Cinema e Argumento

Apostas para o Oscar 2017

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Há quem pule Carnaval e há quem não perca por nada a entrega do Oscar. Como faço parte do segundo grupo, hoje vou estar sintonizado na TNT, a partir das 21h, para acompanhar a etapa final da temporada de premiações. A cerimônia, que será apresentada por Jimmy Kimell, começa de verdade somente às 22h30, mas antes já estarei na área com um novo live na página oficial do Cinema e Argumento no Facebook para comentar melhor as apostas elencadas aí embaixo. Lá no Twitter também faço meus comentários ao longo da cerimônia. Então, para quem for deixar as serpentinas de lado, fica o convite: vamos curtir todos juntos o Oscar 2017?

MELHOR FILMELa La Land: Cantando Estações / alt: Moonlight: Sob a Luz do Luar
MELHOR DIREÇÃO: Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações) / alt: Barry Jenkins (Moonlight: Sob a Luz do Luar)

MELHOR ATRIZ: Emma Stone (La La Land: Cantando Estações) / alt: Isabelle Huppert (Elle)
MELHOR ATOR: Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar) / alt: Denzel Washington (Um Limite Entre Nós)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Viola Davis (Um Limite Entre Nós) / alt: Naomie Harris (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Moonlight: Sob a Luz do Luar) / alt: Dev Patel (Lion: Uma Jornada Para Casa)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALManchester à Beira-Mar / alt: La La Land: Cantando Estações
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Moonlight: Sob a Luz do Luar / alt: Lion: Uma Jornada Para Casa
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: O Apartamento (Irã) / alt: Toni Erdmann (Alemanha)
MELHOR ANIMAÇÃOZootopia – Essa Cidade é o Bicho / alt: Kubo e as Cordas Mágicas
MELHOR DOCUMENTÁRIOA 13ª Emenda / alt: O.J.: Made in America
MELHOR FOTOGRAFIAMoonlight: Sob a Luz do Luar / alt: La La Land: Cantando Estações
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃOLa La Land: Cantando Estações / alt: Animais Fantásticos e Onde Habitam

MELHOR FIGURINOJackie / alt: La La Land: Cantando Estações
MELHOR MONTAGEMLa La Land: Cantando Estações / alt: Até o Último Homem
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “City of Stars” (La La Land: Cantando Estações) / alt: “How Far I’ll Go” (Moana: Um Mar de Aventuras)
MELHOR TRILHA SONORALa La Land: Cantando Estações / alt: Moonlight: Sob a Luz do Luar

MELHOR MIXAGEM DE SOMLa La Land: Cantando Estações / alt: Até o Último Homem
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Até o Último Homem / alt: La La Land: Cantando Estações
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Star Trek: Sem Fronteiras / alt: Esquadrão Suicida
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Mogli: O Menino Lobo / alt: Doutor Estranho

Comentando os indicados e os favoritos ao Oscar 2017

lalalandmovieDesde o advento da internet, nunca houve um Oscar tão complicado de se acompanhar. E isso não tem nada a ver com La La Land: Cantando Estações ter monopolizado a disputa ou com as reações adversas que um filme instantaneamente desperta ao se tornar o grande favorito da temporada, mas sim com a completa intolerância de quem se propõe a discutir a temporada. Ou melhor: problematizá-la como se fosse uma missão de vida. É um pouco estranho pensar que a situação seja encarada dessa maneira visto que um salto histórico foi dado no sentido de representatividade. Algumas discussões são inegavelmente importantes, enquanto outras parecem apenas pretexto para procurar cabelo em ovo, especialmente quando o engajamento na discussão é mais pose do que reflexão genuína. Com pessoas metendo o bedelho em assuntos espinhosos só para polemizar, muitas vezes foi rompida a barreira do bom senso em relação a  diversos ideais.

Há quem considere errado gostar de La La Land por ele ser supostamente machista. Adorar Viola Davis também se revela uma opinião extremamente rasteira para certos espectadores, já que existem outras atrizes negras tão talentosas quanto ela que não recebem o mesmo reconhecimento. Já a possível vitória de O Apartamento é motivo de torcida como forma de protesto contra Donald Trump e não por méritos próprios ou como um claro reflexo de que a Academia tem dificuldades em premiar comédias como Toni Erdmann. E o que dizer de Amy Adams, cuja ausência por A Chegada não podemos lamentar já que foi Ruth Negga quem entrou de surpresa na disputa com Loving? Sobrou até para Lion porque um garoto pobre e de origem indiana não pode ser resgatado por uma família branca e rica porque isso é celebrar os chamados white saviors.

Entretanto, não me interpretem de maneira errada. O que quero dizer é que não há nada problema em levantar qualquer uma dessas questões (no cinema, como diz o crítico Luiz Carlos Merten, experiências são feitas de olhares particulares: se eu não enxergo uma coisa, isso não significa que tal coisa realmente não esteja lá) ou muito menos em elucidar problematizações que são realmente necessárias para os tempos efervescentes que vivemos no cinema. Só que o pessoal, especialmente nas redes sociais, pesa demais na discussão, impondo opiniões como verdades absolutas e não como ferramentas para um debate democrático. Para falar sobre cinema no Oscar 2017, você precisa amar ou odiar determinada coisa, defender ou recauchutar determinada posição. Até porque, dizem, se você se exime de entrar nesse jogo, você comete o pecado da omissão. Confesso que isso cansa bastante.

Tem sido um exercício complexo, onde frequentemente me indigno com quem parece ver filme só para postar polêmica na internet ao mesmo tempo em que procuro apurar o olhar, na medida do possível, de quem acha que representatividade não é algo assim tão importante. Mas foi difícil porque não existem discussões, e sim monólogos para ver quem tem mais razão ao final. Felizmente, não estamos mais em Esparta para ganhar discussões no grito, e, por isso, aos poucos fui procurando me distanciar do furacão que se tornou a temporada de prêmios. Não é diferente agora. Muito já falamos aqui no blog sobre o que determinadas indicações simbolizam em termos de representatividade (e isso inclui até a lembrança de Meryl Streep por Florence: Quem é Essa Mulher?, única intérprete que concorre por um papel de comédia esse ano) e sobre o quanto fatores exteriores às vezes precisam ser considerados na disputa, mas agora vou pendurar um pouco as chuteiras nesse assunto para falar sobre os filmes em si e sobre o quanto a gente vê merecimento em um ou outro dentro da tela. Vamos nessa?

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O olhar comum

É o tipo de cinema que sempre me tocou e que poucas vezes o Oscar celebrou como agora: aquele sobre pessoas comuns como eu e você. Seja em musicais (La La Land), fatos históricos (Estrelas Além do Tempo), adaptações teatrais (Um Limite Entre Nós) e situações muitos próximos da realidade (Moonlight: Sob a Luz do Luar), a temporada se debruçou sobre sonhos, dores, esperanças e dúvidas identificáveis a todos nós. Não é nem loucura colocar Elle nesse balaio, já que sua protagonista é, em muitos aspectos, a representação da mulher madura, independente, bem sucedida e sexualmente ativa que o cinema norte-americano raramente retrata dessa maneira. Por isso, percebam como as pessoas de realidades distantes e em situações extraordinárias foram ao pouco perdendo os holofotes. É o caso de Jackie, antes tão bem cotado para dar um segundo Oscar para Natalie Portman e até para concorrer nas categorias principais. Seu destino foi ser finalista em dois segmentos técnicos e perder o favoritismo para a sua intérprete.

Os violinos do Titanic

Uma brincadeira da internet dá conta de que o musical La La Land é como o trio de músicos que tocam violino enquanto o Titanic afunda no filme de James Cameron. E que problema há no escapismo? Um filme, por não ser tão engado socialmente ou politicamente quanto os outros, é inferior por causa disso? Na crítica de La La Land já havia falado sobre o preconceito contra a leveza de um romance, mas talvez seja mesmo necessário um filme como esse, que nos propõe a sair um pouco de um mundo que, a cada dia, noticia coisas mais absurdas. A vida está pesada e não há mal nenhum em ir ao cinema para sonhar com realidades paralelas. É a homenagem de La La Land aos clássicos musicais de Hollywood e essa seu escapismo que despontam o filme de Damien Chazelle como franco favorito ao Oscar de melhor filme. Simplesmente não há disputa. Antes assinalado como uma alternativa, Moonlight se enfraqueceu na temporada ao perder o Screen Actors Guild Awards de melhor elenco, ficando apenas com o Globo de Ouro de melhor drama na bagagem. Caso vença, o filme de Barry Jenkins desafiará toda a matemática dos prêmios, o que só aconteceu de verdade com Crash – No Limite em 2006 (Spotlight foi um caso à parte ano passado).

Discussão de sobra entre as atrizes

Não houve categoria mais polêmica entre as atuações do que a de melhor atriz. Com a ausência de Amy Adams por A Chegada, caíram pesado em cima de Meryl Streep (Florence: Quem é Essa Mulher?), que realmente não mereceu a indicação, mas se esqueceram que, considerando o histórico de todos os outros prêmios da temporada, quem entrou de última hora foi Ruth Negga, que não acho que faça nada de muito maravilhoso em Loving para estar aqui também. Com Natalie Portman (Jackie) já considerada uma carta fora do baralho, a disputa sobra para Emma Stone (La La Land) e Isabelle Huppert (Elle), com a primeira tendo larga vantagem por ter conquistado o BAFTA e o SAG (pouco conta o Globo de Ouro, já que ela só concorria com Meryl lá). Em contramão, não considerem a francesa uma impossibilidade, pois, além de ser um ícone do cinema europeu mundialmente adorado pela crítica e ainda em plena atividade, Huppert vem sendo celebrada mundo afora, algo que nunca aconteceu em sua carreira. Ela tem feito direitinho o tema de casa, concedendo entrevistas para todos os meios, participando de todos os prêmios e sendo fotografada por revistas importantíssimas. Ainda que o histórico dos prêmios trabalhe contra a sua vitória, em termos de Oscar, vale a velha lógica: quem é visto termina por ser lembrado.

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E a vida pessoal?

Casey Affleck reacendeu a chama das discussões sobre até que ponto a vida pessoal de um ator deve interferir no julgamento de seu trabalho no cinema. Com acusações de assédio sexual, Affleck vem colhendo a antipatia de muita gente por essa situação, o que passa um pouco longe de mim: prefiro julgá-lo exclusivamente no filme, e aí há de se reconhecer o quanto ele é sensacional em Manchester à Beira-Mar. A disputa é de igual para igual com Denzel Washington em Um Limite Entre Nós, já que ambos estão inspirados em seus respectivos filmes, mas apresentando estilos bem diferentes de interpretação. Também seria justo colocar no mesmo patamar o jovem Andrew Garfield, que tem em Até o Último Homem o momento mais expressivo de sua carreira até agora. No geral, o nível da categoria é excelente, onde somente Ryan Gosling concorre sem muitos méritos por La La Land. Para quem for participar de algum bolão, a disputa se divide entre Casey e Denzel, com uma pequena vantagem do primeiro considerando o número de prêmios conquistados na temporada.

Coadjuvantes pulverizados

Quer uma estatueta ainda mais disputada? Então dê uma olhada entre os atores coadjuvantes. Repetindo a situação do ano passado, a seleção desse ano se divide entre intérpretes que ganharam diferentes prêmios por seus desempenhos. Mahershala Ali vem com o SAG por Moonlight e Dev Patel com o BAFTA por Lion: Uma Jornada Para Casa. Nem o Globo de Ouro ajuda a desempatar a situação, já que o vencedor lá foi Aaron Taylor-Johnson, por Animais Noturnos, que sequer concorre ao Oscar. Nunca subestime o poder de um queridinho da Academia como Jeff Bridges, que tem sido celebrado pelo mesmo papel desde Coração Louco (e vale lembrar que, por essa lógica, Christoph Waltz ganhou um segundo Oscar de coadjuvante por Django Livre em um ano igualmente pulverizado). Agora, se os votantes realmente fossem espertos, uma consagração para Michael Shannon por Animais Noturnos não cairia nada mal dado a falta de favoritismo da categoria (e o fato de que, claro, o ator é sempre uma unanimidade, menos em coisas como Homem de Aço). O único que infelizmente tem suas chances zeradas é o jovem Lucas Hedges, o meu favorito entre os cinco e que é uma grande revelação em Manchester à Beira-Mar.

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Do protagonismo às participações de luxo

Viola Davis bem que poderia estar concorrendo como protagonista por Um Limite Entre Nós e, mesmo que a aceite como coadjuvante no filme dirigido pelo colega Denzel Washington, é inegável o quanto sua nova classificação novamente suscita a discussão sobre a categoria de coadjuvante ser um reduto de protagonistas que ajustam sua campanha para ganhar um prêmio que não conquistariam entre as atrizes principais. Curiosamente, existe outro extremo: o de Michelle Williams, que, caso concorresse ao Emmy por Manchester à Beira-Mar, seria enquadrada na categoria de atriz convidada e não de coadjuvante. Nicole Kidman também tem papel bem pequeno em Lion, deixando apenas para Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo) e Naomie Harris (Moonlight: Sob a Luz do Luar) a representação fiel da categorização de coadjuvante em tempo de cena e relevância. Viola reina soberana como favorita e também como merecedora, mas bem que também poderia existir algum espaço para a Naomie Harris, não?

Categorias técnicas consagrarão La La Land?

La La Land já fez história ao se juntar aos clássicos Titanic A Malvada como recordista de indicações ao Oscar, mas, por outro lado, é bem provável que não leve para casa um número histórico de estatuetas (chutando por cima, deve sair com cerca de oito prêmios, a mesma quantia de Quem Quer Ser Um Milionário?, outro filme repleto de sonhos e otimismo em um ano de obras com grande cunho dramático). O que decide isso é como a Academia reagirá ao filme de Damien Chazelle em categorias técnicas, o que nos leva a considerar preferências históricas dos votantes. É bem possível, por exemplo, que Jackie fature melhor figurino, já que filmes contemporâneos raramente ganham essa estatueta. Mais provável ainda é que Até o Último Homem leve pelo menos um dos segmentos de som dado o favorável histórico de longas de guerra na categoria (Cartas de Iwo JimaA Hora Mais Escura são os exemplares mais recentes). Também não deixo de ter minhas dúvidas se a linda fotografia de Moonlight não é capaz de desbancar La La Land como forma de dar algum tipo extra de protagonismo ao filme de Barry Jenkins, que parece ter chances reais de consagração apenas em ator coadjuvante e roteiro adaptado. Aí é questão de dar sorte no bolão mesmo! As nossas apostas finais estarão por aqui no próximo post!

Moonlight: Sob a Luz do Luar

What’s a faggot?

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Direção: Barry Jenkins

Roteiro: Barry Jenkins, baseado na história de Tarell Alvin McCraney

Elenco: Alex R. Hibbert, Ashton Sanders, Trevante Rhodes, Naomie Harris, Mahershala Ali, Janelle Monáe, Shariff Earp, Duan Sanderson, Edson Jean, Patrick Decile, Herveline Moncion, Fransley Hyppolite

EUA, 2016, Drama, 111 minutos

Sinopse: Black (Trevante Rhodes) trilha uma jornada de autoconhecimento enquanto tenta escapar do caminho fácil da criminalidade e do mundo das drogas de Miami. Encontrando amor em locais surpreendentes, ele sonha com um futuro maravilhoso. (Adoro Cinema)

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Quando surge pela primeira vez em Moonlight: Sob a Luz do Luar, o pequeno Chiron está correndo incansavelmente. Perseguido por colegas da escola que gritam “bicha!” ao mesmo tempo em que tentam encurralá-lo, o protagonista do filme de Barry Jenkins aos poucos nos revela o seu universo aterrador: negro, pobre e filho de um pai que não conhece e de uma mãe drogada, Chiron, que nem entende muito bem o que é ser gay, mas que já enfrenta o julgamento da sociedade em função de sua natureza, carrega consigo uma série de minorias que o mundo não costuma tratar com muito zelo. Já não é fácil fazer parte de uma ou outra delas, e o que dizer, então, quando é preciso levar todas nas costas. E Moonlight, que não estereotipa qualquer uma das facetas de seu protagonista, é arrebatador por conta de uma escolha muito acertada: a de concentrar seu olhar não na jornada que Chiron enfrenta contra a sociedade, mas contra os fantasmas de sua própria vida e de um destino aparentemente imutável que parece ter sido traçado desde o momento de seu nascimento.

Narrando três momentos da vida de Chiron em uma uma parte de Miami, nos Estados Unidos, movida a drogas, violência e prostituição, Moonlight é um projeto muito pessoal do diretor Barry Jenkins, que gravou o filme com apenas cinco milhões de dólares no bolso. E tudo não poderia ter vindo em momento mais oportuno: quando o mundo discute cada vez mais questões de representatividade, seja de qualquer minoria, o longa surge como uma experiência para lá de catártica. Muito mais do que um filme de incrível relevância temática, Moonlight também é cinema de incrível qualidade e delicadeza. No primeiro capítulo, quando acompanha o protagonista ainda criança, a história tem foco maior nas pessoas que cercam Chiron e como elas serão decisivas para a personalidade que o pequeno virá a moldar. Se o turbilhão do convívio com a mãe drogada parece um beco sem saída, a figura de Juan (Mahershala Ali) vem para transformar sua vida em todos os sentidos, desde a forma como construímos o valor que cada relação familiar tem em nossa vida até a compreensão do quão natural é ser gay e não ser recauchutado por isso. É um desses encontros aleatórios da vida que chegam para mudar toda uma existência – e que, muitas vezes, só mais tarde, tomando certa perspectiva, compreendemos o papel fundamental que desempenham nas forças que encontramos para seguir em frente. 

Quando transporta Chiron da infância para a adolescência, Moonlight se entrega muito mais ao protagonista, que agora precisa enfrentar uma das piores partes da vida de qualquer pessoa: a escola. Cada vez mais perseguido por sua natureza sexual, o garoto, que permanece mais tempo no ambiente escolar após aulas para não ter que encarar os bulliers que o aguardam do lado de fora para lhe dar uma surra, faz descobertas muito pessoais em relação a si próprio (a cena em que tem um primeiro contato sexual com um homem é de arrepiar de tão natural), dessa vez trilhando o seu próprio destino, já com uma cota bem menor de ajuda do que esperava ter nessa altura da vida. E é nesse capítulo que Barry Jenkins, também roteirista do filme, entrega os momentos mais brilhantes de Moonlight, sendo cuidadoso em tudo o que discute nas entrelinhas (muita coisa está implícita na “brincadeira” que um garoto valentão da escola faz com Chiron em relação à possibilidade de comê-lo caso também fosse gay) e, principalmente, no poder das imagens (a cena na praia onde acontece o primeiro contato sexual do protagonista é arrebatadora, assim como os momentos com a mãe são por vezes assustadores tamanha a composição visual que lembra um filme de terror).

Ainda que dividido em capítulos, Moonlight consegue costurá-los com notável proeza, vencendo em um aspecto que considero particularmente decisivo: a capacidade de fazer com que nós, espectadores, continuemos a identificar Chiron em corpo e alma mesmo com a troca de atores e até mesmo de identidades visuais entre cada parte da história. Ironicamente, esse é o mesmo detalhe que sabota o filme em sua terceira e última parte. Afinal, quando Chiron chega à vida adulta, é difícil enxergá-lo na tela, como se não identificássemos, nem mais em seus olhos, o garoto por quem tanto nos afeiçoamos até ali, o que nada tem a ver com o fato do filme apontar para a ideia de que certos destinos são mesmo inevitáveis. Difícil constatar se é a escalação errada de elenco, as longas cenas que nunca alcançam a intensidade que deve vir de uma narrativa de baixa fervura ou simplesmente a personalidade por vezes misteriosa demais de um Chiron que já não encaramos da mesma forma. Tudo parece muito à parte do restante, e um bocado se perde – e até se acovarda – quando Moonlight se propõe a passar a régua e a fechar as contas. Por se tratar do capítulo derradeiro, isso é um problema, pois normalmente a impressão que fica é a do desfecho. 

Justiça seja feita, entretanto, a méritos que saem ilesos desse importante detalhe, como o alto nível do elenco. Os Chirons dos dois primeiros capítulos são simplesmente fantásticos, em especial Ashton Sanders, que, interpretando o personagem na adolescência, tem os momentos mais expressivos e marcantes de todo o filme (a cena que encerra essa parte é um grito dos mais libertadores). Entre os coadjuvantes, ainda que alguns deles sejam sabotados pelo o roteiro, como Mahershala Ali, que exerce com sabedoria e inteligência um papel importante demais para depois ser escanteado com tanto descaso, há um excelente nível, onde Naomie Harris também merece nota por um trabalho que se esquiva de histrionices e que ganha nova dimensão a partir da informação de que a atriz precisou gravar tudo em apenas três dias (e como sua personagem passa por mudanças significativas, isso é um verdadeiro elogio). Não deixem ainda que a conclusão frustrante de Moonlight amorteça a assombrosa trilha de Nicholas Britell e a fotografia inteligentíssima de James Laxton (Chrion aprendendo a nadar é uma das coisas mais lindas que você verá em 2017). Mais do que isso, leve, após a sessão, a mensagem forte, necessária e impactante que, com o talento de Barry Jenkins, certamente reverberá por muito, mas muito tempo.

Melhores de 2016 – Filme

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Poucas listas de melhores do ano aqui do blog foram tão pessoais quanto a de 2016. Por isso, para escolher o nosso favorito máximo, a lógica foi muito simples: colocar todos os filmes em perspectiva e observar qual deles mais reverberou conosco desde a primeira sessão. E Carol, novo trabalho refinadíssimo do diretor Todd Haynes, ganha por uma série de razões: da trilha de Carter Burwell tocada incansavelmente a tudo de novo que descobrimos sobre o romance de Carol (Cate Blanchett) e Therese (Rooney Mara) a partir da busca pelo romance original de Patricia Highsmith, o longa, muito além dos detalhes de sua construção cinematográfica, marca por sua afetividade. Ambientado nos anos 1950 assim como Longe do Paraíso, um dos filmes mais célebres de Haynes, Carol é ao mesmo tempo o registro de uma época e uma história muito íntima e particular. Delicada, a obra também é um alento para o que costumamos ver em romances LGBT tão calcados em pessimismo: aqui o foco, apesar das discussões envolvendo os obstáculos impostos pela sociedade, é a descoberta e a vivência desse amor à primeira vista entre duas mulheres de universos distintos. Novamente, um grande filme solenemente escanteado pelos prêmios (foi recordista de indicações ao BAFTA, por exemplo, e não ganhou nada) será eternizado por um termômetro de muito mais respeito: o tempo. Não tenha dúvidas: Carol é um filme a ser lembrado.

EM ANOS ANTERIORES: 2015 Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Gravidade | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida| 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

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2. PONTO ZERO, de José Pedro Goulart: “Nunca encontrei as palavras certas para descrever o quanto Ponto Zero me comoveu – e talvez nunca encontre. De forma bem genérica, a explicação é a seguinte: esse é o tipo de experiência que, a cada minuto, me lembrava o porquê de eu ter me tornado um apaixonado por cinema (…) a obra falou comigo não apenas em função das minhas preferência cinéfilas, mas também por conseguir alcançar o meu interior como ser humano mesmo”.

3. A JUVENTUDE, de Paolo Sorrentino: “Em certo momento, um jovem garoto que está aprendendo a tocar violino diz que seu professor lhe entregou a canção justamente por ela ser ideal para principiantes. Mas, como bem descobrimos pela fala do menino e por tudo que a história mostra, não é porque a simplicidade reina que a beleza está ausente. Sendo assim, não tenho dúvidas de que quero mais canções simples como A Juventude pela frente”.

4. AQUARIUS, de Kleber Mendonça Filho: “É impressionante como o melhor de toda a carreira de Kleber como jornalista e cinéfilo está novamente e plenamente convergida na tela. Assim como em O Som ao Redor, é provável que nem todos comprem o conceito do estilo, mas, aos que souberem e conseguirem apreciar, Aquarius é mesmo tudo o que foi dito até agora”.

5. ELLE, de Paul Verhoeven: “É um relato que, assim como o recente O Silêncio do Céu, parte de um estupro, mas nunca se torna necessariamente um filme sobre estupro. Experiência bastante desafiadora para a plateia, Elle, no entanto, é plenamente recompensador para quem aceita ser provocado. Se esse for o seu caso, pode acreditar: teremos longas e instigantes conversas sobre a obra durante um bom tempo”

6. DE ONDE EU TE VEJO, de Luiz Villaça: “É importante não confundir a leveza e o bom humor presentes em De Onde Eu Te Vejo com superficialidade, pois isso seria uma injustiça com o roteiro e a direção do longa, que, além das leituras que fazem sobre relações amorosas e familiares, entregam uma interpretação muito interessante e contemporânea de São Paulo”.

7. A BRUXA, de Robert Eggers: “Ainda assim, pelo que me vem à memória, o terror psicológico de Eggers em nada se compara a qualquer exemplar do gênero que tenha ganhado as telas nos últimos anos. É experiência conceitual e experimental, o que pode repelir muita gente. Mas quer saber? Se conseguir embarcar, é coisa de mestre mesmo”. 

8. A CHEGADA, de Denis Villeneuve: “Verdade seja dita que não são poucos os rodeios que o filme dá para dar simetria total a seu ciclo e chegar a toda emoção de seu terço derradeiro, mas a precisão a partir daí é admirável e o que vem a partir dela é muito íntimo. A Chegada reverbera muito além da sessão. Sorte de quem consegue perceber essa beleza”.

9. A DESPEDIDA, de Marcelo Galvão: “Um dos pontos mais fascinantes deste longa é justamente isso: a virilidade, a “macheza” e a integridade de um homem estão longe de ser ligadas a sua idade ou a sua condição física. Para Almirante, acordar e ver que sua fralda não está suja é uma vitória. Já para Fátima, sua amante, este e outros detalhes estão longe de falar qualquer coisa sobre o que seu companheiro realmente representa”.

10. SINFONIA DA NECRÓPOLE, de Juliana Rojas: “Tanto em termos de letra quanto de coreografia, Sinfonia da Necrópole é muito bem apurado. As rimas e a transição da cena realista para a musical são o ponto alto das canções, repletas de ritmo brasileiro (a Canção dos Coveiros, principalmente, inspirada nos clássicos de Adoniran Barbosa) e circunstâncias inusitadas (a Canção dos Mortos, encenada à noite, inevitavelmente lembrando Thriller, de Michael Jackson, referência que a própria Rojas diz que sempre tentou se esquivar)”.

Melhores de 2016 – Elenco

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O naipe do elenco reunido Animais Noturnos comprova o prestígio alcançado por Tom Ford em Hollywood desde a realização de Direito de Amar, sua impressionante estreia como cineasta. Enquanto, no filme anterior, Ford dava de presente para Colin Firth um trabalho praticamente solo (outros nomes como Julianne Moore, Matthew Goode e Nicholas Hoult apareciam em papeis bem menores ou apenas pontas), em Animais Noturnos a força é coral: Amy Adams, pontuando um dos grandes momentos de sua carreira com essa interpretação ao lado de A Chegada, lançado no mesmo ano, pode até ter a responsabilidade de ser o fio condutor da história ao lado de Jake Gyllenhaal, que, novamente, dispensa maiores apresentações, especialmente depois da série de bons trabalhos que realizou nos últimos tempos, mas o elenco também é repleto de coadjuvantes inspirados, como o sempre irretocável Michael Shannon e o jovem Aaron Taylor-Johnson, na interpretação mais expressiva de sua carreira até aqui. Outro aspecto marcante da assinatura de Tom Ford se preserva em seu novo longa: as participações especiais que, muitas vezes, em uma única cena, ampliam dimensões da trama ou complementam determinados personagens, como é o caso de Laura Linney, novamente versátil ao interpretar a mãe de Susan (Amy Adams). Controverso, Animais Noturnos pode ser questionado em certos aspectos, mas nunca em nada que se relacione ao seu elenco. Ainda disputavam a categoria: A Juventude, Aquarius, De Onde Eu Te Vejo e Spotlight – Segredos Revelados.

EM ANOS ANTERIORES: 2015 – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) |  2014 – Relatos Selvagens | 2013 Álbum de Família | 2012 – O Impossível | 2011 – Tudo Pelo Poder | 2010 – Minhas Mães e Meu Pai | 2009 – Dúvida | 2008 – Vicky Cristina Barcelona | 2007 – Bobby

Rapidamente: “É Apenas o Fim do Mundo”, “Até o Último Homem”, “Kubo e as Cordas Mágicas”, “A Qualquer Custo” e “A Tartaruga Vermelha”

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Dez anos depois de Apocalypto, Mel Gibson volta à direção de longas com Até o Último Homem, filme de guerra que constrói uma história curiosa a partir de uma narrativa clássica.

É APENAS O FIM DO MUNDO (Juste La Fin du Monde, 2016, de Xavier Dolan): Quando exibiu É Apenas o Fim do Mundo no Festival de Cannes de 2016, o diretor Xavier Dolan assumiu que seus filmes são mesmo histéricos – e quem não gosta que vá procurar outra coisa para assistir. A lógica não deixa de estar certa, mas Dolan precisa urgentemente tratar seus problemas em casa, já que, para corroborar essa sua afirmação, precisou menosprezar publicamente um crítico que odiou o seu filme, mas aprovou Creed: Nascido Para Lutar, como se a opinião dele não valesse nada por conta disso. O elenco europeu de alto nível que o jovem cineasta reúne em seu mais recente longa (Gaspard Ulliel! Léa Seydoux! Vincent Cassel! Marion Cotillard!) comprova a reputação conquistada nos últimos anos. Contudo, a histeria que ele acertadamente assume atrapalha demais a experiência. E o problema de É Apenas o Fim do Mundo não é nem necessariamente as incansáveis discussões dos personagens, e sim as razões (ou melhor, a falta delas) que despertam tais desavenças. Tanto barraco mal construído, gratuito e sem profundidade nos impede de ter alguma compreensão dos personagens. A partir disso, interpretações de tom muito menor como a de Ulliel e Cotillard se perdem porque os dois parecem apenas duas figuras inertes que vagam cabisbaixos o filme inteiro. Por outro lado, figuras explosivas como as de Cassel e Seydoux testam a nossa paciência ao despertar discussões com as situações mais avulsas possíveis, como quando a matriarca coloca no rádio uma música que, sem saber, um dos filhos detesta. É Apenas o Fim do Mundo merecia ser um impactante drama familiar e não, como bem Dolan reconhece, uma simples histeria. Vou mesmo seguir o conselho do diretor e procurar outra coisa para assistir a partir de agora.

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Hacksaw Ridge, 2016, de Mel Gibson): Expressivo retorno de Mel Gibson na cadeira de direção após o mediano Apocalypto, de 2006, Até o Último Homem vem colhendo uma série de críticas que, de certa forma, sempre foram associadas ao diretor: melodrama, pregação religiosa, sadismo e por aí vai… Há casos em que é possível concordar com uma coisa ou outra (A Paixão de Cristo é o maior exemplo nesse sentido), mas não me parece ser o caso desse ótimo filme de guerra dirigido por ele. Em Até o Último Homem, detratores enxergam melodrama ao invés da narrativa clássica, formato que sempre foi uma marca de Mel Gibson. Já a chamada pregação religiosa em momento algum se estende ao filme, restringindo-se unica e exclusivamente à construção dramática do protagonista, um católico fervoroso que leva os mandamentos de Deus ao pé da letra (e isso está muito bem enraizado em sua personalidade surpreendentemente bem defendida por Andrew Garfield). Por fim, é de se questionar até as críticas em relação ao sadismo, já que estamos falando de um filme de guerra, e nem assim a violência se revela exagerada ou muito menos grotesca. Ganhando muitos pontos com a história curiosíssima (o jovem que se alista no exército para salvar vidas como médico, recusando-se a sequer ter a posse de qualquer arma), Até o Último Homem é impressionante na grandiosidade, na eficiência e na condução de suas cenas de batalha, além de ser o raro caso de uma obra do gênero que, mesmo um tanto mal contextualizada historicamente e rasa nas discussões familiares, deve envolver inclusive quem tem um pouco de preguiça com relatos de guerra. Assim é bom ter Mel Gibson de volta.

KUBO E AS CORDAS MÁGICAS (Kubo and the Two Strings, 2016, de Travis Knight): Com graça e originalidade, Kubo e as Cordas Mágicas talvez seja a animação mais completa a competir na temporada de premiações deste ano. Mesmo perdendo basicamente todos os prêmios para Zootopia – Essa Cidade é o Bicho, o longa dirigido por Travis Knight abrange o público adulto e infantil preservando um aspecto muito importante: o de ser produzido nos Estados Unidos e ainda assim captar todo o espírito do mundo oriental onde a trama é encenada. Maior animação em termos de metragem já feita no formato stop-motionKubo e as Cordas Mágicas flerta com o pessoal, a imaginação e até mesmo o místico para contar a criativa história de um garotinho que precisa derrotar um espírito de seu passado. O filme funciona com grande fluidez e empatia porque os personagens são adoráveis, a história é instigante na construção de seus conflitos e o visual é frequentemente arrebatador (os destaques ficam com com o personagem dublado por Ralph Fiennes e com a dupla sombria de mulheres que persegue o protagonista). Tão impressionante é o trabalho técnico de Kubo e as Cordas que a animação conseguiu um feito raro no Oscar: faturar uma indicação na categoria de efeitos visuais, algo que não acontecia desde 1993 com O Estranho Mundo de Jack. E o melhor: por mais que seja impactante do ponto de vista técnico, a obra jamais deixa de ser um relato bastante particular de seu protagonista. Para um diretor que acaba de estrear na direção de longas, Travis Knight está realmente de parabéns.

A QUALQUER CUSTO (Hell or High Water, 2016, de David Mackenzie): Uma das boas surpresas do Oscar 2017, A Qualquer Custo é extremamente eficiente mesmo trabalhando com lógicas fáceis envolvendo filmes sobre assaltantes. Aliás, tematicamente, o longa assinado por David Mackenzie não deixa de ser torto na forma como quer tornar quase heroico, por exemplo, o sujeito branco e norte-americano que assalta bancos porque, vejam só, quer dar um futuro melhor ao filho e quitar todas as dívidas que tem com a ex-mulher. Se A Qualquer Custo procurasse acompanhar e construir com complexidade o ponto de virada em que o tal homem decide se entregar à ilegalidade, talvez a situação fosse também marcante no conteúdo. Como não o é, fica lembrado como um filme que conduz com destreza sua ação, atualizando a paisagem do western (os personagens usam até iPhone!) e se destacando em pontos técnicos dignos de nota, como a fotografia de Giles Nuttgens e a trilha sonora da dupla Nick Cave e Warren Ellis (lembram do trabalho magnífico deles para O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford?). Quanto ao elenco, Jeff Bridges continua repetindo o papel de Coração Louco e a situação ficaria muito mais curiosa se os papeis de Ben Foster e Chris Pine fossem invertidos, principalmente porque é fácil demais para o primeiro fazer o tipo tempestuoso enquanto o segundo é uma escolha óbvia para o irmão bonito e virtuoso. Entretanto, apesar das ressalvas, A Qualquer Custo prende o espectador com uma facilidade empolgante, o que é resultado de uma inspirada direção.

A TARTARUGA VERMELHA (La Tortue Rouge, 2016, de Michael Dudok de Wit): Animação francesa desprovida de diálogos, A Tartaruga Vermelha é uma experiência exclusivamente dedicada aos adultos por uma série de razões. Com estética simples, mas narrativa contemplativa e uma série de metáforas, o filme de Michael Dudok de Wit talvez funcionasse melhor como curta-metragem, visto que a história frequentemente cai na repetição ou até mesmo na necessidade de estacionar determinados assuntos visto o formato longo. Mesmo assim, é impossível ficar indiferente primeiro à curiosidade que a história desperta como o relato de sobrevivência de um homem que acorda em uma ilha após um acidente marítimo e depois como uma bonita homenagem ao poder que as relações humanas têm de transformar as nossas vidas. É a primeira animação não-japonesa do estúdio Ghibli, responsável por clássicos filmes orientais do gênero, como A Viagem de ChihiroMeu Amigo Totoro. O desvio de percurso no portfólio se deu a partir da admiração dos executivos do estúdio pelo trabalho do diretor Michael Dudok de Wit, que faz carreira como animador na Holanda e havia dirigido quatro curtas-metragens antes de realizar A Tartaruga Vermelha. O convite foi uma completa surpresa para Dudok, que não acreditava que pudesse receber um voto de confiança dessa magnitude. E ele pode respirar aliviado: ambiciosa em reflexões, a animação é um acerto delicado em termos de narrativa. 

Melhores de 2016 – Direção

direcao16

O texto que escrevi para Ponto Zero de forma mais pessoal do que costumo apresentar no blog explica o quanto esse filme gaúcho foi uma viagem verdadeiramente transcendental para mim. Que lógico, portanto, colocar a direção de José Pedro Goulart como a que mais me impressionou ao longo de 2016. Além de se esquivar do clássico problema de filmes que, ao promoverem uma transformação radical em sua história, acabam parecendo duas obras distintas dentro de uma, Goulart trabalha o real e o fantástico com uma destreza que está longe de sugerir que esse é apenas o seu primeiro longa-metragem após uma extensa carreira como curta-metragista e publicitário. Após tantas revisões – seja no cinema ou em casa -, preservo a mesma admiração que tive por Ponto Zero desde a primeira vez que o vi. É mesmo um OVNI no cinema nacional, conforme definiu o crítico Luiz Carlos Merten, o que considero um dos maiores elogios que um filme pode receber. Ao conjugar um apuro estético admirável (e o mais importante: sempre a serviço da narrativa) e uma história tão aberta a reflexões (para mim, sempre será sobre até que ponto podemos aguentar certos pesos e como é muito íntima e pessoal a difícil viagem rumo a libertação deles), José Pedro Goulart realiza um trabalho que é difícil comparar a qualquer outro realizado em nosso cinema nos últimos tempos. Desde já, o cineasta desperta muita, mas muita curiosidade para o seu próximo filme. Ainda disputavam a categoria: Kleber Mendonça Filho (Aquarius), Paul Verhoeven (Elle), Robert Eggers (A Bruxa) e Todd Haynes (Carol).

EM ANOS ANTERIORES: 2015 – George Miller (Mad Max: Estrada da Fúria) | 2014 – David Fincher (Garota Exemplar) | 2013 – Alfonso Cuarón (Gravidade) | 2012 – Leos Carax (Holy Motors) | 2011 – Darren Aronofsky (Cisne Negro| 2010 – Christopher Nolan (A Origem| 2009 – Danny Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário?| 2008 – Paul Thomas Anderson (Sangue Negro| 2007 – Alejandro González Iñárritu (Babel)