Cinema e Argumento

Blade Runner 2049

Things were simpler then.

Direção: Denis Villeneuve

Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green, baseado nos personagens do romance “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, de Philip K. Dick

Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Ana de Armas, Sylvia Hoeks, Jared Leto, Edward James Olmos, Dave Bautista, Mackenzie Davis, Hiam Abbass, Wood Harris, Carla Juri, Sean Young

EUA/Reino Unido/Canadá, 2017, Aventura, 164 minutos

Sinopse: California, 2049. Após os problemas enfrentados com os Nexus 8, uma nova espécie de replicantes é desenvolvida, de forma que seja mais obediente aos humanos. Um deles é K (Ryan Gosling), um blade runner que caça replicantes foragidos para a polícia de Los Angeles. Após encontrar Sapper Morton (Dave Bautista), K descobre um fascinante segredo: a replicante Rachel (Sean Young) teve um filho, mantido em sigilo até então. A possibilidade de que replicantes se reproduzam pode desencadear uma guerra deles com os humanos, o que faz com que a tenente Joshi (Robin Wright), chefe de K, o envie para encontrar e eliminar a criança. (Adoro Cinema)

Blade Runner 2049 é, ao mesmo tempo, o pior e o melhor filme do diretor canadense Denis Villeneuve. O sentimento contraditório não está associado a comparações com o clássico Blade Runner, assinado por Ridley Scott na década de 1980, e sim às disparidades de ambição entre o trabalho de Villeneuve como diretor e o roteiro escrito pela dupla Hampton Fancher (também autor do filme original) e Michael Green (que já foi do céu ao inferno em uma carreira recente marcada por LoganAlien: Covenant). Enquanto o canadense tem uma visão digna da mitologia do longa anterior, o texto, em termos de história, conflitos e reflexões, não acompanha as dimensões do diretor. O resultado é uma obra que, a todo momento, tenta alçar voos muito maiores do que sua própria trama permite.

Emulando e expandindo o universo do filme original, Blade Runner 2049 reverencia suas origens com bastante respeito. É inadmissível dizer que Villeneuve rouba o filme para si ou que não há aqui o DNA do longa que marcou toda uma geração há mais de três décadas. Em contramão, a continuação talvez tenha sido tomada por um zelo excessivo: com uma trama de quase três horas que poderia facilmente ser contada em muito menos, Blade Runner 2049 desaponta dramaticamente quando nos voltamos para tudo aquilo que é desdobrado pelo roteiro na prática. São voltas e mais voltas para criar, desenvolver e concluir conflitos que não justificam tanta cerimônia, o que nada tem a ver com a espera por reviravoltas (que, sim, existem), mas com o equívoco de prolongar sequências, pistas e descobertas como se isso fosse sinônimo de contemplação.

Maçante, Blade Runner 2049 tinha tudo para ser, entre tantos outros temas, um lindo estudo sobre origens – as nossas, as de nossos antecessores ou as de quem está por vir, tanto humanos quanto replicantes -, mas isso de certa forma se dispersa porque o filme é um espetáculo colossal do ponto de vista técnico. Em uma obra de roteiro mais encorpado, seria a combinação perfeita, mas, nesse caso, apenas nos remonta ao descompasso citado no início do texto: depois de alguns dias, é muito mais fácil você lembrar de todo o poder de Villeneuve em criar uma verdadeira hipnose ao conjugar som e imagem com precisão do que da história propriamente dita.

À parte o roteiro, justiça seja feita: dificilmente você verá um filme mais impressionante em termos estéticos ao longo desse ano. Da fotografia imponente do mestre Roger Deakins, que cumpre com proeza o desafio mais grandioso de sua irrepreensível carreira, à trilha nada óbvia composta às pressas por Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch após a saída do islandês Jóhann Jóhannsson (ao que tudo indica, por questões criativas), esse é um blockbuster que cria uma atmosfera como há muito não víamos – e o clímax quase subaquático justifica perfeitamente essa afirmação, sendo um verdadeiro arraso em construção visual e de tensão.

Por isso mesmo é de se comemorar que Ridley Scott tenha retornado ao universo de Blade Runner apenas como produtor. Tratando-se de um texto pouco expansivo, a sequência precisava de um realizador de visão, consistência e substância, características que Scott já perdeu há anos e que Villeneuve vem exercitando e pluralizando desde quando alçou repercussão internacional com o ótimo Incêndios. Minucioso na concepção de cada cena, o diretor termina por criar não um filme gélido ou distante por seu perfeccionismo, mas sim uma experiência altamente imersiva, onde fica fácil embarcar até na repetitiva ainda que eficiente composição de um Ryan Gosling que vive o protagonista como se ainda estivesse em Drive ou O Lugar Onde Tudo Termina.

O melhor/pior filme de Villeneuve realmente não reverbera de forma tão reflexiva (outros trabalhos assinados por ele como Os SuspeitosO Homem DuplicadoA Chegada dão um baile nesse sentido), mas não há o que se duvidar: independente do retorno das bilheterias, poucos diretores fazem valer cada centavo do investimento de um estúdio, principalmente em prol de um conceito, de algo diferente e autoral. Tenho mil restrições quanto à afirmação de que certos filmes devem ser vistos na maior tela possível – filme bom de verdade deve impactar tanto na TV da nossa casa quanto na tela de um IMAX -, mas, dessa vez, vou abrir uma exceção, pois, de fato, Blade Runner 2049 é um espetáculo técnico para marcar época.

Rapidamente: “Entreatos”, “Irmãs”, “It: A Coisa” e “Los Niños”

Lula a trinta dias do primeiro mandato como presidente do Brasil: em Entreatos, João Moreira Salles investiga o ser humano por trás da figura política.

ENTREATOS (idem, 2004, de João Moreira Salles): A realidade política brasileira anda tão conturbada e distorcida que dificilmente um filme como Entreatos seria feito hoje. Ledo engano se você pensa que isso tem apenas a ver com o fato do documentário de João Moreira Salles ser sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Antes de tudo, a grande questão do problema reside na forma: como falar sobre o lado íntimo e particular de um grande político quando o sistema tem sua reputação questionada dia após a dia? Lá atrás, em 2004, João Moreira Salles trabalhou pelo viés dos bastidores humanos não para se esquivar de questões políticas, mas sim para, em força cinematográfica, explorar o diferente lado de uma figura pública que é riquíssima nessa leitura. Afinal, Lula, além de autorizar a livre circulação da equipe de Entreatos pelos bastidores da campanha política que o levou à presidência do Brasil, é o tipo de personagem que interrompe uma entrevista durante um voo para contemplar a beleza da lua cheia. É em momentos pequenos como esse, mas que revelam muito sobre uma figura amplamente reconhecida por seu carisma, que Entreatos envolve muito mais do que qualquer relato histórico ou político. Inicialmente planejado como um registro da vida pública de Lula durante sua chegada à presidência, o documentário mudou seu ponto de vista quando Salles percebeu que não eram necessariamente os comícios e conversas com multidões que faziam de Entreatos um documentário preciso. E ele estava coberto de razão.

IRMÃS (Sisters, 2016, de Jason Moore): Todos os elogios possíveis já foram feitos à dupla Tina Fey e Amy Poehler – e eles são inquestionavelmente merecidos -, mas é realmente um mistério o que levou essa dupla divertidíssima a embarcar em um projeto tão errado quanto Irmãs. É claro que repetir a parceria à frente das câmeras deve ser sempre uma atrativo para as duas, o que, por outro lado, não justifica a tamanha falta de senso crítico de investir em uma comédia incrivelmente longa, arrastada, repetitiva e sem assunto. É um fiapo de história porque o filme não faz nada além de colocá-las em cena como duas irmãs incrivelmente diferentes que estão prestes a se despedir da casa onde foram criadas na infâncias. Se a pegada da comédia já é pobre por si só (quem diria que Fey e Poehler um dia topariam fazer um humor tão gráfico e escatológico?), não há muito o que se esperar do roteiro escrito por Paula Pell, profissional com larga experiência na TV em programas como Saturday Night Live e o próprio 30 Rock criado por Fey, mas que aqui parece ter perdido qualquer senso crítico ou respeito por sua própria carreira. Acreditando que basta juntar duas atrizes do calibre das protagonistas para que uma comédia tenha graça, Pell não sabe muito bem o que dizer com Irmãs, já que o filme não passa de um amontoado de cenas sem muita conexão do ponto de vista narrativo ou da própria construção de humor. Bagunçada, a experiência se agrava, por fim, com a total falta de timing do diretor Jason Moore, que alcança o feito aparentemente impossível de tornar duas horas com Tina Fey e Amy Poehler um verdadeiro tédio.

IT: A COISA (It, 2017, de Andy Muschietti): Um dos hits de 2017, It: A Coisa estremeceu os nervos de muitas plateias com o palhaço Pennywise. Há até quem não tenha poupado hipérboles, como o diretor canadense Xavier Dolan, que classifica esse suspense como “o filme do século”. Pela milésima vez, bato na tecla de que não há nada mais desinteressante do que ver um filme de terror que prioriza a linguagem gráfica à construção de clima, mas, ao que parece, essa pegada, além da garantia de fartas bilheterias, tem se reforçado na assinatura de vários realizadores. Um deles é Andy Muschietti, que tinha feito o pavoroso Mama, em 2013, com Jessica Chastain, e que novamente não esconde sua predileção pelo formato. Do lado de cá, sigo não embarcando na proposta, onde as mil formas assumidas pelo palhaço Pennywise sequer chegam perto de me causar as angústias inerentes ao gênero. Do ponto de vista temático, as influências e referências oitentistas são muito bem trabalhadas (e, em tempos exitosos do seriado Stranger Things, que bebe justamente dessa fonte, o público não sairá desapontado), com destaque para o talentoso quarteto de jovens atores que protagoniza a trama, todos simpaticíssimos, carismáticos e que, em momento algum, colocam em xeque a nossa entusiasmada torcida por eles. Graças a cada um desses pequenos atores, consegui estabelecer pelo menos uma conexão afetiva com um suspense que, em termos de tensão e exercício de gênero, passou longe de cativar.

LOS NIÑOS (idem, 2017, de Maite Alberdi): Vencedor do prêmio especial do júri no 45º Festival de Cinema de Gramado, o chileno Los Niños é um longa  de percepção rara: nele, a Síndrome de Down é vista por quem nasceu com ela e não por seus familiares, professores ou médicos, o que imediatamente o distancia de obras da mesma temática e de formato mais clássico, como o documentário brasileiro Do Luto à Luta e o drama O Filho Eterno, baseado no romance homônimo de Cristóvão Tezza. Para um longa, talvez o formato seja um tanto limitador: focando-se apenas nos personagens com Síndrome de Down, Los Niños ganha em bom humor, leveza e humanidade – inclusive na linha tênue que estabelece entre ficção e documentário para a sua substância dramática -, mas, transcorrida a primeira metade, a obra não tem muito para onde expandir os dilemas versados apenas pelos próprios personagens e sem a contraposição de suas reivindicações. Dessa forma, quando Los Niños retrata a dor de pessoas quase amam mas não podem estabelecer qualquer vínculo matrimonial por, de acordo com a lei, não saberem distinguir verdades, vontades e realidades, ficamos na metade do caminho ao ouvir somente quem sofre com essa imposição. Até determinada parte, é comovente, mas, conforme o filme avança, a discussão estaciona.

Mãe!

Am I gonna lose you?

Direção: Darren Aronofsky

Roteiro: Darren Aronofsky

Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Domhnall Gleeson, Brian Gleeson, Jovan Adepo, Amanda Chiu, Patricia Summersett, Eric Davis, Raphael Grosz-Harvey, Emily Hampshire

Mother!, EUA, 2017, Drama/Suspense, 121 minutos

Sinopse: Um casal vive em um imenso casarão no campo. Enquanto a jovem esposa (Jennifer Lawrence) passa os dias restaurando o lugar, afetado por um incêndio no passado, o marido mais velho (Javier Bardem) tenta desesperadamente recuperar a inspiração para voltar a escrever os poemas que o tornaram famoso. Os dias pacíficos se transformam com a chegada de uma série de visitantes que se impõem à rotina do casal e escondem suas verdadeiras intenções. (Adoro Cinema)

É bem verdade que o diretor Darren Aronofsky tinha um crédito imenso, seja por reputação ou até mesmo por êxito financeiro (Noé faturou mundialmente quase três vezes o valor de um pesado orçamento de 125 milhões de dólares), mas não deixa de ser uma surpresa constatar o fervor com que a Paramount comprou e apostou na distribuição de Mãe!, facilmente o longa-metragem mais difícil e transgressor de um cineasta cuja carreira sempre foi marcada por produções de propostas diferenciadas. É uma surpresa porque, apesar do apelo cult de Aronofsky (como não confiar no diretor de Cisne NegroRéquiem Para Um Sonho?) e da força de um elenco encabeçado pela estrela Jennifer Lawerce e pelo espanhol Javier Bardem, dificilmente algum estúdio da dimensão da Paramount apostaria tanto as fichas em um filme que não se assemelha a nada já que tenha sido feito, o que, costumo dizer, é o maior elogio que uma obra pode receber. O curioso da situação toda, no entanto, é que Mãe! não se garantiu nem com o público que supostamente poderia compensar a carreira comercial fadada ao fracasso: a crítica, que, entre tantas hipérboles usadas para intensificar de forma máxima o descontentamento com a experiência e acumular acessos, likesviews, já o classificou como “o pior filme do século”.

A rejeição impiedosa mundo afora me leva a retomar uma questão que já havia levantado na crítica de Personal Shopper, outro longa misteriosamente enxotado desde a sua primeira exibição no Festival de Cannes. Afinal, teriam os críticos em si a maturidade e a capacidade de transgredir que ela tanto exige do cinema? É uma perspectiva muito particular deste escriba que vos fala, mas fica realmente difícil entender as razões que levam Personal Shopper e, agora, Mãe! a serem amplamente detestados se eles entregam justamente narrativas diferenciadas, propostas atípicas e provocações que clamamos em metade dos longas exibidas anualmente nas mais diversas plataformas. Possivelmente o grande evento cinematográfico de 2017 no sentido de causar discussões e reflexões, Mãe!, que Aronofsky diz ter escrito o primeiro rascunho de roteiro em meros cinco dias, foi indiscutivelmente gestado como um projeto para mexer com os nervos da plateia. E, se o diretor já fazia isso em praticamente todas as suas obras anteriores, aqui ele o faz elevado à décima potência, deixando ainda mais tênue a linha que separa o real da metáfora e do plano interpretativo.

Novamente trazendo à tona uma personagem que está em busca de algum tipo de realização, Mãe! começa como um suspense de mecanismo aparentemente identificável – e não há dúvidas de que o diretor, como em seus outros trabalhos, filma a tensão como ninguém, o que é consequência direta de capturar a história toda do ponto de vista da protagonista – para, aos poucos, sem qualquer pontuação perceptível, chegar às parábolas, às metáforas. É fundamental perceber esse movimento e regular a forma de encarar a história porque, caso contrário, a totalidade do longa pode parecer a coisa mais absurda e sem nexo já feita na vida. Ao invés de procurar lógica e respostas para os fatos de Mãe!, é preciso interpretá-los, o que não é uma tarefa complicada e não significa apenas se atentar às claras referências e representações bíblicas que Aronofsky propõe (e que parecem ter se tornado uma paixão sua depois do esquecível Noé). Sem entregar spoilers, o que existe de mais marcante é forma como ele interpreta, através de alegorias, as dificuldades cotidianas de ser mulher: em Mãe!, estamos falando de uma protagonista que grita e jamais é ouvida, que se violenta emocionalmente ao nunca se sentir suficiente perante um homem e que perde qualquer resquício de amor próprio ao se agarrar à ideia de que, fazendo todas as vontades do marido, será, de alguma forma, finalmente recompensada (o que nunca acontece).

Ao registrar o lado negro de um distorcido amor incondicional, Mãe! não poupa no trabalho físico de seus atores e, especialmente, ao final do último ato, no discurso por vezes explícito para mostrar que, independente do que aconteça, a sociedade historicamente condena sempre a mulher e nunca o homem. Um universo inteiro é sugado para dentro da casa dos protagonistas, cuja falta de comunicação se revela a maior de todas as tragédias. Mesmo em movimentos banais, Mãe! é um belíssimo exercício cinematográfico: para além da questão temática, observem como a trama cresce em tensão mesmo em momentos onde a protagonista sem nome apenas percorre o imenso casarão onde vive, como se, em cada cômodo, pudesse acontecer alguma coisa a qualquer momento. Com a câmera constantemente acompanhando a protagonista de perto, quem sai ganhando é, claro, Jennifer Lawrence, atriz extremamente prejudicada pela superexposição de sua figura nos últimos anos (incluindo o excesso de indicações ao Oscar) e que aqui exibe uma força única, além de uma inteligência admirável ao construir, em baixa fervura, uma mulher de voz mansa e amena, reproduzindo a total falta de influência da personagem em um ambiente que, ironicamente, ela tanto domina em tarefas domésticas. É um desafio que deve ter exigido muito da jovem atriz e que ela articula com escolhas vitoriosas.

Tratando-se das aparentes fragilidades de Mãe!, elas são plenamente justificadas pelo roteiro: se Jennifer Lawrence e Javier Bardem não são exatamente a escalação perfeita como casal, logo o texto já brinca com isso ao fazer com que o personagem também sem nome de Ed Harris diga que eles mais parecem pai e filha do que marido e mulher ou ao colocar a protagonista na parede quando a visitante interpretada por Michelle Pfeiffer questiona a diferença de identidade entre o casal, com direito até a deduzir que a vida sexual dos dois é problemática. De escala e temática ambiciosas, Mãe! confunde de forma proposital e pisa no acelerador em diversos momentos para intensificar suas alegorias. Polêmicos, os momentos derradeiros podem ser interpretados como o auge sádico de uma via crucis, mas, dependendo do ponto de vista, são muito mais de cortar o coração do que qualquer outra coisa. Pode até ser que Mãe! não verse, discute ou esmiúce as interpretações que suscite, mas aí segue outra provocação de Aronofsky: será que o cinema precisa mesmo percorrer todo o processo? O espectador não tem parte nesse ciclo para que o filme se complete? É preciso sempre trazer respostas e tomar lados? Em carta aberta ao diretor postada no Facebook, a renomada artista Marina Abramović defendeu Mãe!, dizendo que o filme foi pobremente avaliado pela crítica e que, caso a atual geração o compreenda, a próxima certamente irá. Tomara que ela esteja certa. Afinal, vale sempre lembrar: não existe maior prêmio do que o tempo.

Bingo – O Rei das Manhãs

Você só pensa em pequenos prazeres.

Direção: Daniel Rezende

Roteiro: Luiz Bolognesi

Elenco: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Ana Lucia Torre, Cauã Martins, Augusto Madeira, Tainá Müller, Emanuelle Araújo, Soren Hellerup, Pedro Bial, Raul Barreto, Domingos Montagner, Ricardo Ciciliano

Brasil, 2017, Drama/Comédia, 113 minutos

Sinopse: Cinebiografia de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do palhaço Bozo no programa matinal homônimo exibido pelo SBT durante a década de 1980. Barreto alcançou a fama graças ao personagem, apesar de jamais ser reconhecido pelas pessoas por sempre estar fantasiado. Esta frustração o levou a se envolver com drogas, chegando a utilizar cocaína e crack nos bastidores do programa. (Adoro Cinema)

Quantas cinebiografias realmente se livraram das amarras do gênero – ou pelo menos as deixaram em segundo plano – para abraçar de forma livre e autêntica a verdadeira essência de seu respectivo biografado? Não foram poucas, mas sim pouquíssimas. Do que adianta atravessar décadas, centenas de acontecimentos e um punhado de músicas se, por exemplo, Elis não conseguia traduzir na tela a personalidade avassaladora da mítica Elis Regina? Idem para A Dama de Ferro, que, refém desse mesmo defeito, ignorava as controvérsias envolvendo a britânica Margaret Thatcher com o objetivo de humanizá-la, como se não fosse possível tornar complexa uma figura a partir de suas próprias contradições. Não é necessariamente questão de formato, já que Cazuza – O Tempo Não Para percorre, de forma linear, dezenas de anos sem nunca soar datado ou inexpressivo, o que é reflexo de um projeto que compreende a importância de contemplar todo comportamento e temperamento de um personagem icônico. Mais um longa que comprova essa tese é o recente Bingo – O Rei das Manhãs, que, além de ter sido escolhido para representar o Brasil em uma possível vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro, contribui para a linda carreira de filmes imperdíveis que o cinema brasileiro vem apresentando este ano (Corpo ElétricoAs Duas IrenesComo Nossos Pais).

Primeiro filme de Daniel Rezende como diretor (ele ficou mundialmente conhecido por assinar a montagem de longas como Cidade de DeusDiários de MotocicletaEnsaio Sobre a Cegueira A Árvore da Vida), Bingo incorpora a malandragem, o talento, a ambição e o carisma de Arlindo Barreto, que interpretava anonimamente o inesquecível palhaço Bozo, aqui chamado de Bingo, sucesso estrondoso na tela do SBT durante os anos 1980. Rezende conduz o filme com um ritmo invejável, subsidiado pela excelente mistura entre drama e comédia do roteiro escrito por Luiz Bolognesi, que não tem medo de abraçar toda a subversão tão característica de Bozo, personagem que não tinha papas na língua para tentar conquistar a aprovação e posteriormente o afeto da religiosa diretora do programa e que mudava, ao vivo e sem aprovação, o roteiro da atração simplesmente por não concordar com as orientações exibidas no teleprompter. No meio disso tudo, coloque algumas carreiras de cocaína, muito whisky e palavrões, mas também uma relação carinhosíssima do protagonista com o filho e a mãe, a vontade de vencer na vida apesar das recusas profissionais e, claro, o inegável talento de um homem que ficou nacionalmente famoso sem sequer mostrar o rosto de verdade (o contrato não permitia que Arlindo revelasse sua identidade enquanto interpretasse o palhaço).

Mesmo que o roteiro do experiente Bolognesi, atualmente também em cartaz com Como Nossos Pais, diminua consideravelmente a marcha em um terço final que se entrega às convencionalidades do gênero com o clássico arco envolvendo todas as etapas de ascensão e queda de uma celebridade, Bingo chega lá já tendo conquistado o espectador com seu personagem e principalmente com a sua personalidade, tornando fácil o processo de relevar a conclusão apressada e abreviada. Afinal, o que ficará mesmo com o espectador é a diversão proporcionada por um filme que alcança momentos extasiantes, como quando introduz a cantora Gretchen (Emanuelle Araújo) com a famosa Conga, La Conga, e que proporciona ao carismático e desenvolto Vladmir Brichta, em ótima parceria com Leandra Leal, o melhor desempenho de sua prolífera carreira no cinema até aqui. Abraçando seu protagonista de corpo e alma, Bingo se torna especial por lembrar que o melhor cinema é realmente aquele que confia em seu espectador, sem redimensionar histórias ou omitir fatos para se tornar, digamos, mais palatável. Em termos de cinebiografias, se todas realizadas por aqui seguissem o mesmo padrão, nosso padrão realmente seria outro.

Corpo Elétrico

Como eu penso muito, às vezes eu preciso descarregar…

Direção: Marcelo Caetano

Roteiro: Gabriel Domingues, Hilton Lacerda e Marcelo Caetano

Elenco: Kelner Macêdo, Ana Flávia Cavalcanti, Dani Nefussi, Daniel Torres, Emerson Ferreira, Ernani Sanchez, Evandro Cavalcante, Georgina Castro, Henrique Zanoni, Júlio Silvério, Kiara de Paula, Lucas Andrade, Marcia Pantera, Mc Linn da Quebrada, Nash Laila, Nathalia Ernesto, Rodrigo Andreolli, Ronaldo Serruya, Teka Romualdo, Welket Bungué

Brasil, 2017, Drama, 94 minutos

Sinopse: Elias (Kelner Macêdo) é o jovem criador de uma fábrica de confecção roupas no centro de São Paulo. Ele mantém pouco contato com a família na Paraíba, e passa seus dias entre o trabalho e os encontros com outros homens. Enquanto reflete sobre as possibilidades de futuro, começa a ficar cada vez mais próximo dos colegas da fábrica, e vê os amigos seguirem caminhos diferentes dos seus. (Adoro Cinema)

Livre e autêntico como todos nós deveríamos ser, Corpo Elétrico é um milagre. Basta perceber a própria concepção do longa-metragem de estreia do cineasta mineiro Marcelo Caetano para perceber que estamos diante de uma obra com tino raro, seja no cinema brasileiro ou no de qualquer outra nacionalidade: renegando relacionamentos trágicos, roupas de grife, baladas estilosas, o clássico processo da auto-descoberta e os corpos tão idealizados, Corpo Elétrico retrata o universo gay invertendo tudo o que existe de mais tradicional – e por que não clichê – em filmes com essa temática. Sambando na laje ou fazendo performance no palco de uma festa drag, trabalhando duro para sobreviver ou simplesmente dando risadas com os amigos em uma mesa de bar e interessados tanto pelo negro afeminado quando pelo segurança casado e enrustido de um shopping, os gays representados aqui, assim como na vida, não se encaixam em fórmulas. E é essa multiplicidade tão bonita – não apenas deles, mas de qualquer ser humano – que torna Corpo Elétrico um filme tão necessário.

Radiografando desejos e afetos (amorosos ou não) na periferia, o filme de Marcelo Caetano pode ser equivocadamente interpretado como um trabalho sem conflitos, visto que a homossexualidade não é um tópico questionado ou polemizado por qualquer um dos personagens. Corpo Elétrico também pode ser interpretado dessa forma porque sua história é essencialmente cotidiana e naturalista, sem qualquer reviravolta ou grandes acontecimentos, mas há sim valiosas propostas de reflexão, até porque a força de uma obra cinematográfica não pode e nem deve ser medida apenas pela quantidade ou pelo tamanho dos obstáculos que coloca no caminho de seus personagens. Difícil mesmo é construir beleza de um filme que retrata, a partir da alegria e da libertação, a vida de uma parcela da sociedade que não costuma se ver na tela de forma tão espirituosa e realista. Nesse sentido, Marcelo Caetano revoluciona: pelo menos no Brasil, nunca houve um filme gay como Corpo Elétrico, cuja naturalidade ao tratar de assuntos comuns a todos nós – trabalho, família, amor, sexo – confere ao longa uma sofisticação que muitos dramalhões de cenas hiperbólicas jamais alcançariam.

Ao encenar sua história na periferia de São Paulo, mais especificamente no duro trabalho de uma fábrica de confecção de roupas femininas, o longa observa, com um olhar muito meticuloso, a vida das pessoas que, apesar de toda dificuldade financeira e de oportunidades, sempre encontram, no meio de cada batalha diária, motivos parar rir, festejar e esperar por dias melhores. De elenco irretocável – o protagonista Kelner Macêdo, em especial, é bonito, espontâneo e bom ator -, Corpo Elétrico se torna raro por abraçar essa parcela muito específica e esquecida da sociedade ao mesmo tempo em que consegue, com humanidade, carinho e muita consciência, puxar a história para o plano universal, falando sobre modelos de relacionamento hoje em franco processo de redefinição e reflexão. É bem provável que tanta autenticidade custe caro ao filme em termos de bilheteria (Negros? Gays? Pobres? Tudo em uma mesma história? O preconceito ainda corre solto nesse sentido), mas, em termos artísticos, Corpo Elétrico é vitória das mais importantes. E é exatamente isso o que fica no final das contas.

45º Festival de Cinema de Gramado #14: “João, o Maestro”, “A Fera na Selva” e “Vergel”

Por falta de tempo – e, em certos casos, de interesse – deixei de escrever sobre outros longas-metragens exibidos aqui no 45º Festival de Cinema de Gramado. Aproveito a reta final do evento para me retratar e compensar essa leva que ficou para trás. Vamos aos filmes.

Na cinebiografia João, o Maestro, as esforçadas performances de Rodrigo Pandolfo e Alexandre Nero se diluem em um filme tradicional e sem tempero.

Exibido fora de competição como o longa de abertura do 45º Festival de Cinema de Gramado, João, o Maestro é um filme-evento no sentido de ser uma obra que registra a inspiradora história verídica de João Carlos Martins, pianista brasileiro de repercussão mundial que, após um acidente, ficou impossibilitado de tocar piano e encontrou na regência de orquestras uma forma de dar continuidade ao seu amor pela música. Como evento, tem a garantia de grande público e bilheteria. Já em termos de valor artístico, há muito pouco a ser dito sobre um filme que apenas reproduz fórmulas e vícios de cinebiografias populares assinadas pela Globo Filmes.

Ainda que não apresente a confusão narrativa de Elis, citando outro longa biográfico exibido recentemente no evento gramadense, falta a João, o Maestro qualquer tipo de tempero. Falando quase inteiramente em espanhol e inglês – o que imediatamente nos tira da verdade que as interpretações esforçadas de Alexandre Nero e principalmente Rodrigo Pandolfo poderiam trazer -, o filme tem um roteiro apressado que novamente viaja ao mundo, dá saltos temporais e apresenta uma gama de personagens sem aprofundá-los ao mesmo tempo em que a direção de Mauro Lima – que, diga-se de passagem, fez trabalhos bacanas como Meu Nome Não é JohnnyTim Maia – peca por não trazer personalidade ao relato de um personagem riquíssimo.

Repleto de apresentações musicais – são mais de 16 números ao piano, muitos deles interpretados pelos próprios atores -, João, o Maestro não dá a real dimensão dos problemas, que se resolvem muito facilmente em um curto espaço de tempo, o que minimiza a introdução de qualquer obstáculo, já que as soluções logo brotam na tela. Em tempos em que tanto se debate a questão da representatividade, é também incômodo o retrato que a produção faz de suas figuras femininas, todas reduzidas a papeis super coadjuvantes e de mero apoio ao protagonista, quando não sem personalidade, como é o caso da namorada vivida por Alinne Moraes, que, julgando pela história, não tem vontade identidade.

Dirigido por Paulo Betti, Eliane Giardini e Lauro Escorel, o drama A Fera na Selva é um ponto assumidamente fora da curva, com seus prós (e muito mais) contras.

É complexo rotular um filme de teatral, adjetivo normalmente associado a comparações negativas. Há títulos nesse formato que realmente funcionam, como por exemplo DúvidaÁlbum de Família, ambos coincidentemente estrelados por Meryl Streep. Já outros se afundam não por conter uma carga considerável de diálogos ou por serem encenados com poucos atores em uma quantidade limitadíssima de cenários, mas por simplesmente não apresentarem exercício cinematográfico algum, onde a câmera está apenas ali, sem fluir, criar ou comunicar algo extratextual. É o caso de, por exemplo, Deus da Carnificina ou o recente Um Limite Entre Nós. E agora chegamos ao drama A Fera na Selva, que, dirigido por Paulo Betti, Eliane Giardini e Lauro Escorel com base na novela do escritor inglês Henry James, entrega toda sua confiança ao texto, esquecendo-se de envolver o espectador com os tantos sentidos que podem ser proporcionados pelo cinema.

A proposta do texto é fabulosa – a de um homem que, à espera de um acontecimento extraordinário que o distinguirá de todos os outros seres humanos, esquece, justamente, de viver as pequenas coisas da vida -, mas até a transposição soa um tanto atrapalhada, já que ela nunca é encenada na prática: ao invés de reproduzi-la em momentos simples do cotidiano, A Fera na Selva prolonga a discussão ao longo de seus 85 minutos. É óbvio que a angústia da espera assombra o protagonista, mas ninguém fala só sobre isso na vida. Limitando espaço e situações a partir dessa interminável discussão, o longa parte para o plano onde o teatral é um problema, já que os personagens praticamente não fazem outra coisa a não ser filosofar sobre a tal questão. Com isso, A Fera na Selva não introduz outras figuras em cena e restringe seu dueto a cenários fechados – e talvez por isso mesmo as cenas ao ar livre surjam tão refrescantes, reforçados pela ótima fotografia do grande Lauro Escorel.

Além do contexto, os próprios diálogos seguem a verve teatral com frases longas e posudas cuja relevância só não é descartada porque Eliane Giardini é uma grande atriz capaz de comover mesmo em saltos temporais tão repentinos. Na passagem pelo Festival de Cinema de Gramado, onde o filme não recebeu a mais positiva das recepções, Betti e Giardini sempre fizeram questão de dizer que A Fera na Selva é um filme propositalmente palavroso, um ponto assumidamente fora da curva. Admiro demais a consciência, a proposta e, claro, a coragem de fazer um filme assim, já que sou pleno defensor de que é melhor errar com ousadia do que fazendo o básico. Ao mesmo tempo, isso não quer dizer que devo redimensionar meu envolvimento ou julgamento por conta disso.

Camila Morgado em meio às cores. No drama Vergel, a atriz tem sua melhor chance em anos. Aqui, o o luto é contado também através da estética.

Último longa exibido no 45º Festival de Cinema de Gramado, o drama Vergel traz a aparição mais desafiadora de Camila Morgado desde Olga. Entregue de corpo e alma ao papel de uma mulher sem nome que enfrenta um luto repentino e está à beira da loucura, Camila absorve todo o pesadíssimo tom da história escrita e dirigida por Kris Niklison, ampliando a sensação já sufocante de um filme em forma de monólogo passado inteiramente dentro de um único apartamento. Conferindo linguagem audiovisual à história mesmo com ela se passando em circunstâncias tão restritas (um ótimo contraponto ao que escrevi acima sobre A Fera na Selva), Vergel é uma experiência extremamente densa, silenciosa e entregue às imagens, estilo que certamente o restringe para certas plateias.

Na união dos planos estético e temático, Vergel não deixa de remontar ao belíssimo Direito de Amar, drama onde o diretor Tom Ford acompanhava um dia de luto na vida de um homem com um senso visual pulsante. O caso aqui é parecido, onde Kris Niklison não abre mão de usar diversas paletas de cores, cenários e enquadramento para significar através das imagens o processo de luta e redenção de uma mulher em estado catatônico e de suspensão. Nesse processo, ajuda o fato do filme ter sido rodado inteiramente no apartamento da diretora na Argentina, o que mostra uma intimidade das lentes com de cada canto explorado. Com tanta carga estética, Vergel pode ser tachado de maneirista, mas é importante compreender que tudo está a favor da história e principalmente da missão de dar dinâmica a um relato que poderia estar fadado a ser um teatro monocórdico.

De ritmo muito particular, Vergel é um filme extremamente denso, daquele tipo que não facilita a experiência para o espectador. Há nele algumas escolhas que de fato soam maneiristas ou pelo menos descartáveis, como a trilha de piano às vezes invasiva e algumas tiradas cômicas que soam frequentemente insistentes. O que vale, no entanto, é Vergel ter tanta firmeza da claustrofobia emocional que traz para sua protagonista e consequentemente para o espectador. Ainda há de se valorizar a direção e o roteiro assinados por uma mulher, configuração que, sem dúvida, faz a diferença na forma com que a obra explora o íntimo e o físico da sua personagem. Vergel causa estranhamento e, por conta de sua densidade, certa distância – nunca é fácil se aproximar de algo tão cru e pesado -, mas, para quem está disposto a embarcar, pode ser uma experiência bastante diferente, e com o bônus da ótima interpretação de uma ótima atriz que há certo tempo não recebia uma chance como essa.

45º Festival de Cinema de Gramado #13: “Bio”, de Carlos Gerbase

Maria Fernanda Cândido é uma das atrizes de repercussão nacional que integram o extenso elenco de Bio, novo filme do gaúcho Carlos Gerbase em forma de falso documentário.

Pela relação com o evento e pela longa e prolífera carreira no cinema gaúcho, a presença do diretor Carlos Gerbase na edição comemorativa de 45 anos do Festival de Cinema de Gramado é muito bem-vinda. O mais importante, no entanto, se deve – e muito mais – ao fato de Bio, que integra a mostra competitiva de longas-metragens brasileiros – ser, possivelmente, o trabalho mais consistente de sua carreira. Contando, através do modelo falso documentário, a história de um homem fictício que viu mais de 100 anos e que nunca aparece no filme, Bio se esquiva da mera brincadeira com o formato para criar um conceito próprio e se apoiar na lógica que molda todo (bom) documentário: a de que qualquer vida, até mesmo a mais cotidiana, é suficientemente grande para ser celebrada tanto quanto a do mais célebre ser humano. 

Reunindo um elenco gigantesco, que contempla desde talentos gaúchos (Werner Schünemann, Deborah Finocchiaro, Zé Victor Castiel) a nomes de repercussão internacional (Maitê Proença, Maria Fernanda Cândido), Bio não soa datado porque, além de usar o formato de falso documentário para expandir dramaticamente uma vida aparentemente simples, o faz com uma estrutura bem diferente, que atravessa diversas décadas, como se o documentário tivesse acompanhado a vida do protagonista desde antes de seu nascimento. E Gerbase, que, pela primeira vez, investe no  estilo em sua carreira de longas, tem tino para entrar nas brincadeiras do gênero, acertando especialmente no tom cômico e no saudosismo que permeia os depoimentos de personagens que lembram do protagonista com muito carinho. Por falar nele, é sábia a decisão do filme de nunca mostrá-lo, afinal, a imaginação pode ser um agente muito mais fascinante e funcional. 

Com tantos depoimentos, a montagem de Milton do Prado tem papel decisivo para que Bio flua de forma dinâmica e nunca confusa. Como em tantas produções que destrincharam de forma bem sucedida o formato de falso documentário, especialmente nos Estados Unidos, ela também serve para costurar o bom humor que permeia praticamente toda a obra. Ademais, por dar vida a tantos personagens ao longo de tantos anos em quase duas horas de projeção, Bio, em certo ponto, tem lá suas barrigas, com depoimentos menos agregadores e passagens que poderiam ser claramente eliminadas para que a obra fosse um pouco mais concisa e menos abarrotada de relatos e informações, mas, à parte esse detalhe, o que fica mesmo, além da vitória de Gerbase em um filme mais específico, é esse carinho com que ele trata pequenos momentos da vida, como se não houvesse diferença entre eles e aqueles vividos por, sabe-se lá, uma grande celebridade. E a moral da história é que, no final das contas, realmente não há. A vida sempre pulsa. Em qualquer dimensão.

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