Cinema e Argumento

“Crisis in Six Scenes” ou como Woody Allen realmente entrou em crise

csixscenes

Woody Allen na frente e atrás das câmeras de Crisis in Six Scenes: o veterano nunca escondeu seu desconforto em ter que lidar com o desenvolvimento de um seriado, o que está evidente na tela.

Vocês imaginem um seriado criado, escrito e dirigido por Woody Allen. Melhor ainda: também encomendado pela Amazon, onde inexistem limitações criativas por se tratar de uma plataforma on demand que, claro, não depende de audiência ou anunciantes para tomar decisões autorais. A ideia parecia infalível, e Crisis in Six Scenes tinha tudo para ser um grande evento, mas, no final das contas, ninguém viu ou muito menos comentou o seriado de Woody, cineasta que já acumula quatro Oscars em uma carreira até hoje irrefreável. E para compreender como Crisis in Six Scenes se tornou um fracasso retumbante do ponto de vista artístico e de público, é preciso retroceder ao Globo de Ouro 2015, quando a Amazon se consagrou ao ver Transparent, sua produção de estreia, faturando a categoria de melhor série de comédia/musical.

No embalo da vitória, os executivos da Amazon anunciaram, logo no dia seguinte, que Woody Allen era a mais nova aquisição de seu portfólio. Uma jogada estratégica de divulgação que, em contrapartida, foi amortecida pelo veterano: logo após seu contrato se tornar público, Woody fez questão de declarar que não sabia onde estava com a cabeça quando aceitou a proposta e que tinha dúvidas sobre o quanto realmente poderia contribuir para a concepção de um seriado. Ou seja, feita a trancos e barrancos do ponto de vista de um criador que já não tinha nem certeza sobre o quanto o projeto poderia dar certo, Crisis in Six Scenes se tornou, de repente, fadada ao fracasso. E foi o que aconteceu: à época do lançamento, em setembro do ano passado, o diretor atestou que não volta para uma segunda temporada e que, enquanto estiver vivo, não aceita mais se envolver com produções dessa natureza.

Woody Allen está coberto de razão em fazer de Crisis in Six Scenes a sua única experiência em séries, uma vez que, para começo de conversa, o que menos existe no programa é, justamente, uma linguagem do formato. Não bastasse abrir o episódio-piloto com os créditos iniciais que são uma assinatura facilmente reconhecível de sua carreira no cinema, o diretor e roteirista simplesmente conta uma história que indiscutivelmente foi concebida para um filme que acabou picotado em seis partes. Isso está explícito na forma como Crisis in Six Scenes estrutura seus capítulos com pouquíssimas cenas, todas longas e extremamente verbais, jamais compreendendo que, sim, uma temporada precisa criar um arco para uma temporada, mas um episódio também precisa se sustentar por si só – e não acabar de maneira abrupta ou com alguma situação curiosa criada de última hora apenas para criar a falsa ilusão de conclusão.

csixscenestwo

Miley Cyrus chamou a atenção de Woody Allen ainda nos tempos de Hannah Montana, mas sua escalação não se justifica: ela é apenas mais um detalhe da série que não dá certo.

Novamente em cena para fazer o velhinho neurótico e falante, Woody Allen aqui aqui é Sidney J. Munsinger, um escritor frustrado que, nunca reconhecido pelas obras que escreveu, resolve investir na ideia de criar um seriado para a TV. Até o dia em que surge Lennie Dale (Miley Cyrus), uma jovem revolucionária que, em plenos anos 1960, é procurada pela polícia por querer promover mudanças radicais no sistema estadunidense com, por exemplo, fabricação de bombas. Só que a jovem é de uma família conhecida de Kay (Elaine May), que resolve abrigá-la secretamente, para o completo desespero de Sidney. Nesse contexto, a situação se dispersa até mesmo para um filme bastante mediano de Woody Allen, que se repete demais nas neuroses de seu protagonista e ao criar subtramas perfeitamente desinteressantes, como a do amigo da família que se apaixona por Lennie Dale.

Aliás, a personagem de Miley Cyrus é um dos principais problemas de Crisis in Six Scenes, pois o roteiro nunca torna instigante a sua influência direta não apenas na vida de um casal rotineiro e entediado, mas também na do próprio vizinho que se apaixona por ela. Lennie Dale não é curiosa nem misteriosa como deveria ser e, do ponto de vista de contribuição ao programa, serve apenas para proporcionar cenas mais descontraídas protagonizadas por Woody Allen e Elaine May, que chegam a pular de um terraço a outro para fugir da polícia! De resto, as discussões que a personagem suscita sobre os ideais de Fidel Castro e Che Guevara ou sobre como o Estados Unidos equivocadamente se intitula o melhor país do mundo se perdem em uma narrativa truncada, apática e conduzida por um diretor que nem precisaria admitir sua falta de afinidade com o formato para despertar no espectador a sensação de que pouco ali está realmente se encaixando.

Há coisas boas no meio do caminho e que até se parecem mesmo com situações feitas para um seriado. É inspirado, por exemplo, o cotidiano de Kay como terapeuta de casais, tratando situações curiosas como a do marido que tem fetiche em pagar mulheres por sexo (e isso inclui a própria esposa!) e do casal que é incapaz de enxergar qualidades um no outro. Woody Allen também segue tirando humor como ninguém de situações que só poderiam ser criadas e conduzidas por ele. Nada, entretanto, elimina a imensa sensação de frustração que é conferir Crisis in Six Scenes, uma produção que já não funcionaria como filme, mas que, como seriado, só evidencia um expressivo momento de crise criativa na carreira de seu criador.

A falência narrativa da terceira temporada de “The Affair”

affairthirdseason

A francesa Irène Jacob, musa do diretor Krzysztof Kieslowski em A Fraternidade é Vermelha, é uma das desperdiçadas aquisições da terceira temporada de The Affair.

Quando o criador de uma série anuncia que está abandonando um programa que ajudou a tornar realidade por diferenças criativas com a emissora é porque algo está muito, mas muito errado em todo o processo. É o que aconteceu com Hagai Levi em The Affair, uma das séries recentes mais célebres do canal Showtime, que, convenhamos, é especialista em arruinar boas ideias (e não há a trajetória mais desastrosa para ilustrar essa afirmação do que a de Dexter). A situação é lamentável porque, partindo de uma ideia altamente criativa – a de narrar um caso extraconjugal a partir das diferentes perspectivas dos envolvidos na história -, o programa segurou bem a peteca mesmo na segunda temporada, quando já havia solucionado o principal conflito de sua trama.

Com o passar do tempo, The Affair passou a se debruçar cada vez mais sobre a imperfeição de seus personagens, todos seres humanos confusos que mentem, traem e, principalmente, agem por impulso. O Globo de Ouro, única premiação que reconheceu o programa em sua primeira temporada com os prêmios de melhor série e atriz drama, seguiu comprando a ideia ao inclusive premiar merecidamente a coadjuvante Maura Tierney pelo segundo ano. Contudo, a terceira temporada, que terminou no fim de janeiro deste ano, cumpre o trágico destino de basicamente todas as séries concebidas pela Showtime – e nem o Globo de Ouro, que costuma ser fiel a séries que só ele celebra (Mozart in the Jungle é outro exemplo) pode defender o que o programa se tornou.

Saltando no tempo para mostrar a nova vida de todos os personagens após a prisão de um deles, o terceiro ano de The Affair já não sabe mais o que fazer com o quarteto principal e muito menos com novos coadjuvantes que entram para o elenco, como a francesa Irène Jacob, musa do cineasta Krzysztof Kieślowski em A Fraternidade é Vermelha, cujo desperdício é tão lamentável quanto o de Charlotte Rampling na última temporada de Dexter. Pior ainda é que, por não dar conta de criar conflitos realmente interessantes para seus personagens, o programa cai novamente na armadilha de apostar em um mistério com a intenção de colocar algum tipo de tempero à mistura.

affairtthirdseason

Quase irreconhecível, Brendan Fraser é outra adição da temporada, amargando a storyline mais desinteressante e ineficiente de toda a série até aqui.

Só que além do tom do suspense não casar com a série (algo que já deveriam ter aprendido com as temporadas passadas), a investida resulta em uma das narrações mais pobres e inexpressivas já criadas por The Affair, o que não tem nada a ver necessariamente com a resolução profundamente decepcionante ou com o fato de tal problemática dar destaque excessivo a Brendan Fraser, um ator sempre inexpressivo. A situação misteriosa dispersa o espectador em relação ao que realmente importa na discussão dos roteiristas: a influência mesmo negativa que Noah Solloway (Dominic West) causa em todos a sua volta. Ele é de fato um personagem que faz de tudo para que o espectador o deteste – e West continua tomando frente dessa proposta com competência -, mas as desculpas que o roteiro inventa para que Noah, de um jeito ou de outro, nunca saia da vida dos outros personagens são frequentemente esfarrapadas.

Por colocá-lo como protagonista cada vez mais absoluto de The Affair (Ruth Wilson, que dividia acirradamente o estrelado com ele, hoje é quase coadjuvante), todos os múltiplos olhares da drama acabam se virando para o personagem. Mesmo quando não está em cena, Noah é a pauta dos acontecimentos, o que se revela um tremendo obstáculo que os roteiristas criem conflitos que não sejam relacionados a ele. Tomem como exemplo Cole (Joshua Jackson), o ex-marido de Alison (Wilson), que não tem mais razão de estar na história e que encara a ingrata missão de contracenar com uma personagem estereotipada vivida por uma insossa Catalina Sandino Moreno. É uma storyline perfeitamente descartável que a série não sabe como incrementar ou até eliminar de vez.

Estruturalmente, as narrativas distintas perderam também sua criatividade: enquanto antes elas acusavam as diferentes percepções de cada personagem acerca de importantes situações (até mesmo penteados e figurinos oscilavam entre os capítulos, reforçando que, dependendo do contexto, o ser humano é mesmo propenso a interpretar contextos como bem entende), agora servem apenas para, em uma distribuição previsível, se encaixar na linearidade da trama como um todo. Tudo parece ter falido em The Affair, das interpretações à vontade da série de fazer algo realmente original. O próprio visual, mais soturno do que o habitual, dá um certo cansaço ao resultado que, não restam dúvidas, só comprovam que o criador Hagai Levi tomou a mais sábia das decisões ao se afastar do projeto. Assim como ele, corto meus laços com a série por aqui.

O Vaticano (e a fé) segundo “The Young Pope”

youngpopethree

Personagem marcante na carreira de Jude Law, Lenny Belardo é um dos grandes méritos de The Young Pope, série criada e dirigida pelo italiano Paolo Sorentino.

A HBO começa a exibir hoje (15) uma das melhores séries que você verá em 2017. Sem medo que essa afirmação um tanto definitiva se esvaia ao longo do ano, aproveito para ousar um pouco mais: se The Young Pope não faturar uma boa quantidade de prêmios a partir do próximo Emmy é porque teremos outro concorrente de altíssimo nível na disputa ou porque os votantes devem ter enlouquecido de vez. Na primeira temporada desse programa criado e dirigido pelo consagrado diretor italiano Paolo Sorrentino, Jude Law é o papa mais jovem da história do Vaticano, além de ser o primeiro nascido nos Estados Unidos. Tudo ficção, claro, mas com uma proposta menos gratuita em provocações do que pode parecer. Afinal, para The Young Pope, o tempo de questionar a existência de Deus já passou. O que importa hoje – e é isso o que torna a série tão singular tematicamente – é saber o por quê e até que ponto as pessoas precisam depender tanto de uma figura “superior” para viver.

Em comparações genéricas, The Young Pope não deixa de ser uma versão de House of Cards do Vaticano, principalmente em momentos que refletem sobre o poder da igreja e a sua relação com o Estado (a cena em que o papa finalmente se encontra como primeiro ministro da Itália é afiadíssima nesse sentido). Também estão presentes no roteiro toda a imponência e, por que não, o encantamento dos inúmeros rituais católicos, englobados desde os segredos de um conclave à forma como o papa é de fato tratado como Deus. No entanto, Sorrentino, com o desenrolar dos dez episódios, prefere se focar em questões mais complexas. Se a eleição do mais jovem líder da igreja católica dá indícios de que The Young Pope será a celebração da ideia de modernizar o catolicismo, o que vem é justamente o oposto: mesmo jovem, Lenny Belardo (Jude Law) quer banir os homossexuais da igreja, é contra o aborto e a eutanásia e ainda considera o sexo uma mera ferramenta de reprodução. Ou seja, as provocações de Sorrentino são mais refinadas. Para ele, juventude não é garantia de inovação e, no caso da igreja, nem deveria ao lançar a seguinte questão: por quais princípios ela zelaria com tanto fervor se mudasse todos esses que vem preservando por anos? No mínimo, enfrentaria, com isso, uma crise de personalidade sem precedentes (e possivelmente sem volta).

set of "The young Pope" by Paolo Sorrentino. 10/22/2015 sc. 264 ep. 2 In the picture Dyane Keaton. Photo by Gianni Fiorito

Diane Keaton integra o elenco coadjuvante de alto nível da série, atuando ao lado de atores como James Cromwell, Javier Cámara e Cécile de France.

É no fascínio da figura de Lenny e na dificuldade das pessoas ao seu redor em compreender suas táticas (ele não permite ser visto publicamente nem para as fotos oficiais do Vaticano, por exemplo) que The Young Pope concentra boa parte de sua ação. Trazendo Jude Law de volta à forma em talento e beleza, o seriado tem o grande mérito de ter um protagonista altamente instigante: imprevisível, o novo papa é capaz de ir da assumida arrogância a momentos de plena compaixão e sabedoria sem nunca deixar de entrar no jogo de um Vaticano que também exige jogadas políticas. E, por mais que o programa às vezes não saiba lidar com as discrepâncias do protagonista (não são poucos os momentos em que falta organicidade na transição entre os extremos de personalidade de Lenny) e que alguns embasamentos dramáticos sejam rasteiros (o fato de ele ser eternamente atormentado pelo fato dos pais terem lhe abandonado na infância não é tão eficiente quanto se poderia imaginar), o personagem é maior do que esses eventuais defeitos, seja pelas demais construções do roteiro quanto pelo próprio desempenho de Jude Law, talvez o mais emblemático de toda a sua carreira.

E o que dizer do altíssimo nível de atores coadjuvantes de The Young Pope? A lista é grande e repleta de destaques: Diane Keaton, como a freira que criou o protagonista, é sempre confiante quanto às atitudes de Lenny, mesmo que ele, muitas vezes, lhe dê mil razões para não apoiá-lo; James Cromwell é certeiro na mágoa mas também na complexidade de um dos poucos homens que enfrenta o novo papa sem medo; Silvio Orlando muitas vezes rouba a cena como Voiello, um cardel muito mais político do que religioso e que, como Secretário de Estado, precisa controlar as crises que surgem a partir do comportamento de um papa que não segue qualquer protocolo; Javier Cámara comove a partir da delicadeza com que mergulha nas fragilidades de um padre inseguro e alcoolista; e Cécile de France, em um papel consideravelmente menor, capta com perfeição a instantânea esperteza e admiração de uma assessora que de alguma forma compreende as estratégias do novo líder da igreja católica. É realmente um elenco de grande qualidade e devidamente aproveitado por uma história que sabe exatamente o que fazer com os seus personagens.

youngpopeone

The Young Pope explora a imponência e os mistérios do Vaticano, mas questiona principalmente a necessidade mundial de acreditar na existência de um ser superior.

Há quem não goste de Sorrentino por considerá-lo um diretor pouco econômico no que se refere ao uso das ferramentas audiovisuais. E, de fato, não o é: em The Young Pope, ele faz questão de explorar a imponência de cenários grandiosos, de utilizar muitas alegorias para significar emoções (o canguru que vive solto no Vaticano, Lenny rezando ajoelhado e submerso em uma piscina) e de, como sempre, não poupar no uso de trilha em momentos-chave ou para fazer graça, como a belíssima releitura de Halo, da Beyoncé, na voz de Lotte Kestner, em uma episódio passado na África, ou a pop Sexy and I Know It quando acompanha o protagonista vestindo todos os elementos de seu figurino papal. É uma questão de gosto apreciar ou não tais escolhas, mas é importante perceber que elas se prestam ao tom de sátira e reflexão e quase sempre realmente comovem, divertem ou pelos menos impactam visualmente. 

Se, na maior parte do tempo, The Young Pope segue um caminho diferente do esperado, por outro lado, o seriado não deixa de discutir temas que são inevitáveis quando o assunto é a igreja católica. Entre eles, estão o da pedofilia e a ideia da fé como mera fuga de pessoas fragilizadas ou com naturezas que, por alguma razão, precisam ser camufladas. E, envolvendo dramaticamente, o programa provoca, comove, faz rir e embala tudo com grande apuro estético e sensorial. Uma nova temporada já está encomendada e, considerado que o ciclo se encerra com precisão nesse primeiro ano, é inevitável a desconfiança. Mas, se tratando de Sorrentino, vou dar um voto de fé.

Os desajustes humanos da terceira temporada de Transparent

transparentthreeone

Dirigido por Jill Solloway, Elizah é um dos melhores e mais profundos episódios de Transparent.

Um dos personagens de Transparent começa a terceira temporada dizendo ter encontrado amor, estabilidade na família e um emprego fantástico. Por outro lado, “eu tenho tudo o que preciso, então por que sou tão infeliz?”, reflete. Ironicamente, após dez episódios, a história se conclui com um número musical onde um outro personagem leva aos palcos a canção Hands in My Pocket, da cantora canadense Alanis Morissette. A letra é repleta de contrapontos, bem como a cena que citamos, mas a lógica é inversa, já que, nela, as infelicidades são minimizadas pelas alegrias: “Estou perdida, mas estou cheia de esperança (…) Isso quer dizer que ninguém tem tudo desvendado até agora (…) e que tudo se resume, meus amigos, à ideia de que tudo ficará bem”. É linda essa simetria entre o início e o fim da terceira temporada porque ela sintetiza com grande sensibilidade o mote da história contada: se, nos primeiros anosTransparent era sobre uma família se ajustando à ideia do patriarca ter se revelado transexual, agora o programa é sobre a jornada muito particular de personagens que são obrigados a ficar cada vez mais de frente com suas próprias insatisfações.

Repetindo a proposta de ser um seriado representativo também em sua realização (são seis mulheres na direção dos episódios contra apenas um homem, além de uma infinidade de personagens transexuais e negros na trama), Transparent apresentou, desde a primeira temporada, uma maturidade narrativa que reflete tudo o que Jill Solloway aprendeu sobre alta sofisticação dramática ao produzir e roteirizar diversos episódios da clássica Six Feet Under. À medida em que se distancia naturalmente dos relatos envolvendo a transição do protagonista Mort para Maura Pfefferman (Jeffrey Tambor), ela transforma o programa em um importante registro dos afetos em suas múltiplas (des)construções e das relações em suas infinitas formas e expressões. É possível uma mulher construir laços românticos com um homem mesmo que ele opte por uma vaginoplastia? Seria provável também uma mulher bissexual morar com o ex-marido e ainda ser atraída por ele enquanto se aventura em sessões pagas de dominação sexual com uma lésbica? E existe algum problema na ideia de uma mulher de idade avançada bancar as despesas do mais recente namorado desempregado em tempos que homens quase não sofrem o mesmo julgamento quando financiam garotas com metade de suas idades?

transparentthreetwo

Focada cada vez mais na imperfeição de seus personagens, Transparent sufoca ao mesmo tempo em que liberta ao falar sobre as tristezas, mas também sobre a esperança de todos nós.

O que torna Transparent tão especial, no entanto, é justamente não problematizar a natureza sexual ou afetiva das relações em si, mas sim encená-las com naturalidade e trabalhar os dilemas que surgem a partir dessa necessidade humana de sempre estar em constante troca com o próximo. É importante a série não virar um mero caldeirão temático sobre expressões sexuais porque os roteiristas abraçam uma missão ainda mais difícil: a de não fazer concessões quando colocam na tela todas as imperfeições de seus personagens. Com exceção de Maura – que também não deixa de ter um histórico de erros como péssimo pai, marido e irmão -, é difícil acompanhar a jornada de cada Pfefferman, já que, no terceiro ano, eles são cada vez mais vistos sob à luz de suas dúvidas e contradições. O comportamento inconstante dos personagens – que nada mais é do que a busca natural deles por algum tipo de alento em meio ao peso da vida – desafia o espectador, que não está nada errado ao detestar, por exemplo, o Josh de Jay Duplass, capaz de ir da compreensão à total falta de sensibilidade em questão de segundos. Só que Transparent não conflita cada membro da família pelo simples rebuliço dramático: o que a série quer por trás disso tudo é simplesmente mostrar como as pessoas são – e todos nós sabemos que não é muito fácil encarar um espelho de nossos defeitos.

Tendo como ponto de partida a decisão de Maura de finalmente ser feliz independente de pessoas, julgamentos ou consequências (ainda há muito do que se libertar após a “saída do armário”), a terceira temporada de Transparent sublinha a lógica de não ser um relato de grandes acontecimentos. No programa de Jill Solloway, as imperfeições humanas são estudadas nas pequenas coisas do cotidiano. Dessa vez, a sensação é particularmente angustiante porque a história se centra cada vez mais na busca dos personagens por eles mesmos – e na dor que é essa espera de finalmente se encontrar (ou quem sabe nunca chegar a esse ponto). Uma figura que simboliza perfeitamente isso é a rabina Raquel, vivida com a sensibilidade habitual da subestimada Kathryn Hahn. Afinal, não é muito difícil deduzir que sua religiosidade é a perfeita fuga de uma vida calejada e frequentemente vazia. Se, na totalidade, ela é a figura feminina mais consistente e com momentos mais expressivos, Gaby Hoffman e Judith Light arrebatam pontualmente: a primeira com um episódio revelador sobre o passado de Maura que explora sua versatilidade e a segunda com um verdadeiro show na season finale (e não ficaria surpreso se Light finalmente faturasse alguns prêmios pelo episódio).

transparentthreethree

Mesmo com um protagonista impecável e um elenco feminino de alto nível, Judith Light brilha soberana nos últimos minutos da temporada.

Por falar em prêmios, faz cada vez menos sentido a categorização de Transparent como uma série de comédia. Não há absolutamente nada no terceiro ano, assim como nos outros, que a enquadre no gênero. Beirando o pessimismo em boa parte de seu desenvolvimento, o programa é novamente impecável do ponto de vista estrutural, começando com um episódio-solo arrebatador para depois, em sua reta final, estacionar a história e ambientar um episódio inteiro na década de 1950. Esses dois capítulos representam a sofisticação de roteiro sempre encontrada em Transparent, pois nunca soam como experiências avulsas dentro da unidade da temporada. Pelo contrário, tanto Elizah quanto If Were a Bell, respectivamente, utilizam-se de formatos à parte para costurar ou completar o que vemos ao longo de todo terceiro ano, entregando, possivelmente, dois dos auges mais criativos da série. Ainda que a questão da religião envolvendo a rabina Raquel tome tempo demais ou que Sarah venha se repetindo em conflitos que não estão necessariamente à altura da ótima atriz que é Amy Landecker, o terceiro ano de Transparent mantem o alto nível dramático da impecável temporada anterior. E quanto ao grande Jeffrey Tambor? Quando parece impossível que ele venha a fazer algo ainda mais incrível, lá está o ator para tirar o nosso chão. Além de descobrir uma série incrível, quando você embarcar em Transparent, você encontrará a melhor interpretação em qualquer programa da atualidade. Imperdível.

Na TV… passando “American Crime” a limpo

crimestwoth

Felicity Huffman é a diretora que se vê diante de uma crise iminente: ela, como grande atriz que é,  mais uma vez se sai muito bem ao lidar com um dos papeis mais difíceis de American Crime.

John Ridley já tinha uma vasta mas despercebida carreira como roteirista quando ganhou o Oscar por sua adaptação de 12 Anos de Escravidão em 2014. Engana-se, no entanto, quem pensa que esse profissional nascido em Milwaukee, nos Estados Unidos, e afeito à literatura (até agora, já são sete romances publicados), sumiu do mapa e, principalmente, deixou de se dedicar às causas do racismo e do preconceito. Afinal, basta sair um pouco da cerca criada pelo Netflix ou do universo badalado de megaproduções como Game of Thrones para encontrar American Crime, programa criado e eventualmente roteirizado e dirigido por ele que tem a proposta de discutir tais questões a partir de crimes muito recorrentes não apenas no cotidiano norte-americano, mas também, por que não, em qualquer lugar do mundo. Para desenhar esse mapa de violência e preconceitos, Ridley optou pelo formato que Ryan Murphy popularizou recentemente com American Horror Story: a cada temporada, uma nova história protagonizada pelo mesmo elenco. 

A ABC tem levado muito a sério a inclusão em toda a sua programação, e American Crime vem reforçar esse conceito cada vez mais enraizado na emissora. É importante a lembrança porque estamos falando de um canal aberto que vem fazendo história com seriados populares como ScandalHow to Get Away With Murder, que desconstroem a ideia do que está reservado para atrizes negras na TV, por exemplo. Já com American Crime, a emissora escancarou de vez as discussões. Prefiro, no entanto, não me ater ao primeiro ano da série, que era óbvio em sua totalidade e não passava de um caldeirão temático frágil, desfocado e quase panfletário, mas sim me concentrar na segunda temporada, excepcional ao reunir sua equipe para repensar escolhas, descartar o que deu errado, maximizar potenciais e apostar em discussões mais delicadas e refinadas. American Crime foi passada a limpo – e as correções foram nada menos do que perfeitas. 

crimestwot

Lili Taylor tem o desempenho de sua carreira como a problemática mãe que entra em uma jornada para defender o filho violentado.

É em uma escola de ensino médio que American Crime encena a violência de sua segunda temporada. No caso, na nebulosa noite em que Taylor Blaine (Connor Jessup, ótimo) participa de uma festa do time de basquete, bebe demais e acaba sendo fotografado em estado deplorável após o grande porre. Só que as imagens acabam vazando na internet e, conservadora por ser frequentada por jovens de classe alta, a escola acaba suspendendo Blaine. Anne, a mãe do garoto que tanto trabalha para lhe garantir um bom ensino, não se conforma e, após pressionar o filho sobre o que de fato aconteceu na fatídica noite, ouve algo mais perturbador: ele, entre as amnésias causadas pela bebida, acredita ter sido estuprado por um de seus colegas. Procurando imediatamente a escola, Anne não encontra apoio, uma vez que a diretora Leslie (Felicity Huffman) acredita que estupros só acontecem com meninas. Na realidade, Leslie só quer conter a crise para que ela não chegue aos ouvidos de uma comunidade rica e, como descobrimos posteriormente, repleta de preconceitos.

Propositalmente ou não, John Ridley parece ter se inspirado em exemplos muito dignos do cinema para construir a nova história de American Crime. É facilmente perceptível e bem-vinda a pegada dramática de Dúvida, filme estrelado por Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman: assim como no longa de 2008, a temporada nunca encena o crime em questão e, a partir dos confrontos das relações de poder, deixa o espectador à deriva apenas com a palavra de cada um dos personagens. Ou seja, cabe a você escolher em quem acreditar. E se o programa é corajoso ao trazer uma importante ruptura em sua narrativa já revelando no quarto episódio o que de fato aconteceu, logo o segundo ano de American Crime pega o melhor de Gus Van Sant no controverso Elefante para falar sobre bullying no ambiente escolar e levar o cotidiano na Leyland Knights High School para caminhos cada vez mais tortuosos. Tudo sem parecer cópia, com personalidade própria e devidas doses de sutileza e intensidade.

crimestwo

“Deus odeia bichas”. O preconceito, em maior ou menor grau, está literalmente estampado em todos os núcleos de American Crime.

O amadurecimento de Ridley ao pensar a série é notável aqui porque suas criações para discutir preconceitos são muito mais sofisticadas. Enquanto no primeiro ano tudo era muito óbvio (famílias ricas e brancas com filhos supostamente violentados por suspeitos latinos ou negros desprovidos de dinheiro), aqui o criador prefere inteligentemente inverter todos os clichês possíveis: o menino negro envolvido nas suspeitas, além de eventualmente preconceituoso, é criado por pais de boa posição financeira; o capitão do time que também levanta questionamentos da polícia não é o tradicional gostosão bem de vida que arranca suspiros das meninas; a escola é comandada por uma mulher, o que faz com que suas decisões mais firmes a coloquem como vilã diante de vários colegas; e o próprio menino supostamente violentado esconde outras questões íntimas que o tiram da mera vitimização. Ou seja, a segunda temporada de American Crime não tem construções fáceis, tocando em feridas não somente em fatos e acontecimentos, mas também no próprio contexto de cada um dos personagens.

Dando corpo e alma a essas figuras, o elenco do segundo ano é um acerto por estar na lista de tópicos repaginados pelo programa. É fundamental American Crime ter se livrado ou colocado para escanteio atores ruins que eram destacados em demasia na temporada passada porque obviamente isso tira o peso de estarmos vendo intérpretes problemáticos na tela e não personagens, ainda dando oportunidade para outros bons profissionais se engrandecerem aqui. É definitivamente o caso de Lili Taylor, atriz que nunca conseguiu se livrar da antipatia de sua Lisa Kimmel em Six Feet Under, mas que aqui entrega o melhor desempenho de sua carreira. Fazendo excelente dupla com o jovem Connor Jessup, ela é destemida e frágil como a mãe recém recuperada de um surto de depressão que busca, entre ímpetos, erros e acertos, estar presente para o filho depois de tantos anos. As mulheres, por sinal, são o melhor do elenco, passando ainda por uma Felicity Huffman que tira de letra um papel dificílimo (na primeira temporada ela já era um dos destaques com a polêmica Barb) e por Regina King, agora sim finalmente merecedora do Emmy de atriz coadjuvante que levou equivocadamente pela série em 2015.

crimestwof

Assim como em The Leftovers, Regina King, premiada no Emmy pelo primeiro ano de American Crime, integra novamente um elenco repleto de ótimas interpretações femininas.

Inclusivo também atrás das câmeras com sua equipe, Ridley traz várias diretoras mulheres para assinar boa parte dos episódios, e é necessário dar destaque para o que Kimberly Peirce (a capitã do intenso drama Meninos Não Choram, que rendeu a Hilary Swank seu primeiro Oscar de melhor atriz) faz no oitavo episódio ao mesclar depoimentos de pessoas da vida real envolvidas em tragédias e preconceitos particulares com os intensos acontecimentos do capítulo anterior assinado por Ridley. É por ter essa reta final com dramas acentuados que o desfecho pode incomodar muitos espectadores, principalmente porque, na TV aberta, o público não aceita bem qualquer tom mais inconclusivo ou pessimista (The Good Wife só amargurou críticas ao optar por esse caminho recentemente), mas gosto de dizer que escolhas como essa representam a ideia de que os roteiristas nos tratam como adultos e que eles acreditam que dramas nem sempre precisam de finais felizes ou círculos perfeitos para alcançar a excelência – e American Crime, ao discutir com uma dignidade surpreendente questões delicadas como “sou gay, mas não sou bicha”, realmente aposta na nossa maturidade ao longo de todos os seus dez episódios.

Na TV… “The Good Wife” se despede após sete temporadas

wifefinal

The Good Wife se despede com elenco desfalcado e uma de suas temporadas menos interessantes, mas não se engane: o programa ainda reserva para os momentos finais uma total compreensão de sua própria jornada.

Em Party, antepenúltimo episódio da derradeira temporada de The Good Wife, que encerrou sua trajetória na TV no último domingo (08), Alicia Florrick (Julianna Margulies) resolve seguir seu coração, apostar na espontaneidade e investir em uma nova paixão. Isso, conclui ela, foi a única coisa que aprendeu ao longo da vida: tudo pode acabar, e não existe momento mais certo para ouvirmos os nossos instintos do que o agora. A cena, se retrocedermos lá para o início da série, é um verdadeiro choque. Ela não seria possível, por exemplo, na primeira temporada, quando uma retraída Alicia se vê desnorteada ao descobrir as infidelidades de seu marido político escancaradas em todos os noticiários. Afinal, se existe um tema que, passados sete anos anos, norteou a jornada da protagonista criada pela dupla Robert e Michelle King, esse foi a libertação.

Não há comparações entre a Alicia Florrick decidida e independente que nos deu adeus agora em 2016 com àquela tímida e sem personalidade que entrou em nossas vidas sete anos atrás. Mesmo terminando em uma de suas fases menos interessantes, The Good Wife ficará na memória por essa desconstrução cirúrgica que fez de uma heroína em constante autodescoberta. É bastante raro uma série de TV aberta conseguir fazer, com discrição e elegância, a remodelação de uma protagonista sem despencar em audiência, já que o público pouco liga para a dimensão psicológica, e o que importa é a agilidade. A atração não abriu mão nem da dimensão nem da agilidade, colocando, entre suas estratégicas básicas de sobrevivência, a estrutura de um caso jurídico por episódio (todos, em sua maioria, perfeitamente instigantes, bem construídos e próximos da realidade, ao contrário do que vemos nos tribunais fantasiosos de How to Get Away With Murder). Entretanto, o que sempre importou mesmo, indiscutivelmente, foi o que acontecia nos bastidores pessoais dessa esposa traída que volta a advogar para agora construir seu próprio caminho.  

wifefinaltwo

Amor ou responsabilidade? Enquanto Chris Noth acerta na ambiguidade de seu Peter Florrick, Julianna Margulies só cresce com as constantes autodescobertas de sua Alicia.

Estreando na TV já como um estouro ainda quando Damages, outra série sobre os bastidores do mundo da advocacia, fazia a grande Glenn Close brilhar, The Good Wife, por outro lado, custou a se tornar um relato mais particular. Não faltam fãs ao primeiro ano da série, que é concentrado mais nos casos jurídicos do que nas mudanças da protagonista, mas os episódios de certa forma patinavam porque, neles, Alicia Florrick ainda era a esposa tímida e recatada que não se dava ao direito de verbalizar o que sentia ou pensava. É claro que era um bom desafio para que Julianna Margulies, vencedora de um Globo de Ouro, dois Emmys e dois Screen Actos Guild Awards por seu desempenho, brilhasse ao interiorizar tudo da personagem. Só que não deixava de irritar e estagnar a trama o fato de Alicia ser tão inerte ao que acontecia em sua volta. Isso foi prato cheio para que a britânica Archie Panjabi roubasse a cena com a sua misteriosa investigadora Kalinda Sharma, que é, disparada, a personagem mais fascinante que passou pelo programa.

A situação muda por completo quando The Good Wife aproxima, no segundo ano, a protagonista de Kalinda, colocando, inclusive, as duas em uma rota de colisão pessoal que rende um dos ápices dramáticos do programa. Madura e frequentemente emocionante, a segunda temporada também se expande dramaticamente porque afunila, episódio a episódio, a relação entre Alicia e Will Gardner (Josh Charles), seu mais novo chefe e também um antigo amor mal resolvido dos tempos de faculdade. É nessa fase que empurra Alicia contra a parede em relação à amizade, casamento e passados ainda presentes que The Good Wife se engrandece e passa a desconstruir sua protagonista com devidas doses de inteligência.

wifefinalthree

Julianna Margulies, Josh Charles e uma química impecável: o romance mal regulado e carente de timing entre seus personagens sempre foi um dos melhores combustíveis da série.

O que se sucede a partir daí são os anos de uma mulher que passa a escrever sua própria história. Libertando-se, a protagonista descobre mais, entre tantas coisas, sobre seus talentos profissionais, aptidões maternas e até mesmo ímpetos sexuais e afetivos. Estruturalmente, o ritmo que o programa ganha é viciante porque The Good Wife cria um humor muito próprio (principalmente no que se refere à legião atores consagrados que passam pela série com convidados), abre, fecha e retoma ciclos com uma simetria invejável e ainda faz com que a esperteza de uma história mais sofisticada dialogue com as exigências comerciais de uma atração de TV aberta. E se parecia impossível a série repetir os grandes momentos da segunda temporada, eis que, no quinto ano, a trama toma rumos completamente inesperados – e não estamos falando necessariamente de uma importante morte, mas do magnífico episódio Hitting the Fan, que transforma o programa em uma verdadeira arena de digladiação profissional e pessoal entre os personagens.

Curiosamente, The Good Wife só cai em qualidade a partir da conclusão dessa temporada, consideradas por muito como o auge da maturidade narrativa do programa (o que não deixa de estar certo, visto que é muito raro uma série tão extensa chegar a essa altura impressionando e inovando). Eventuais falhas já eram perceptíveis antes disso, como o fato de Kalinda, sempre tão enigmática, ter sido jogada para o ostracismo com um texto no automático, e o de Peter Florrick (Chris Noth, certeiro em sua ambiguidade) se resumir ao personagem que basicamente só serve para atrasar a vida da protagonista com exigências durante infinitas e cíclicas campanhas políticas. Um fator decisivo para que The Good Wife amortecesse suas qualidades a partir do final do quinto ano foi, sem dúvida, a saída de personagens importantes como Will Garner e Kalinda Sharma. A decisão de abandonar a série foi dos próprios atores, e o programa soube lidar bem com o encerramento dos ciclos de cada um deles, mas, com isso, os roteiristas também se viram obrigados a criar, posteriormente, diversas subtramas e novos personagens – e eles não foram nada inspirados nas investidas, já que tudo passou a se resumir a advogados abandonando uma empresa para criar outra ou, então, a novas campanhas políticas (a própria Alicia resolve entrar no ramo durante a sexta temporada!).     

wifefinalfour

Archie Panjabi deixou The Good Wife na penúltima temporada, mas sua Kalinda Sharma sempre será a personagem mais interessante a ter passado pelo programa.

Sem saber muito o que fazer após esses  desfalques, The Good Wife trouxe Vanessa Williams e Margo Martindale, entre outros atores, para participações esquecíveis, criou romances improváveis entre coadjuvantes (qual a necessidade do envolvimento entre a sogra de Alicia e seu idoso colega de trabalho?) e instalou personagens que eram claras tentativas de suprir a ausência de outros, a exemplo de Lucca Quinn (Cush Jumbo), que nunca chegou a construir com Alicia a cumplicidade antes existente com a Kalinda de Archie Panjabi. O elenco fixo permaneceu eficiente (a elegante Christine Baranski tem ótimos momentos na sexta temporada envolvendo as posições políticas da personagem, Julianna Margulies é superlativa em uma cena na lavanderia do episódio Judged do sétimo ano) e a série nunca perdeu, principalmente, o tino para as particularidades de seu universo e de seu humor. O problema é que, dramaticamente, The Good Wife andava em círculos e não entregava absolutamente nada de novo – e por isso mesmo não deixa de ser admirável a sensibilidade da equipe em perceber que o programa deveria chegar ao fim.

A temporada derradeira rivaliza com o quarto ano como a menos inspirada de todo o conunto. Por mais que os roteiristas tenham tido tempo para se programar para o desfecho, a sétima temporada patinou durante um bom tempo, e foi apenas nos momentos finais que os roteiristas pareciam ter consolidado a influência de novos personagens como Jason Crouse (Jeffrey Dean Morgan) e a própria Lucca Quinn. Em sua reta final, The Good Wife fez direitinho o feijão com arroz, o que ainda era muito pouco para um programa que já havia alcançado níveis tão refinados. Só que a surpresa ficou literalmente para os 45 do segundo tempo: quando chega aos exatos 15 minutos finais de End, o último episódio, a série retoma grande parte dos seus diferenciais e entrega um desfecho corajoso. É provável que boa parte dos fãs deteste o tom, mas ele é forte: não me vem à cabeça, pelo menos agora, outro programa de TV aberta que tenha se despedido de forma pessimista e até mesmo propositalmente inconclusiva. Existe sim a vibe de que a vida sempre segue de um jeito ou de outro, mas nós não estávamos preparados para decisões tão francas, seja por The Good Wife não surpreender há tempos ou pela TV aberta não ter o costume de aderir a ideias como essa. Com isso, a afetiva participação de Josh Charles no capítulo final foi a menor das surpresas. Afinal, mesmo depois de fases problemáticas, os criadores Robert e Michelle King fizeram questão de nos lembrar, mais uma vez, nem que fosse nos minutos derradeiros, que The Good Wife nunca deixou sua sagacidade ser plenamente esquecida.

Na TV… os vícios e o excesso de consciência da segunda temporada de “How to Get Away With Murder”

awaymurderstwo

A veterana Cicely Tyson reprisa o papel de Ophelia, mãe de Annalise Keating (Viola Davis), em um dos episódios mais bem resolvidos da problemática segunda temporada de How to Get Away With Murder.

Gostando ou não, a primeira temporada de How to Get Away With Murder abriu muitos precedentes na TV aberta – e não foi apenas como uma importante janela para alguém como Viola Davis, uma profissional um tanto preterida no cinema, ter o espaço que merece, arrasar e fazer história como a primeira atriz negra da história a vencer o Emmy de melhor atriz em série dramática. O programa criado por Peter Nowalk trouxe, de forma muito natural, diversidade ao mundo do seriados, algo até então só tratado em produtos de TV fechada ou on demand como Orange is the New Black. É preciso coragem para propor e bancar a ideia de, por exemplo, ter uma protagonista negra difícil, complexa e de retidão de caráter muito duvidosa. Mas How to Get Away With Murder conseguiu, e foi além: em seu segundo ano, além de temas já abordados como a homossexualidade, colocou juízes latinos e orientais para comandar tribunais e centralizou todo um episódio na questão da transfobia. Ou seja, tudo muito orgânico, representando uma grande vitória para tempos que estranhamente se revelam cada vez mais conservadores.

O que acontece, então, com esse suspense irresistível que simplesmente desaba em qualidade na sua segunda temporada? Ora, acúmulo de vícios e excesso de consciência de seus maiores trunfos. Antes disso, valorizemos o que se destaca: Viola Davis segue maravilhosa em sua composição e tem aqui um dos grandes momentos da sua carreira: a tensa cena do episódio What Did We Do? que revela as razões de uma fatalidade até então escondida em flashforwardsHow to Get Away With Murder também segue provocativa quando questiona a índole de sua protagonista, com destaque para os momentos em que ela se utiliza de sérias mentiras sobre o passado de sua agora-não-tão-fiel escudeira Bonnie (Liza Weil, com momentos muito dignos) para livrar sua pele de situações complicadas. Nos primeiro nove episódios, a série se sai muito bem com esses méritos, mantendo o nível interessante de guilty pleasure da primeira temporada – e com o bônus de se aproximar ainda mais de Damages (uma referência assumida dos criadores) ao adotar um único caso jurídico para guiar os principais conflitos da drama.

awaymurderstwot

Fundamental para trazer ainda mais complexidade para o perfil da protagonista, a participação de Famke Janssen, no entanto, é um dos tantos aspectos que se diluem nos vícios da série.

A situação desanda mesmo na segunda parte da temporada, exibida após o recesso de final de ano e finalizada no último dia 17 de março. É triste constatar que How to Get Away With Murder se perca em problemas tão fáceis de evitar. O primeiro deles é o mais óbvio: dar atenção excessiva a um mistério envolvendo Wes Gibbins, personagem desinteressantíssimo interpretado pelo igualmente inexpressivo Alfred Enoch. E o segundo é o mais grave: descambar para a implausibilidade ao querer surpreender a cada resolução. Dessa forma, ao embolar o meio de campo com uma infinidade de situações que não surtem qualquer efeito a não ser o da surpresa momentânea, o programa estrelado por Viola Davis se agarra ao vício tão comum da TV aberta de achar que formar pares românticos aleatoriamente ou fazer um figura se tornar inesperadamente um assassino é o suficiente para segurar o interesse. Só que o efeito aqui é justamente o contrário: quase tudo o que acontece na segunda metade da temporada é inverossímil, fazendo com que se torne um eterno exercício de paciência ter que comprar momentos que claramente não combinam com a índole dos personagens ou com a própria realidade. How to Get Away With Murder agora é adepta do choque pelo choque antes da verossimilhança do roteiro, e isso transforma o seriado em uma completa bagunça.

Indo e voltando no tempo para, no fim, não nos reservar revelações tão instigantes assim, a atração conseguiu diluir até mesmo o impacto de Viola Davis com o objetivo de sempre pegar o espectador de surpresa. Mais do que isso, a segunda temporada de How to Get Away With Murder comete outro pecado que praticamente coloca mais um prego em seu precoce caixão: o de tomar a consciência que sua atriz protagonista é o que existe de mais valioso no programa. Essa tomada de consciência é um tropeço porque os roteiristas, na ânsia de conseguir mais um Emmy para Viola Davis e fazê-la brilhar, não hesitam em pensar nos mais variados tipos de problemas e transformações para colocar em seu texto. Com isso, tem Viola grávida, baleada, acidentada, bêbada, drogada com remédios, sem peruca e até mesmo atacada fisicamente por um sequestrador… Não dá para perdoar que o criador Peter Nowalk e sua equipe não compreendam que a atriz brilha com qualquer material e que um simples diálogo familiar dela com a veterana Cicely Tyson vale mais do que um acidente de carro em que ela está envolvida. Poxa, ela e nós, do lado de cá, merecemos muito mais!