Cinema e Argumento

As telas são delas

Uma perspectiva da representação feminina no cinema brasileiro contemporâneo a partir dos filmes exibidos na edição comemorativa de 45 anos do Festival de Cinema de Gramado

Laís Bodanzky nos bastidores do longa-metragem Como Nossos Pais: uma das raras diretoras com carreira prolífera e vitoriosa no cinema brasileiro. Foto: Beatriz Lefèvre

Os dados apresentados pela Agência Nacional do Cinema – ANCINE em abril deste ano refletem objetivamente a falta de equidade na produção audiovisual brasileira. Embora mais da metade da população de nosso país seja feminina, apenas 17% das 2.583 obras registradas na agência em 2016 foram dirigidas por mulheres. O número, por outro lado, cresce conforme a área de atuação seja mais específica e menos protagonista: ainda segundo a ANCINE, 21% dos roteiros são escritos por mulheres, enquanto 41% de quem cuida da produção executiva de um filme é do sexo feminino. A análise é muito clara: quanto maior a posição de destaque, menores são as chances de as realizadoras chegarem lá. Os tempos que vivemos, em contrapartida, já sinalizam uma mudança irreversível para os próximos anos. Se os números trabalham contra a presença feminina no cinema brasileiro, artisticamente há muito o que ser celebrado porque tanto a sociedade passou a debater o protagonismo feminino nas mais diversas plataformas, da mídia ao ambiente acadêmico, quanto os próprios eventos do gênero já se atentam, em questão de representatividade e mérito, ao fato de que as mulheres são – e merecem ser – cada vez mais protagonistas das telas de cinema.

Como forma de mensurar, avaliar e debater tal cenário, há pelo menos dois grandes festivais de cinema realizados em território nacional que podem ser tomados como referência para esse movimento no ano de 2017. O mais recente é o Festival do Rio, que, no dia 5 de setembro, divulgou os concorrentes de sua edição com uma estatística animadora: sete dos nove filmes concorrentes na mostra competitiva brasileira de longas de ficção são dirigidos por mulheres, incluindo desde cineastas experientes como Lúcia Murat, concorrente com Praça Paris, até nomes da nova geração, a exemplo de Juliana Rojas, com As Boas Maneiras, codirigido em parceria com Marco Dutra.

Um mês antes, entre os dias 18 e 26 de agosto, o tema do protagonismo feminino já ganhava a Serra Gaúcha durante a histórica edição de 45 anos do Festival de Cinema de Gramado, o maior evento do gênero realizado de forma ininterrupta no Brasil. No festival serrano, a estatística na mostra competitiva de longas-metragens brasileiros era proporcionalmente animadora: quatro dos sete filmes na disputa pelo tradicional Kikito levavam a assinatura de mulheres na direção. E elas foram além, já que Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky, foi o grande vencedor da edição em seis categorias, incluindo melhor filme e direção, endossando as importantes conquistas vividas pelas realizadoras não apenas em um evento clássico como Gramado, mas na própria cinematografia brasileira.

O plano feminino, universal e cotidiano

Levando em consideração as obras exibidas em Gramado, chegamos a um belo panorama dos diferenciais temáticos, técnicos e narrativos entregues pelas respectivas diretoras e roteiristas. Como Nossos Pais, por exemplo, impulsiona uma composição que não costuma ser sinônimo de reconhecimento: a de uma história que se desenvolve a partir da dinâmica entre duas mulheres. Mas, ainda que parta dos dilemas de uma “supermulher” – definição usada pela própria diretora -, que finalmente assume não dar conta de tudo em uma vida caótica que se divide entre casa, família, casamento e trabalho, o longa leva as discussões para um plano mais universal, dividindo-se entre temas como contrastes geracionais, turbulências afetivas e falência matrimonial.

Estrelado por Maria Ribeiro como a filha que reavalia sua identidade após a descoberta de um antigo caso extraconjugal da mãe (Clarisse Abujamra), Como Nossos Pais é uma obra feminista e humanista que novamente ilumina aquela que é a característica mais marcante do cinema de Laís Bodanzky: a de buscar a humanidade no lado mais simples do ser humano. Foi assim em obras como Bicho de Sete Cabeças, Chega de Saudade, As Melhores Coisas do Mundo, Mulheres Olímpicas e, agora, Como Nossos Pais, onde, pela primeira vez, ela entrega uma narrativa ficcional inteiramente a uma protagonista feminina. Não à toa, é o seu filme mais celebrado desde Bicho de Sete Cabeças, da primeira exibição na seção Panorama do Festival de Berlim à total consagração em Gramado, onde quebrou um jejum de 12 anos: desde 2005, com Tizuka Yamazaki (Gaijin – Ama-me Como Sou), uma mulher não conquistava o Kikito de melhor direção.

Eliane Giardini dirige, protagoniza e escreve o drama A Fera na Selva, baseado em texto de Henry James. Foto: FernandoHenrique.efe

E a mulher do século passado?

À frente e atrás das câmeras, a veterana Eliane Giardini também esteve em Gramado para apresentar o seu primeiro longa-metragem como diretora: o drama A Fera na Selva, assinado junto ao ator Paulo Betti. Baseado na novela homônima escrita pelo inglês Henry James em 1903, A Fera na Selva segue um caminho completamente oposto ao de Como Nossos Pais, trazendo à tona a multiplicidade de olhares que obviamente também existe entre as realizadoras femininas. De veia assumidamente teatral e realização modesta, o filme acompanha um homem que, à espera de um grande acontecimento que o possa distinguir de todas as outras pessoas, esquece de viver o agora e as coisas simples da vida. Ao lado desse homem está Maria, vivida por Giardini, que decide acompanhá-lo nessa longa espera.

Em termos de representação feminina, Eliane, que também assina o roteiro do longa, enxerga A Fera na Selva como uma obra que pode ser reinterpretada através do ponto de vista histórico. “Maria é essa mulher do século passado que fica ao lado do homem e que se submete, servindo de confirmação para a história dele, como se essa fosse a única maneira de ela se sentir incluída em alguma coisa. Graças a Deus isso está mudando hoje em dia, mais do que nunca”, comemorou a atriz e diretora, em entrevista oficial ao evento serrano. É uma tomada de consciência fundamental para uma história como essa, uma vez que é comum observar, seja em produções brasileiras ou internacionais, especialmente nas assinadas por realizadores homens, o papel da mulher como mera escada para uma trajetória masculina, onde elas não têm personalidade nem vontades. Talvez A Fera na Selva se desenhe um pouco dessa forma, mas o olhar de Giardini para o filme que coloca na tela certamente faz a diferença para o que deve ser discutido – e questionado – em histórias que trabalham a dinâmica, especialmente a amorosa, entre homens e mulheres.

A inversão da força e o olhar rebuscado

Por falar nesse tipo de dinâmica, é especialíssimo o que estreante na direção de longas Caroline Leone faz em outro título apresentado em Gramado: o drama Pela Janela. Inspirando-se na história de um casal que conheceu em uma viagem, Leone narra os dias em que Rosália (Magali Biff) precisa superar a perda de um emprego de anos e reconstruir toda uma vida que até então dava como certa. Mas existe um detalhe fundamental que é invertido conscientemente pela diretora na versão cinematográfica: ao invés de colocar Rosália na estrada ao lado de um interesse romântico, ela faz com que a protagonista viaje com o irmão. A assumida decisão de Leone subverte a tônica tão presente em filmes estrelados por mulheres: aqui, Rosália encontra forças para recomeçar a partir do amor fraterno e de suas próprias reflexões interiores. O amor clássico pelo homem e sua dependência dele para recomeçar não fazem parte do retrato que Pela Janela faz de uma mulher ainda mais específica: a da terceira idade, nicho frequentemente ignorado nas telas do cinema. Por isso, novamente, faz toda a diferença a presença de uma cineasta como Caroline Leone para conseguir tornar as representações de um trabalho como Pela Janela uma realidade.

Camila Morgado vive uma jornada praticamente solo em Vergel, uma coprodução Brasil/Argentina que retrata os dias de uma mulher em pleno luto.

Não houve, entretanto, filme que explorasse os talentos e o universo feminino de forma tão radical na última edição de Gramado quanto Vergel, uma coprodução Brasil/Argentina sobre os dias de uma mulher sem nome que se encontra à beira da loucura após um luto repentino. É radical porque Vergel, dirigido e escrito pela argentina Kris Niklison, não faz concessões ao explorar a confusão entre o real e o irreal, além de acompanhar de forma microscópica a vivência de incômodos trâmites familiares e as primitivas pulsões sexuais de uma protagonista que praticamente se encarcera em um apartamento onde vive um profundo luto. Vergel é um filme praticamente solo, que disseca inúmeras camadas emocionais de uma personagem feminina que se destrói e se reconstrói ao longo de uma curta jornada – o filme se passa em questão de poucos dias -, mas que mergulha em sentimentos e reações que sugerem uma viagem interna infinitamente mais extensa.

A atriz Camila Morgado, que vive a protagonista de Vergel, disse, durante sua temporada em Gramado para promover o filme, que ter uma cineasta assinando a direção e o roteiro fez toda a diferença para a história. “Já nos ensaios eu via que ela tinha um olhar muito rebuscado em relação ao feminino. E quando vi o filme pronto, fiquei impressionada com o quanto ela filma bem essa figura feminina, o corpo dessa mulher que passa por tantas compulsões sexuais para de alguma forma perceber que ainda está viva”, atestou Camila. E é o que de fato está na tela: Kris captura um universo de luto com muita crueza e claustrofobia, além de um apuro estético raro ao escolher meticulosamente enquadramentos, tonalidades, figurinos e a própria observação física e emocional da protagonista.

Ser mais do que Angelina Jolie

Um dos responsáveis pela seleção dos longas em competição em Gramado, Rubens Ewald Filho toma como referência para o atual momento o cinema de grandes diretores como Bergman, Fellini e Antonioni, que sempre trabalhavam histórias com e sobre mulheres. Afinal, por que, hoje, nem mesmo os grandes diretores se interessam em exaltar ou criar novas musas? “Não entendo, porque acho que as mulheres são mais fortes, mais espertas, mais talentosas”, comenta o curador, jornalista e crítico de cinema. Rubens, que é um profundo conhecedor de cinema do ponto de vista jornalístico, mas também através de suas próprias experiências nos bastidores de produções audiovisuais nacionais e internacionais, aponta que, claro, o que leva à escassez do número de mulheres à frente de projetos é o fato dos homens ainda dominarem a coordenação de estúdios e orçamentos, onde, sendo mulher, “é preciso ser Angelina Jolie para abrir alguma porta e conseguir oportunidades. E, mesmo assim, não dúvidas de que até estrelas como ela ganham salários inferiores aos homens”.

Ao frequentar os estúdios de Hollywood e fazer a cobertura de diversos eventos do gênero em uma carreira com mais de quatro décadas de atuação, Rubens revela que, lá atrás, nos anos 1980, já perguntava por onde passava: por que há tão poucas mulheres diretoras, já que, desde o cinema mudo, elas sempre foram pioneiras? A resposta dada era sempre a mesma: um lacônico “não sei”. Ainda hoje, ele diz estar sem a resposta. “Arrisco a dizer que os homens não gostam de ser dirigidos por mulheres. Aliás, só uma delas ganhou o Oscar na categoria até agora [Kathryn Bigelow, em 2010, por Guerra ao Terror], e mesmo assim com muita dificuldade”, lembra. De qualquer forma, gostando ou não, como apontou Gramado em sua última edição e como registra uma importante e pioneira série de tendências, conquistas e movimentos em busca do protagonismo, chegou a hora de elas ocuparem seu devido espaço, dentro e fora das telas. Mais do que nunca, queremos ouvir suas palavras, seus sentimentos, suas expressões. Que o cinema ajude cada uma delas nessa linda jornada!

Agora tem canal do Cinema e Argumento no Youtube!

Não só como usuário da internet, mas também como jornalista, percebo que é um caminho sem volta: ter um canal no Youtube se revela hoje uma alternativa fundamental para produtores de conteúdo. Com a crise dos meios de comunicação tradicionais, essa é uma lógica que faz cada vez mais sentido. Entretanto, a razão do Cinema e Argumento migrar agora também para o Youtube vai muito além dessa perspectiva: já não é de hoje que invejo, por exemplo, a forma como a jornalista Isabela Boscov (a pioneira na ideia de fazer crítica de cinema em vídeo no Brasil, vale lembrar) faz toda a função parecer fácil, natural e extremamente prazerosa. Pois agora resolvi me aventurar na profissão Youtuber e queria compartilhar com vocês tal experiência.

Deixo abaixo, então, os dois vídeos produzidos até agora para o canal do Cinema e Argumento que, a priori, busca dar destaque para filmes que normalmente não recebem o mesmo destaque que Mulher-Maravilha, por exemplo, em uma infinidade de canais. Vale tudo: filme novo e antigo, produção para o cinema ou para TV e o que mais vier na telha. Enfim, tudo o que achar interessante para compartilhar com vocês vai estar lá. Nessa primeira leva, os comentários são para os filmes Duas Estranhas – História de Mãe e Filha, longa de 1979 estrelado por Bette Davis e Gena Rowlads, e o recente telefilme A Vida Imortal de Henrietta Lacks, produzido pela HBO com Oprah Winfrey encabeçando o elenco junto a Rose Byrne. Espero que gostem!

Heroísmo sem prazo de validade

merylsthreeÉ proibido envelhecer em Hollywood. Mais ainda se o artista em questão tem uma carreira vitoriosa. Já foi dito sobre Madonna na música e podemos muito bem atribuir também a Meryl Streep no cinema: sua maior ousadia foi ter se permitido envelhecer na indústria. Imaginem então quando essa indústria é a dos Estados Unidos (a europeia é outro papo, ainda que qualquer prêmio para Maggie Smith por Downton Abbey seja vítima de críticas)! Em Hollywood, as grandes ou não viveram para contar novas histórias de glória (Vivien Leigh, por exemplo, morreu com apenas 54 anos) e outras que consideramos ícones chegaram ao fim da vida – e da carreira – sem um terço do prestígio que alcançaram ao início dela, como Bette Davis, cuja última indicação ao Oscar se deu 27 anos antes de sua morte, comprovando que, já à beira dos anos 1990, uma diva como ela já sofria para encontrar chances à altura apesar da constante atividade nas telas.

Só que Meryl Streep, que recebe, no próximo domingo (08), o troféu Cecil B. DeMille no Globo de Ouro em homenagem ao conjunto de sua obra, colocou abaixo tudo o que era predestinado para atrizes que, como ela, alcançam glória e sucesso quando jovens, mas parecem fadadas a estacionar sua relevância e reconhecimento em algum momento da filmografia. Hoje com 67 anos, Meryl segue trabalhando. E brilhando. Mais ainda: ganhando prêmios. Por isso mesmo é tão cobrada, e misteriosamente tão criticada. Heroísmo tem prazo de validade em Hollywood, o que com certeza está representado em sua figura. Se você é boa, já ganhou uma penca de prêmios e provou ser capaz de fazer qualquer papel, não pense duas vezes: ou você arrasa ou não será digna de qualquer coisa. Se estrear filme todo ano, então, a coisa só piora. Vira over, sem consistência, indigna de reconhecimento. No caso de Meryl, a cobrança ainda vai além: é preciso não somente que ela arrase a cada trabalho, mas que também esteja gravando com o alto escalão de Hollywood. Qualquer coisa abaixo desse escopo é motivo para chamá-la de superestimada, repetitiva e até mesmo preguiçosa.

Só quem não conhece a fundo a carreira de Meryl pode dizer que ela já foi uma atriz de grandes filmes e hoje decepciona nesse sentido. Com exceção de Kramer vs. Kramer (que, de fato, é um arraso e faturou importantes Oscars como os de filme, direção e roteiro), os papeis mais célebres da atrizes não estão em obras superlativas: A Escolha de Sofia envelheceu muito mal e é basicamente lembrado apenas pelo magnífico desempenho Meryl (com toda razão), As Pontes de Madison é amado ao redor do mundo, mas, na época, basicamente só foi indicado a prêmios de melhor atriz, O Diabo Veste Prada veio se tornar sensação apenas depois de muito tempo (desbancando as críticas mornas feitas ao filme na época de seu lançamento) e A Dama de Ferro, que lhe rendeu um terceiro Oscar, dispensa comentários pela ruindade. Se a exigência é ter Meryl fazendo filme grande, vamos lembrar de Entre Dois Amores, que também ganhou uma penca de Oscars (sete especificamente), mas que quase nunca é citado como um belo momento da carreira da atriz. Olhando em retrospecto, é muito simples: Meryl Streep escolhe papeis, não filmes. É fundamental entender isso antes de criticar a média de qualidade dos longas protagonizados por ela hoje (e só o fato de uma atriz com quase 70 anos lançar no mínimo um por ano em uma indústria sexista e intolerante ao envelhecimento já deveria ser algo a se comemorar).

golden-globe-the-iron-lady-4Perto de conseguir sua vigésima indicação ao Oscar pela comédia Florence: Quem é Essa Mulher? (e por isso a existência desse post, que tenta trazer um pouco de ponderação ao ânimos exaltados de muita gente que condena uma nova menção à atriz nos prêmios), Meryl Streep é frequentemente cobrada por não trabalhar com grandes diretores. Mas, afinal, onde estão os filmes de Woody Allen, Martin Scorsese e Quentin Tarantino não para Meryl, mas para qualquer atriz da idade dela? Eles simplesmente não existem. É por isso que ela precisa mesmo fazer filmes com Nancy Meyers, Phyllida Lloyd, David Frankel e Rob Marshall. Mesmo em papeis inferiores ao seu talento, continua na vitrine, trabalhando, exercitando talento e se mantendo ativa, o que já é infinitamente mais do que a média alcançada por outras colegas de sua geração. Há ainda a crítica de que ela monopoliza todos os papeis para intérpretes de sua idade, mas existe uma razão para isso além de sua excelência como atriz (afinal, muitas outras veteranas se equiparam sim a ela nesse quesito): ao longo da carreira, Meryl Streep construiu nome na indústria ao reivindicar salários melhores, palpitar na execução dos projetos que assinava e recusar papeis sexistas ou de pura figuração quando o envelhecimento bateu a sua porta. Claro que ser mulher em Hollywood é complicado, mas muito também vem do que a uma atriz se submete ou não. Recentemente, Robin Wright e Emmy Rossum deram um show quando ameaçaram não renovar para novas temporadas de House of CardsShameless, respectivamente, caso não passassem a receber salários iguais ao dos protagonistas masculinos. Venceram, e certamente serão lembradas por isso. Meryl Streep sempre compreendeu tal ideia desde sempre e, não à toa, o que colhe hoje é resultado de anos reforçando esse posicionamento.

Independente de fazer filmes incríveis, medianos ou horríveis (isso é muito relativo, pois acho, por exemplo, As HorasDúvida, verdadeiros filmaços), a veterana, ao consolidar diversidade e níveis muito grandes de atuação na carreira, vive hoje a bênção e a maldição de ser Meryl Streep. Mas é preciso um bom senso maior do público, que cobra aspectos fantasiosos ou que estão simplesmente fora do alcance da atriz. Em seu ofício, ela faz tudo muito bem – e, aqui ou ali, também se dá o direito de apenas se divertir ao entrar em um set de cinema. Um prazer para poucos. E se há excessos em prêmios, a culpa não é dela (que nunca faz campanha), e sim dos prêmios. Quando o Globo de Ouro exibir clipes de sua carreira amanhã, o que mais ficará evidente – e isso ninguém lhe pode tirar – é a absurda versatilidade de uma carreira rica em representações: do nazismo à gastronomia, passando por passarelas da moda e bruxarias na floresta, não há quem se equipare na riqueza de papeis. No caso dela, nesse momento específico do prêmio, a qualidade dos filmes dificilmente estará em questão. O que será lembrado é exclusivamente a inegável excelência alcançada por ela em uma infinidade de papeis ao longo de décadas e centenas de prêmios, comprovando que, ao contrário de quase todos os casos, o heroísmo de Meryl Streep não tem prazo de validade. Ainda bem.

Adeus, 2016! (e as melhores cenas do ano)

Tem virado rotina: ao final de cada ano, encerro os trabalhos do blog dizendo que vi menos filmes do que gostaria (o que se reflete, claro, na quantidade de textos que publiquei aqui). Não foi diferente em 2016, que foi, como muitos já disseram, um período difícil para praticamente todo mundo. No entanto, se não assisti a tantos filmes quanto planejava, pelo menos estar no escuro do cinema me trouxe momentos altamente recompensadores. Poucas foram as vezes em que conferi uma quantidade tão restrita de produções, mas que me comovi tanto com a maioria delas. Gosto de acreditar que também vem um pouco da experiência: com o passar dos anos, dispensei filmes em que era fácil identificar, pelo trailer ou pelo que era repercutido do projeto, o gosto duvidoso ou a péssima qualidade das obras em questão. Tentando regular a falta de tempo com o que poderia ver de melhor, fui bastante arrebatado e tento sintetizar na lista abaixo, os momentos que mais ficaram comigo ao longo de 2016. As minhas cenas favoritas do ano estão elencadas por ordem de preferência, e espero que vocês gostem da seleção. Em 2017, quero continuar contando com a melhor companhia para curtir o cinema: vocês. Feliz ano novo e até lá!

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#1 – Um sorriso na multidão (Carol)

Filmes como O Segredo de Brokeback MountainAzul é a Cor Mais Quente, citando obras mais célebres do universo LGBT, são sempre bem-vindos, mas também precisamos de mais experiências como a de Carol, onde o romance se sobrepõe ao drama. O filme de Todd Haynes não se exime de discutir questões importantíssimas do ponto de vista dramático, porém, o foco aqui é outro. No maravilhamento de descobrir o amor e na felicidade de finalmente realizá-lo, a história de Carol (Cate Blanchett) e Therese (Rooney Mara) encanta do início ao seu emblemático fim, que é o nosso momento favorito do cinema em 2016. É reconfortante, esperançoso e até mesmo de tirar o fôlego, seja por aquilo que comunica ou por sua concepção estética (como esquecer a trilha de Carter Burwell?). Impecável.

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#2 – Os astronautas e a piscina (Ponto Zero)

Destaque no grupo de filmes que mexeram intimamente comigo em 2016, Ponto Zero não poderia deixar de estar presente nessa lista, tanto pelo fator emoção quanto pelo apuro técnico. Não é preciso pensar duas vezes: a cena que abre o filme – e depois se repete ao final dele com importantes complementos narrativos – impacta sensorialmente (reforço aqui meu apreço pela trilha sonora assinada por Leo Henkin) e deixa o recado: certas distâncias são dolorosas, mas somente nós podemos suportar os nossos próprios pesos e juntar forças para jogá-los ao alto. Aos olhos, esse momento de Ponto Zero é puro encantamento. Ao coração, será sempre uma forma de remontar nossos pedaços.

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#3 – Clara (Sonia Braga) diz a Diego (Humberto Carrão) que só sairá morta de seu apartamento (Aquarius)

Há quem prefira a cena final (também maravilhosa), mas possivelmente não exista sequência que sintetize com tanta maestria as discussões de Aquarius do que essa em que Clara chega no limite de sua paciência com Diego e afirma categoricamente que só sairá morta de seu apartamento. No tenso encontro (conduzido de forma extremamente simples no texto e na direção, o que só amplia sua veracidade), o diretor e roteirista Kleber Mendonça Filha dá um tapa de luva em muita gente, em especial nas pessoas que, como bem diz a protagonista, acham que dinheiro define caráter. Sem qualquer proselitismo, a cena mexe em muitas feridas de um Brasil contemporâneo – e, de quebra, entrega o melhor momento de Sonia Braga em toda a projeção.

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#4 – “Você pediria em casamento a pessoa que eu sou hoje?” (De Onde Eu Te Vejo)

Distribuindo sensibilidade em cada uma de suas cenas, De Onde Eu Te Vejo alcança um novo patamar nos seus minutos derradeiros quando une dois momentos de forma impecável. Primeiro, a viagem de Fábio (Domingos Montagner) por lugares de São Paulo que marcaram seu relacionamento com Ana (Denise Fraga) a partir de uma carta em forma de gravação escrita por ela. Segundo, o emocionante encontro da dupla, quando, em poucas palavras, ambos reconhecem a beleza de uma história de amor e também da maturidade em reconhecer o fim dela. Tando Denise quanto Domingos combinam perfeitamente e são fundamentais para a emoção que uma cena como essa é capaz de transmitir.

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#5 – “Simple Song #3” (A Juventude)

Como conferir as duas horas de A Juventude sem criar expectativas pela execução da canção “Simple Song #3”? E não é apenas pela beleza musical de uma ópera que o momento emociona, mas principalmente porque muito da história do maestro Fred Ballinger (Michael Caine) se ilumina a partir dele. A soprana sul-corena Sumi Jo é um arraso ao interpretar a canção, ampliando de forma natural a dramaticidade de uma cena que, assim como tantas outras do longa dirigido pelo italiano Paolo Sorrentino, comove tanto pela emoção propriamente dita quanto pela beleza com que é capturada.

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#6 – Encontro com o céu (O Quarto de Jack)

A primeira metade de O Quarto de Jack dá um baile na segunda, e é a transição entre elas que reserva o momento mais emblemático do filme. Elogiar o garotinho Jacob Tremblay é chover no molhado, mas não custa reforçar: seu trabalho aqui é coisa de gente grande (e de deixar a celebrada Brie Larson muitas vezes em segundo plano), especialmente nessa cena que, muitíssimo bem dirigida por Lenny Abrahamson, pula de uma crescente tensão para uma inegável beleza dramática em questão de segundos. Presenciar Jack (Tremblay) contemplando um céu limpíssimo com olhos de puro encantamento é de arrepiar.

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#7 – “Não há nada que você possa fazer além de resistir” (Brooklin)

Carinhoso drama de forma clássica, Brooklin carrega boa parte de seu charme na ótima interpretação de Saoirse Ronan ao mesmo tempo em que a direção de John Crowley extrai elegância e delicadeza de situações que, analisadas essencialmente pelo texto, poderiam muito bem descambar para o clichê. Um reencontro da protagonista nos minutos finais da projeção comprovam essa tese. É impossível não se emocionar com o que é visto na tela, mesmo que o espectador já tenha deduzido minutos antes o que estava prestes a acontecer. A narração é sincera, o tom é sutil e a emoção surge irresistível.

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#8 – “Girls Just Wanna Have Fun” (Anomalisa)

Anomalisa é uma experiência emocionalmente marcante. Com uma excepcional dublagem onde se destaca o delicado trabalho de Jennifer Jason Leigh, o filme da dupla Charlie Kaufman e Duke Johnson transforma uma divertida canção como Girls Just Wanna Have Fun em algo profundamente tocante. O momento em que a música de Cindy Lauper ganha vida sintetiza toda a maturidade e a delicadeza dessa obra que discute, com muito talento, questões íntimas que volta e meia soam até superficiais em inúmeros dramas com pessoas de carne e osso.

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#9 – Mesa para dois? (Animais Noturnos)

Filme que divide opiniões, Animais Noturnos tem muitos momentos que só poderiam levar a assinatura do estilista e cineasta Tom Ford. O meu favorito, no entanto, tem menos a ver com apuro estético e mais com apuro emocional. Lindamente vestida (óbvio) para um aguardando encontro, Susan (Amy Adams) chega a um restaurante, pede uma bebida e… aguarda. Ford captura com maestria o que acontece nessa espera, e a trilha de Abel Korzeniowski só engrandece tudo o que se passa internamente com a protagonista em um momento aparentemente corriqueiro mas interminável. Um deslumbre de dramaticidade!

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#10 – Almirante (Nelson Xavier) acorda (A Despedida)

São simplesmente arrebatadores os primeiros minutos de A Despedida, onde o veterano Nelson Xavier se despe (literalmente) de qualquer vaidade para mostrar a via crucis enfrentada por seu personagem para simplesmente levantar da cama, escovar os dentes e se vestir. O trabalho físico do ator é irretocável, mas também existe muito vindo de dentro para fora. Mais do que isso, a sequência de abertura impressiona pela ousadia de sua condução (são longos minutos que transcorrem sem pressa alguma) e pelo apuro dos sentidos (o trabalho de som é fantástico e fundamental para a imersão do espectador). Uma bela abertura para um grande filme.

10 razões para amar o World Soundtrack Awards (ou a lucidez admirável de um prêmio)

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Desbancando um blockbuster da dimensão de Star Wars: O Despertar da Força, Carol foi a melhor trilha sonora pelo voto popular no World Soundtrack Awards. Carter Burwell ainda foi eleito o compositor do ano.

Não é segredo para ninguém que o BAFTA sempre foi a minha premiação favorita por uma série de razões que inclusive elenquei na parte 1 e na parte 2 dos posts que fiz aqui no blog sobre o prêmio outorgado pelos britânicos. Não escondo, por outro lado, a minha frustração de vê-los tão sem autenticidade de uns anos para cá em suas escolhas dos melhores do cinema. Claro que premiações têm seus altos e baixos, mas é bem provável que hoje, depois de investigar um pouco a história do World Soundtrack Awards, o BAFTA venha a perder o seu lugar prioritário no meu coração. Fora o histórico, o que impulsionou minha paixão à primeira vista por esse prêmio dedicado à celebração de trilhas sonoras para o cinema foi ele ter reparado, na cerimônia realizada na última quarta-feira (19), uma das maiores injustiças da temporada de premiações desse ano: a infinidade de prêmios para Ennio Morricone por Os Oito Odiados.

Digo e repito: óbvio que tenho o maior respeito e admiração por Morricone, mas os troféus que ele levou para casa pelo filme de Quentin Tarantino foram por sua carreira e não pelo trabalho específico na obra. Sempre me chateio com prêmios assim, especialmente quando outros concorrentes são significativamente superiores. E, na varredura de vitórias feita pelo compositor italiano, o grande injustiçado foi Carter Burwell por seu trabalho espetacular em Carol. Entretanto, o World Soundtrack Awards fez justiça ao excelente momento da carreira de Burwell ao lhe conceder o prêmio de compositor do ano pelo júri oficial e pelo voto popular, desbancando nomes como Thomas Newman (outro eterno injustiçado), Daniel Pemberton (que faz um trabalho revelador e subestimado em Steve Jobs), John Williams e o próprio Morricone. Burwell ainda faturou a categoria de composição do ano (“None of Them Are You”, para Anomalisa), o que também corrige outro grande equívoco desse ano: os prêmios de canção recebidos por Sam Smith, por “Writing’s on the Wall”, para 007 Contra Spectre. Não deixe de conferir no site oficial da premiação a lista completa de vencedores.

A consagração tripla para o compositor vem no momento certo, já que Carol é o auge de sua carreira cada vez mais prolífera (lembrando que prêmio de compositor do ano também é por filmes como Ave, César! Anomalisa). No filme de Todd Haynes, Burwell dá uma verdadeira aula sobre como uma trilha sonora deve ser narrativa para uma história, entregando ainda um tema inesquecível para o romance de Carol Aird (Cate Blanchett) e Therese Belivet (Rooney Mara). Em um mundo coerente, não haveria nem discussão sobre Carol ter a melhor trilha da temporada – e talvez até do ano (abaixo compartilho um vídeo sobre a criação de Burwell para a parte musical do filme). Mas não é de hoje que o compositor já dá sinais de excelência: vale bisbilhotar o que ele realizou para a minissérie Mildred Pierce, estrelada por Kate Winslet em 2011, cujo resultado é muito semelhante com o de Carol. Contudo, a excelência de Burwell não se restringe aos dramas de época, uma vez que também vale a busca por algumas de suas trilhas mais ecléticas e desafiadoras, como para Adaptação, de Spike Jonze, ou Queime Depois de Ler, dos irmãos Coen. Isso mesmo, faz horas que Carter Burwell está entre nós. Pena que só agora ele está recebendo a devida (e merecida) atenção.

Tudo isso nos leva ao início do post, quando confessei que é bem provável que o World Soundtrack Awards venha a se tornar minha premiação favorita envolvendo cinema. Bem como fiz com o BAFTA, abaixo cito dez razões para justificar:

  • Enquanto o Oscar só foi reconhecer Alexandre Desplat com O Grande Hotel Budapeste, o World Soundtrack Awards já havia premiado o francês com os prêmios de trilha por O Curioso Caso de Benjamin ButtonO Fantástico Sr. Raposo, além de ter dado cinco vezes o título de compositor do ano para o francês (a primeira delas pelo lindo trabalho para A Rainha).
  • Não é sempre que júri popular acerta em premiações, mas é definitivamente o caso aqui, onde o polonês Abel Korzeniowski foi reconhecido duas vezes pelo público com suas trilhas para Direito de AmarW.E. – O Romance do Século.
  • “Come What May”, de Moulin Rouge! – Amor em Vermelho, foi eleita a melhor canção escrita para o cinema em 2001. Dispensa comentários.
  • Ainda nas canções escritas para o cinema, o World Soundtrack Awards corrigiu outro grande esquecimento: não só indicou como premiou “You Know My Name”, de Chris Cornell, para 007 – Cassino Royale.
  • Sequer indicada ao Oscar, a inesquecível e emblemática trilha de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain foi eleita a melhor do ano de 2001.
  • Indiscutivelmente o maior compositor brasileiro, Antonio Pinto recebeu o prêmio de revelação do ano por Cidade de Deus em 2003.
  • Esse foi o mesmo prêmio recebido por outros compositores de outras trilhas subestimadíssimas, como Nico Muhly (O Leitor, em 2009) e a dupla Dan Romer e Benh Zeitlin (Indomável Sonhadora, em 2013).
  • É importante reconhecer o cinema comercial e de blockbuster. Por isso o prêmio de compositor do ano para Michael Giacchino (Planeta dos Macacos: O ConfrontoDivertida MenteTomorrowlandO Destino de Júpiter) em 2015 foi tão especial.
  • Nomes renomados e inexplicavelmente sem um mísero Oscar em casa já se consagraram com os prêmios de compositor ou trilha do ano, entre eles Alberto Iglesias, James Newton Howard e Thomas Newman.
  • E até quem já se consagrou no passado com trilhas clássicas mas não no presente mesmo trabalhando a todo vapor foi reconhecido por obras contemporâneas, caso do mestre Hans Zimmer com A Origem e John Williams com Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban.

Estou em dívida (e preciso me desculpar)

Ei, você aí que lê o meu blog! Desculpa, tá? Como já deu para perceber, o ritmo desacelerou pra caramba. Isso não quer dizer que deixei de gostar de escrever ou atualizar o blog. Pelo contrário: minha angústia de não atualizá-lo é diária. O que acontece é que tenho visto menos filmes. Quase nada, na realidade. São coisas da vida: às vezes tem trabalho no fim de semana, outras vezes a vida pessoal fica conturbada e de vez em quando é preciso mesmo um tempo para desacelerar e recuperar o equilíbrio. No meio disso tudo ainda tem um programa de rádio para produzir e apresentar durante a semana. Algo se perde no meio de tanta coisa. Mas tudo isso é para dizer que está tudo bem com o blog e que, aos poucos (espero), ele recupera o ritmo. É questão de tempo. Até lá, os posts vêm na medida que é possível. Como sempre, conto com vocês! :)

Questão de golpe

aquariusoscar

Que vergonha Aquarius não ter sido escolhido para representar o Brasil no Oscar. De verdade.

Não há como amenizar a situação. Muito menos com o discurso de que ainda não vimos Pequeno Segredo para julgar (e isso também não foi por acaso). A Despedida, por exemplo, que estava no páreo, por mais belo que fosse, não merecia desbancar o filme de Kleber Mendonça Filho.

E é muito simples o porquê. Estamos falando de um Aquarius que concorreu em Cannes (nada menos que o festival de cinema mais importante do mundo) e que, desde lá, consagrou-se como um grande filme, inclusive com torcidas para dar uma indicação ao Oscar de melhor atriz para Sonia Braga.

Ah, e também tem Sonia Braga, ícone de nosso cinema que se tornou nome internacional e há 25 anos mora em Nova York. Essa mesmo que a imprensa internacional saudou como a dona da melhor interpretação feminina de Cannes em 2016 (e que o júri resolveu ignorar).

Pode ser que Pequeno Segredo realmente seja bom, mas, para um filme que ninguém conhece e que até os cinéfilos mais dedicados tiveram que fazer uma pesquisa no Google para conhecê-lo, suas credenciais em nada se assemelham com as de “Aquarius”.

Essa escolha não é exclusivamente questão de qualidade do filme, mas também de chances, estratégias e venda no mercado exterior. Já no caso do Brasil, é questão de golpe mesmo, mais do que nunca. Ou vocês acham que, caso concorresse esse ano, Que Horas Ela Volta?, dedicado aos ex-presidentes Lula e Dilma pela diretora Anna Muylaert, também não seria esnobado? Fora Temer!

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