de sempre, seja o responsável por dar leveza à história, muito pela brincadeira que seu personagem adota ao nunca chamar o Matt Brody de Zac Efron pelo nome, e sim por referências envolvendo sucessos teens como o próprio High School Musical estrelado por Efron. De resto, as meninas de decotes protuberantes fazem um esforço danado para completar qualquer frase, enquanto entre os coadjuvantes ainda há espaço para o gordinho cujas piadas envolvem apenas o tamanho de seu corpo e o fato de ele, um garoto que o roteiro trata escancaradamente como uma figura nada desejável frente aos corpos “esculturais” da praia, desejar a mulher mais linda da vizinhança – e é fácil deduzir como essa paixão aparentemente impossível irá se desenrolar. Após a onda de críticas negativas, Dwayne Johnson saiu na defensiva e disse que esse não é um filme para “críticos”. Pois bem, será, então, que o grande público soube apreciar devidamente a experiência? Não deixem de me contar.

 

Personal Shopper

Is it you? Or is it just me?

Direção: Olivier Assayas

Roteiro: Olivier Assayas

Elenco: Kristen Stewart, Nora von Waldstätten, Lars Eidinger, Sigrid Bouaziz, Anders Danielsen Lie, Ty Olwin, Benjamin Biolay, Audrey Bonnet, Pascal Rambert, Aurélia Petit, Olivia Ross, Thibault Lacroix

França/Alemanha, 2017, Drama, 105 minutos

Sinopse: Maureen (Kristen Stewart) é uma jovem americana que mora em Paris e trabalha como personal shopper para uma celebridade local. Ela também tem uma capacidade especial para se comunicar com o mundo dos mortos. A moça dividia esse dom com seu irmão, recém-falecido, que parece estar querendo enviar uma mensagem para o mundo dos vivos. (Adoro Cinema)

Se as palmas e as vaias ao fim das sessões do Festival de Cannes significassem alguma coisa (na maioria das vezes não significam, como aponta certeiramente esse artigo do site Indiewire), minha expressão de incredulidade seria grande com a recepção para Personal Shopper. Vaiado, o filme de Olivier Assayas foi amplamente criticado em sua primeira exibição mundial, provando que são mais frequentes do que pensamos os casos de obras rejeitadas equivocadamente em reações imediatas. A mais lógica das teorias para justificar o distorcido julgamento é a de que nem sempre reagimos de forma instantaneamente positiva a obras que provocam, mexem com zonas de conforto e entregam resultados bem diferentes do esperado. Personal Shopper é um perfeito exemplo nesse sentido, uma vez que, ao misturar drama e suspense, sua história não se desenrola de maneira convencional em ambos os gêneros. Aliás, o que menos a obra estrelada por Kristen Stewart quer é fazer concessões, mas nem todas as plateias – por mais refinadas que sejam – estão necessariamente preparadas para aplaudir os méritos de um filme que trabalha assim, sem se limitar a regras ou formatos. Por isso, se pensarmos a partir de tal ótica, as vaias que Personal Shopper levou em Cannes soam até elogiosas. Inclusive, para falar bem a verdade, ele poderia até estar  na lista do Indiewire de excelentes filmes renegados em uma primeira sessão, mas posteriormente reconhecidos pelo melhor termômetro de qualidade quando o assunto é cinema: o tempo.

Sem jamais encarar a experimentação como mero passatempo estilístico ou simples autoafirmação autoral, Olivier Assayas se destaca por utilizá-la como uma importante variável para explorar os sentidos de histórias que ele própria costuma escrever. Foi assim em Acima das Nuvens, onde o diretor misturava a linguagem cinematográfica e teatral ao narrar o conflito de identidade entre duas mulheres bastante distintas. Agora, a situação é um tanto mais complicada porque Assayas navega no drama a partir do suspense, gênero que tem uma plateia estranhamente conservadora. Criando uma espécie de crônica fantasmagórica sobre uma médium (Kristen Stewart) que passa uma temporada em Paris à espera do contato de seu falecido irmão gêmeo, o filme se arrisca ao não oferecer respostas para todas as interrogações que lança em termos de mistério (e elas são várias, envolvendo desde mensagens anônimas e assassinatos a contatos do além-vida). É uma contramão para lá de interessante, pois Personal Shopper prioriza a construção e os significados ao invés da resolução dos suspenses que introduz para discutir, na verdade, questões como o fato da protagonista ser uma médium, mas sequer estar convicta do espiritualismo. Uma prova real da inteligência desse caminho é que, quando o filme resolve ser mais conclusivo do que se propõe, a situação desanda, como na pobre conclusão que dá para um crime que merecia ser tratado com uma inteligência à altura do restante da obra.  

Ainda assim, Personal Shopper compensa tropeços com todas as experimentações que faz e também com a relação estabelecida entre realidade e fantasia. Ao mesmo tempo em que é mais um relato de Assayas pontuado por crises de identidade (são ótimas as cenas em que a protagonista enfrenta desejos contraditórios acerca de vestir ou não as roupas que compra para as célebres clientes que considera supostamente diferentes de si), o longa também se esmera para impactar na forma, em especial no clima de mistério, onde o diretor consegue, em poucas cenas, deixar muita produção de terror no chinelo tamanha a densidade da atmosfera criada pela escolha certa de composições visuais e até de sustos perfeitamente orgânicos. Outro aspecto importante de ser ressaltado é que, mesmo se apoiando na questão da espiritualidade e trabalhando o drama com base em uma série de mistérios, Personal Shopper não afasta o espectador de sua protagonista e muito menos dos temas que apresenta. Há uma segurança muito grande entre o roteiro e a direção de Assayas, que compreende a necessidade de não realizar uma obra estritamente temática ou de gênero específico. Os contrastes que ele desenha de forma cada vez mais interessantes em sua carreira são realmente uma marca. No caso de Personal Shopper, inclusive, levados até o último minuto de projeção, quando a trama deixa questões pontuais abertas, mas termina completa em reconciliações emocionais de certa forma tão esperadas.

Essa carta aberta de defesa a Personal Shopper não poderia terminar sem mencionar, claro, um dos melhores elementos do conjunto: a performance de Kristen Stewart. Se Acima Das Nuvens era mais do que o suficiente para ela se consagrar como uma atriz de talento e confiança pós-saga CrepúsculoPersonal Shopper vem com novas surpresas. Depois de fazer história em sua parceria anterior com Assayas (ela é a única atriz estadunidense premiada pelo César, o Oscar francês, em mais de 40 anos) e de ter vivido experiências que dão inveja em muita gente (foi dirigida por Woody Allen e Ang Lee, além de ter contracenado com Julianne Moore, Laura Dern e Michelle Williams), Stewart agora se revela afiada em um aspecto importantíssimo: o de conferir eficiência a sua forte persona. Não é sempre que um ator se beneficia por aquilo que chamamos de interpretar a “si mesmo”, mas Stewart está entre os casos que se destacam positivamente. As expressões amenas e muitas vezes amuadas da atriz se convertem em uma instigante personalidade para papeis como o desse filme. Nem mesmo o fato de Personal Shopper parecer um spin-off da personagem de Stewart em Acima das Nuvens diminui a excelente impressão que ela já havia deixado no filme anterior. Stewart realmente deu à volta por cima e, se depender do cinema que Olivier Assayas vem apresentando nos últimos e do que ela tem alcançado em suas últimas investidas, não serie exagero algum desejar que a parceria entre os dois se repita sempre que possível.

Rapidamente: “Céu Azul”, “A Criada”, “O Rio Selvagem” e “Sobre Viagens e Amores”

Jessica Lange em Céu Azul: o primeiro Oscar por Tootsie foi mera formalidade, mas a segunda estatueta veio de forma muito merecida pelo filme derradeiro de Tony Richardson.

CÉU AZUL (Blue Sky, 1994, de Tony Richardson): Se o Oscar de melhor atriz coadjuvante por Tootsie foi mera formalidade para celebrar uma Jessica Lange em início de carreira, o de protagonista por Céu Azul veio para compensar a honraria apressada e equivocada de outrora (algo semelhante aconteceu décadas depois com Cate Blanchett, celebrada sem muitos méritos por O Aviador e depois com total justiça por Blue Jasmine). No mediano e derradeiro drama dirigido por Tony Richardson, Lange brilha em todos os sentidos como a conturbada e muitas vezes polêmica Carly Marshall, mulher de um oficial do exército que se muda para uma base militar com a família. Radiante, Carly passa a ser o centro das atenções na vizinhança não só porque esbanja beleza, espontaneidade e até talento para dança em um espetáculo musical, mas porque também é uma mulher problemática e inconstante do ponto de vista emocional. Para Lange, mais linda do que nunca, é um papel para deitar e rolar: sem jamais criar qualquer tipo de caricatura, a atriz toma o filme para si ao compensar toda a apatia que toma conta do roteiro quando ele decide se voltar para o marido vivido por Tommy Lee Jones ou para o próprio dia a dia na base militar. Céu Azul é o clássico caso de uma atriz indiscutivelmente maior do que o próprio filme, e a prova definitiva dessa afirmação é o terço final da obra, quando Carly decide quebrar todas as barreiras para libertar o marido de uma complicada situação em uma instituição psiquiátrica. Não há o que discutir: o filme é todo de Lange.

A CRIADA (Ah-ga-ssi, 2016, de Chan-Wook Park): Com notável domínio estético e temático, o coreano Chan-Wook Park vem fazendo história como um diretor que não faz concessões ao contar histórias. Depois de filmes mais célebres a nível mundial como OldboySegredos de Sangue, o cineasta pontua outro momento importante de sua carreira com A Criada, que chegou a ser o representante da Coréia para o Oscar de filme estrangeiro, mas que não chegou entre os cinco finalistas porque os votantes da Academia obviamente não estão preparados para tanta franqueza. Passado nos anos 1930, A Criada se desenrola a partir de reviravoltas e por isso é complicado discuti-lo sem correr o risco de revelar algum detalhe fundamental da história. No entanto, se existe algo que realmente pode afetar aos mais sensíveis a temas fortes (caso dos votantes do Oscar), é a força sexual do filme, que, repleto de cenas muito gráficas e impactantes de sexo, surpreende por usá-las não para levantar qualquer tipo de polêmica, mas para dar potência a um filme que, no final das contas, pode ser interpretado como um romance dos mais inesperados. Com uma reconstituição de época impecável, A Criada tem estilo na forma e no conteúdo, fazendo jus a tudo de diferente e subversivo que o cinema oriental normalmente costuma produzir. Contudo, o longa dilui boa parte de suas discussões ao depender tanto de reviravoltas. Na surpresa pela surpresa, A Criada perde o espírito, parecendo muito mais um jogo onde o espectador precisa adivinhar a próxima virada do roteiro do que propriamente se envolver com uma história instigante nos mais diversos aspectos.

O RIO SELVAGEM (The River Wild, 1994, de Curtis Hanson): Poucas vezes Meryl Streep esteve tão sem presença e ineficiente como em O Rio Selvagem, filme que misteriosamente lhe rendeu indicações ao Globo de Ouro e ao Screen Actors Guild Awards de melhor atriz no ano em que Jessica Lange conquistava seu segundo Oscar por Céu Azul. No filme do saudoso Curtis Hanson, ela interpreta Gail, uma mulher expert em rafting que, em férias com a família, cruza um perigoso rio para escapar de uma dupla que, aos poucos, começa a se revelar mais perigosa do que aparenta. Apesar do empenho ao recusar dublês em praticamente todas as cenas de ação, Meryl tem pouco a fazer nessa obra que envelheceu muito mal em termos estéticos e narrativos. Se a ação é extremamente previsível e repetitiva (demanda certa paciência acompanhar tantas sequências de rafting ao longo da história), o fato de O Rio Selvagem querer, sem sucesso, dar algum estofo dramático a seus personagens entre uma adrenalina e outra amplia a falta de firmeza do roteiro, já que os dilemas envolvendo o casamento falido entre Gail e Tom (David Strathairn) são rasos demais para causar qualquer envolvimento no espectador. Trazendo ainda Kevin Bacon e John C. Reilly como a dupla que toca o terror na vida dos protagonistas, O Rio Selvagem falha inclusive em ser uma aventura divertida, já que trata com certa seriedade até as decisões mais tolas tomadas pelos personagens em momentos de perigo. Os embates físicos, visivelmente construídos na ilha de edição, também quebram a conexão com o filme pela artificialidade, reiterando a impressão de que nem mesmo Meryl tinha muito o que fazer em uma produção pouco eficiente no senso de entretenimento.

SOBRE VIAGENS E AMORES (L’estate Addosso, 2017, de Gabriele Muccino): É da natureza do diretor Gabriele Muccino contar histórias calcadas no melodrama. Seja nos Estados Unidos ou na Itália, é facilmente identificável o estilo impresso por ele em filmes como À Procura da FelicidadeSete Vidas e agora esse Sobre Viagens e Amores. Em sua mais nova produção, Muccino lança um olhar agridoce e nostálgico para as descobertas da adolescência e, principalmente, para o quão complicado é enfrentar certas dores pela primeira vez na vida. Entretanto, o curioso de Sobre Viagens e Amores não é como o diretor novamente pesa a mão ao açucarar a história com trilhas bonitinhas, fotografia inspirada em filtros do Instagram e conflitos das mais variadas naturezas resolvidos com frases de efeito, mas sim como ele sabota a história ao transformar um interessante relato sobre o poder da amizade em uma ciranda de desejos e amores. A intenção é clara e válida – fazer uma interessante relação entre os desejos velados no fervor da adolescência e na estabilidade de um matrimônio -, mas a guinada é gratuita demais para um filme que vendia algo muito diferente até então. Dessa maneira, a mudança de foco em Sobre Viagens e Amores termina como uma traição para um filme que se desenhava como uma singela homenagem aos amigos que descobrimos e levamos para a vida toda. A proposta inicial tinha os vícios de Muccino, claro, mas era levada com muita despretensão e delicadeza pelo diretor, sem jamais sinalizar as ambições que ele logo revela, mas não consegue administrar com as devidas sutilezas e complexidades.

Alien: Covenant

We don’t leave Earth to be safe.

Direção: Ridley Scott

Roteiro: Dante Harper e John Logan, baseado em história de Jack Paglen e Michael Green e nos personagens criados por Dan O’Bannon e Ronald Shusett

Elenco: Katherine Waterston, Michael Fassbender, Billy Crudup, Danny McBride, Demián Bichir, Jussie Smollett, Callie Hernandez, Carmen Ejogo, Amy Seimetz, Nathaniel Dean, Alexander England

Alien: Covenant, EUA, 2017, Ficção Científica, 122 minutos

Sinopse: 2104. Viajando pela galáxia, a nave colonizadora Covenant tem por objetivo chegar ao planeta Origae-6, bem distante da Terra. Um acidente cósmico antes de chegar ao seu destino faz com que Walter (Michael Fassbender), o androide a bordo da espaçonave, seja obrigado a despertar os 17 tripulantes da missão. Logo Oram (Billy Crudup) precisa assumir o posto de capitão, devido a um acidente ocorrido no momento em que todos são despertos. Em meio aos necessários consertos, eles descobrem que nas proximidades há um planeta desconhecido, que abrigaria as condições necessárias para abrigar vida humana. Oram e sua equipe decidem ir ao local para investigá-lo, considerando até mesmo a possibilidade de deixar de lado a viagem até Origae-6 e se estabelecer por lá. Só que, ao chegar, eles rapidamente descobrem que o planeta abriga seres mortais. (Adoro Cinema)

Há algo muito errado quando um diretor contribui para a destruição de um universo que ele próprio criou. Pois é definitivamente o que faz Ridley Scott em Alien: Covenant, o sexto filme envolvendo a franquia Alien, cujo primeiro capítulo chegou aos cinemas em 1979. Scott, que entregou a direção da franquia para James Cameron, David Fincher e Jean-Pierre Jeunet nas respectivas continuações (muitas delas irregulares), retomou o cargo em 2012 com Prometheus, propondo fazer um prequel da série Alien. O projeto tem continuação agora com Alien: Covenant, supostamente responsável por complementar as discussões de Prometheus e ser uma ponte para o primeiro filme lançado na década de 1970. Lamentavelmente, Covenant é de uma arbitrariedade assustadora: além de não servir como obra de transição, tampouco se revela um passatempo que respeita os clássicos elementos que fizeram de Alien, o Oitavo Passageiro, um verdadeiro clássico. Vindo das mãos de um diretor estreante no universo, seria possível dar um desconto, mas, tratando-se de quem concebeu tudo de forma visionária há quase 40 anos, é realmente imperdoável.

Os problemas de Alien: Covenant começam já na concepção, onde o roteiro escrito pela dupla Dante Harper e John Logan é inexpressivo ao criar e desenvolver personagens. Partindo do pressuposto de que muitos deles passarão por poucas e boas ou até morrer em uma perigosa viagem interplanetária, é inadmissível que o texto não estabeleça qualquer laço entre eles e o espectador. Pior: não só os personagens transitam na história sem deixar impressão alguma, como também falham em apresentar qualquer traço de personalidade ou identidade – e é exatamente por isso que, quando revelada, a natureza homossexual de um dos tripulantes parece gratuita e oportunista. Considerando tempos em que Charlize Theron e Sandra Bullock marcam toda uma geração com personagens femininos bem explorados em filmes como Mad Max: Estrada da FúriaGravidade, Scott ainda sequer se dá ao trabalho de fazer jus às origens da franquia e nos convencer do poder feminino: mesmo esforçada, a protagonista vivida por Katherine Waterston (que era pura simpatia em Animais Fantásticos e Onde Habitam) não consegue segurar o filme, muito em função das oportunidades que nunca lhe são dadas por um roteiro fragilíssimo.

O desperdício da figura feminina nos leva a outro defeito de Covenant: a dispersão da história. Se Waterston não tem como brilhar no papel da tripulante Daniels, isso tem muito a ver com o fato dos acontecimentos serem excessivamente centrados na figura do androide David, vivido por Michael Fassbender. Por si só, o destaque do personagem já faz com que o roteiro se afaste da ideia de trabalhar a mitologia envolvendo todo o medo e o terror causado pelo monstrengo Alien, mas a situação piora porque as motivações de David (e principalmente dos conflitos que ele enfrentará posteriormente ao encontrar Walter, um semelhante de sua espécie) são desinteressantes e principalmente fracas demais para sustentar um filme da dimensão de Covenant. A limitação do texto também se estende ao trabalho estético da obra: ambientada em um planeta que tem paisagens facilmente reconhecíveis (rios, árvores, montanhas), a ficção pouco instiga visualmente e colabora para a sensação de que o diretor Ridley Scott de fato dirigiu a obra no piloto-automático, reforçando a ideia de que sua carreira, apesar de repleta de filmes marcantes (Thelma & LouiseBlade Runner!), é também marcada por longas sem identidade.

Entre as decepções trazidas pelo retorno ao universo Alien, nenhuma, contudo, é maior do que a falta de clima em relação ao personagem-título. Ao cometer o mesmo erro de boa parcela de exemplares de terror, o filme mostra mais do que deveria, tornando Alien uma figura gráfica demais. O maior medo é aquele que a nossa própria mente cria, tese defendida e aplicada com grande talento pelo longa de 1979 e que aqui parece ser completamente ignorada. Encantado com o poder da tecnologia, Scott faz questão de mostrar Alien em suas mais diversas formas, além de capturá-lo em cada detalhe, cada passo, cada movimento. Com isso, vem uma artificialidade que castra qualquer possibilidade do espectador ter medo de um personagem que não parece natural até mesmo dentro de suas fronteiras. Em suma, Alien: Covenant falha na tentativa de ser qualquer tipo de filme. Por isso mesmo é de se agradecer que o canadense Dennis Villeneuve esteja no comando da sequência de Blade Runner no lugar de Ridley Scott. Afinal, seria difícil demais vê-lo sabotando dois universos criados por ele próprio em um mesmo ano.

Rapidamente: “Duas Estranhas”, “Mamãezinha Querida”, “Quem é Primavera das Neves?” e “Tootsie”

Não foi apenas o desempenho de Dustin Hoffman que sobreviveu bem ao tempo: as críticas de Tootsie em relação à representação da mulher no audiovisual ainda são lamentavelmente atuais.

DUAS ESTRANHAS – HISTÓRIA DE MÃE E FILHA (Strangers: The Story of a Mother and Daughter, 1979, de Milton Katselas): Na época em que fazer TV não era algo nobre e que boa parte da indústria hollywoodiana torcia o nariz para o formato, Bette Davis abdicava de qualquer orgulho para continuar trabalhando e, na medida do possível, conseguindo bons papeis. Claro que Duas Estranhas – História de Mãe e Filha não preza pela originalidade, mas, para uma atriz de 79 anos, é um prato cheio, o que não deixa de ser verdadeiro também para os dias de hoje. Contracenando com Gena Rowlands, Bette chegou a ganhar o Emmy de melhor atriz por interpretar novamente uma clássica mulher casca grossa. Dessa vez, ela é Lucy, uma senhora solitária que recebe a inesperada visita de uma filha distante. Não é preciso ser perito para adivinhar o que vem a partir daí: longas discussões envolvendo mágoas do passado, segredos finalmente sendo revelados e, eventualmente, a aproximação e o carinho que tanto foram escanteados ao longo de uma vida. Mesmo encenado em um único cenário, Duas Estranhas jamais se torna um teatro filmado, mostrando que, apesar de apostar na extrema simplicidade, o diretor Milton Katselas teve tino suficiente para distinguir a linguagem audiovisual da teatral. Ainda assim, o que importa é a presença de Bette e Gena, que dominam a tela mesmo com o mais tradicional (e, às vezes, até rasteiro e mal explicado) dos textos. Não sei quanto a vocês, mas, para mim, isso já está de bom tamanho.

MAMÃEZINHA QUERIDA (Mommie Dearest, 1981, de Frank Perry): Desastre sem precedentes para a época que foi lançado, Mamãezinha Querida hoje é até abraçado como cult, mas não fui espirituoso o suficiente para entrar na brincadeira. Ao abranger quase 40 anos de vida e carreira da atriz Joan Crawford, o filme de Frank Perry era cercado de expectativas antes de seu lançamento. Além de transpor às telas o polêmico livro escrito por Christina Crawford, filha de Joan, que relata os supostos abusos físicos e emocionais que ela teria sofrido na convivência com a mãe, o longa estreava quatro anos após a morte de Crawford e protagonizava o sonho dourado da atriz Faye Dunaway de ganhar um segundo Oscar. Deu tudo errado: além de arruinar a carreira de Dunaway, foi um fiasco de crítica e chegou a ser vendido pelo estúdio como comédia após a desastrosa recepção, que, com toda razão, bombardeava a dramaticidade descontrolada de atuações exageradas e cenas constrangedoras. Entretanto, o problema é muito maior do que os ataques histéricos. Na verdade, Mamãezinha Querida poderia ser sobre qualquer mãe maquiavélica, já que sequer é possível compreender quem era Joan Crawford e muito menos sua influência em Hollywood. É uma produção caótica, que faz uma bela dupla com o igualmente péssimo e biográfico A Dama de Ferro: ambos saltam no tempo com a maior displicência sem contextualizar, do ponto de vista histórico ou emocional, as mulheres que retratam. De vez em quando, o constrangedor diverte (Carla Perez deve saber o quanto Cinderela Baiana é clássico nesse sentido), mas, com Mamãezinha Querida, apenas entedia a plateia e desrespeita de forma desenfreada uma mulher da vida real que, ao menos, foi redimida recentemente na minissérie Feud: Bette and Joan.  

QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES? (idem, 2017, de Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado): O ponto de partida é dos mais cotidianos: lendo o clássico Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, o diretor gaúcho Jorge Furtado se deparou com o curioso nome Primavera das Neves, da jornalista e escritora portuguesa responsável pela tradução da obra. Instigado, Furtado procurou sobre Primavera na internet, mas se surpreendeu ao não encontrar qualquer registro biográfico dela. A partir daí, a curiosidade virou missão: após fazer um post no site da Casa de Cinema de Porto Alegre perguntando se alguém conhecia a tradutora, o diretor recebeu o contato de uma amiga de Primavera. O encontro entre eles, no final das contas, rendeu esse Quem é Primavera das Neves?, que Furtado dirige ao lado da colega e amiga Ana Luiza Azevedo. Primavera já faleceu, mas é na ausência dela que a dupla de diretores tira a melhor tônica para o documentário, que, calcado em afeto, torna-se, em cada minuto de sua duração, uma singela e acalantadora homenagem à amizade e ao quanto certas pessoas, por mais comuns que possam parecer, influenciam nossas vidas para sempre. Além dos depoimentos de pessoas que conheceram Primavera, o filme traz a ótima atriz Mariana Lima interpretando trechos de algumas das traduções mais célebres da personagem-título (além de Lewis Carroll, ela trabalhou com materiais de Emily Brontë, Julio Verne, John Le Carré, entre outros) e até mesmo poemas e cartas escritos pela própria Primavera. Por fim, nem chega a importa a extrema simplicidade e o formato quase televisivo do documentário. O que ganha mesmo é a delicadeza.

TOOTSIE (idem, 1982, de Sydney Pollack): À parte o inexplicável Oscar de melhor atriz coadjuvante para Jessica Lange, Tootsie é uma comédia que sobreviveu muito bem ao tempo. Mais do que isso, manteve intacta a sua atualidade: as críticas do filme de Sidney Pollack ao machismo nas produções televisivas ainda são válidas, principalmente quando traz à tona a forma como diretores e roteiristas representam as mulheres bem sucedidas, que quase sempre são pintadas como mulheres masculinizadas e nada atraentes. É justamente essa mudança de cenário que Michael Dorsey (Dustin Hoffman) propõe quando, vestido secretamente como mulher, consegue um papel de destaque em uma popular novela da TV norte-americana. Como Dorothy, uma mulher inteligente, bem sucedida, divertida e sensível, Michael alcança o sucesso que nunca teve e, mergulhado na glória, passa a literalmente viver uma nova vida. Simples e divertido, Tootsie recebeu, na época de seu lançamento, uma celebração surpreendente para uma comédia assumida: foram nada menos do que dez indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, direção e roteiro. Entretanto, quem brilha mesmo é Dustin Hoffman. Em um dos desempenhos mais marcantes de sua carreira, Hoffman encontra o equilíbrio certo entre a comédia pela comédia e o uso desse gênero para elucidar questões até mesmo tristes sobre seu personagem. É uma interpretação respeitosa, que jamais se entrega à caricatura e que certamente confere a Tootsie um carisma ainda mais especial.

A Cabana

Love always leaves a mark.

Direção: Stuart Hazeldine

Roteiro: Andrew Lanham, Destin Daniel Cretton e John Fusco, baseado no livro homônimo de William P. Young

Elenco: Sam Worthington, Octavia Spencer, Avraham Aviv Alush, Sumire Matsubara, Tim McGraw, Radha Mitchell, Alice Braga, Megan Charpentier, Gage Munroe, Amélie Eve, Graham Greene, Ryan Robbins

The Shack, EUA, Drama, 2017, 132 minutos

Sinopse: Um homem vive atormentado após perder a sua filha mais nova, cujo corpo nunca foi encontrado, mas sinais de que ela teria sido violentada e assassinada são encontrados em uma cabana nas montanhas. Anos depois da tragédia, ele recebe um chamado misterioso para retornar a esse local, onde ele vai receber uma lição de vida. (Adoro Cinema)

Se já é fácil ser impaciente e intolerante com filmes que apresentam histórias baseadas em valores e princípios distantes dos nossos, o que sobra, então, para aqueles que, além disso, repetem as mesmas fórmulas panfletárias e unidimensionais de outras obras ruins e de mesma proposta? Praticamente nada. É aí que se encaixa A Cabana, que, baseado no best seller homônimo de William P. Young, filosofa sobre nossa existência com um pano de fundo religioso repleto de representações batidas e dignas de um programa televisivo de auto-ajuda. Uma coisa é se deparar com isso em uma livraria, onde podemos ignorar a obra na primeira leitura da sinopse. Outra é investir tempo, dinheiro e boa vontade no cinema, esperando que um filme nos surpreenda ao quebrar qualquer preconceito que tenhamos com ele. Não é questão do que se discute em termos de conteúdo, e sim de execução, pois, quando se constata que A Cabana traz, pela milésima vez, entidades divinas vestidas de branco em um lindo jardim florido, ensolarado e cheio de borboletas, qualquer boa vontade em esperar algum exercício cinematográfico na obra vai por água abaixo.

Dirigido por Stuart Hazeldine, A Cabana opta pelo drama fácil sempre que possível, o que é um claro reflexo do seu material de origem, que, não há dúvidas, tornou-se um grande sucesso editorial por justamente não poupar esforços para comover o maior número de leitores. E, no cinema, onde palavras precisam ser transpostas para figurinos, trilhas sonoras, cenários e outros setores, a situação se torna mais atraente para quem curte a pegada e, claro, mais difícil para quem rejeita o formato. Não bastasse trazer o batido arco da família perfeita de comercial de margarina que, um belo dia, tem sua vida colocada de pernas para o ar por uma tragédia, A Cabana centra quase toda sua história em uma viagem motivacional onde o patriarca Mack (Sam Worthington), incapaz de superar a perda de um ente querido, passa um fim de semana transformador com Deus, Jesus e Espírito Santo. De vez em quando, ele ainda esbarra com figuras como a Sabedoria (sim, a virtude, vivida por Alice Braga), que, também vestida de branco e com um semblante extremamente acolhedor, ensinará o que ele precisa rever em sua vida para se recompor, voltar para casa e reunificar a família.

É fundamental não julgar o que A Cabana quer deixar de mensagem, mas sim como ele deixa que isso chegue ao espectador. Expositivo (a cena da Sabedoria não dispensa flashbacks para retomar acontecimentos já encenados), o fim de semana do protagonista junto a figuras divinas é tedioso porque não passa de um amontoado de conversas onde ele será persuadido a reavaliar muitas de suas ideias. Entre uma prosa e outra, Mack também corre pelas águas assumindo os poderes de Jesus Cristo, como se o filme tentasse fazer alguma graça para movimentar um relato que visivelmente não consegue ir além do trabalho verbal. Sem as longas cenas de reflexões onde Mack, afundado em tristezas, esbraveja para Deus que seu amor é seletivo ao permitir que pessoas morram diariamente de forma injusta no mundo, A Cabana é estático e, pior ainda, limitado nas associações visuais que faz em relação aos sentimentos do personagem e às diferentes fases vividas por ele ao longo da trama. Basta perceber como os momentos em que Mack passa por algum sofrimento possuem estilizações simplórias (as surras que leva do pai alcoolizado na infância, por exemplo, são encenadas de forma estridente em uma noite chuvosa e cheia de trovões), problema que é repetido nas sequências em que ele recebe algum alento (a primeira longa conversa com Deus acontece em uma cozinha aconchegante com um brilhante feixe de luz atravessando a janela). São construções óbvias, previsíveis e já usadas à exaustão em outros filmes. Daí vem a impaciência com A Cabana.

Muito dos defeitos e das simplificações do longa poderiam ser relevados se um ator de grande talento tivesse uma forte presença em cena. Não é o caso de Sam Worthington, que, além de não ter talento ou expressiva (até em Avatar ele era perfeitamente esquecível), torna A Cabana uma viagem ainda mais ingrata por não fazer com que o espectador tenha qualquer conexão com seu personagem. A história vivida por ele é triste, claro, mas não há texto que garanta emoção quando um intérprete precisa visivelmente se esforçar até para derramar uma lágrima. É um problema tremendo (talvez o maior) para um filme que, por outro lado, consegue ser um veículo de exercício para Octavia Spencer. Ela, que vem diminuindo a marcha de suas caricaturas em filmes como Estrelas Além do Tempo, está novamente humana e devidamente acalantadora ao assumir a responsabilidade de incorporar Deus. Inclusive, é muito bacana a diversidade encontrada na representação das figuras divinas, onde Deus, Jesus e Espírito Santo são interpretados por atores negros, árabes e orientais, respectivamente. Contudo, é mera questão de tempo para que A Cabana volte a repetir suas fórmulas e melodramas, perdendo a chance de ser o filme que poderia, pelo menos, fazer com que boa parte da plateia repensasse o preconceito que nutre por produções baseadas em best sellers de auto-ajuda.

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