Cinema e Argumento

Comentando os indicados ao Emmy 2017

Westworld lidera a lista de indicados ao Emmy 2017, divulgada hoje em Los Angeles. Cerimônia de premiação acontecerá no dia 17 de setembro.

Breves pitacos sobre os indicados ao Emmy 2017:

– A quantidade de indicados precisa ser revista urgentemente. Tudo bem que a produção de séries vive um grande momento, mas praticamente todas as categorias principais chegarem a quase sete indicados parece diluir a relevância de uma indicação. Nesse sentido, sou bastante tradicional: voto pelos cinco nomes por categoria!

– Westworld realmente veio para compensar a ausência de Game of Thrones, que não pôde concorrer por ainda não ter exibido os episódios da nova temporada. Tem indicação por todos os cantos, especialmente nas interpretações: Anthony Hopkins, Evan Rachel Wood, Thandie Newton, Jeffrey Wright… Manteve a tradição da HBO de conseguir sempre colocar pelo menos uma série por ano na categoria principal desde A Família Soprano.

– Modern Family é uma série simpática que se repete infinitamente, mas não vou ficar reforçando o quanto seu tempo já passou, e sim lamentar o fato de ela ainda concorrer após sete temporada quando Transparent, um primor de direção, roteiro e elenco, não figura mais na categoria de melhor série de comédia mesmo com sete indicadas. Também não recebeu uma indicação sequer a roteiro e direção. Pelo menos tiveram o bom senso de continuar lembrando de Jeffrey Tambor e Judith Light (ela em seu momento mais iluminado), além de terem acordado para vida ao conceder uma indicação para a grande Kathryn Hahn, uma das atrizes mais interessantes e subestimadas do elenco.

– O gigante sucesso de crítica não foi o suficiente para o Emmy finalmente reconhecer todo o brilhantismo de The Leftovers. A série, que exibiu sua temporada final este ano, conseguiu uma merecida indicação de atriz convidada para a sempre ótima Ann Dowd, mas merecia muito mais: uma seleção digna indicaria, no mínimo, boa parte do elenco. Claramente é uma série que vai ganhar o reconhecimento mais importante de todos: o do tempo.

– Ainda entre as ausências, é um absurdo o total esquecimento da belíssima The Young Pope, outro grande evento da televisão em 2017. A única explicação plausível é realmente não terem visto a minissérie, que tem elenco formidável (é crime ver Jude Law de fora por esse que é o melhor desempenho de sua carreira!) e técnica irrepreensível. Sem falar que o texto é potente do ponto de vista emocional e temático.

– Já pontuei muitas vezes que não me entusiasmo nadinha com Big Little Lies. Sei que sou um estranho no ninho, e por isso não reclamo muito das indicações da minissérie (pelo contrário, até vibro com a lembrança de Laura Dern como coadjuvante). Agora, o que não dá para engolir é Alexander Skarsgard concorrendo como coadjuvante. E a culpa nem é do ator: seu personagem é tão unidimensional, rasteiro e desinteressante que ele nem tinha muito o que fazer ali. No mais, há de se questionar a indicação para Shailene Woodley, que entrou na turma dos golpes e submeteu sua interpretação como coadjuvante quando, na verdade, é indiscutivelmente protagonista.

– Nenhuma categoria é mais emblemática que a de atriz em minissérie. Com exceção das meninas de Big Little Lies (Reese Witherspoon começa muito bem, mas murcha ao longo da temporada, enquanto Nicole Kidman começa a ter seus bons momentos lá pela metade), sou fã de carteirinha das outras quatro: tanto Jessica Lange quanto Susan Sarandon são inesquecíveis ao longo de todos os episódios de Feud, Felicity Huffman novamente mostra em American Crime como é boa atriz (e o quanto deveriam dar mais atenção para ela!) e Carrie Coon é um talento notável em ascensão (concorre por Fargo, que não vi, mas, caso siga o nível de The Leftovers, já é o suficiente para merecer uma vitória).

– Se existe produção que tem todas indicações no seu devido lugar, essa é Feud: Bette and Joan. Do elenco, seis atores concorrem (o recorde na categoria de minissérie este ano). Também tem indicações a direção e roteiro para o excelente episódio que remonta o Oscar de 1963. Com The Young Pope de fora, Feud tem todo meu coração na disputa desse ano, em todas as categorias.

Confira os indicados nas categorias principais de drama, comédia e minissérie/telefilme:

MELHOR SÉRIE DRAMA
Better Call Saul
The Crown

The Handmaid’s Tale
House of Cards
Stranger Things
This is Us
Westworld

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DRAMA
Viola Davis (How to Get Away with Murder)
Claire Foy (The Crown)
Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
Keri Russel (The Americans)
Evan Rachel Wood (Westworld)
Robin Wright (House of Cards)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DRAMA
Sterling K. Brown (This is Us)
Anthony Hopkins (Westworld)
Bob Odenkirk (Better Call Saul)
Matthew Rhys (The Americans)
Liev Schreiber (Ray Donovan)
Kevin Spacey (House of Cards)
Milo Ventimiglia (This is Us)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DRAMA
Uzo Aduba (Orange is the New Black)
Millie Bobby Brown (Stranger Things)
Ann Dowd (The Handmaid’s Tale)
Samira Wiley (The Handmaid’s Tale)
Chrissy Metz (This is Us)
Thandie Newton (Westworld)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DRAMA
Jonathan Banks (Better Call Saul)
Michael Kelly (House of Cards)
John Lithgow (The Crown)
Mandy Patinkin (Homeland)
David Harbour (Stranger Things)
Ron Cephas Jones (This is Us)

MELHOR SÉRIE COMÉDIA
Atlanta
Black-ish
Master of None
Modern Family
Silicon Valley
Unbreakable Kimmy Schmidt
Veep

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE COMÉDIA
Pamela Adlon (Better Things)
Jane Fonda (Grace & Frankie)
Allison Janney (Mom)
Ellie Kemper (Unbreakable Kimmy Schmidt)
Julia Louis-Dreyfus (Veep)
Tracee Ellis Ross (Black-ish)
Lily Tomlin (Grace & Frankie)

MELHOR ATOR EM SÉRIE COMÉDIA
Anthony Anderson (Black-ish)
Aziz Ansari (Master of None)
Zach Galifianakis (Baskets)
Donald Glover (Atlanta)
William H. Macy (Shameless)
Jeffrey Tambor (Transparent)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE COMÉDIA
Leslie Jones (Saturday Night Live)
Kate McKinner (Saturday Night Live)
Vanessa Bayer (Saturday Night Live)
Kathryn Hahn (Transparent)
Judith Light (Transparent)
Anna Chlumsky (Veep)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE COMÉDIA
Louie Anderson (Baskets)
Ty Burrell (Modern Family)
Alec Baldwin (Saturday Night Live)
Tituss Burgess (Unbreakable Kimmy Schmidt)
Tony Hale (Veep)
Matt Walsh (Veep)

MELHOR MINISSÉRIE
Big Little Lies
Fargo
Feud: Bette and Joan
Genius
The Night Of

MELHOR TELEFILME
Black Mirror: “San Junipero”
Dolly Parton’s Christmas of Many Colors: Circle of Love
Sherlock: “The Lying Detective”
The Immortal Life of Henrietta Lacks
The Wizard of Lies

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Carrie Coon (Fargo)
Felicity Huffman (American Crime)
Jessica Lange (Feud: Bette and Joan)
Nicole Kidman (Big Little Lies)
Reese Whitherspoon (Big Little Lies)
Susan Sarandon (Feud: Bette and Joan)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Riz Ahmed (The Night Of)
Benedict Cumberbatch (Sherlock: “The Lying Detective”)
Robert DeNiro (The Wizard of Lies)
Ewan McGregor (Fargo)
Geoffrey Rush (Genius)
John Turturro (The Night Of)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Regina King (American Crime)
Shailene Woodley (Big Little Lies)
Laura Dern (Big Little Lies)
Judy Davis (Feud: Bette and Joan)
Jackie Hoffman (Feud: Bette and Joan)
Michelle Pfeiffer (The Wizard of Lies)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE TELEFILME
Alexander Sarsgard (Big Little Lies)
David Thewlis (Fargo)
Alfred Molina (Feud: Bette and Joan)
Stanley Tucci (Feud: Bette and Joan)
Bill Camp (The Night Of)
Michael Kenneth Williams (The Night Of)

45º Festival de Cinema de Gramado #2: filmes concorrentes e homenagens

Seleção de longas-metragens brasileiros do 45º Festival de Cinema de Gramado traz O Matador, primeiro filme Original Netflix produzido no Brasil.

Julgando pelos títulos selecionados para a mostra competitiva de longas-metragens brasileiros, o Festival de Cinema de Gramado tem tudo para fazer uma festa à altura de seus 45 anos. Formada inteiramente por títulos inéditos, a seleção traz estreias mundiais (A Fera na SelvaBioO Matador) e outras obras brasileiras que, até então, viajaram apenas por festivais internacionais (Pela JanelaNão Devore Meu Coração!As Duas IrenesComo Nossos Pais). É uma lista de respeito para um evento que, em 2017, mostrou ser a tela preferida tanto de veteranos diretores quanto de novos realizadores.

Mais do que isso, o evento reflete tendências mundiais: a discussão instalada em Cannes sobre a exibição de Okja, um filme produzido originalmente para Netflix, agora desembarca na Serra Gaúcha, pois é em Gramado que será realizada a primeira exibição de O Matador, o primeiro filme Original Netflix produzido no Brasil. Já entre os longas latinos, um recorde: dez países têm sua cinematografia representada na mostra. Para quem gosta das homenagens, o quarteto de 2017 é formado por Dira Paes (troféu Oscarito), Otto Guerra (troféu Eduardo Abelin), Soledad Villamil (Kikito de Cristal) e Antônio Pitanga (troféu Cidade de Gramado).

Agora só esperando o evento para saber se, na prática, ele será tão grandioso quanto promete. Confira abaixo, a lista de filmes selecionados em todas as categorias do 45º Festival de Cinema de Gramado:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
A Fera na Selva (RJ), de Paulo Betti, Eliane Giardini e Lauro Escorel

As Duas Irenes (SP), de Fábio Meira
Bio (RS), de Carlos Gerbase
Como Nossos Pais (SP), de Laís Bodanzky
O Matador (PE), de Marcelo Galvão
Não Devore Meu Coração! (RJ), de Felipe Bragança
Pela Janela (Brasil/Argentina), de Caroline Leone

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
Los Niños (Chile/Colômbia/Holanda/França), de Maite Alberdi

Pinamar (Argentina), de Federico Godfrid
El Sereno (Uruguai), de Oscar Estévez & Joaquín Mauad
Sinfonía para Ana (Argentina), de Virna Molina e Ernesto Ardito
El Sonido de las Cosas (Costa Rica), de Ariel Escalante
La Ultima Tarde (Peru), de Joel Calero
X500 (Colômbia/Canadá/México), de Juan Andrés Arango

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
#feique (RJ), de Alexandre Mandarino

A Gis (SP), de Thiago Carvalhaes
Cabelo Bom (RJ), de Swahili Vidal
Caminho dos Gigantes (SP), de Alois Di Leo
Mãe dos Monstros (RS), de Julia Zanin de Paula
Médico de Monstro (SP), de Gustavo Teixeira
O Espírito do Bosque (SP), de Carla Saavedra Brychcy
O Quebra-cabeça de Sara (RJ), de Allan Ribeiro
O Violeiro Fantasma (GO), de Wesley Rodrigues
Objeto/Sujeito (SP), de Bruno Autran
Postergados (SP), de Carolina Markowicz
Sal (SP), de Diego Freitas
Tailor (RJ), de Calí dos Anjos
Telentrega (RS), de Roberto Burd

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (Prêmio Assembleia Legislativa)
10 Segundos (Canoas), de Thiago Massimino

1947 (Porto Alegre), de Giordano Gio
Através de Ti (Santa Cruz do Sul), de Diego Tafarel
Bicha Camelô (Pelotas), de Wagner Previtali
Cores de Bissau (Porto Alegre), de Maurício Canterle
Gestos (Porto Alegre), de Alberto Goldim e Júlia Cazarré
Kátharsis (Caxias do Sul), de Mirela Kruel
Luna 13 (Porto Alegre), de Filipe Barros
Mãe dos Monstros (Porto Alegre), de Julia Zanin de Paula
Secundas (Porto Alegre), de Cacá Nazario
Sena, Os Fios em Prosa (Porto Alegre), de Marcelo da Rosa Costa e Cacá Sena
Sob Águas Claras e Inocentes (Porto Alegre), de Emiliano Cunha
Solito (Porto Alegre), de Eduardo Reis
Telentrega (Porto Alegre), de Roberto Burd

Rapidamente: “Laerte-se”, “Loving”, “Other People” e “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”

Disponível no catálogo da Netflix, Other People fez sua estreia no Festival de Sundance e chegou a vencer o Independent Spirit Awards de melhor atriz coadjuvante para Molly Shannon.

LAERTE-SE (idem, 2017, de Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva): É realizado quase de forma caseira esse documentário extremamente singelo que se engrandece, na verdade, em função de sua personagem, a cartunista Laerte. Colaboradora de importantes publicações brasileiras como Istoé, Folha de São Paulo e Estadão, Laerte, homem até então, colocou a transexualidade em pauta quando, no ano de 2004, assumiu a sua identidade feminina publicamente, tornando-se uma figura fundamental no ativismo desse tema que, até hoje, é tão renegado pela sociedade. O filme lança um olhar para o mundo particular de Laerte ao discutir desde os efeitos que a morte precoce do filho em um acidente de carro trouxe para sua vida a tudo o que observa e pensa em relação ao conturbado momento político do Brasil. Claro que o desabrochar público da identidade feminina e a própria homossexualidade de Laerte ocupam boa parte do documentário dirigido de forma muito jornalística por Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva, mas Laerte-se tem o mérito tornar a personagem uma figura próxima do espectador justamente por contemplá-la como um todo, e não pela mera curiosidade de sua identidade sexual. Afinal, Laerte tem muito mais a dizer: sensível, inteligente e de grande retidão de caráter, ela realmente é maior do que o próprio documentário (o primeiro produzido originalmente pela Netflix no Brasil), especialmente ao abrir mão de qualquer vaidade para (literalmente) se desnudar frente às câmeras.  

LOVING: UMA HISTÓRIA DE AMOR (Loving, 2016, de Jeff Nichols): O que o casal Richard (Joel Edgerton) e Mildred Loving (Ruth Negga) viveu nos anos 1960 foi realmente barra pesada: ele, branco, e ela, negra, travaram uma batalha legal contra o estado de Virginia, nos Estados Unidos, quando decidiram se casar. Naquela época, o casamento interracial era proibido por lei e, até conseguirem provar nos tribunais que tal lei era inconstitucional, sofreram perseguições diárias por todos os lados imagináveis. O material era riquíssimo para um filme impactante e grandioso, mas Loving: Uma História de Amor não está à altura do pioneirismo de seus personagens. É compreensível a decisão do diretor Jeff Nichols de comandar o relato com uma pegada mais branda, o que imediatamente o livra de qualquer estereótipo ou do risco de cair na tentação da panfletagem. No entanto, a baixa fervura não traz impacto ou emoção: toda e qualquer reflexão trazida por Loving vem da história em si e não necessariamente do filme que, arrastado e beirando o monótono, não consegue nem engrandecer o desempenho quase monocórdico de Ruth Negga, que, de última hora, chegou até a disputar o Oscar 2017 de melhor atriz. O relato é importante, o filme tem boas intenções e todo o projeto as trabalha com os conceitos certos, mas Nichols, ao contrário do que realizou em O Abrigo, jamais faz com que Loving, de alguma forma, maximize toda sua discrição e sobriedade. 

OTHER PEOPLE (idem, 2016, de Chris Kelly): A quantidade de conflitos dramáticos poderia facilmente fazer com que um diretor de mão pesada transformasse Other People em um verdadeiro dramalhão. Felizmente, com a experiência do diretor Chris Kelly como roteirista (até agora, já são seis indicações ao Emmy de roteiro pelo programa Saturday Night Live), esse filme que estreou no Festival de Sundance em 2016 jamais descamba para o melodrama. Ao invés disso, Other People trilha o caminho da sobriedade e da ideia de que, muitas vezes, a vida por si só já é o suficiente para ficção. Reproduzindo aquela que é melhor característica do cinema norte-americano independente (a capacidade de dosar, com muita refinação, o drama e a comédia), o filme não fala sobre câncer, homossexualidade, relacionamentos falidos e carreiras profissionais com qualquer desespero ou afetação, o que é uma sábia decisão. Parte fundamental desse acerto se amplia na personalidade do protagonista David (Jesse Plemons), um roteirista gay que, ao ter que voltar para casa com o objetivo de ajudar no tratamento da mãe enferma, se vê impossibilitado de falar sobre as próprias angústias com a família porque o pai não aceita a sua homossexualidade mesmo depois de nove anos e a mãe enfrenta um tipo raro de câncer. A emoção de Other People, seja ela relacionada ao drama ou à comédia, é muito bem regulada, especialmente em função do impecável elenco, cujo maior destaque é a ótima Molly Shannon, que brilha não somente por ser a personagem que faz quimioterapia ou raspa cabeça, mas por, assim como o filme em si, encontrar total força na delicadeza dos pequenos momentos. 

A VIDA IMORTAL DE HENRIETTA LACKS (The Immortal Life of Henrietta Lacks, 2017, de George C. Wolfe): Depois de uma superestimada aparição no péssimo O Mordomo da Casa Branca e de um pequeno papel em Selma: Uma Luta Pela Igualdade, Oprah Winfrey finalmente tem uma chance à altura de sua presença em A Vida Imortal de Henrietta Lacks, filme produzido pela HBO que, desde já, coloca Oprah entre as favoritas para conseguir uma vaga na disputada categoria do Emmy 2017 de melhor atriz em telefilme/minissérie. Ao contrário do que o título pode indicar, ela não interpreta Henrietta Lacks, mulher negra que, entre a década de 1940 e 1950 descobriu ter um tumor cervical cujas células produziam metástases anormalmente rápidas e se reproduziam infinitamente. Oprah, na verdade, dá vida à Deborah, filhe de Henrietta, que, buscando justiça pela mãe, cujas células foram usadas pela medicina no estudo pioneiro de doenças como a AIDS e a tuberculose sem consentimento algum, seja moral ou financeiro da família, é procurada por uma jornalista (Rose Byrne) que deseja fazer justiça à história de sua mãe através de um livro que está escrevendo. A história é verídica e, apesar de eventuais caricaturas e leituras muitos simplistas, retrata a vida de Henrietta pelo eficiente ponto de vista que adota: o da busca traçada por Deborah ao lado da jornalista. É a partir da palavra dos outros que descobrimos quem foi a personagem-título, o que se revela um relato muito mais carinhoso e respeitoso. É também o melhor momento de Oprah em anos, principalmente porque ela vence um desafio dificílimo: o de fugir de sua persona forte e marcante para criar uma personagem crível, que, apesar da total instabilidade emocional, conquista nossa torcida e até nos comove.

Okja

And most importantly… They need to taste fucking good!

Direção: Bong Joon-ho

Roteiro: Bong Joon-ho e Jon Ronson, baseado em história de Bong Joon-ho

Elenco: Seo-Hyun Ahn, Tilda Swinton, Paul Dano, Jake Gyllenhaal, Giancarlo Esposito, Lily Collins, Byun Hee-Bong, Jungeun Lee, Steven Yeun, Shirley Henderson, Devon Bostick, Jose Carias

EUA/Coréia do Sul, 2017, Drama/Aventura, 118 minutos

Sinopse: Nova York, 2007. Lucy Mirando (Tilda Swinton), a CEO de uma poderosa empresa, apresenta ao mundo uma nova espécie animal que foi descoberta no Chile. Apelidada de “super porco”, ela é cuidada em laboratório e tem 26 animais enviados para países distintos, de forma que cada fazenda que o receba possa apresentá-lo à sua própria cultura local. A ideia é que os animais permaneçam espalhados ao redor do planeta por 10 anos, sendo que após este período participarão de um concurso que escolherá o melhor super porco. Uma década depois, a jovem Mija (Seo-Hyun Ahn) convive desde a infância com Okja, o super porco fêmea criado pelo avô. Prestes a perdê-la devido à proximidade do concurso, Mija decide lutar para ficar ao lado dela, custe o que custar. (Adoro Cinema)

Quando meio mundo resolveu alimentar a mal interpretada polêmica de que Okja, um filme produzido originalmente pela Netflix e sem lançamento previsto para as telas de cinema, talvez não devesse integrar a mostra competitiva no Festival de Cannes por não ser uma obra pensada para a tela grande, a atriz Tilda Swinton deu o argumento definitivo para encerrar qualquer discussão: nem todo filme que ganha as telas da Riviera Francesa durante o célebre evento chegam aos cinemas mundiais, o que, na realidade, deveria fazer com que o público fosse grato à Netflix por disponibilizar Okja menos de dois meses após a premiação de Cannes e ao alcance de um clique. Tilda está certíssima, mas prefiro levar a discussão também para o plano criativo: como espectador, é mais gratificante ver, nem que seja em casa, um filme onde o resultado final é fiel ao que foi idealizado no papel do que conferir, na sala de cinema, uma obra que, para ganhar distribuição de grandes dimensões, precisou ser transformada e reconfigurada por uma série de produtores mais preocupados em garantir a bilheteria do que dar vida a um projeto autoral. Por isso – e pelo argumento de Tilda, claro – é tão bom ver Okja levando o selo da Netflix, uma vez que, para viajar o mundo nas telonas, o filme do sul-coreano Bong Joon-ho certamente passaria por uma série de modificações que, sem dúvida, não foram solicitadas pela plataforma on demand.  

Com uma clara denúncia em pauta (às vezes até explícita e didática demais, diga-se de passagem), Okja reafirma o talento de Bong Joon-ho de criar alegorias para falar sobre temas muito próximos da realidade. É bem provável que o pouco visto Expresso do Amanhã tenha naufragado comercialmente justamente por essa proposta de negar o óbvio e de não fazer apenas o entretenimento pelo entretenimento. A situação se repete com Okja, que, entre as tantas coisas que traz à tona, a última é ser uma mera história de monstro. A reflexão que a história faz em cima do abate animal na indústria alimentícia norteia o roteiro escrito por Joon-ho em parceria com Jon Ronson, cujo maior mérito reside na escolha do ponto de partida para a comovente denúncia. Inteligentemente, Okja opta por dispensar uma leitura macro da indústria para propôr um olhar muito mais íntimo. Ao acompanhar tudo pelo percepção da pequena Mija (Seo-Hyun Ahn), é muito mais fácil e natural se afeiçoar aos personagens, em especial ao super porco que, no terço final da projeção, terá protagonismo fundamental. É isso o que compensa o claro problema estrutural do texto que, no irregular segundo ato, se dilui em discursos fáceis, caricaturas um tanto descontroladas (o que também se estende ao elenco) e cenas perfeitamente dispensáveis. 

Ao retomar a abordagem particular de sua protagonista e o quão fundamental é para ela salvar a vida do animal que lhe acompanha há tantos anos, Okja recupera a força emocional perdida em seu miolo. Aliás, ela só é ampliada na medida em que o filme se encaminha para os momentos derradeiros, já que a crítica em relação ao modo ostensivo como o mundo industrializado é impiedoso com os animais se torna muito mais comovente visto todo o laço emocional que criamos com os personagens. Do ponto de vista técnico, o longa é de uma eficiência envolvente e funcional: dos dias desbravando as montanhas da Coreia às eletrizantes perseguições em movimentadas rodovias dos Estados Unidos, Okja impressiona pela qualidade com que torna cada situação crível, sem que o super porco pareça artificial esteticamente ou incoerente com o mundo real. A fotografia de Darius Khondji, que já trabalhou com diretores do calibre de Woody Allen, David Fincher, Michael Haneke e Wong Kar-Wai, ainda cria com precisão o tom bucólico das montanhas coreanas ao passo em que rebusca a sujeira e a palidez de uma Nova York sem alma. Em seu melhor, Okja é uma contundente reflexão que poderá comover até o mais carnívoro dos espectadores. E, no final das contas, o fato do filme ter sido concebido ou não para a tela grande é o que menos interessa.

Agora tem canal do Cinema e Argumento no Youtube!

Não só como usuário da internet, mas também como jornalista, percebo que é um caminho sem volta: ter um canal no Youtube se revela hoje uma alternativa fundamental para produtores de conteúdo. Com a crise dos meios de comunicação tradicionais, essa é uma lógica que faz cada vez mais sentido. Entretanto, a razão do Cinema e Argumento migrar agora também para o Youtube vai muito além dessa perspectiva: já não é de hoje que invejo, por exemplo, a forma como a jornalista Isabela Boscov (a pioneira na ideia de fazer crítica de cinema em vídeo no Brasil, vale lembrar) faz toda a função parecer fácil, natural e extremamente prazerosa. Pois agora resolvi me aventurar na profissão Youtuber e queria compartilhar com vocês tal experiência.

Deixo abaixo, então, os dois vídeos produzidos até agora para o canal do Cinema e Argumento que, a priori, busca dar destaque para filmes que normalmente não recebem o mesmo destaque que Mulher-Maravilha, por exemplo, em uma infinidade de canais. Vale tudo: filme novo e antigo, produção para o cinema ou para TV e o que mais vier na telha. Enfim, tudo o que achar interessante para compartilhar com vocês vai estar lá. Nessa primeira leva, os comentários são para os filmes Duas Estranhas – História de Mãe e Filha, longa de 1979 estrelado por Bette Davis e Gena Rowlads, e o recente telefilme A Vida Imortal de Henrietta Lacks, produzido pela HBO com Oprah Winfrey encabeçando o elenco junto a Rose Byrne. Espero que gostem!

45º Festival de Cinema de Gramado #1: ícone da animação gaúcha, Otto Guerra recebe o troféu Eduardo Abelin

É impossível falar de animação no Brasil sem citar o nome de Otto Guerra, que, há mais de 40 anos, trabalha com o gênero tanto em narrativas ficcionais quanto na publicidade. Levam a assinatura dele animações como Wood & Stock: Sexo, Orégano & Rock ‘n’ RollAté Que a Sbórnia nos Separe, que se destacam pela composição adulta, crítica e excêntrica, algo raro de se encontrar no cinema desse estilo no Brasil. Já tive a oportunidade de entrevistar Otto um punhado de vezes e até de lançar o Sbórnia aqui no Rio Grande do Sul como assessor de imprensa na Pauta – Conexão e Conteúdo, mas a alegria agora é vê-lo sendo merecidamente homenageado pelo Festival de Cinema de Gramado, onde já foi vitorioso com seis de seus trabalhos entre curtas e longas-metragens, como Nave Mãe, NovelaAs CobrasAbaixo, reproduzo a entrevista oficial com Otto que produzi novamente trabalhando na Pauta para divulgação do Festival, onde marcarei presença pelo sexto ano consecutivo. Espero que gostem e, claro, acompanhem as futuras novidades desse evento que tenho tanta satisfação de fazer parte!

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VIDA ANIMADA

O cineasta e animador gaúcho Otto Guerra diz ser uma vítima da animação. “Quando estamos na adolescência, a sociedade nos cobra e a família nos pressiona. Tudo é sobre fazer dinheiro, mas eu nunca quis fazer concessões. Quando desenho, o mundo se transfere para dentro do meu trabalho, é uma coisa mágica. Fui uma vítima disso, não tive escolha”, conta. A consciência de que a animação seria um caminho sem volta veio aos 13 anos, durante uma viagem à cidade de Torres, no litoral gaúcho, quando Otto Guerra entrou pela primeira vez em contato com o trabalho de Hergé, o renomado autor de célebres quadrinhos como “As Aventuras de Tintim”. “Eu era um jovem, no litoral do Rio Grande do Sul, lendo uma revista portuguesa com quadrinhos de um cara belga. Foi aí que eu pensei: então isso existe mesmo! Não é loucura minha! É possível desenhar e chegar até as pessoas!”, lembra Otto.

Dali até o início da busca por uma carreira profissional foi um pulo. Aos 18 anos, já convencido de que esse era seu destino, Otto estava em São Paulo com quadrinhos de autoria própria embaixo do braço para bater na porta de editoras que pudessem se interessar por seu trabalho. A publicação nunca aconteceu, mas, dois anos depois de suas primeiras investidas no ramo, ele se deparou com a possibilidade de trabalhar com animações em produções audiovisuais. “Fiz um curso com um produtor argentino e, de repente, aprendi a fazer tudo. Eu falava com cliente, pensava o som, animava, fazia storyboard, direção de arte. Foi extremamente libertador descobrir que era possível viver pelas minhas próprias mãos, muito em função do trabalho realizado com a publicidade”, conta.

Muito maior do que qualquer estapafúrdia imaginação

Em termos criativos, o cineasta brinca que trabalhar com publicidade é ter que “vender a alma ao diabo e apenas desenhar personagens felizes, sorridentes, pasteurizados e coloridos”, mas também defende a ideia de que esse é um ramo necessário para se manter financeiramente no mercado. Aliás, foi com o dinheiro que ganhou fazendo publicidade ao longo de seis anos no início da carreira que o gaúcho comprou o seu primeiro equipamento 35mm para ter os filmes em bitola profissional e conseguir se equiparar à concorrência. Se a conquista do equipamento 35mm marcou a entrada definitiva da Otto Desenhos Animados no mercado há mais de 40 anos, a exibição de “O Natal do Burrinho” no Festival de Cinema de Gramado de 1984 abriu “uma janela do nosso trabalho para o mundo”, conforme cita o homenageado. “O que aconteceu em Gramado foi muito maior do que qualquer estapafúrdia imaginação. Fui de Madri a Havana para exibir o filme por causa daquela sessão e, desde então, sempre priorizei esse evento que, durante muito tempo, foi o único ponto de partida de muitos cineastas do Rio Grande do Sul. Muita coisa aconteceu ao longo desse tempo, sem falar que hoje os festivais de cinema se multiplicaram no Brasil, mas sempre quis que Gramado fosse a primeira janela dos filmes que produzi”, defende.

A busca pelo feijão com arroz

A partir das evoluções tecnológicas, Otto Guerra observa um incremento do número de animadores no Brasil, mas afirma que a expressividade da produção brasileira no gênero ainda é incipiente. “Hoje qualquer pessoa pode pegar uma imagem ou um filme da Disney e esmiuçar, ver com o microscópio como funciona, mas animação também é saber sobre atuação, música, física, filosofia, geografia, história. Os processos também são muito relativos: em um dia, é possível fazer 10 segundos de animação se um estúdio dispõe um milhão de dólares. Agora, se a animação é feita por apenas uma pessoa, é preciso um mês para produzir um minuto de uma animação mediana”, contextualiza.

Para Otto, também não é fácil fazer o que dizem ser o “feijão com arroz” das animações de grandes estúdios como Disney, Pixar e Dreamworks: “Para chegar nessa fórmula, eles demoraram 100 anos, passando por várias tecnologias e gerações. 100 anos! Eles são geniais! Eu sigo tentando fazer esse feijão com arroz!”. Pensando em um panorama mundial, ele prefere não elencar os países que melhor produzem animações. “Cada lugar tem a sua cultura: existe tradição no leste europeu, o [Hayao] Miyazaki faz coisas lindas no Japão, os canadenses trabalham outra vertente e por aí vai… Mas, na verdade, é difícil falar sobre características porque todos os humanos copiam. Ninguém é original. Basta pensarmos na língua que falamos. Nem ela é nossa! Nós nos apropriamos dela!”.

O quarto de infância de um jovem guri velho

Encarando cada filme de animação que realiza como um filho diferente (“talvez fazendo essa comparação as pessoas entendam o quanto eles são importantes pra nós!”), Otto Guerra hoje pode dizer que o patamar alcançado pela animação brasileira nos últimos anos se mistura com a sua própria trajetória. Seu último longa-metragem, Até Que a Sbórnia nos Separe, além de ser exibido nos mais importantes festivais do gênero, como Annecy e Ottawa, teve uma exibição em Burbank, na Califórnia, na sala de cinema da Dreamworks, impressionando a plateia composta por profissionais com alto conhecimento na área. “Todos eles ficaram até o fim da sessão – o que é raro – e ainda vieram perguntar como chegamos naquele resultado! Mal sabem que nós nos inspiramos neles!”, se diverte.

Para um “jovem guri velho”, como o próprio Otto se intitula, todas essas conquistas não são apenas resultado de talento, trabalho e dedicação ao longo de mais de quatro décadas, mas, também, a pura e simples paixão de uma infância sem fim: “as crianças desenham por natureza, seja em papel ou na parede, mas param aos nove, dez anos de idade. Comigo foi diferente. Eu nunca parei. Pelo contrário: o estúdio em que eu trabalho é uma extensão do meu quarto de infância”.

Confira a filmografia dos filmes produzidos pela Otto Desenhos Animados:

2018 – A Cidade dos Piratas
2015 – Bruxarias
2014 – Castillo Y el Armado
2013 – A Pequena Vendedora de Fósforos
2013 – Até Que a Sbórnia nos Separe
2006 – Wood & Stock: Sexo, Orégano & Rock ‘n’ Roll
2004 – Nave Mãe
1997 – O Arraial
1994 – Rocky & Hudson
1992 – Novela
1989 – O Reino Azul
1986 – Treiler – A Última Tentativa
1985 – As Cobras
1984 – O Natal do Burrinho

Mulher-Maravilha

It’s about what you believe.

Direção: Patty Jenkins

Roteiro: Allan Heinberg, baseado em história dele próprio com Jason Fuchs e Zack Snyder e na personagem criada por William Moulton Marston

Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, David Thewlis, Elena Anaya, Robin Wright, Danny Huston, Connie Nielsen, Saïd Taghmaoui, Ewen Bremner, Lucy Davis, Lisa Loven Kongsli, Ann Ogbomo, Eugene Brave Rock

Wonder Woman, EUA, 2017, Aventura, 141 minutos

Sinopse: Treinada desde cedo para ser uma guerreira imbatível, Diana Prince (Gal Gadot) nunca saiu da paradisíaca ilha em que é reconhecida como princesa das Amazonas. Quando o piloto Steve Trevor (Chris Pine) se acidenta e cai numa praia do local, ela descobre que uma guerra sem precedentes está se espalhando pelo mundo e decide deixar seu lar certa de que pode parar o conflito. Lutando para acabar com todas as lutas, Diana percebe o alcance de seus poderes e sua verdadeira missão na Terra. (Adoro Cinema)

Não deixe ninguém dizer o contrário: é importante e altamente gratificante que Mulher-Maravilha, um filme protagonizado e dirigido por mulheres a partir de uma história em quadrinhos, tenha finalmente chegado aos cinemas. Em tempos que a representatividade é pauta cada vez mais prioritária na indústria do entretenimento, a configuração do projeto se apresenta, no mínimo, como um reflexo histórico e pioneiro não apenas da evolução de um gênero mais dominado por homens do que a média, mas até mesmo do próprio cinema. Por outro lado, também é preciso achar um meio termo e ponderar muita coisa: ainda que catártico em sua representatividade, Mulher-Maravilha é, em termos criativos, um filme de super-herói como qualquer outro, inclusive no que se refere a problemas e vícios. A diretora Patty Jenkins, que não trabalhava com cinema desde 2003, quando fez Monster – Desejo Assassino, lapida e reajusta o que quase 100% dos homens faria, como objetificar a personagem a partir da forma como são capturados os detalhes do figurino, mas ainda está claramente de mãos atadas ao lidar com um filme dessa dimensão e com um estúdio que a obriga a usar a mesma paleta de cores dessaturadas de sempre e a infinidade de cenas de ação em slow motion que o diretor Zack Snyder tanto “consagrou” em suas adaptações de quadrinhos.

Totalmente independente do ponto de vista emocional e sexual, a protagonista Diana (Gal Gadot) acredita que os homens podem muito bem servir apenas para reprodução, trilhando o seu próprio caminho sem depender de ninguém. Seja em alto-mar ou entre os disparos de uma batalha de exército, ela é o que pode existir de mais simbólico para toda uma geração que precisa se ver representada na tela grande – e, nesse sentido, é inspirador observar crianças segurando hoje uma boneca da personagem com um orgulho inconsciente que, durante décadas, foi simplesmente impossível para gerações anteriores. É essa personagem forte que dá uma tônica diferenciada para Mulher-Maravilha, onde a israelense Gal Gadot, apesar de suas evidentes limitações como atriz dramática, defende a personagem à altura do que ela merece, respondendo tanto ao empenho físico exigido por um filme como esse quanto à personalidade decidida e tão fundamental para que a produção funcione em termos de representatividade. Fotogênica, Gadot também é estonteante com sua inegável beleza que, graças ao fato do filme ter uma mulher na cadeira de direção, jamais se torna uma muleta narrativa. Se a protagonista impressiona, não é por ser linda, mas por tudo que é e simboliza como uma figura feminina independente, algo que intimida quase todo homem hétero na vida real. É realmente importante que Diana esteja na tela dessa forma e chegando a tantas pessoas em nível mundial.

Obviamente é injusto aumentar as exigências em torno de um filme dessa natureza só por ele ser dirigido e protagonizado por mulheres, mas também é preciso reconhecer que não é por ele se configurar dessa maneira que seja deselegante falar sobre seus problemas, especialmente quando o roteiro não corresponde à relevância da produção como um todo. Escrito por Allan Heinberg, que nunca nunca havia trabalho com cinema e tem apenas séries populares de TV na bagagem (The O.C.Sex and the CityGrey’s Anatomy), Mulher-Maravilha começa muitíssimo bem ao encenar a vida da protagonista em uma ilha habitada apenas por Amazonas. Quando faz com que Diana saia de lá para desbravar uma Inglaterra em plena guerra com a Alemanha, a situação desanda, reforçando a ideia de que presença da personagem é muito maior do que o filme em si. Há algo de pouco instigante na relação entre o universo da heroína e a vida real, o que resulta ou em piadas datadas (Diana confundindo uma lingerie com uma perigosa armadilha e perguntando o que significa a palavra secretária é algo que já vimos centenas de vezes até em comédias desastrosas de Tim Burton como Sombras da Noite) ou em meras caricaturas, a exemplo do maquiavélico e unidimensional ditador alemão de sotaque pesadíssimo que precisa ser combatido. Ainda é um problema que o roteiro demore tanto para fazer a protagonista viver a sua própria história e não a do espião Steve Trevor (Chris Pine), que, lá pelo miolo do filme, ocupa um espaço bastante desproporcional em termos de tempo e destaque. Inexperiência por inexperiência em roteiros para o cinema, por que não dar essa chance também a uma mulher?

De ação limpa (Diana sequer sofre um arranhão em inúmeros confrontos violentos), clímax atrapalhado como o de quase todos os filmes de herói (é sempre a mesma megalomania onde os personagem precisam apresentar tudo que é tipo de poder e artimanha) e até motivações duvidosas (o que impulsiona a protagonista a arranjar forças para derrotar o grande vilão do filme pode muito bem ser interpretado como uma decisão machista do roteiro), Mulher-Maravilha volta a trazer a reflexão de que, sim, queremos histórias contadas e protagonizadas por mulheres, negros, gays e todo tipo de parcela da sociedade que a indústria subestima, não reconhece ou ignora. Da mesma maneira, queremos também histórias sofisticadas, diferentes, bem contadas, pois uma coisa não exclui a outra. Em maior e menor grau, tivemos excelentes exemplares recentes que comprovam como isso é possível (o feminismo ferrenho de Mad Max: Estrada da Fúria ou a completa catarse de Moonlight: Sob a Luz do Luar pelo menos em seus dois primeiros capítulos), enquanto Mulher-Maravilha fica no meio do caminho, acertando demais ao construir a força e a personalidade de uma personagem que já se torna marcante, mas perdendo muitos pontos no rasteiro conceito que emula de diversos outros filmes de herói. São problemas que surgem no vácuo? Não. A origem é clara: a diretora Patty Jenkins dançou conforme a música do estúdio, que já deve ter considerado a ideia de colocar uma mulher na direção algo suficientemente ousado para um produto dessa magnitude, o que deve explicar também a escolha de um homem inexperiente em cinema para escrever o roteiro. De qualquer forma, o primeiro passo importante foi dado. Por ora, celebremos!

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