Cinema e Argumento

Três atores, três filmes… com Bruno Kott

Com quinze peças de teatro no currículo, o ator e diretor Bruno Kott fez a estreia de El Mate, seu primeiro longa-metragem atrás das câmeras, no 44º Festival de Cinema de Gramado, em 2016, quando saiu do evento com o Kikito de melhor ator coadjuvante na mala. E foi lá que esbarrei com o Bruno, que, na conversa que tivemos para o site do Festival, revelou ser um artista que gosta de potencializar as mínimas coisas em seus projetos. Esse conceito não deixa de estar presente nas três escolhas do Bruno para a coluna, onde ele destaca, por exemplo, o desempenho do ótimo Guillermo Francella em O Segredo dos Seus Olhos quando quase todos só enaltecem Ricardo Darín e até Soledad Villamil. Não deixem de conferir as outras escolhas e todos os comentários do Bruno!

Guillermo Francella (O Segredo dos Seus Olhos)
O cinema argentino é recheado de grandes filmes. Além de ótimos roteiros e grandes diretores, destacam-se atores extremamente afiados e versáteis, como é o caso de Guillermo Francella e sua ótima atuação em o Segredo dos Seus Olhos. Conhecido nos anos 90 por papéis cômicos, Francella vem mostrando seu grande potencial dramático. Em O Segredo dos Seus Olhos, ele interpreta Sandoval, amigo íntimo do protagonista Benjamín Esposito, interpretado por Ricardo Darín. A linha tênue entre o carisma e a fragilidade que Francella imprime ao personagem leva o espectador de um singelo sorriso a grandes emoções.

Daniel Aráoz (O Homem ao Lado)
Ainda nos filmes argentinos, destaco também o ator Daniel Aráoz pela excelente atuação em O Homem ao Lado, de Gastón Duprat e Mariano Cohn. Neste thriller despretensioso de humor e suspense, Daniel interpreta Victor, o rústico vizinho de muro de um esnobe arquiteto que mora em uma casa projetada por Le Corbousier. Victor precisa abrir uma janela para obter um pouco de luminosidade para a própria casa, porém a casa do arquiteto não pode sofrer nenhuma alteração no projeto. Daniel, que também é conhecido na Argentina por seu trabalho como escritor e produtor, mostra grande versatilidade ao brincar com a violência e a doçura desse rico personagem.

Sean Penn (O Pagamento Final)
Por último, um clássico de ação norte americano, O Pagamento Final, de Brian de Palma. O filme conta com um grande elenco, mas é Sean Pean na pele do advogado de Al Pacino que rouba a cena. Além da transformação física do ator, Sean construiu um personagem dúbio e com muitas camadas. Sean Pean, sem dúvida, alguma é um dos grandes norte-americanos.

Três atores, três filmes… com Iradilson Costa

iradilsontresFoi o show da banda britânica Keane, no Credicard Hall, em São Paulo, lá em meados de abril de 2013, que me apresentou ao agora amigo Iradilson Costa. Pela música, descobri que esse paraibano também é um grande fã de cinema, e hoje, depois de quase quatro anos, já tenho uma série de opiniões em comum com ele, mas o mais importante: mesmo na hora de discordar, a troca é sempre amigável e divertida. Quem dera todas as trocas de ideia se dessem dessa maneira na internet. Para a nossa coluna, Iradilson selecionou desempenhos de alto nível, indo do clássico ao contemporâneo. Enquanto a grande Vivien Leigh e a dupla Victor Moore e Beulah Bondi fazem sua estreia no rol de atores mencionados pelos nossos convidados em mais de 30 edições da coluna até aqui, Daniel Day-Lewis conquista agora um bicampeonato ao ser novamente lembrado por seu irrepreensível desempenho em Sangue Negro. Confiram!

Victor Moore & Beulah Bondi (A Cruz dos Anos)
A Cruz dos Anos foi citado pelo Orson Welles como o filme mais triste que ele conhecia. Jean Renoir e John Ford também admiravam demais este trabalho. Não é um exagero. O casal que protagoniza o filme, interpretados por Victor Moore e Beulah Bondi, faz um trabalho inesquecível, entregando cenas carregadas de emoção. Recordo que na época que vi o filme pela primeira vez eu quase obriguei alguns amigos a assistirem também. Recomendo muito, pois é paixão eterna pelo casal de idosos mais maravilhoso do cinema.

Daniel Day-Lewis (Sangue Negro)
Sangue Negro é um filme árido, seco e muito difícil de acompanhar. E essa aridez é perfeitamente casada à interpretação do Daniel Day-Lewis neste belíssimo longa. Desde os seus primeiros e silenciosos momentos até o final impressionante, Sangue Negro está em função do Day-Lewis. Seus olhares, o peso dos seus movimentos, seus gritos… Tudo é um triunfo. É digna de nota, também, a interação do Day-Lewis com o Paul Dano, que foi injustamente esquecido nas principais premiações daquela temporada.

Vivien Leigh (Uma Rua Chamada Pecado)
Minha relação com a peça Um Bonde Chamado Desejo é antiga. Elia Kazan torna o material do Tennessee Williams um filme intenso e tão bom quanto o material original. Vivien Leigh carrega com muita competência as nuances da sua personagem. Destaco também a interação com o também excelente Marlon Brando, que torna os embates mais intensos do filme em densos materiais de estudo sobre dramaturgia, cinema e adaptação.

Três atores, três filmes… com Vitor Búrigo

Ainda que a democratização dos blogs e, mais recentemente, da ideia de encarar a função de youtuber como algum tipo de profissão dê a equivocada impressão de que basta estar na rede para se tornar alguém, segue sendo imprescindível a relação entre tempo, dedicação e paciência para que se construa algum tipo de reputação, seja ela qual for. E quando se trata de cultura ou especificamente cinema, mais ainda: não basta ter opinião, é preciso ver filmes, ler, viver certas coisas e até, quem sabe, estar em alguns festivais por aí para entender de perto como funciona o dia a dia de quem faz cinema. Autor do CINEVITOR, o meu amigo cinéfilo Vitor Búrigo entende tudo isso, e foi uma verdadeira alegria encontrá-lo por Gramado e descobrir que, antes de tudo, ele é um cara apaixonado por cinema. Nada melhor do que estar por perto de quem primeiro faz as coisas simplesmente porque gosta. Há algo em comum ainda mais específico na minha identificação com o Vitor: a predileção por grandes desempenhos femininos, que é onde justamente ele procurou se focar para sua participação aqui no blog. Uma homenagem justa e de pura coincidência para antecipar o dia internacional da mulher e também uma lista de respeito para a 30ª edição dessa nossa coluna!

Sonia Braga (Aquarius)
Na história do cinema brasileiro, Sonia Braga tem um capítulo à parte. Sua estreia nas telonas aconteceu em 1968, no filme O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla. Depois disso, se destacou em diversos papéis, trabalhou com grandes diretores, fez sucesso no exterior, foi premiada e se destacou como uma renomada atriz que levou o nome do nosso país mundo afora por meio da sétima arte. Tieta, Gabriela, Dona Flor, Mulher Aranha: todas elas marcaram época, assim como Clara, de Aquarius, seu mais recente trabalho nos cinemas. No filme, dirigido por Kleber Mendonça Filho, Sonia interpreta uma jornalista aposentada, escritora e viúva, que enfrenta as investidas de uma construtora que pretende demolir o terreno onde fica seu aconchegante apartamento para dar lugar a um novo empreendimento. Porém, sua briga vai além do apego material e sentimental. Vai além do fato de demolir suas memórias e enterrar parte de sua história. O confronto é mais complexo e real e traz uma crítica social importante e necessária. Sonia Braga está espetaculosa na telona. Sua atuação cria uma personagem grandiosa, que domina todas as ações. Seu olhar, os gestos, as falas; tudo contribui para seu desempenho elogiável. E assim, mais uma vez, fomos presenteados com o talento de Sonia Braga, que, como de costume, brilhou em tapetes vermelhos, retornou brilhantemente a Cannes e foi premiada e aplaudida pelo mundo todo. Um ícone. Uma musa. Uma atriz talentosa.

Fernanda Montenegro (Central do Brasil)
O filme de Walter Salles ganhou o Urso de Ouro em Berlim, foi premiado no Globo de Ouro, no BAFTA, indicado ao Oscar e emocionou os espectadores ao contar a história de Dora, uma mulher que escreve cartas para analfabetos na Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Certo dia, ela conhece Ana e seu filho Josué. A moça pede que ela escreva uma carta para o pai do menino, pois ele sonha em encontrá-lo. Mas, na saída da estação, Ana é atropelada e Josué fica abandonado. Dora leva o menino para casa e decide viajar com ele em busca do pai, no interior nordestino. Coube a Fernanda Montenegro a missão de interpretar a protagonista dessa história comovente. Dama do teatro, sucesso na TV e destaque nas telonas, a atriz, uma das mais respeitadas e prestigiadas do Brasil, desempenhou com maestria seu ofício. Ao viver Dora, uma mulher rude, que esconde seus sentimentos em uma barreira emocional quase invisível, Fernanda dá um show de atuação, como de costume, e retrata a realidade de muitos brasileiros, que lutam diariamente pelo sustento e sobrevivência. Ainda que traga uma certa maldade em sua personalidade, em meio a pequenas corrupções cotidianas, Dora aceita se aventurar pelo país ao lado de um menino estranho em busca de sua felicidade. Emoções e sentimentos se misturam em um filme genuinamente brasileiro. Com Central do Brasil, Fernanda Montenegro foi eleita a melhor atriz do Festival de Berlim, em 1998, foi indicada ao Oscar, Globo de Ouro, premiada no Havana Film Festival, reconhecida pelos críticos de Los Angeles e Nova York, e também pela National Board of Review. Atuação magistral de uma atriz espetacular.

Isabelle Huppert (Elle)
Em Elle, de Paul Verhoeven, Isabelle Huppert interpreta Michèle Leblanc, uma mulher que aparenta ser indestrutível. Realizada profissionalmente, sua vida vira de cabeça para baixo quando é atacada em sua própria casa por um criminoso desconhecido. Quando decide procurar seu agressor, encara um jogo de curiosidade e suspense, que pode sair do controle a qualquer momento. A cada acontecimento é perceptível que somente Isabelle Huppert poderia ter interpretado esse papel. E de forma tão impecável. Sua feição, seu olhar e sua atitude diante dos fatos que desenrolam a narrativa tomam conta das cenas. A frieza da personagem, mesmo depois de ser violentada, é intrigante e traz diversas questões a serem analisadas e refletidas. Que Huppert é arrebatadora em cena já sabemos, mas, em Elle, ela vai além ao causar estranhamento e perturbação em meio a assuntos delicados explorados por Verhoeven. Sua atuação te faz sair da sala do cinema pensando e te deixa embasbacado com tamanho talento em cena. Que atriz!

Três atores, três filmes… com Eduardo Fernando Gomes Filho

eduardotresDebater cinema com quem gosta de filmes é uma coisa. Já falar sobre o assunto com quem está ligado na indústria, em prêmios e nos bastidores dessa arte é uma história bem diferente. De Woody Allen a Catherine Deneuve, o meu amigo Eduardo Fernando Gomes Filho se encaixa no segundo grupo, e por isso é tão entusiasmante tê-lo por perto (mesmo que virtualmente). É do tipo de pessoa que me lembra que gostar tanto de cinema não é coisa tão louca. Pois a participação dele aqui no blog reflete justamente essa pluralidade que é realmente curtir de verdade a sétima arte: escolhendo três atrizes emblemáticas e de estilos de interpretação diferentes, o Eduardo, claro, destacou a sua predileção por desempenhos femininos, mas também fez uma seleção de filmes que são simplesmente indispensáveis. Ah, e não deixem de dar uma conferida no trabalho que ele faz como editor lá do Cine Eterno!

Faye Dunaway (Rede de Intrigas)
O longa de Sidney Lumet é quase que premonitório na questão de degradação constante da imprensa. Uma obra-prima completa no qual é difícil escolher um único atributo que torna Rede de Intrigas tão memorável. Num elenco estrelado, aquela que mais me marcou foi justamente Faye Dunaway, que faz a chefe de uma emissora em busca de audiência. Ela encarna com voracidade a síntese da argumentação, não cai no maniqueísmo tolo e apresenta camadas que tornam sua personagem Diane incrivelmente vasta. Em dado momento, inclusive, um personagem diz a ela “Você é a televisão encarnada Diane: indiferente ao sofrimento, insensível à alegria. Sua vida se resume a banalidade da vida”. O trabalho de Dunaway merece não só aplausos, como muitas discussões. É difícil ficar indiferente ao filme e sobretudo a sua personagem, até porque há muitas “Dianes” no nosso cotidiano.

Catherine Deneuve (Os Guarda-Chuvas do Amor)
Sou grande fã da maravilhosa Catherine Deneuve, musa do cinema francês. Já não bastasse sua beleza encantadora, ela se mostrou uma atriz poderosa desde seu primeiro trabalho. Em Os Guardas Chuvas do Amor, um filme todo musical do diretor Jacques Demy, há um teatralismo que torna o longa uma experimentação única: uma trágica ópera sobre o fatalismo do ato de amar. Cantada com maestria por Deneuve que consegue em um olhar nos desarmar, passar a sensação de plenitude ao mesmo tempo que desespero. É uma performance sensível e bela, com canções compostas por ninguém mesmo que Michel Legrand, cantadas na voz de Deneuve. Impossível não se apaixonar.

Dianne Wiest (Hannah e suas Irmãs)
Woody Allen é um diretor que sabe dirigir atrizes. Na vastidão de sua carreira, ele consagrou várias “divas”, e é difícil escolher a que mais me marcou, principalmente por carregá-las muito delas em mim. Porém, o trabalho de Dianne Wiest em Hannah e suas Irmãs, como a insegura Holy, é um dos trabalhos que mais me identifico. Wiest é uma atriz encantadora que sabe gerar empatia fazendo muito pouco, mas, com um roteiro afiado, ela abraça a personagem e a torna encantadora ao mesmo tempo que questionável. Holy é sonhadora, folgada, transloucada, insegura, humana. Gente como a gente. E é isso que torna sua personagem e sua atuação tão marcante pra mim. Inclusive, saudades de Dianne Wiest, que já denunciou a dificuldade de papeis desafiadores para atrizes mais velhas, uma injustiça gigantesca se tratando de uma atriz tão gabaritada assim.

Três atores, três filmes… com Allan Souza Lima

allantresO nosso novo convidado da coluna marca presença dupla no Festival de Cinema de Gramado deste ano. Além de integrar o elenco de Aquarius, que será exibido fora de competição, Allan Souza Lima está na disputa pelo Kikito com o curta-metragem O Que Teria Acontecido ou Não Naquela Calma e Misteriosa Tarde de Domingo no Jardim Zoológico, dirigido (em parceria com Gugu Seppi), escrito e protagonizado por ele. Foi justamente com o interesse pela direção que Allan montou a produtora Ikebana Filmes para contar suas próprias historias, chegando agora a esse terceiro curta-metragem que concorre no festival serrano. Atualmente, ele, junto com a sua sócia, a produtora executiva Fernanda Etzberger, também vem se preparando para rodar, no próximo ano, seu primeiro longa-metragem como ator e diretor. Quanto às escolhas do nosso convidado, é possível encontrar desde desempenhos que ilustram filmes icônicos como Laranja Mecânica a outros criados por grandes atores como Daniel Day-Lewis. Além disso, Björk conquista seu bicampeonato aqui na coluna por sua atuação em Dançando no Escuro. Conheçam, abaixo, as escolhas do Allan:

Malcolm McDowell (Laranja Mecânica)
O primeiro da lista é o personagem Alex, interpretado pelo ator Malcolm McDowell, no filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. Além de eu ser um eterno admirador da obra do Kubrick, esse filme mexeu comigo desde a primeira vez que eu vi. Para mim, é um dos mais característicos e um dos mais polêmicos filmes existentes. É aquele filme que você vê um slogan e lembra toda a sua historia. Um filme que trouxe uma grande polemica na época pelas suas cenas de sexo e de brigas ao som da 9º Sinfonia de Beethoven. Uma verdadeira genialidade o personagem usar seu “horrorshow” ao som da música clássica de Beethoven. O que vemos no filme é a pura realidade do retrato da nossa sociedade narcisista e fascista, com alguns toque exagerados ou não, que dão a conotação sarcástica ao longa. Sem falar do maravilhoso trabalho que o Kubrick conseguiu, junto ao ator, de chegar à perfeita interpretação do personagem Alex. Digamos que um pouco exagerado, mas completamente condizente com a linguagem e a proposta instaurada do inicio ao fim. Como ator, digo que é um dos mais incríveis e excêntricos personagens criados no cinema.

Daniel Day-Lewis (Meu Pé Esquerdo)
Sou um fã e admirador incondicional do ator Daniel Day-Lewis. Sem sombra de dúvidas, para mim, é o melhor de todos os atores. Claro que é muito difícil ficar comparando o trabalho de um com o de outro, mas,o que vejo de mais belo nesse ator é o processo de entrega que ele tem para com os seus personagens. A intensidade e a densidade que ele busca para criá-las são fantásticas e elas são tamanhas que o próprio ator, imerso em uma personagem,  quebrou, pelo esforço excessivo, duas costelas durante as filmagens por assumir a posição de corcunda em sua cadeira de rodas durante semanas de filmagens. Esse é Christy Brown, maravilhoso papel de Daniel Day-Lewis no filme Meu Pé Esquerdo. Acredito que seja o trabalho de ator junto a personagem mais incrível no cinema. O processo de criação realmente foi bem desgastante: o ator ficou quase um ano vivendo Christy intensamente. Reza a lenda que o próprio Day-Lewis propôs ao diretor que só começaria as filmagens quando ele, de fato, conseguisse fazer uma pintura com seu pé esquerdo. Estudando a trajetória dele, é um ator que, comparado a outros, fez pouquíssimos filmes. Em media, fez um a cada dois anos, além de escolher bem seus personagens. Além do grande personagem nesse filme, com certeza, é o melhor ator de todos os tempos.

Björk (Dançando no Escuro)
Para finalizar, também fazendo parte da minha lista de cabeceira, sem sombra de dúvida, esse filme não poderia deixar de ser comentado. Qual foi a atriz que, numa das brigas com um diretor, simplesmente rasgou todo seu figurino e foi embora sem deixar rastro, voltando dias depois para as filmagens? A personagem Selma Jezkova, interpretada pela atriz e cantora Björk. Um processo bastante intenso e conflituoso durante todo o processo de filmagem do filme Dançando no Escuro, dirigido pelo polêmico Lars Von Trier. Processo este que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes. Não lembro de outro filme que uma personagem feminina tão densa tenha me tocado tão profundamente como a de Björk nesse filme, que é um verdadeiro soco no estômago.

Três atores, três filmes… com Raquel Piegas

raqueltresMesmo em um curto espaço de tempo até aqui, o Jornalismo já me trouxe muitas experiências e trabalhos bacanas. Nada, no entanto, se compara às amizades tão especiais que vieram com o pacote. Na lista de encontros mais marcantes, o que tive com a Raquel Piegas está indiscutivelmente entre os mais importantes. Devido ao destino e à geografia, já não nos vemos pessoalmente há alguns anos, mas isso não é motivo para que nossas risadas, trocas e conversas fiquem menos relevantes do que quando convivíamos diariamente. Agora, trago a Raquel para um pouquinho mais perto de mim com a participação dela na coluna Três atores, três filmes. A seleção tem a cara da convidada, em especial a primeira escolha, que valoriza um desempenho luminoso e revelador e que eu já deduzia que pudesse estar entre seus desempenhos favoritos por dizer muito sobre quem a própria Raquel é. Fiquem abaixo, portanto, com a participação dessa amiga que admiro desde sempre.

Penélope Cruz (Volver)
Sou uma grande fã de Penélope. Foi um pouco difícil escolher qual atuação dela me é mais emblemática. Em todas suas personagens, Penélope leva um quê de si. Da mulher latina que não se entrega, que é intensa, que não se renega. Raimunda é uma matriarca, uma representação da força feminina, em uma lição de resistência diante de uma situação forte e impetuosa como o abuso sexual de sua filha e o assassinato em legítima defesa de seu marido, cometido pela filha abusada. Volta e meia me pego revendo a cena em que Raimunda interpreta a canção Volver, de Carlos Gardel. Essa parte do filme me traz a intensidade de quem está vivendo longe de sua terra, como eu. As lágrimas reais de Penélope nessa atuação me representam. É uma atuação a qual recorro em diversos momentos.

Julianne Moore (Para Sempre Alice)
Escolhi uma atuação atual dessa atriz, por recentemente ter assistido a esse filme. Um drama sem choros fantasiosos, sem atuações escrachadas, sem melodrama. Um drama real, uma família real, uma situação com a qual podemos nos deparar constantemente: a ilusão de que somos intocáveis por doenças ou males que nos parecem distantes e que surgem de maneira inesperada para nos ensinar a reviver. Julianne consegue transmitir mesmo com sua expressão serena, em uma atuação que comove somente pelo olhar.

John Cusack (Alta Fidelidade)
Alta Fidelidade é cultura pop até os ossos. Desde o livro, escrito por Nick Hornby, até sua trilha sonora, o filme é um ícone de uma geração que está perdida e sabe que está perdida. E faz disso um estilo de vida, claro. Rob Gordon é viciado em listas. Top 5. Cada aspecto de sua vida é avaliado com base em cinco itens que ele escolhe como sendo os mais emblemáticos. Alta Fidelidade é uma tentativa de Rob se reencontrar reparando seus cinco maiores erros e decepções amorosas, com mulheres claramente mais fortes e emblemáticas que ele. É um personagem que me apaixona pelos seus lugares comuns e com a forte identificação que promove ao nos despertar a certeza de que é necessário reconhecer e revisitar cada fracasso vivido como uma maneira de evolução.

Três atores, três filmes… com José Pedro Goulart

zepedrotresQuem acompanha o blog sabe que, no Festival de Cinema de Gramado do ano passado, fiquei completamente impressionado com Ponto Zero, filme dirigido pelo meu conterrâneo e colega jornalista José Pedro Goulart. Não vou esconder minha gafe: foi só depois de conferir o longa que investiguei os trabalhos prévios de Goulart, incluindo o célebre curta-metragem O Dia Em Que Dourival Encarou a Guarda, que ele assinou em parceria com Jorge Furtado em 1986 (não cometam o mesmo erro que eu e confiram já esse filme aqui). Ao longo de sua trajetória, o diretor fundou a Casa de Cinema de Porto Alegre, a Zeppelin Filmes e, em 2008, a Mínima. Sua carreira ainda passa por publicidade, crônicas e produção de obras que considero particularmente marcantes na cinematografia gaúcha como Ilha das FloresO Cárcere e a Rua. Sem falar, claro, de Ponto Zero, que tem previsão de estreia para o primeiro semestre deste ano e que espero que, para vocês, seja uma experiência tão impactante quanto foi para mim. Ou seja, currículo é o que não falta ao nosso primeiro convidado de 2016 da coluna, o que só aumenta a minha honra de tê-lo por aqui. Fiquem abaixo com as escolhas do diretor, todas com justificativas que são verdadeiras aulas sobre a importância do ator para o fazer cinematográfico.

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Sidney Poitier (No Calor da Noite)

No Oscar deste ano não há nenhum ator negro indicado a qualquer premiação. Imaginemos o inverso, todos os atores nominados sendo negros e nenhum branco.

De modo que esta pequena grande lista começa com um filme de 1967, de Norman Jewison,  No Calor da Noite, cujo ator principal é um negro tão escuro que obrigou que fosse feita uma iluminação especial – rebaixada, para que não lhe refletisse a pele demais -, Sidney Poitier.

O filme conta a história de um investigador policial (Poitier) que, de passagem por uma pequena cidade do sulista dos EUE, é detido, por preconceito, como suspeito de um crime recentemente cometido. Desfeita a engrisilha, ele acaba ironicamente retido na cidade para trabalhar na investigação do crime pelo qual foi acusado. Trata-se de um detetive arguto, mas tem que enfrentar a desconfiança de todos, primeiro por ser forasteiro, e principalmente por ser preto.

Durante toda  a carreira, Sidney Poitier, interpretou homens de cor que tinham que lidar com isto. De alguma forma, frontalmente ou ladinamente, o fato de ser negro estava contido na temática (o cinema demorou a considerar a cor um não assunto). Ou seja, parte da interpretação é extensão de sentimento. Maltratar um personagem por ser negro, interpretado por um negro, equivale a um ator judeu sofrendo  as circunstâncias em um campo de extermínio nazista.

A extensão favorece, claro, porém todo grande ator trabalha com cartas secretas –  e cada carta contém a capacidade de estabelecer verdade nas nuances, naquilo que não é tão aparente, mas faz a diferença. Poitier tem uma baralho completo no bolso. Ele não grita, é matreiro, elegante feito um gato, milimétrico nas expressões. Talvez porque soubesse que era isso que fazia a diferença: ele se sentia bem de gravata.

No filme de Jewinson, No Calor da Noite, há uma cena antológica que, reza a lenda, teria sido exigência do ator. Nela, o personagem de Poitier é esbofeteado por um sujeito rico e poderoso, quando este se vê acusado por ele de ser um criminoso. Poitier imediatamente revida, devolvendo o bofete no sujeito. A maneira inesperada com que tudo acontece, ação e reação, põe a questão do racismo no seu devido lugar.

Mas o filme vai além, trata de um assassinato e das conspirações para que ele não fosse resolvido, uma rasura no sistema, um esboço daquilo que viria a ser tratado na explosiva série recentemente lançada, Making a Murderer. Por fim, há a relação entre Tibbs (Poitier) e Gillespie (Rod Steiger – Oscar de melhor ator pelo filme).  Gillespie, um delegado durão, mas repleto de angústia naquele fim de mundo, onde se sente perdido e solitário, descobre-se de alguma forma em sintonia com Tibbs: começa o filme prendendo aquele negro suspeito, mas evolui numa intrigante relação. O diálogo de ambos na cena derradeira na estação de trem é antológica.

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Klaus Kinski (Aguirre, a Cólera dos Deuses)

Aguirre, a Cólera dos Deuses é um desafio do grande cineasta alemão Werner Herzog, ao se embretar na selva amazônica – isso no começo dos anos 70 – sem pai nem mãe, para contar a história de uma expedição espanhola em busca do reino perdido de Eldorado, fato histórico acontecido em 1560.  O filme é narrado como se fosse um documentário, as condições realistas vertendo na tela, e eis aqui o meu ponto para a escolha dele: a distância do cinema e o teatro na dramatização. Num outro filme de Herzog, Fitzcarraldo, muito parecido, o cineasta volta à selva, mostrando que obsessão não tem limites quando se trata de enfrentar… limites.

E se Poitier é um felino, um gentleman na frente e por trás das telas, esta lista faz um corte seco para um cão – condenado, desgraçado, desmiolado – Klaus Kinski, genial, mas cujos adjetivos de insanidade são insuficientes para catalogá-lo. Personagem e ator se confundem. Difícil imaginar onde a atuação começa e termina quando um louco interpreta um louco, ou talvez tenhamos que lidar com o fato sobrenatural de que a alma de Lope de Aguirre tenha se instalado em Klaus Kinski. A cena do barco, assaltado por centenas de macacos enquanto Kinski perambula alucinado entre eles, apanhando um ou outro a esmo, faz parte da coleção daquilo que o cinema fez de mais impressionante desde que foi inventado.

Werner Herzog, por sua vez não fica atrás: as filmagens de Aguirre e Fitzcarraldo, ambos com locações na selva, teriam custado centenas de árvores nativas, animais e até mesmo ceivado vidas de índios a serviço do projeto. As histórias que são contadas a respeito da saga conjunta Herzog/Kinski são incríveis – há um documentário, inclusive, assinado por Herzog, Meu Melhor Inimigo, cujo título explica muito da turbulenta relação profissional e pessoal dos dois (que durou anos).

E é tudo verdade: os ataques de megalomania de Kinski durante as filmagens, as falas desconexas, as agressões a outros atores. Em especial se destaca a história de que, quando Klaus Kinski ameaçou abandonar as filmagens de Aguirre, o próprio Herzog apontou um revólver carregado para ele: se ele fizesse isso o mataria e depois a si próprio. Ou de uma outra, de quando os índios se ofereceram a Herzog para matarem Kinski. Werner Herzog declinou da oferta e convenceu os índios dizendo que precisava de um ator para concluir o filme.

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Paulo José (Macunaíma)

Por fim, para completar a tríade proposta pelo blog, o oposto de Kinski: de Lavras do Sul para o mundo, Paulo José, um cara legal. Mais do que isso, trata-se de um artista maravilhoso, que protagonizou filmes notáveis como Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos de Oliveira, mas minha escolha aqui é Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade.

A partir de um texto original de Mário de Andrade, o filme tece um pano feito da linhagem que envolvia a nação. Por trás das peripécias de Macunaíma, um herói sem caráter que nasce negro (Grande Otelo) e vira branco (Paulo José), um tanto de Brasil raso e profundo. O país caloroso, tropical, cuja malemolência se autoexplica por um ritual permanente de autofagia.

Macunaíma é o encontro do Modernismo com Cinema Novo –, o manifesto da arte nativa, “tupy or not tupy”, bradava outro Andrade , o Oswald, por uma câmara na mão, uma ideia na cabeça, ainda outro Andrade, o Glauber (de Andrade Rocha) – em tudo a ideia era resistir. E reagir. Aquilo que vinha de fora não era lei, era preciso desconstruir na forma – linguagem é resistência.

Macunaíma nasce preto retinto e filho do medo da noite, passa seis anos sem falar, só de preguiça. Com a morte da mãe, aquela que lhe previu o destino (nome que começa por má, tem má sina), vira branco, sai do campo em direção à cidade, ao progresso, numa saga/paródia onde encontra a marginália: vadios, prostitutas, mendigos. E encontra o amor, Ci, uma guerrilheira urbana com quem tem um filho preto. Por fim, Macunaíma volta ao campo mais pobre do que saiu, carregando eletrodomésticos, badulaques da modernidade, algo imprestável naquele lugar. É o fim do herói.

A performance de Paulo José  é vivaz, tenho-a na memória, e vi o filme há mais de 30 anos. Havia uma questão que era a troca de atores para um mesmo personagem. E o filme começava com um Grande Otelo engraçadíssimo; moleque, brejeiro, safado. Era de se imaginar que o espectador fosse se ressentir da falta dele quando troca para o Paulo. Isso de fato acontece, mas não por muito tempo, em seguida o encantamento com o Macunaíma branco se refaz.

Acredito que a lente da câmara capture algo mais do que só a técnica do ator. Alguma coisa que não se explica, mas que é nítida, tanto na compreensão que o ator tem sobre a trama, mas também sobre a vida, sobre a arte, sobre as coisas. Lembro da primeira vez que ouvi a narração que o Paulo fez para o Ilha das Flores do Jorge Furtado – que coisa emocionante. Boa parte do sucesso do filme se deve a ele.

Abaixo um link de uma pequena mostra do talento, da compreensão do ofício do Paulo, recitando Drummond:

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