Cinema e Argumento

45º Festival de Cinema de Gramado #3: os muitos “Brasis” de Dira Paes

Foto: Nana Moraes

Praticamente não há estado brasileiro que Dira Paes desconheça. Com mais de 40 filmes no currículo, a atriz paraense, que recebe este ano o troféu Oscarito do Festival de Cinema de Gramado por sua contribuição à produção audiovisual brasileira, talvez conheça o Rio Grande do Sul até melhor do que muitos gaúchos. “Somente em Anahy de las Misiones, estive em uma caravana cinematográfica que foi de Uruguaiana a Caçapava do Sul. O cinema me levou para o mundo e fez com que eu conhecesse e compreendesse um Brasil gigante e plural”, conta a homenageada. Aliás, essa é uma das tônicas de sua carreira: nas dezenas de papeis que já interpretou, Dira procurou conhecer as brasileiras dos diversos ‘Brasis’ que existem dentro do próprio Brasil, o que ajudou a moldar muito mais do que a sua trajetória profissional como uma das mais queridas intérpretes do Brasil. “Comecei a atuar aos 15 anos de idade, seguindo a mera intuição de uma jovem que queria abandonar a ideia da engenharia para ser atriz. Ao longo desse tempo – e por ser muito jovem também – o cinema ajudou a me criar: além de me dar uma carreira, teve papel fundamental na formação da minha personalidade”, afirma Dira.

Fôlego eclético

Hoje com 33 anos de carreira, ela ostenta um currículo de dar inveja: da comédia ao drama, passando por filmes populares e autorais, além de obras infantis (a sua mais recente descoberta), Dira trabalhou com importantes nomes da cinematografia nacional como Walter Lima Jr., Helvécio Ratton, Cláudio Assis, Breno Silveira e uma outra infinidade de nomes que a homenageada cita com entusiasmo. A carreira eclética, no entanto, não surgiu por acaso. “Eu sempre busquei essa multiplicidade. Atuar é um voo cego, você não sabe o que vai encontrar pela frente, mas acho que tenho essa disponibilidade de entender qual a vertente de um trabalho e segui-la, sem impor nada. Sou uma atriz que gosta de ser dirigida e tem prazer em ser colocada diante de desafios. Esse fluxo criativo que os personagens me oferecem é algo que sempre me apaixona”, revela.

Foi justamente a ânsia por papeis interessantes e desafiadores que fez Dira, em 2004, migrar também para a TV, onde estreou no papel da inesquecível Solineuza no seriado A Diarista. “Fui para a TV porque começaram a me oferecer bons papeis. E não tenho do que reclamar até agora: nesse curto espaço fazendo carreira na TV, sempre encontro nas ruas pessoas que citam meus personagens, e isso é um verdadeiro presente”, comemora. A ida para a TV, por outro lado, jamais distanciou Dira da tela grande. Pelo contrário. Inclusive, foi no ano da estreia de “A Diarista” que ela viveu um dos momentos mais marcantes de sua carreira: entre 2004 e 2005, voltou novamente ao Rio Grande do Sul para gravar Meu Tio Matou Um Cara, de Jorge Furtado, e ainda lançou Mulheres do Brasil e 2 Filhos de Francisco, que, na época, chegou a ultrapassar Carandiru como o filme de maior bilheteria da chamada retomada do cinema nacional. “Foi quando percebi que eu realmente tinha fôlego para aquilo tudo”, recorda a homenageada.

E que fôlego: dessa temporada em diante, vinte novos personagens ganharam vida nas mãos de Dira, uma estatística que, entre tantas outras, jamais se converte em qualquer tipo de fardo para a paraense. “Não sinto todo esse currículo nas minhas costas porque os personagens que interpretei não me pertencem. Eles são do cinema e do público brasileiro. É até clichê falar isso, mas a sensação é de um eterno recomeçar, de que sempre tem um novo filme ou um novo desafio pela frente”, avalia. Sobre o que está por vir, Dira aponta que seu coração busca projetos mais desarmados e autorais, onde possa ser surpreendida pelos talentos de um cinema brasileiro que, conforme observou ao longo dos últimos 33 anos, hoje estabeleceu um padrão de qualidade muito consolidado.

Uma observadora de si mesma

Já de viagem agendada para o Festival de Cinema de Gramado, Dira preserva um carinho muito especial pela cidade serrana. “Gramado me lembra cinema e também o público saudando os atores nas ruas. Todo mundo que faz cinema tem o maior orgulho de ganhar o Kikito, um prêmio que ecoa por todo o Brasil”, conta a atriz, que já teve seu trabalho consagrado duas vezes na Serra Gaúcha: em 2003, como melhor atriz coadjuvante, pelo longa Noite de São João, e em 2011, como melhor atriz, pelo curta Ribeirinhos do Asfalto.

Sobre a homenagem, ela diz que qualquer reconhecimento de Gramado vem sempre carregado de uma emoção muito grande, mas que o momento oferece a oportunidade de virar uma observadora de si mesma. “Além da honra e do orgulho, uma homenagem como essa traz um olhar de fora para dentro, onde você se revisita, se reavalia. É a oportunidade de observar tudo o que vivi e também de reforçar meus laços com o futuro, já que ainda pretendo viver muitas transformações através dos meus personagens”, projeta.

Dira Paes recebe o troféu Oscarito dia 25 de agosto no Palácio dos Festivais.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 45º Festival de Cinema de Gramado

45º Festival de Cinema de Gramado #1: ícone da animação gaúcha, Otto Guerra recebe o troféu Eduardo Abelin

É impossível falar de animação no Brasil sem citar o nome de Otto Guerra, que, há mais de 40 anos, trabalha com o gênero tanto em narrativas ficcionais quanto na publicidade. Levam a assinatura dele animações como Wood & Stock: Sexo, Orégano & Rock ‘n’ RollAté Que a Sbórnia nos Separe, que se destacam pela composição adulta, crítica e excêntrica, algo raro de se encontrar no cinema desse estilo no Brasil. Já tive a oportunidade de entrevistar Otto um punhado de vezes e até de lançar o Sbórnia aqui no Rio Grande do Sul como assessor de imprensa na Pauta – Conexão e Conteúdo, mas a alegria agora é vê-lo sendo merecidamente homenageado pelo Festival de Cinema de Gramado, onde já foi vitorioso com seis de seus trabalhos entre curtas e longas-metragens, como Nave Mãe, NovelaAs CobrasAbaixo, reproduzo a entrevista oficial com Otto que produzi novamente trabalhando na Pauta para divulgação do Festival, onde marcarei presença pelo sexto ano consecutivo. Espero que gostem e, claro, acompanhem as futuras novidades desse evento que tenho tanta satisfação de fazer parte!

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VIDA ANIMADA

O cineasta e animador gaúcho Otto Guerra diz ser uma vítima da animação. “Quando estamos na adolescência, a sociedade nos cobra e a família nos pressiona. Tudo é sobre fazer dinheiro, mas eu nunca quis fazer concessões. Quando desenho, o mundo se transfere para dentro do meu trabalho, é uma coisa mágica. Fui uma vítima disso, não tive escolha”, conta. A consciência de que a animação seria um caminho sem volta veio aos 13 anos, durante uma viagem à cidade de Torres, no litoral gaúcho, quando Otto Guerra entrou pela primeira vez em contato com o trabalho de Hergé, o renomado autor de célebres quadrinhos como “As Aventuras de Tintim”. “Eu era um jovem, no litoral do Rio Grande do Sul, lendo uma revista portuguesa com quadrinhos de um cara belga. Foi aí que eu pensei: então isso existe mesmo! Não é loucura minha! É possível desenhar e chegar até as pessoas!”, lembra Otto.

Dali até o início da busca por uma carreira profissional foi um pulo. Aos 18 anos, já convencido de que esse era seu destino, Otto estava em São Paulo com quadrinhos de autoria própria embaixo do braço para bater na porta de editoras que pudessem se interessar por seu trabalho. A publicação nunca aconteceu, mas, dois anos depois de suas primeiras investidas no ramo, ele se deparou com a possibilidade de trabalhar com animações em produções audiovisuais. “Fiz um curso com um produtor argentino e, de repente, aprendi a fazer tudo. Eu falava com cliente, pensava o som, animava, fazia storyboard, direção de arte. Foi extremamente libertador descobrir que era possível viver pelas minhas próprias mãos, muito em função do trabalho realizado com a publicidade”, conta.

Muito maior do que qualquer estapafúrdia imaginação

Em termos criativos, o cineasta brinca que trabalhar com publicidade é ter que “vender a alma ao diabo e apenas desenhar personagens felizes, sorridentes, pasteurizados e coloridos”, mas também defende a ideia de que esse é um ramo necessário para se manter financeiramente no mercado. Aliás, foi com o dinheiro que ganhou fazendo publicidade ao longo de seis anos no início da carreira que o gaúcho comprou o seu primeiro equipamento 35mm para ter os filmes em bitola profissional e conseguir se equiparar à concorrência. Se a conquista do equipamento 35mm marcou a entrada definitiva da Otto Desenhos Animados no mercado há mais de 40 anos, a exibição de “O Natal do Burrinho” no Festival de Cinema de Gramado de 1984 abriu “uma janela do nosso trabalho para o mundo”, conforme cita o homenageado. “O que aconteceu em Gramado foi muito maior do que qualquer estapafúrdia imaginação. Fui de Madri a Havana para exibir o filme por causa daquela sessão e, desde então, sempre priorizei esse evento que, durante muito tempo, foi o único ponto de partida de muitos cineastas do Rio Grande do Sul. Muita coisa aconteceu ao longo desse tempo, sem falar que hoje os festivais de cinema se multiplicaram no Brasil, mas sempre quis que Gramado fosse a primeira janela dos filmes que produzi”, defende.

A busca pelo feijão com arroz

A partir das evoluções tecnológicas, Otto Guerra observa um incremento do número de animadores no Brasil, mas afirma que a expressividade da produção brasileira no gênero ainda é incipiente. “Hoje qualquer pessoa pode pegar uma imagem ou um filme da Disney e esmiuçar, ver com o microscópio como funciona, mas animação também é saber sobre atuação, música, física, filosofia, geografia, história. Os processos também são muito relativos: em um dia, é possível fazer 10 segundos de animação se um estúdio dispõe um milhão de dólares. Agora, se a animação é feita por apenas uma pessoa, é preciso um mês para produzir um minuto de uma animação mediana”, contextualiza.

Para Otto, também não é fácil fazer o que dizem ser o “feijão com arroz” das animações de grandes estúdios como Disney, Pixar e Dreamworks: “Para chegar nessa fórmula, eles demoraram 100 anos, passando por várias tecnologias e gerações. 100 anos! Eles são geniais! Eu sigo tentando fazer esse feijão com arroz!”. Pensando em um panorama mundial, ele prefere não elencar os países que melhor produzem animações. “Cada lugar tem a sua cultura: existe tradição no leste europeu, o [Hayao] Miyazaki faz coisas lindas no Japão, os canadenses trabalham outra vertente e por aí vai… Mas, na verdade, é difícil falar sobre características porque todos os humanos copiam. Ninguém é original. Basta pensarmos na língua que falamos. Nem ela é nossa! Nós nos apropriamos dela!”.

O quarto de infância de um jovem guri velho

Encarando cada filme de animação que realiza como um filho diferente (“talvez fazendo essa comparação as pessoas entendam o quanto eles são importantes pra nós!”), Otto Guerra hoje pode dizer que o patamar alcançado pela animação brasileira nos últimos anos se mistura com a sua própria trajetória. Seu último longa-metragem, Até Que a Sbórnia nos Separe, além de ser exibido nos mais importantes festivais do gênero, como Annecy e Ottawa, teve uma exibição em Burbank, na Califórnia, na sala de cinema da Dreamworks, impressionando a plateia composta por profissionais com alto conhecimento na área. “Todos eles ficaram até o fim da sessão – o que é raro – e ainda vieram perguntar como chegamos naquele resultado! Mal sabem que nós nos inspiramos neles!”, se diverte.

Para um “jovem guri velho”, como o próprio Otto se intitula, todas essas conquistas não são apenas resultado de talento, trabalho e dedicação ao longo de mais de quatro décadas, mas, também, a pura e simples paixão de uma infância sem fim: “as crianças desenham por natureza, seja em papel ou na parede, mas param aos nove, dez anos de idade. Comigo foi diferente. Eu nunca parei. Pelo contrário: o estúdio em que eu trabalho é uma extensão do meu quarto de infância”.

Confira a filmografia dos filmes produzidos pela Otto Desenhos Animados:

2018 – A Cidade dos Piratas
2015 – Bruxarias
2014 – Castillo Y el Armado
2013 – A Pequena Vendedora de Fósforos
2013 – Até Que a Sbórnia nos Separe
2006 – Wood & Stock: Sexo, Orégano & Rock ‘n’ Roll
2004 – Nave Mãe
1997 – O Arraial
1994 – Rocky & Hudson
1992 – Novela
1989 – O Reino Azul
1986 – Treiler – A Última Tentativa
1985 – As Cobras
1984 – O Natal do Burrinho

44º Festival de Cinema de Gramado #11: uma premiação justa (ou pelo menos coerente)

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Os vencedores do 44º Festival de Cinema de Gramado. Em uma cerimônia pautada por prêmios justos ou pelo menos coerentes, Barata Ribeiro, 716, de Domingos Oliveira, foi o melhor filme.

Foi no último dia de competição que o grande vencedor do 44º Festival de Cinema de Gramado deu as caras. Barata Ribeiro, 716, de Domingos Oliveira, encerrou a programação do evento serrano, consagrando-se, no dia seguinte, nas categorias de melhor filme, direção, atriz coadjuvante (Glauce Guima) e trilha sonora. Tive dificuldades em embarcar nessa obra em preto e branco mais saudosista e gordardiana de Domingos que completa sua trilogia sobre a juventude carioca dos anos 1960 iniciada em Edu, Coração de Ouro e sequenciada em Todas as Mulheres do Mundo. Lembro de ter me divertido muito mais com Infância, citando um trabalho do diretor mais recente, mas a vitória tem lógica inquestionável porque é um filme memorialístico que finalmente consagra o diretor e roteirista no evento (apesar de ter muitos Kikitos em casa, Domingos nunca havia faturado a categoria de melhor filme). Também fico feliz porque, ao contrário do que se poderia apostar, o júri não fugiu para o drama em um ano marcado por comédias.

Mais do que isso, essa foi a premiação mais coerente em anos no Festival de Cinema de Gramado. Ainda nas comédias, foi gratificante ver o reconhecimento ao divertido O Roubo da Taça que surpreendentemente – e não de forma injusta – faturou o prêmio de melhor ator para Paulo Tiefenthaler que todos (inclusive eu) davam como certo para Leonardo Sbaraglia (O Silêncio do Céu) ou até mesmo Caio Blat (Barata Ribeiro, 716). É sempre gratificante a celebração do gênero, principalmente em uma situação como essa, já que O Roubo da Taça precisa quebrar preconceitos por adotar um humor certeiramente caricato e frequentemente desprezado. O filme assinado por Caíto Ortiz também levou para casa os Kikitos de melhor roteiro, direção de arte e fotografia (os dois últimos são particularmente merecidos). O único filme a sair de mãos abanando – com toda razão – foi Tamo Junto, de Matheus Souza. Por mais que goste do protagonista Leandro Soares (o único aspecto realmente louvável do longa), não havia chances para ele em sua respectiva categoria.  

O que reivindico na lista de vencedores de longas-metragens é maior amor por O Silêncio do Céu, que, se dependesse do júri oficial, levava apenas a categoria de desenho de som e um prêmio especial como consolação. Por sorte, o troféu da crítica consagrou o filme de Marco Dutra, que, na minha lista pessoal, poderia muito bem ter se saído vitorioso em melhor filme e direção, no mínimo. Já Elis, estranhamente bem recebido (deve ser o afeto pela cantora e pela exibição em sua terra natal, já que a cinebiografia é uma bagunça só), conquistou a categoria de melhor montagem e outra que já era dada como certa desde sempre: melhor atriz para Andreia Horta. Abrindo meu coração, digo que o filme me incomoda tanto que tenho até dúvidas se não gosto mais da irresistível Taís Araújo em O Roubo da Taça do que da própria Horta.

Entre os curtas, não deixo de lamentar o total esquecimento de Aqueles Anos em Dezembro, de Felipe Arrojo Poroger. Não gosto tanto de Enquanto o Sangue Coloria a Noite, Eu Olhava as Estrelas, apresentado por ele ano passado em Gramado na mesma mostra, mas me comovi demais com seu novo curta, que une afeto, criatividade e apuro técnico em uma química instigante. Rosinha, o grande vencedor, é muito simpático e carinhoso, mas não vejo nada além disso (o que não quer dizer que seu apelo não seja compreensível). No mais, gosto bastante do reconhecimento para Aqueles Cinco Segundos (em especial o prêmio para a ótima Luciana Paes, que já era uma revelação em Sinfonia da Necrópole!) e creio que houve mobilização demais para Super Oldboy, que levou mais prêmios do que merecia. No geral, no entanto, a premiação do 44º Festival de Cinema de Gramado ocorreu sem surpresas mais desagradáveis – e o mais importante: é impossível dizer que a maioria dos prêmios foi injusta ou sem lógica. Vindo de um histórico recente que nos reservou o prêmio principal para A Estrada 47 em ano de A DespedidaSinfonia da Necrópole, é para sair de alma lavada.

Confira abaixo a lista completa de vencedores (incluindo os da mostra latina, que não comentei por só ter conferido o bom filme uruguaio Las Toninas Van al Este, mas cuja lista tem a bela surpresa de ter um filme gay premiado pelo júri popular, o que é muito simbólico!):

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: Barata Ribeiro, 716, de Domingos Oliveira
MELHOR DIREÇÃO: Domingos Oliveira (Barata Ribeiro, 716)
MELHOR ATRIZ: Andréia Horta (Elis)
MELHOR ATOR: Paulo Tiefenthaler (O Roubo da Taça)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Glauce Guima (Barata Ribeiro, 716)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Bruno Kott (El Mate)
MELHOR ROTEIRO: Lucas Silvestre e Caíto Ortiz (O Roubo da Taça)
MELHOR FOTOGRAFIA: Ralph Strelow (O Roubo da Taça)
MELHOR MONTAGEM: Tiago Feliciano (Elis)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Domingos Oliveira (Barata Ribeiro, 716)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Fábio Goldfarb (O Roubo da Taça)
MELHOR DESENHO DE SOM: Daniel Turini, Fernando Henna, Armando Torres Jr. e Fernando Oliver (O Silêncio do Céu)
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Elis, de Hugo Prata
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: O Silêncio do Céu, de Marco Dutra
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: O Silêncio do Céu, pelo domínio da construção narrativa e da linguagem cinematográfica

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS

MELHOR FILME: Guaraní, de Luis Zorraquín
MELHOR DIREÇÃO: Fernando Lavanderos (Sin Norte)
MELHOR ATRIZ: Verónica Perrotta (Las Toninas Van al Este)
MELHOR ATOR: Emilio Barreto (Guaraní)
MELHOR ROTEIRO: Luis Zorraquín e Simón Franco (Guaraní)
MELHOR FOTOGRAFIA: Andrés Garcés (Sin Norte)
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Esteros, de Papu Curotto
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Sin Norte, de Fernando Lavanderos
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Esteros, pela direção delicada e inteligente da história de amor dos atores mirins.

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
MELHOR FILME: Rosinha, de Gui Campos

MELHOR DIREÇÃO: Felipe Saleme (Aqueles Cinco Segundos)
MELHOR ATRIZ: Luciana Paes (Aqueles Cinco Segundos)
MELHOR ATOR: Allan Souza Lima (O Que Teria Acontecido ou Não Naquela Calma e Misteriosa Tarde de Domingo no Jardim Zoológico)
MELHOR ROTEIRO: Gui Campos (Rosinha)
MELHOR FOTOGRAFIA: Bruno Polidoro (Horas)
MELHOR MONTAGEM: André Francioli (Memória da Pedra)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Kito Siqueira (Super Oldboy)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Camila Vieira (Deusa)
MELHOR DESENHO DE SOM: Jeferson Mandú (O Ex-Mágico)
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Super Oldboy, de Eliane Coster
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Lúcida, de Fabio Rodrigo e Caroline Neves
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Elke Maravilha (Super Oldboy) e Maria Alice Vergueiro (Rosinha), pela contribuição artística de ambas
PRÊMIO AQUISIÇÃO CANAL BRASIL: Rosinha, de Gui Campos

44º Festival de Cinema de Gramado #10: “O Roubo da Taça”, de Caíto Ortiz

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O Roubo da Taça é uma comédia assumidamente escrachada – e é exatamente essa consciência que faz o filme de Caíto Ortiz dar certo.

No catálogo oficial do 44º Festival de Cinema de Gramado, o trio de curadores formado por Eva Piwowarski, Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho escreveu que talvez a característica mais interessante da seleção de longas brasileiros deste ano seja a de vencer o preconceito de um passado distante com as comédias e provar que o evento serrano também sabe fazer rir. O comentário é pertinente porque a dificuldade da crítica em levar um filme cômico a sério é grande – e isso é histórico no mundo inteiro, inclusive no Oscar, onde raramente uma comédia consegue faturar alguma estatueta além das categorias de roteiro e atores coadjuvantes. Em Gramado, O Roubo da Taça, que está no grupo de filmes que os curadores selecionaram para quebrar essa barreira, é frequentemente rejeitado pelos críticos por não ser “um filme de festival” (comparação curiosamente feita somente às comédias), o que comprova que muito ainda precisa ser discutido sobre a apreciação do gênero.

Longe de mim dizer que O Roubo da Taça se assemelha a trabalhos como o norte-americano Pequena Miss Sunshine ou o portenho Relatos Selvagens, exemplos perfeitos de comédias que conseguem unificar público e crítica de forma refinada, mas há muitos méritos que colocam sim o filme de Caíto Ortiz como um vencedor dentro de seu próprio segmento. Talvez o que exista de mais valioso nessa história sobre o roubo verídico da taça Jules Rimet é a decisão de contá-la a partir de um humor muito anárquico e escrachado – e o mais importante: com a consciência dessa escolha. O Roubo da Taça se sustenta na caricatura, criando situações e personagens totalmente condizentes para o universo que cria. Basicamente uma comédia de erros protagonizada por um trambiqueiro e que segue o clássico arco de uma tarefa muito simples que toma proporções fora de controle, o longa de Caíto Ortiz diverte do início ao fim, especialmente porque a liberdade de se basear na proposta de que “alguns dos fatos realmente aconteceram”. Ou seja, afinal, o que realmente é verdade no filme?

Elencos são peças fundamentais para comédias de qualquer natureza, e o grupo de atores reunido em O Roubo da Taça equilibra muito bem o tom de cada personagem na construção da caricatura, que nunca é transformada em mera histeria. Em um elenco formado por veteranos (Stepan Nercessian), nomes argentinos (Fábio Marcoff) e atores extremamente ativos no cinema brasileiro contemporâneo (Milhem Cortaz), gosto particularmente dos protagonistas vividos por Paulo Tiefenthaler e Taís Araújo. Ele é divertidíssimo como um homem atrapalhado e irresponsável que, mesmo quando agraciado pelo destino, simplesmente não consegue fugir de sua natureza destrambelhada. Já ela exibe seus habituais talento e beleza como a mulher que ama odiar o marido de caráter questionável. Com ótima reconstituição de época, O Roubo da Taça começa melhor do que termina e, em termos de manter sua criatividade ao longo de seu desenrolar, a promessa não é entregue, mas, ao menos, tem o mérito de manter a curiosidade, já que, particularmente, realmente eu não tinha ideia do que estava por vir a cada desdobramento.

44º Festival de Cinema de Gramado #9: “Elis”, de Hugo Prata

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O diretor Hugo Prata diz que seu maior drama ao realizar Elis foi escolher o que permanecia ou ficava de fora da biografia daquela que é, possivelmente, a maior cantora que o Brasil já teve. Os dilemas de Prata estão refletidos na tela: na ânsia de contemplar tudo o que podia da vida de Elis Regina, o roteiro escrito a seis mãos pelo próprio Prata com Luiz Bolognesi e Vera Egito comete o clássico erro de tentar sintetizar uma vida inteira sem necessariamente comunicar algo. Muitos fatos sobre a trajetória da eterna Pimentinha são apresentados na obra (a juventude tímida, a turbulenta vida amorosa, as mudanças de visual, as polêmicas na ditadura, sua projeção internacional) mas, infelizmente, a construção de sua mitologia, tanto musical quanto pessoal, fica prejudicada pela pressa e pela falta de proporção entre quantidade e qualidade dos relatos.

Conhecido por sua carreira em videoclipes, o diretor diz também que é muito natural seu primeiro longa-metragem ser sobre música dada toda a experiência ao filmar o segmento e a adoração que sempre teve por Elis Regina. O que acontece é que, musicalmente falando, Elis é uma longa coletânea de videoclipes dentro de uma linha dramática cuja maior missão é colocar na tela o máximo de personagens e situações. Dessa forma, nenhum número musical é particularmente marcante na produção, onde canções como a icônica Como Nossos Pais surgem sem uma contextualização maior de época, criação ou identificação da própria cantora com o material. São inúmeras as cenas de Elis (Andreia Horta) no estúdio cantando diversos clássicos – e, claro, mesmo sendo um deleite para os ouvidos, narrativamente as sequências têm pouco a acrescentar à construção dramática da trama.

Atravessando anos de vida e abreviando relações (incluindo com os próprios filhos da cantora) em questão de segundos, Elis adota um tom altamente novelesco, por exemplo, na forma como captura a ditadura (com direito a uma insistente trilha instrumental de suspense quando a protagonista é observada pelos militares em sua casa) ou na desatenção com pontos básicos de sua narrativa (o pai da protagonista simplesmente some depois de meia hora de história, enquanto a mãe nunca é vista). Andreia Horta, que vive o papel que foi de Laila Garin nos palcos em Elis, a Musical, inicialmente se cerca apenas da reprodução de trejeitos, mas, aos poucos, começa a tomar o filme para si, especialmente quando representa uma Elis Regina já de cabelo curto e à beira de um colapso emocional cujas razões são mostradas timidamente (aqui, praticamente inexiste o problema da cantora com as drogas). Se Elis fosse uma obra mais concentrada na personalidade de sua personagem e menos diluída em uma longa lista de acontecimentos, a atriz só teria a ganhar – e Elis Regina finalmente teria um registro cinematográfico semelhante à força de sua carreira. 

44º Festival de Cinema de Gramado #8: “O Silêncio do Céu”, de Marco Dutra

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O astro argentino Leonardo Sbaraglia protagoniza, ao lado da brasileira Carolina Dieckmann, o segundo longa-metragem solo da carreira de Marco Dutra. Foto: Pedro Luque

Quem gosta de cinema brasileiro contemporâneo e ainda não conferiu qualquer trabalho da turma oriunda do coletivo Filmes do Caixote precisa urgentemente corrigir a falha no currículo. Afinal, desconhecer toda a criatividade transgressora do musical Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas, ou toda beleza escondida por trás das tragédias femininas de O Que Se Move, assinado por Caetano Gotardo, por exemplo, é crime dos grandes. A chance para a correção é perfeita, pois agora Marco Dutra, que assinou, ao lado de Rojas, o celebrado Trabalhar Cansa, assina seu segundo longa-metragem solo: O Silêncio do Céu, cuja primeira exibição aconteceu na mostra competitiva do 44º Festival de Cinema de Gramado. A estreia não deixa de ser mais uma ambiciosa adição ao currículo do grupo do Caixote, visto que o longa protagonizado pelo astro argentino Leonardo Sbaraglia (o homem que vive uma verdadeira viagem ao inferno após ofender um  motorista na estrada em Relatos Selvagens) busca problematizar, a partir de uma história rodada no Uruguai, as consequências na vida de um casal que se silencia após uma cena de estupro envolvendo a mulher (Carolina Dieckmann).

Particularmente, gosto menos de O Silêncio do Céu do que de Sinfonia da Necrópole ou O Que Se Move porque o filme de Marco Dutra, escrito por ele em parceria com Gotardo e Lucía Puenzo (filha do premiado diretor Luiz Puenzo, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro por A História Oficial), é mais interessante na forma do que na essência. Importante saber: a experiência não se trata de um filme-denúncia em tempos que o feminismo e questões importantes como a do estupro surgem cada vez mais urgentes. O que se vê em O Silêncio do Céu são os angustiantes dias desse homem chamado Mario que, impotente ao presenciar escondido o horror de ver sua mulher sendo estuprada, precisa lidar com uma paralisação posterior: ele volta para casa e não consegue verbalizar o assunto com a esposa, que, por sua vez, também não comenta nada sobre o ocorrido. A partir daí, o longa de Marco Dutra vira uma jornada bastante pessoal do marido para entender não apenas toda a situação envolvendo sua inércia e o trauma silencioso da mulher, mas também o ímpeto cada vez mais perigoso de fazer justiça com toda a situação.

É por se tornar basicamente um filme sobre uma crescente busca pelos instintos primitivos de vingança que, em uma análise fria da história, O Silêncio do Céu não se engrandece tanto. Falta uma certa complexidade porque o filme se preocupa pouco em contar a trama a partir do ponto de vista da mulher, deslocando seus holofotes quase que inteiramente para a investigação secreta desse marido que, dia a dia, se envereda em caminhos que o colocam frente a frente com essa violência que, por muitas razões que cabe ao espectador dizer quais, ele não conseguiu interromper. Em tese, não deixa de ser convencional o relato do sujeito que busca explicações através de seus próprios meios, mas o que faz com que o longa nunca se torne previsível é a habilidade de Marco Dutra em saber criar o tom de um suspense com uma pegada hitchcockiana sem se utilizar de ferramentas fáceis. Ou seja, o que pesa menos no texto é amplamente compensado pela direção firme e extremamente climática.

Méritos também devem ser creditados ao argentino Leonardo Sbaraglia, que tem a difícil missão de compor um homem comum que nunca é tratado como um frouxo, mas sim como um marido confuso que, tentando recuperar um casamento em crise, termina confrontado por suas próprias fragilidades e inseguranças. Enquanto Carolina Dieckmann é boa ao lidar com um material consideravelmente mais restrito (o que é resultado direto do filme não se focar tanto no íntimo de sua personagem), Sbaraglia rouba a cena, contribuindo para o suspense ao criar um sujeito que não entende muito bem o que está fazendo e muito menos o que pode fazer. Dessa forma, O Silêncio do Céu fortalece, na direção e em seu protagonista, resoluções e desenvolvimentos que parecem um tanto simplistas se comparado ao ótimo trabalho de Dutra na ambientação do filme. Mais um ponto para os talentos do Caixote!

44º Festival de Cinema de Gramado #7: um dia com Rachel Griffiths

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Rachel Griffiths veio à Serra Gaúcha para apresentar o desafiador Mammal na programação do Festival de Cinema de Gramado. Foto: Edison Vara/Pressphoto

O destino é mesmo uma coisa curiosa. Afinal, se alguém viesse do futuro e me contasse, nunca acreditaria que eu teria conhecido Rachel Griffiths – e não nos Estados Unidos ou na Austrália (terra natal da atriz) durante uma viagem, mas no Rio Grande do Sul mesmo, estado onde moro. Pois isso aconteceu em mais um dos grandes momentos que o Festival de Cinema de Gramado já me proporcionou ao longo dos seis anos consecutivos em que estou por aqui. Griffiths veio ao evento serrano para apresentar Mammal, drama que protagoniza e que foi exibido no Palácio dos Festivais como resultado de uma parceria de Gramado com o Sundance Channel.

Atenciosa, a atriz conversou individualmente com jornalistas presentes no Festival e, após a sessão com entrada franca de Mammal, se encontrou com o público para falar sobre a obra dirigida por Rebecca Daly. Acho Griffiths uma grande atriz, de O Casamento de MurielBrothers & Sisters, e sempre lamento que o cinema e a TV não a tenham valorizado devidamente nos últimos anos. Por isso mesmo fiz questão de contá-la sobre a minha admiração e o quanto Six Feet Under literalmente mudou a minha vida. Ela disse que também mudou a dela e relembrou o quanto o seriado a impressionou desde o início (“O episódio-piloto tem o melhor roteiro que já li”) e a importância dele para a narrativa televisiva (“Ainda hoje é uma referência para a dramaturgia da TV moderna”).

Em breve ela estará de volta ao mundo televisivo com When We Rise, minissérie dirigida por Gus Van Sant com roteiro de Dustin Lance Black que percorre diversas décadas para narrar o nascimento e a evolução dos direitos civis para a população LGBT. Apesar da carreira expressiva na TV, Griffiths também lembra com muito carinho dos filmes que realizou, em especial O Casamento de Muriel, onde diz ter vivido uma “química mágica” com Toni Collette, e Hilary & Jackie, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante – e o glamour desse reconhecimento foi algo um pouco chocante para a atriz, já que ela conta que, ao participar da cerimônia, percebeu que virou atriz para contar histórias e não para ser entrevistada sobre a cor de suas unhas ou seus vestidos.

Pessoalmente e profissionalmente, foi uma tarde inesquecível, seguida da sessão de Mammal, filme protagonizado por Griffiths que já passou pelo Festival de Sundance e será exibido dia 19 de novembro no Sundance Channel, que, aqui no Brasil, é possível acessar via Sky. Mammal traz o DNA de personagens difíceis e complexos que a atriz colecionou ao longo de sua carreira, com a diferença de que a protagonista Margaret, ao contrário, por exemplo, da inesquecível Brenda Chenowith, de Six Feet Under, não é uma mulher decidida e que sabe o que faz. Pelo contrário, essa mãe que abandonou o filho há muitos anos e agora recebe a notícia de sua morte simplesmente não sabe o que fazer com tantos sentimentos mutilados.

Em um filme onde os diálogos praticamente inexistem, Griffiths tira de letra um papel extremamente complicado, que envolve ainda uma relação emocionalmente perigosa com um jovem problemático e sem-teto. De ritmo pausado, Mammal causa desconforto mesmo mostrando o encontro de duas pessoas perdidas na vida que, quando se encontram, conseguem estabelecer alguma conexão, mesmo que seja torta e fora dos padrões para olhares alheios. Mais do que isso, o filme de Rebecca Daly quase sufoca o espectador com seus afetos desajustados, sua tensão erótica e, claro, e sua fórmula distante de padrões. Griffiths brincou, na apresentação da sessão, que esse era um filme que faria a plateia precisar de um drink após os créditos finais. 

Com toda razão. E o meu ainda veio com a felicidade e realização de ter passado praticamente um dia inteiro ao lado dessa grande mulher.

Reproduzo também abaixo, na íntegra, a matéria que produzi oficialmente para o evento, como trabalho de assessoria de imprensa, sobre a passagem da atriz pelo Festival: Ler mais

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