Cinema e Argumento

Fragmentado

The broken are the more evolved. Rejoice.

Direção: M. Night Shyamalan

Roteiro: M. Night Shyamalan

Elenco: Anya Taylor-Joy, James McAvoy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica Sula, Izzie Coffey, Brad William Henke, Sebastian Arcelus, Neal Huff, Robert Michael Kelly, M. Night Shyamalan

Split, EUA, 2016, Suspense, 117 minutos

Sinopse: Kevin (James McAvoy) possui 23 personalidades distintas e consegue alterná-las quimicamente em seu organismo apenas com a força do pensamento. Um dia, ele sequestra três adolescentes que encontra em um estacionamento. Vivendo em cativeiro, elas passam a conhecer as diferentes facetas de Kevin e precisam encontrar algum meio de escapar. (Adoro Cinema)

Se o diretor M. Night Shyamalan tem senso de humor e é tão inteligente quanto gosta de se proclamar, o título Fragmentado pode ser interpretado como uma referência a sua carreira de altos e baixos desde que ganhou o mundo e chegou a concorrer ao Oscar em seis categorias com o marcante O Sexto Sentido. Um dos cineastas mais mitológicos do início dos anos 2000, Shyamalan conquistou notoriedade internacional ao dirigir outras obras célebres como Corpo FechadoSinais, mas passou a despertar, de forma plenamente compreensível, a aversão do público naquela que é a derrocada artística mais lamentável já enfrentada por um diretor nas últimas décadas. O declínio não começou tão cedo como muitos apontam (A Vila, de 2004, é sim uma grande obra incompreendida), o que, claro, não amortece os crescentes fiascos criativos de Fim dos TemposO Último Mestre do Ar Depois da Terra. Já em 2015, com orçamento muito menor, escala de produção mais comedida e ambição criativa redimensionada, o diretor retorna com A Visita, filme que considero implausível em sua premissa mais básica, mas que, segundo a razoável recepção da crítica, injetava uma considerável dose de ânimo na carreira desse cineasta que parecia ter esgotado todo seu talento e desaprendido a construir suspenses minimamente instigantes.

Eis, então, a brincadeira que pode ser levantada a partir de uma suposta ironia do título Fragmentado: afinal, como é possível um diretor ter sido ao mesmo tempo tão inovador e desprezível ao longo de quase duas décadas prolíferas de trabalho? Pois a fragmentada carreira de Shyamalan tem tudo para, agora sim, ganhar novo gás: ao contrário de A Visita, Fragmentado apresenta muitos dos elementos que tornaram o cineasta um dos mais cultuados de sua geração. Dessa forma, mesmo que, em algumas passagens, faltem as sutilezas que tornaram, por exemplo, O Sexto Sentido uma aula sobre como esconder dos espectadores um segredo que esteve o tempo inteiro embaixo de seus narizes, é tempo de baixar a guarda: neste novo suspense estrelado por James McAvoy e pela revelação Anya Taylor-Joy, que estrelou o já marcante A Bruxa, Shyamalan, depois de muitos anos, cria uma experiência repleta de atmosfera e boas ideias. Talvez não seja a grande obra que todos esperam (é sempre assim: todos exigem o máximo de quem já fez o máximo, principalmente quando o profissional em questão tenta se reerguer de uma fase ruim), mas pense na hipótese: caso esse fosse o primeiro filme assinado pelo indiano, é bem provável que fosse reverenciado como a estreia promissora de um cineasta independente.

Com um cartaz que remonta a Corpo Fechado sem se limitar apenas a essa brincadeira comercial (quem conhece a carreira do diretor encontrará, no filme, outras brincadeiras referentes ao filme de 2000 estrelado por Bruce Willis), Fragmentado volta a apresentar um Shyamalan que, antes de criar a atmosfera básica de um filme do gênero, pensa bastante no embasamento dramático de seus personagens e na situação em que eles estão inseridos, o que, vale lembrar, foi uma das fórmulas do sucesso de O Sexto Sentido, que sobrepunha o drama ao suspense. Ao criar uma trama centrada em personagens com distúrbios mentais ou ao menos assombrados por passados traumáticos – enquanto Kevin (James McAvoy) tem 23 personalidades distintas, Casey (Anya Taylor-Joy) é a jovem estranha de uma turma que ainda enfrenta os fantasmas de uma infância conturbada -, o roteiro, além de delinear com competência o estofo dramático individual dos protagonistas, aos poucos converge para o caminho que torna o suspense de Fragmentado ainda mais envolvente: o processo de percepção de Casey acerca de como suas inadequações sociais, emocionais e semelhantes as de Kevin podem apontar para saída do cativeiro em que ele a mantém junto a outras duas colegas de escola.

Quando faltam sutilezas a Fragmentado é porque Shyamalan prefere criar, por exemplo, uma narrativa paralela de flashbacks para explicar o passado da jovem Casey ao invés de simplesmente trabalhá-lo a partir das interações estabelecidas por ela com as 23 personalidades do sequestrador. Além disso, são muito mais fascinantes as simbologias criadas dentro do cativeiro para falar sobre qualquer assunto, como o momento em que Casey, vindo de uma crescente esperança de fuga, se depara com um desenho feito pela personalidade infantil de Kevin. Metaforicamente, ali é revelada a lógica que a jovem precisa adotar para se desenvencilhar da situação: a saída não está, digamos, em uma janela, mas sim no poder da imaginação. Para não ambientar toda a trama de Fragmentado em um único lugar (isso exigiria um exercício muito mais complexo de roteiro, além de infinitas exigências do estúdio para comprar a ideia), o diretor expande sua história para o olhar de Karen Fletcher (Betty Buckley), a psiquiatra de Kevin. É uma forma de tornar a história mais dinâmica e, principalmente, de dar verossimilhança médica ao filme, que jamais se perde no grande número de facetas de Kevin (nem todas são de fato apresentadas na história) e introduz muito bem todo o processo interno do distúrbio mental em questão. O único defeito a ser levantado em relação a Fletcher é que, por mais que ela funcione como um personagem explicativo de vida própria (também são pinceladas informações sobre a vida da psiquiatra, que diz ter nos pacientes os filhos que preferiu não ter), Fragmentado se aproveita demais de sua figura para, no fim, tratá-la como uma coadjuvante qualquer. Fletcher merecia um desfecho mais condizente com seu tempo em cena e sua função narrativa.

Apoiando-se na imprevisibilidade de como é estar refém de um homem que, a qualquer momento, pode assumir até a personalidade de uma mulher para criar seu suspense, Fragmentado é mais do que um filme de sequestro porque compreende que o mérito desse tipo de história não está no sequestro ou na fuga em si, mas na relação entre sequestrado e sequestrador. No plano psicológico, Shyamalan leva seu mais novo trabalho a uma abordagem que, repleta de representações que merecem releituras, foge do lugar-comum e o livra de ter que cumprir o passo a passo de um filme do gênero. Beneficiados pelo retorno criativo de um diretor que parecia fadado a não acertar mais estão James McAvoy e Anya Taylor-Joy, ambos merecedores de elogios pontuais por suas interpretações. Ele, que assume inicialmente destinado Joaquin Phoenix, tem aqui um dos grandes momentos de uma carreira já conhecida por bons papeis (O Último Rei da EscóciaDesejo e ReparaçãoDois Lados do Amor, os novos X-Men), onde seu maior é certo é nunca cair na caricatura e sempre tornar críveis cada uma das personalidades do protagonista. Já Anya confirma a presença forte que tinha em A Bruxa ao ultrapassar todas as leituras fáceis da jovem excluída e problemática que, no fundo, tem mais a oferecer do que qualquer uma de suas colegas supostamente mais bonitas e interessantes. É com uma construção muito climática (se atentem ao envolvente trabalho de West Dylan Thordson na trilha sonora!) que M. Night Shyamalan coloca tudo isso em uma mistura que, finalmente, podemos considerar a responsável por novamente fazer dele um cineasta interessante. Se a crítica não concordar, pelo menos a Universal pode comemorar com os bolsos cheios: Fragmentado, até a data de publicação desse texto, já faturou 28 vezes mais do que seu orçamento de 9 milhões de dólares. 

Logan

So this is what it feels like…

Direção: James Mangold

Roteiro: James Mangold, Michael Green e Scott Frank, baseado em história de James Mangold

Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen, Boyd Holbrook, Stephen Merchant, Elizabeth Rodriguez, Richard E. Grant, Eriq La Salle, Elise Neal, Quincy Fouse, Reynaldo Gallegos

EUA, 2017, Ação/Drama, 137 minutos

Sinopse: Em 2029, Logan (Hugh Jackman) ganha a vida como chofer de limousine para cuidar do nonagenário Charles Xavier (Patrick Stewart). Debilitado fisicamente e esgotado emocionalmente, ele é procurado por Gabriela (Elizabeth Rodriguez), uma mexicana que precisa da ajuda do ex-X-Men para defender a pequena Laura Kinney / X-23 (Dafne Keen). Ao mesmo tempo em que se recusa a voltar à ativa, Logan é perseguido pelo mercenário Donald Pierce (Boyd Holbrook), interessado na menina. (Adoro Cinema)

Quando o diretor James Mangold recebeu carta branca para fazer Logan com classificação indicativa máxima, a conquista foi motivo de celebração, já que, muito além de poder realizar um filme com violência infinitamente mais gráfica, ele poderia contar uma história sem ter a obrigação de agradar a todo tipo de plateia. Com isso, foram escanteados a significativa quantidade de alívios cômicos tão inerentes aos blockbusters, a predileção pelo CGI em cenas de ação grandiosas e principalmente os arcos dramáticos perfeitamente previsíveis. Tudo isso já poderia por si só diferenciar o último longa-metragem de Wolverine estrelado por Hugh Jackman, mas o conceito foi muito além: melancólico e com tom de urgência, Logan é uma produção que surpreende por sua abordagem profundamente triste ao acompanhar os dias de um herói que, com um rosto envelhecido e cansado, precisa enfrentar, literal e metaforicamente, a maior batalha que todos nós também estamos fadados a enfrentar: aquela contra nós mesmos.

Décimo filme da franquia X-Men e o terceiro protagonizado por Wolverine, Logan varre para baixo do tapete todos os longas anteriores de seu universo ao demonstrar que não só aprendeu como atualizar um personagem que surgiu pela primeira vez nas telas há 17 anos como também observou atentamente as possibilidades pioneiras da trilogia Batman dirigida por Christopher Nolan de unir entretenimento com sofisticação narrativa. James Mangold, um diretor que faz tudo que é tipo de filme mantendo uma boa média de qualidade (Johnny & JuneIdentidade, Garota, Interrompida), dá um notável salto artístico em seu trabalho atrás das câmeras: entre Wolverine: Imortal Logan existe uma clara vontade de proporcionar uma experiência diferente, algo que ele mesmo confessa quando fala sobre o roteiro, que, segundo Mangold, traz inspirações de longas célebres (Os Brutos Também Amam, no sentido de realizar um quase faroeste para um protagonista que procura uma mudança de vida rumo a dias mais isolados e pacíficos) e outros contemporâneos (Pequena Miss Sunshine, evocado aqui na abordagem de um road movie que oscila entre a melancolia e o humor com uma criança e um senhor no banco traseiro). 

Sem qualquer vilão querendo dominar o mundo ou tramas repletas de engenhosidades descartáveis (o que não deixava de sabotar Christopher Nolan em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, por exemplo), Logan é comandado com uma crueza embasbacante. Se antes Wolverine usava suas garras para aniquilar inimigos quase sem derrubar uma gota sequer de sangue em cenas de lutas mirabolantes, aqui Mangold abraça o realismo ao pesar a mão na medida certa em sequências que realmente encenam a gravidade do combate físico e cujas acrobacias foram de fato performadas pelos atores ou por seus dublês. É um ganho tremendo para um filme com clima de despedida como esse, já que o protagonista, ao atravessar cenários áridos e inóspitos, surge abatido pela idade (ele usa até óculos para ler!) e por seu duro passado. Em Logan, os heróis são falíveis, o que de certa forma não deixa, no sentido positivo, de desclassificar o filme de James Mangold como um filme herói. Antes de mais nada, a história é sobre seres humanos, onde os pés estão bem firmados no chão, o que não quer dizer que toda a mitologia dos quadrinhos não esteja presente aqui. 

Encenado em 2029, mas renegando futurismos idealizados (pelo contrário: é seguida a lógica de que, talvez, a humanidade realmente não melhore com o passar das décadas), Logan cumpre com louvor a missão de fazer uma despedida ao mesmo tempo em que introduz, com muita organicidade, possibilidades para que o universo tenha possíveis sobrevidas a partir de novos personagens e situações. É meticuloso esse roteiro que, em termos de ação, se sustenta a partir de uma única perseguição para falar sobre o quanto certas jornadas podem realmente nos transformar. Afinal, é meio ilusório acreditar que até mesmo o mais poderoso dos super heróis passe por tantas mortes, despedidas e traumas sem carregar pelo menos algumas cicatrizes internas. Pois Logan/Wolverine se abala sim: desesperançoso ao ponto de descontar a raiva com a vida no próprio carro, o personagem, por trás de uma barba mal feita, das rugas que o tempo trouxe e das garras que não saem de suas mãos com a naturalidade de antes, já nem mesmo compreende mais o que é se conectar com o próximo – e, por isso, não é à toa que se torna poderoso, tanto para ele quanto para nós, um carinho aparentemente cotidiano, mas tão negado a nosso protagonista, ao final da trama.

Hugh Jackman, que segura o personagem como poucos atores que estrelam filmes baseados em quadrinhos, alcança, em Logan, o seu auge como Wolverine. É injusto, no entanto, reduzi-lo a apenas a essa comparação: depois de ter apresentado performances grandiosas nos últimos anos em filmes como Os MiseráveisOs Suspeitos, Jackman entrega uma atuação digna de ser reconhecida independente de gênero cinematográfico. O trabalho, que desde já está destinado a ser lembrado como um dos seus pontos altos como intérprete, ainda é complementado por outro ator em momento digno de aplausos: Patrick Stewart. O veterano finalmente tem a chance que tanto lhe era negada nos filmes anteriores da franquia e abraça por completo a proposta de ser um homem tão abalado e fadigado quanto o protagonista. Com ação visceral e discussões comoventes, Logan marca uma revolução no cinema derivado de adaptação de quadrinhos, mas sem nunca negar sua origem ao brincar com referências, falar novamente sobre a caça aos mutantes e apresentar personagens com novos poderes. As decisões artísticas funcionaram porque, somente nos Estados Unidos, Logan foi a maior estreia de um filme com classificação indicativa máxima, ocupando mais de 4 mil salas de cinema. Ou seja, em termos de crítica e público, o filme é um sucesso. E com toda razão.

Moonlight: Sob a Luz do Luar

What’s a faggot?

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Direção: Barry Jenkins

Roteiro: Barry Jenkins, baseado na história de Tarell Alvin McCraney

Elenco: Alex R. Hibbert, Ashton Sanders, Trevante Rhodes, Naomie Harris, Mahershala Ali, Janelle Monáe, Shariff Earp, Duan Sanderson, Edson Jean, Patrick Decile, Herveline Moncion, Fransley Hyppolite

EUA, 2016, Drama, 111 minutos

Sinopse: Black (Trevante Rhodes) trilha uma jornada de autoconhecimento enquanto tenta escapar do caminho fácil da criminalidade e do mundo das drogas de Miami. Encontrando amor em locais surpreendentes, ele sonha com um futuro maravilhoso. (Adoro Cinema)

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Quando surge pela primeira vez em Moonlight: Sob a Luz do Luar, o pequeno Chiron está correndo incansavelmente. Perseguido por colegas da escola que gritam “bicha!” ao mesmo tempo em que tentam encurralá-lo, o protagonista do filme de Barry Jenkins aos poucos nos revela o seu universo aterrador: negro, pobre e filho de um pai que não conhece e de uma mãe drogada, Chiron, que nem entende muito bem o que é ser gay, mas que já enfrenta o julgamento da sociedade em função de sua natureza, carrega consigo uma série de minorias que o mundo não costuma tratar com muito zelo. Já não é fácil fazer parte de uma ou outra delas, e o que dizer, então, quando é preciso levar todas nas costas. E Moonlight, que não estereotipa qualquer uma das facetas de seu protagonista, é arrebatador por conta de uma escolha muito acertada: a de concentrar seu olhar não na jornada que Chiron enfrenta contra a sociedade, mas contra os fantasmas de sua própria vida e de um destino aparentemente imutável que parece ter sido traçado desde o momento de seu nascimento.

Narrando três momentos da vida de Chiron em uma uma parte de Miami, nos Estados Unidos, movida a drogas, violência e prostituição, Moonlight é um projeto muito pessoal do diretor Barry Jenkins, que gravou o filme com apenas cinco milhões de dólares no bolso. E tudo não poderia ter vindo em momento mais oportuno: quando o mundo discute cada vez mais questões de representatividade, seja de qualquer minoria, o longa surge como uma experiência para lá de catártica. Muito mais do que um filme de incrível relevância temática, Moonlight também é cinema de incrível qualidade e delicadeza. No primeiro capítulo, quando acompanha o protagonista ainda criança, a história tem foco maior nas pessoas que cercam Chiron e como elas serão decisivas para a personalidade que o pequeno virá a moldar. Se o turbilhão do convívio com a mãe drogada parece um beco sem saída, a figura de Juan (Mahershala Ali) vem para transformar sua vida em todos os sentidos, desde a forma como construímos o valor que cada relação familiar tem em nossa vida até a compreensão do quão natural é ser gay e não ser recauchutado por isso. É um desses encontros aleatórios da vida que chegam para mudar toda uma existência – e que, muitas vezes, só mais tarde, tomando certa perspectiva, compreendemos o papel fundamental que desempenham nas forças que encontramos para seguir em frente. 

Quando transporta Chiron da infância para a adolescência, Moonlight se entrega muito mais ao protagonista, que agora precisa enfrentar uma das piores partes da vida de qualquer pessoa: a escola. Cada vez mais perseguido por sua natureza sexual, o garoto, que permanece mais tempo no ambiente escolar após aulas para não ter que encarar os bulliers que o aguardam do lado de fora para lhe dar uma surra, faz descobertas muito pessoais em relação a si próprio (a cena em que tem um primeiro contato sexual com um homem é de arrepiar de tão natural), dessa vez trilhando o seu próprio destino, já com uma cota bem menor de ajuda do que esperava ter nessa altura da vida. E é nesse capítulo que Barry Jenkins, também roteirista do filme, entrega os momentos mais brilhantes de Moonlight, sendo cuidadoso em tudo o que discute nas entrelinhas (muita coisa está implícita na “brincadeira” que um garoto valentão da escola faz com Chiron em relação à possibilidade de comê-lo caso também fosse gay) e, principalmente, no poder das imagens (a cena na praia onde acontece o primeiro contato sexual do protagonista é arrebatadora, assim como os momentos com a mãe são por vezes assustadores tamanha a composição visual que lembra um filme de terror).

Ainda que dividido em capítulos, Moonlight consegue costurá-los com notável proeza, vencendo em um aspecto que considero particularmente decisivo: a capacidade de fazer com que nós, espectadores, continuemos a identificar Chiron em corpo e alma mesmo com a troca de atores e até mesmo de identidades visuais entre cada parte da história. Ironicamente, esse é o mesmo detalhe que sabota o filme em sua terceira e última parte. Afinal, quando Chiron chega à vida adulta, é difícil enxergá-lo na tela, como se não identificássemos, nem mais em seus olhos, o garoto por quem tanto nos afeiçoamos até ali, o que nada tem a ver com o fato do filme apontar para a ideia de que certos destinos são mesmo inevitáveis. Difícil constatar se é a escalação errada de elenco, as longas cenas que nunca alcançam a intensidade que deve vir de uma narrativa de baixa fervura ou simplesmente a personalidade por vezes misteriosa demais de um Chiron que já não encaramos da mesma forma. Tudo parece muito à parte do restante, e um bocado se perde – e até se acovarda – quando Moonlight se propõe a passar a régua e a fechar as contas. Por se tratar do capítulo derradeiro, isso é um problema, pois normalmente a impressão que fica é a do desfecho. 

Justiça seja feita, entretanto, a méritos que saem ilesos desse importante detalhe, como o alto nível do elenco. Os Chirons dos dois primeiros capítulos são simplesmente fantásticos, em especial Ashton Sanders, que, interpretando o personagem na adolescência, tem os momentos mais expressivos e marcantes de todo o filme (a cena que encerra essa parte é um grito dos mais libertadores). Entre os coadjuvantes, ainda que alguns deles sejam sabotados pelo o roteiro, como Mahershala Ali, que exerce com sabedoria e inteligência um papel importante demais para depois ser escanteado com tanto descaso, há um excelente nível, onde Naomie Harris também merece nota por um trabalho que se esquiva de histrionices e que ganha nova dimensão a partir da informação de que a atriz precisou gravar tudo em apenas três dias (e como sua personagem passa por mudanças significativas, isso é um verdadeiro elogio). Não deixem ainda que a conclusão frustrante de Moonlight amorteça a assombrosa trilha de Nicholas Britell e a fotografia inteligentíssima de James Laxton (Chrion aprendendo a nadar é uma das coisas mais lindas que você verá em 2017). Mais do que isso, leve, após a sessão, a mensagem forte, necessária e impactante que, com o talento de Barry Jenkins, certamente reverberá por muito, mas muito tempo.

Rapidamente: “É Apenas o Fim do Mundo”, “Até o Último Homem”, “Kubo e as Cordas Mágicas”, “A Qualquer Custo” e “A Tartaruga Vermelha”

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Dez anos depois de Apocalypto, Mel Gibson volta à direção de longas com Até o Último Homem, filme de guerra que constrói uma história curiosa a partir de uma narrativa clássica.

É APENAS O FIM DO MUNDO (Juste La Fin du Monde, 2016, de Xavier Dolan): Quando exibiu É Apenas o Fim do Mundo no Festival de Cannes de 2016, o diretor Xavier Dolan assumiu que seus filmes são mesmo histéricos – e quem não gosta que vá procurar outra coisa para assistir. A lógica não deixa de estar certa, mas Dolan precisa urgentemente tratar seus problemas em casa, já que, para corroborar essa sua afirmação, precisou menosprezar publicamente um crítico que odiou o seu filme, mas aprovou Creed: Nascido Para Lutar, como se a opinião dele não valesse nada por conta disso. O elenco europeu de alto nível que o jovem cineasta reúne em seu mais recente longa (Gaspard Ulliel! Léa Seydoux! Vincent Cassel! Marion Cotillard!) comprova a reputação conquistada nos últimos anos. Contudo, a histeria que ele acertadamente assume atrapalha demais a experiência. E o problema de É Apenas o Fim do Mundo não é nem necessariamente as incansáveis discussões dos personagens, e sim as razões (ou melhor, a falta delas) que despertam tais desavenças. Tanto barraco mal construído, gratuito e sem profundidade nos impede de ter alguma compreensão dos personagens. A partir disso, interpretações de tom muito menor como a de Ulliel e Cotillard se perdem porque os dois parecem apenas duas figuras inertes que vagam cabisbaixos o filme inteiro. Por outro lado, figuras explosivas como as de Cassel e Seydoux testam a nossa paciência ao despertar discussões com as situações mais avulsas possíveis, como quando a matriarca coloca no rádio uma música que, sem saber, um dos filhos detesta. É Apenas o Fim do Mundo merecia ser um impactante drama familiar e não, como bem Dolan reconhece, uma simples histeria. Vou mesmo seguir o conselho do diretor e procurar outra coisa para assistir a partir de agora.

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Hacksaw Ridge, 2016, de Mel Gibson): Expressivo retorno de Mel Gibson na cadeira de direção após o mediano Apocalypto, de 2006, Até o Último Homem vem colhendo uma série de críticas que, de certa forma, sempre foram associadas ao diretor: melodrama, pregação religiosa, sadismo e por aí vai… Há casos em que é possível concordar com uma coisa ou outra (A Paixão de Cristo é o maior exemplo nesse sentido), mas não me parece ser o caso desse ótimo filme de guerra dirigido por ele. Em Até o Último Homem, detratores enxergam melodrama ao invés da narrativa clássica, formato que sempre foi uma marca de Mel Gibson. Já a chamada pregação religiosa em momento algum se estende ao filme, restringindo-se unica e exclusivamente à construção dramática do protagonista, um católico fervoroso que leva os mandamentos de Deus ao pé da letra (e isso está muito bem enraizado em sua personalidade surpreendentemente bem defendida por Andrew Garfield). Por fim, é de se questionar até as críticas em relação ao sadismo, já que estamos falando de um filme de guerra, e nem assim a violência se revela exagerada ou muito menos grotesca. Ganhando muitos pontos com a história curiosíssima (o jovem que se alista no exército para salvar vidas como médico, recusando-se a sequer ter a posse de qualquer arma), Até o Último Homem é impressionante na grandiosidade, na eficiência e na condução de suas cenas de batalha, além de ser o raro caso de uma obra do gênero que, mesmo um tanto mal contextualizada historicamente e rasa nas discussões familiares, deve envolver inclusive quem tem um pouco de preguiça com relatos de guerra. Assim é bom ter Mel Gibson de volta.

KUBO E AS CORDAS MÁGICAS (Kubo and the Two Strings, 2016, de Travis Knight): Com graça e originalidade, Kubo e as Cordas Mágicas talvez seja a animação mais completa a competir na temporada de premiações deste ano. Mesmo perdendo basicamente todos os prêmios para Zootopia – Essa Cidade é o Bicho, o longa dirigido por Travis Knight abrange o público adulto e infantil preservando um aspecto muito importante: o de ser produzido nos Estados Unidos e ainda assim captar todo o espírito do mundo oriental onde a trama é encenada. Maior animação em termos de metragem já feita no formato stop-motionKubo e as Cordas Mágicas flerta com o pessoal, a imaginação e até mesmo o místico para contar a criativa história de um garotinho que precisa derrotar um espírito de seu passado. O filme funciona com grande fluidez e empatia porque os personagens são adoráveis, a história é instigante na construção de seus conflitos e o visual é frequentemente arrebatador (os destaques ficam com com o personagem dublado por Ralph Fiennes e com a dupla sombria de mulheres que persegue o protagonista). Tão impressionante é o trabalho técnico de Kubo e as Cordas que a animação conseguiu um feito raro no Oscar: faturar uma indicação na categoria de efeitos visuais, algo que não acontecia desde 1993 com O Estranho Mundo de Jack. E o melhor: por mais que seja impactante do ponto de vista técnico, a obra jamais deixa de ser um relato bastante particular de seu protagonista. Para um diretor que acaba de estrear na direção de longas, Travis Knight está realmente de parabéns.

A QUALQUER CUSTO (Hell or High Water, 2016, de David Mackenzie): Uma das boas surpresas do Oscar 2017, A Qualquer Custo é extremamente eficiente mesmo trabalhando com lógicas fáceis envolvendo filmes sobre assaltantes. Aliás, tematicamente, o longa assinado por David Mackenzie não deixa de ser torto na forma como quer tornar quase heroico, por exemplo, o sujeito branco e norte-americano que assalta bancos porque, vejam só, quer dar um futuro melhor ao filho e quitar todas as dívidas que tem com a ex-mulher. Se A Qualquer Custo procurasse acompanhar e construir com complexidade o ponto de virada em que o tal homem decide se entregar à ilegalidade, talvez a situação fosse também marcante no conteúdo. Como não o é, fica lembrado como um filme que conduz com destreza sua ação, atualizando a paisagem do western (os personagens usam até iPhone!) e se destacando em pontos técnicos dignos de nota, como a fotografia de Giles Nuttgens e a trilha sonora da dupla Nick Cave e Warren Ellis (lembram do trabalho magnífico deles para O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford?). Quanto ao elenco, Jeff Bridges continua repetindo o papel de Coração Louco e a situação ficaria muito mais curiosa se os papeis de Ben Foster e Chris Pine fossem invertidos, principalmente porque é fácil demais para o primeiro fazer o tipo tempestuoso enquanto o segundo é uma escolha óbvia para o irmão bonito e virtuoso. Entretanto, apesar das ressalvas, A Qualquer Custo prende o espectador com uma facilidade empolgante, o que é resultado de uma inspirada direção.

A TARTARUGA VERMELHA (La Tortue Rouge, 2016, de Michael Dudok de Wit): Animação francesa desprovida de diálogos, A Tartaruga Vermelha é uma experiência exclusivamente dedicada aos adultos por uma série de razões. Com estética simples, mas narrativa contemplativa e uma série de metáforas, o filme de Michael Dudok de Wit talvez funcionasse melhor como curta-metragem, visto que a história frequentemente cai na repetição ou até mesmo na necessidade de estacionar determinados assuntos visto o formato longo. Mesmo assim, é impossível ficar indiferente primeiro à curiosidade que a história desperta como o relato de sobrevivência de um homem que acorda em uma ilha após um acidente marítimo e depois como uma bonita homenagem ao poder que as relações humanas têm de transformar as nossas vidas. É a primeira animação não-japonesa do estúdio Ghibli, responsável por clássicos filmes orientais do gênero, como A Viagem de ChihiroMeu Amigo Totoro. O desvio de percurso no portfólio se deu a partir da admiração dos executivos do estúdio pelo trabalho do diretor Michael Dudok de Wit, que faz carreira como animador na Holanda e havia dirigido quatro curtas-metragens antes de realizar A Tartaruga Vermelha. O convite foi uma completa surpresa para Dudok, que não acreditava que pudesse receber um voto de confiança dessa magnitude. E ele pode respirar aliviado: ambiciosa em reflexões, a animação é um acerto delicado em termos de narrativa. 

Um Limite Entre Nós

Some people build fences to keep people out, and other people build fences to keep people in.

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Direção: Denzel Washington

Roteiro: August Wilson, baseado na peça de teatro homônima e de autoria própria

Elenco: Denzel Washtington, Viola Davis, Stephen Henderson, Jovan Adepo, Russell Hornsby,  Mykelti Williamson, Saniyya Sidney, Christopher Mele, Lesley Boone,  Jason Silvis

Fences, EUA, 2016, Drama, 138 minutos

Sinopse: Baseado na aclamada e premiada peça teatral homônima. Um homem, que sonhava em se tornar um grande jogador de beisebol durante sua infância, acaba frustrado na vida como um catador de lixo. (Adoro Cinema)

Denzel Washington says his character, Troy, "thinks he can control death and the devil, and he finds out in the worst way that he can't." Washington stars alongside Viola Davis in Fences</em

De acordo com Denzel Washington, ele e Viola Davis se apresentaram 114 vezes nos palcos dos Estados Unidos com Um Limite Entre Nós. Revival da celebrada peça homônima de 1987 que chegou a vencer prêmios emblemáticos como o Tony e o Pullitzer, a nova versão estrelada pela dupla preservou o texto de August Wilson sem mexer uma vírgula sequer. O autor, falecido em 2005, era rígido quanto ao seu texto: antes de morrer, escrevia ele próprio uma adaptação cinematográfica, exigindo que, caso fosse de fato levada às telas, deveria ser assinada somente por um diretor afro-americano. Nada mais lógico, portanto, que Denzel Washington, profundo conhecedor do texto de Wilson, resolvesse comandar a primeira adaptação do espetáculo. As 114 apresentações contabilizadas por ele fizeram toda a diferença, pois, segundo Denzel, filmar Um Limite Entre Nós, depois de tantas experiências com a história nos palcos, foi mera questão de reajuste. Porém, se esse reajuste foi um facilitador para as questões de bastidores, o que recebemos do lado de cá da tela não deixa de ser frustrante, uma vez que o filme cai na clássica armadilha de se contentar em ser apenas um teatro filmado ao invés de construir uma identidade cinematográfica. Tanta proximidade simplesmente não fez bem ao projeto.

Considerando exemplos mais recentes, os dramas DúvidaÁlbum de Família também podem ser acusados do mesmo problema, mas de forma infinitamente menos prejudicial. Afinal, enquanto o primeiro transita por diversos pontos de uma grande escola católica para capturar o dia a a dia de professores, alunos, padres e freiras, o segundo, apesar de encenado exclusivamente em uma casa, conta com uma infinidade de personagens cujas relações se entrelaçam das formas mais diferentes possíveis. Já Um Limite Entre Nós não tem a configuração de nenhum dos dois, assemelhando-se mais ao que Roman Polanski fez em Deus da Carnificina (uma comparação bastante depreciativa, diga-se de passagem). Ou seja, na adaptação dirigida e estrelada por Denzel Washington, tudo se resume a um único ambiente com a ação concentrada em pouquíssimos personagens, sendo muitos deles figuras que estão apenas de passagem. A partir disso e com a ideia de manter tal e qual o texto escrito por August Wilson para o cinema, abre-se margem para cenas longuíssimas, diálogos verborrágicos, ritmo maçante e interpretações que, mesmo impactantes, estão muito mais para um palco de teatro do que para uma tela de cinema.

A proximidade de Denzel com o material surge como empecilho porque sua carreira como diretor não é lá muito expressiva (foram dois trabalhos antes desse: os medianos Voltando a ViverO Grande Debate), o que amplia a ideia de que, tratando-se de Um Limite Entre Nós, atuar é uma coisa e dirigir é outra. No entanto, o que falta nessa transição é mesmo estofo na direção para que a história ganhe contornos cinematográficos. Denzel não é lá muito criativo atrás das câmeras, aproveitando pouquíssimo do poder da tão fundamental mise-en-scène em adaptações teatrais e do próprio fluxo entre as cenas (é seca demais, por exemplo, a revelação de um segredo para a plateia e depois para o personagem que será abalada por ele). Isso faz com que Um Limite Entre Nós dependa ainda mais de seu texto, e é quase sempre nele que a maioria das adaptações cinematográficas de obras teatrais consegue ter alguma força. Não é diferente aqui, onde o autor August Wilson, ambientando muito bem a questão de ser um negro de origens humildes na racista sociedade estadunidense dos anos 1950, centraliza seus drama na influência da figura patriarcal e como ela reverbera por toda uma vida. E não qualquer patriarca: Troy Ryan, que acredita não ter obrigações de afeto com qualquer pessoa (nem mesmo com o filho) e que impõe sua autoridade como homem e pai até mesmo quando não é necessário.

Felizmente, a exemplo de Steve Jobs, Um Limite Entre Nós acerta ao ter um protagonista de difícil temperamento cercado por pessoas que clamam por sua humanidade. Isso é importante porque, se já é complicado acompanhar um teatro filmado (e de quase duas horas e meia!), a situação só piora com um protagonista difícil de gostar. São os demais personagens que tornam o retrato de Ryan complexo e interessante, afinal, essa é uma história sobre como sua presença forte e suas atitudes duras atingem os que estão a sua volta (não à toa, ele faria um ótimo par com a Violet Weston de Meryl Streep em Álbum de Família). É aí que Viola Davis, protagonista em tempo de cena, mas coadjuvante em função narrativa, emerge como o detalhe perfeito para balancear o clima quase sufocante que Troy constrói dentro de casa: emotiva e compreensiva, sua Rose não deixa de ser questionadora e combativa quando o marido ultrapassa certas barreiras. Viola, que a interpreta com a sua força habitual e natural, é grande junto a Denzel Washington, que, aí sim, mostra que a sua longa vivência com o projeto só incrementa uma excelência em atuação que ele já não precisa mais provar. Como filme de dupla, Um Limite Entre Nós é mesmo um show. Como obra de cinema em sua totalidade, desperdiça potenciais que muito provavelmente só seriam maximizados por um diretor que tivesse certa distância do projeto.

Rapidamente: “Festa da Salsicha”, “Perfeita é a Mãe!”, “Pets” e “O Que Está Por Vir”

BAD MOMS

Tinha tudo para ser uma diversão perfeitamente esquecível, mas Perfeita é a Mãe! tem um elenco em plena sintonia e sabe ser divertidíssimo mesmo com as situações mais simples.

FESTA DA SALSICHA (Sausage Party, 2016, de Conrad Vernon e Greg Tiernan): Festa da Salsicha nasceu para causar controvérsias, e isso é excelente. Com uma proposta onde é fácil agradar um público ao mesmo tempo em que ofende outro, o filme não tem a intenção de ser democrático, o que lhe restringe a uma plateia muito específica. Sim, a comédia de Festa da Salsicha é cheia de palavrões e piadas sobre sexo. Cabe a você decidir se isso é bacana. Até porque estamos falando de uma animação. Particularmente, a piada me convenceu, e, dada a circunstância, me diverti horrores com o que a dupla Conrad Vernon e Greg Tiernan subverte com essa trama protagonizada por uma salsicha que, dentro de um supermercado, descobre a terrível verdade que todos os alimentos saem de lá para serem devorados, o que imediatamente causa pânico geral. Não é preciso dizer que os menores devem ficar longe de Festa da Salsicha, mas também é bom poupar os mais sensíveis da sessão, pois o filme não poupa na subversão quando encena decapitações e até mesmo uma morte a partir da mistura de Coca-Cola e Mentos! Visualmente criativo, o filme, apesar do aparente fiapo de história, consegue se sustentar muito bem a partir de uma infinidade de personagens curiosos. Das duas uma: ou o espectador despreza o que esta na tela ou se diverte à beça. E não tenho pruridos em dizer que me desarmei para viver a segunda experiência. Até porque Festa da Salsicha dá boas razões para isso.

PERFEITA É A MÃE! (Bad Moms, 2016, de Jon Lucas e Scott Moore): Render ótima diversão com um material simples é trabalho raro, e é por isso que Perfeita é a Mãe! se revela uma grata surpresa. Espécie de Meninas Malvadas versão maternal, a comédia dirigida pela dupla Jon Lucas e Scott Moore pegas temas cotidianos e exclusivamente femininos para, em meio a saídas fáceis, mas eficientes no humor, questionar, entre outros tópicos, o papel da mulher na sociedade. Toda mãe precisa ser perfeita? Mas, afinal, o que é ser perfeita? É abdicar qualquer respiro na rotina para atender todas as vontades dos filhos? Ou ser uma executiva exemplar e conseguir chegar em casa a tempo para fazer a janta e colocar as crianças na cama? Perfeita é a Mãe! brinca (muitas vezes de forma séria, como toda boa comédia) com essas questões que cada vez mais batem na porta de uma sociedade inegavelmente machista. O filme tem trilha pop, ritmo ágil, situações divertidas e principalmente um elenco que não veio para uma brincadeira qualquer: Mila Kunis está em um de seus desempenhos mais espontâneos, a sempre ótima Kathryn Hahn se esbalda com muito talento no papel papel mais chamativo da história, Kristen Bell acerta o ponto de uma personagem que vai da ingenuidade à libertação e Christina Applegate bem que poderia ser a mãe de Rachel McAdams no já citado Meninas Malvadas tamanho o veneno disfarçado por dinheiro, maquiagem e bons saltos altos. Vá sem medo porque a diversão é garantida.

PETS: A VIDA SECRETA DOS BICHOS (Pets, 2016, de Chris Renaud e Yarrow Cheney): Não tenho receio algum em dizer que é o tipo de animação que evito sem pensar duas vezes: aquelas que os estúdios produzem apenas para divertir as crianças. Basicamente o Toy Story dos animais de estimação (na verdade, não apenas deles, já que aparecem até jacarés e cascavéis nas ruas de Nova York!), Pets: A Vida Secreta dos bichos é exclusivamente dos pequenos no sentido de fazer de tudo para conquistá-los visualmente. No filme assinado pela dupla Chris Renaud e Yarrow Cheney, importa mais o coelho fofinho se revelar maquiavélico com mil caras e bocas do que propriamente desenvolver alguma história sobre ele. Tudo é pretexto para que gatos, cachorros, passarinhos e hamsters saiam pelas ruas se metendo em todo tipo de enrascada, mesmo que muitas delas sejam bastante exageradas, como os inúmeros acidentes de trânsito que os bichinhos causam quando estão na direção de caminhões (!!!). É sempre um mau sinal em termos criativos: enquanto as crianças certamente se divertem com a infinidade de animais, não é muito difícil que os adultos se sintam entediados com uma trama esquecível, onde o apelo visual se sobrepõe ao conteúdo já bastante frágil. A boa ideia – muitos filme infantis já foram irresistíveis ao falar sobre a relação dos animais com os seres humanos, a exemplo de Aristogatas, o meu clássico particular nesse sentido – é desperdiçada por esse projeto carente de uma verdadeira história.

O QUE ESTÁ POR VIR (L’avenir, 2016, de Mia Hansen-Løve): Como é de praxe na carreira da francesa Isabelle Huppert, 2016 foi mais um ano prolífero para atriz. Além de chegar aos cinemas brasileiros com Mais Forte Que Bombas, Fique ComigoO Vale do Amor e, claro, Elle, a atriz também teve boa repercussão no circuito alternativo com O Que Está Por Vir, assinado por Mia Hansen-Løve, outra profissional francesa. Provando novamente ser uma das grandes intérpretes do cinema mundial por transitar em qualquer tipo de papel, Huppert aqui é uma professora de filosofia que, após ser abandonada pelo marido que sai de casa para viver com outra mulher, precisa reconstruir toda uma vida dada como certa até então. Sem nunca se repetir (seria fácil qualquer tipo de comparação, já que sua Michèle LeBlanc, de Elle, até hoje está muito presente em nosso imaginário), Huppert registra as transformações dessa protagonista madura de forma muito sutil mesmo quando verte lágrimas ao sentar no ônibus e ver o ex-marido com a nova mulher. Os louros também devem ser dados – e de forma muito merecida – para a diretora, que jamais procura fazer da vida da personagem um dramalhão. O maior exemplo disso é a cena em que o marido anuncia a traição e o desejo de divórcio. Ali, não há escândalos, discussões, choros irrefreáveis ou vasos sendo quebrados. Ao mesmo tempo, sapos não são engolidos, provando que, mesmo não seja necessariamente marcante, O Que Está Por Vir é um filme de gente grande e que sabe encontrar um equilíbrio invejável entre o menos e o mais.

Lion: Uma Jornada Para Casa

I’m lost.

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Direção: Garth Davis

Roteiro: Luke Davies, baseado no livro “A Long Way Home”, de Saroo Brierley

Elenco: Dev Patel, Sunny Pawar, Nicole Kidman, Rooney Mara, David Wenham, Abhishek Bharate, Priyanka Bose, Shankar Nisode, Tannishtha Chatterjee, Nawazuddin Siddiqui, Menik Gooneratne

Lion, EUA/Reino Unido/Austrália, 2016, Drama, 118 minutos

Sinopse: Quando tinha apenas cinco anos, o indiano Saroo (Dev Patel) se perdeu do irmão numa estação de trem de Calcutá e enfretou grandes desafios para sobreviver sozinho até de ser adotado por uma família australiana. Incapaz de superar o que aconteceu, aos 25 anos ele decide buscar uma forma de reencontrar sua família biológica. (Adoro Cinema)

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O caso de Lion: Uma Jornada Para Casa é muito semelhante ao do recente Manchester à Beira-Mar: ambos são filmes que, na teoria, despertam até ligeira desconfiança pela proposta convencional, mas que, quando ganham vida, surpreendem pela eficiência com que transformam ideias simples em experiências envolventes. Há, porém, uma diferença fundamental entre eles: enquanto Manchester à Beira-Mar não faz concessões em seus dramas dificílimos, Lion cria conflitos para quase sempre oferecer alentos. A pegada não deixa de surpreender, visto que o novo filme estrelado pelo jovem Dev Patel leva a assinatura de Garth Davis, que debuta em longas de ficção após assinar três episódios de Top of the Lake, a minissérie soturna e complexa criada pela célebre Jane Campion. E o que se constata é que o talento de Davis para contar histórias se preserva em outras esferas, pois, ainda que Lion visivelmente não equilibre sua qualidade narrativa quando a trama precisa dar um salto temporal, a direção consegue dosar certeiramente elementos que sustentam o filme, sem deixar que ele se torne apenas mais uma obra motivacional perfeitamente irrelevante.

Para narrar a história de um garoto indiano que, 25 anos após se perder de sua família e ser adotado por um casal australiano, decide ir atrás de suas verdadeiras origens, Lion abandona as idas e vindas no tempo e aposta na linearidade. A decisão é arriscada, pois, a partir dela, Garth Davis correria o risco de trabalhar dois filmes dentro de um, o que felizmente não acontece. Pelo contrário: por mais que a primeira parte seja mais interessante do que a segunda, o longa nunca se prejudica pela estrutura narrativa claramente divida porque é fácil enxergar Saroo tanto na espontaneidade do pequeno Sunny Pawar quanto na adolescência ao mesmo tempo madura e perdida que é encarnada por Dev Patel. É fácil porque o primeiro ato contribui para que nos importemos plenamente com o protagonista, e isso vai além da grande simpatia de Pawar: sem nunca ter a pretensão de discutir a identidade social e econômica de uma Índia grandiosa, Lion simplesmente acredita na força das imagens para encená-la, especialmente quando a jornada de um protagonista até então criança é ambientada com o mínimo de diálogo e a preferência por movimentação em cena (nesse sentido, o diretor diz ter trazido como inspiração a fórmula que o excepcional WALL-E usa para apresentar seu protagonista na primeira meia hora quase muda da animação). Como técnica e narrativa, Lion é indiscutivelmente envolvente nesse seu primeiro relato, além de preservar, em seu pequeno herói, todo o senso de inocência e aventura tão inerentes às crianças, bem como acontece com o famoso robozinho da Pixar.

A situação muda um pouco de cenário quando Saroo cresce, e isso se deve exclusivamente ao fato de que a história em si se amorna a partir daí: já adolescente e muito estabelecido com seus pais australianos, o personagem está às voltas com uma namorada (Rooney Mara) e prestes a se especializar em administração hoteleira. Até que um dia, ao enxergar uma comida que marcou o seu imaginário infantil, ele acorda para a ideia de que precisa ir atrás de sua família indiana. O despertar é mal regulado porque as crises existenciais de Saroo servem mais como pretextos quaisquer para trazer algum tipo de movimentação à trama do que aprofundar a personalidade do protagonista, o que afeta diretamente a personagem de Rooney Mara, por exemplo, que já tem uma missão ingrata por si só como a namorada sem uma história própria e que só serve para tentar acalmar Saroo ou incentivá-lo a criar coragem para procurar sua família. Se Garth Davis acerta no olhar carinhoso que lança ao protagonista e ao amor de sua mãe adotiva, proporcionando os momentos que Nicole Kidman merecia há tempos (não deixem de se atentar a dois momentos: emocionante abraço que ela recebe do filho recém adotado e a conversa onde ela revela sua percepção sobre o poder da adoção), o diretor volta e meia é prejudicado pelo roteiro de Luke Davies, que tropeça quando precisa introduzir as problematizações que o filme necessita. Por isso mesmo, os surtos repentinos de problematização de nosso protagonista surgem mais irritantes do que compreensíveis.

Para falar de Lion, também é importante citar o jovem Dev Patel, que viajou o mundo com o sucesso de Quem Quer Ser Um Milionário? e depois ficou relegado a escalações óbvias como o indiano piadista em comédias como O Exótico Hotel Marigold. Aliás, as origens trabalharam contra a carreira profissional de Patel nos últimos anos: rejeitado pelos produtores de As Aventuras de Pi por ser uma escolha óbvia demais para o papel, o jovem quase perdeu o papel de Lion pela mesma razão, em um teste de elenco que durou aproximadamente seis horas entre as hesitações da equipe e os argumentos do próprio ator, que, após aceito, mergulhou em horas diárias na academia para se assemelhar fisicamente ao Saroo da vida real, estudou sotaque australiano e dialetos da Tasmânia, visitou orfanatos indianos para conhecer a realidade das mais de 80 mil crianças que se perdem anualmente no país e escreveu um diário sobre os seus oito meses de preparação para o papel. Tudo está na tela, já que Lion é, indiscutivelmente, o papel mais expressivo e autêntico da carreira de Patel aqui. E pode até ser exagero a afirmação do jovem ator de que o roteiro do filme é o melhor já lido por ele (o próprio texto de Quem Quer Ser Um Milionário? era melhor), mas não há o que se negar: Lion, que tem seus problemas e carrega, entre outras coisas, na trilha de Dustin O’Halloran e Volker Bertelmann  para comover, é tradicional sem perder o frescor de uma autenticidade hoje tão esquecida em filmes supostamente inspiradores, mas meramente panfletários e estrelados por Will Smith.