Cinema e Argumento

Fragmentado

The broken are the more evolved. Rejoice.

Direção: M. Night Shyamalan

Roteiro: M. Night Shyamalan

Elenco: Anya Taylor-Joy, James McAvoy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica Sula, Izzie Coffey, Brad William Henke, Sebastian Arcelus, Neal Huff, Robert Michael Kelly, M. Night Shyamalan

Split, EUA, 2016, Suspense, 117 minutos

Sinopse: Kevin (James McAvoy) possui 23 personalidades distintas e consegue alterná-las quimicamente em seu organismo apenas com a força do pensamento. Um dia, ele sequestra três adolescentes que encontra em um estacionamento. Vivendo em cativeiro, elas passam a conhecer as diferentes facetas de Kevin e precisam encontrar algum meio de escapar. (Adoro Cinema)

Se o diretor M. Night Shyamalan tem senso de humor e é tão inteligente quanto gosta de se proclamar, o título Fragmentado pode ser interpretado como uma referência a sua carreira de altos e baixos desde que ganhou o mundo e chegou a concorrer ao Oscar em seis categorias com o marcante O Sexto Sentido. Um dos cineastas mais mitológicos do início dos anos 2000, Shyamalan conquistou notoriedade internacional ao dirigir outras obras célebres como Corpo FechadoSinais, mas passou a despertar, de forma plenamente compreensível, a aversão do público naquela que é a derrocada artística mais lamentável já enfrentada por um diretor nas últimas décadas. O declínio não começou tão cedo como muitos apontam (A Vila, de 2004, é sim uma grande obra incompreendida), o que, claro, não amortece os crescentes fiascos criativos de Fim dos TemposO Último Mestre do Ar Depois da Terra. Já em 2015, com orçamento muito menor, escala de produção mais comedida e ambição criativa redimensionada, o diretor retorna com A Visita, filme que considero implausível em sua premissa mais básica, mas que, segundo a razoável recepção da crítica, injetava uma considerável dose de ânimo na carreira desse cineasta que parecia ter esgotado todo seu talento e desaprendido a construir suspenses minimamente instigantes.

Eis, então, a brincadeira que pode ser levantada a partir de uma suposta ironia do título Fragmentado: afinal, como é possível um diretor ter sido ao mesmo tempo tão inovador e desprezível ao longo de quase duas décadas prolíferas de trabalho? Pois a fragmentada carreira de Shyamalan tem tudo para, agora sim, ganhar novo gás: ao contrário de A Visita, Fragmentado apresenta muitos dos elementos que tornaram o cineasta um dos mais cultuados de sua geração. Dessa forma, mesmo que, em algumas passagens, faltem as sutilezas que tornaram, por exemplo, O Sexto Sentido uma aula sobre como esconder dos espectadores um segredo que esteve o tempo inteiro embaixo de seus narizes, é tempo de baixar a guarda: neste novo suspense estrelado por James McAvoy e pela revelação Anya Taylor-Joy, que estrelou o já marcante A Bruxa, Shyamalan, depois de muitos anos, cria uma experiência repleta de atmosfera e boas ideias. Talvez não seja a grande obra que todos esperam (é sempre assim: todos exigem o máximo de quem já fez o máximo, principalmente quando o profissional em questão tenta se reerguer de uma fase ruim), mas pense na hipótese: caso esse fosse o primeiro filme assinado pelo indiano, é bem provável que fosse reverenciado como a estreia promissora de um cineasta independente.

Com um cartaz que remonta a Corpo Fechado sem se limitar apenas a essa brincadeira comercial (quem conhece a carreira do diretor encontrará, no filme, outras brincadeiras referentes ao filme de 2000 estrelado por Bruce Willis), Fragmentado volta a apresentar um Shyamalan que, antes de criar a atmosfera básica de um filme do gênero, pensa bastante no embasamento dramático de seus personagens e na situação em que eles estão inseridos, o que, vale lembrar, foi uma das fórmulas do sucesso de O Sexto Sentido, que sobrepunha o drama ao suspense. Ao criar uma trama centrada em personagens com distúrbios mentais ou ao menos assombrados por passados traumáticos – enquanto Kevin (James McAvoy) tem 23 personalidades distintas, Casey (Anya Taylor-Joy) é a jovem estranha de uma turma que ainda enfrenta os fantasmas de uma infância conturbada -, o roteiro, além de delinear com competência o estofo dramático individual dos protagonistas, aos poucos converge para o caminho que torna o suspense de Fragmentado ainda mais envolvente: o processo de percepção de Casey acerca de como suas inadequações sociais, emocionais e semelhantes as de Kevin podem apontar para saída do cativeiro em que ele a mantém junto a outras duas colegas de escola.

Quando faltam sutilezas a Fragmentado é porque Shyamalan prefere criar, por exemplo, uma narrativa paralela de flashbacks para explicar o passado da jovem Casey ao invés de simplesmente trabalhá-lo a partir das interações estabelecidas por ela com as 23 personalidades do sequestrador. Além disso, são muito mais fascinantes as simbologias criadas dentro do cativeiro para falar sobre qualquer assunto, como o momento em que Casey, vindo de uma crescente esperança de fuga, se depara com um desenho feito pela personalidade infantil de Kevin. Metaforicamente, ali é revelada a lógica que a jovem precisa adotar para se desenvencilhar da situação: a saída não está, digamos, em uma janela, mas sim no poder da imaginação. Para não ambientar toda a trama de Fragmentado em um único lugar (isso exigiria um exercício muito mais complexo de roteiro, além de infinitas exigências do estúdio para comprar a ideia), o diretor expande sua história para o olhar de Karen Fletcher (Betty Buckley), a psiquiatra de Kevin. É uma forma de tornar a história mais dinâmica e, principalmente, de dar verossimilhança médica ao filme, que jamais se perde no grande número de facetas de Kevin (nem todas são de fato apresentadas na história) e introduz muito bem todo o processo interno do distúrbio mental em questão. O único defeito a ser levantado em relação a Fletcher é que, por mais que ela funcione como um personagem explicativo de vida própria (também são pinceladas informações sobre a vida da psiquiatra, que diz ter nos pacientes os filhos que preferiu não ter), Fragmentado se aproveita demais de sua figura para, no fim, tratá-la como uma coadjuvante qualquer. Fletcher merecia um desfecho mais condizente com seu tempo em cena e sua função narrativa.

Apoiando-se na imprevisibilidade de como é estar refém de um homem que, a qualquer momento, pode assumir até a personalidade de uma mulher para criar seu suspense, Fragmentado é mais do que um filme de sequestro porque compreende que o mérito desse tipo de história não está no sequestro ou na fuga em si, mas na relação entre sequestrado e sequestrador. No plano psicológico, Shyamalan leva seu mais novo trabalho a uma abordagem que, repleta de representações que merecem releituras, foge do lugar-comum e o livra de ter que cumprir o passo a passo de um filme do gênero. Beneficiados pelo retorno criativo de um diretor que parecia fadado a não acertar mais estão James McAvoy e Anya Taylor-Joy, ambos merecedores de elogios pontuais por suas interpretações. Ele, que assume inicialmente destinado Joaquin Phoenix, tem aqui um dos grandes momentos de uma carreira já conhecida por bons papeis (O Último Rei da EscóciaDesejo e ReparaçãoDois Lados do Amor, os novos X-Men), onde seu maior é certo é nunca cair na caricatura e sempre tornar críveis cada uma das personalidades do protagonista. Já Anya confirma a presença forte que tinha em A Bruxa ao ultrapassar todas as leituras fáceis da jovem excluída e problemática que, no fundo, tem mais a oferecer do que qualquer uma de suas colegas supostamente mais bonitas e interessantes. É com uma construção muito climática (se atentem ao envolvente trabalho de West Dylan Thordson na trilha sonora!) que M. Night Shyamalan coloca tudo isso em uma mistura que, finalmente, podemos considerar a responsável por novamente fazer dele um cineasta interessante. Se a crítica não concordar, pelo menos a Universal pode comemorar com os bolsos cheios: Fragmentado, até a data de publicação desse texto, já faturou 28 vezes mais do que seu orçamento de 9 milhões de dólares. 

Logan

So this is what it feels like…

Direção: James Mangold

Roteiro: James Mangold, Michael Green e Scott Frank, baseado em história de James Mangold

Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen, Boyd Holbrook, Stephen Merchant, Elizabeth Rodriguez, Richard E. Grant, Eriq La Salle, Elise Neal, Quincy Fouse, Reynaldo Gallegos

EUA, 2017, Ação/Drama, 137 minutos

Sinopse: Em 2029, Logan (Hugh Jackman) ganha a vida como chofer de limousine para cuidar do nonagenário Charles Xavier (Patrick Stewart). Debilitado fisicamente e esgotado emocionalmente, ele é procurado por Gabriela (Elizabeth Rodriguez), uma mexicana que precisa da ajuda do ex-X-Men para defender a pequena Laura Kinney / X-23 (Dafne Keen). Ao mesmo tempo em que se recusa a voltar à ativa, Logan é perseguido pelo mercenário Donald Pierce (Boyd Holbrook), interessado na menina. (Adoro Cinema)

Quando o diretor James Mangold recebeu carta branca para fazer Logan com classificação indicativa máxima, a conquista foi motivo de celebração, já que, muito além de poder realizar um filme com violência infinitamente mais gráfica, ele poderia contar uma história sem ter a obrigação de agradar a todo tipo de plateia. Com isso, foram escanteados a significativa quantidade de alívios cômicos tão inerentes aos blockbusters, a predileção pelo CGI em cenas de ação grandiosas e principalmente os arcos dramáticos perfeitamente previsíveis. Tudo isso já poderia por si só diferenciar o último longa-metragem de Wolverine estrelado por Hugh Jackman, mas o conceito foi muito além: melancólico e com tom de urgência, Logan é uma produção que surpreende por sua abordagem profundamente triste ao acompanhar os dias de um herói que, com um rosto envelhecido e cansado, precisa enfrentar, literal e metaforicamente, a maior batalha que todos nós também estamos fadados a enfrentar: aquela contra nós mesmos.

Décimo filme da franquia X-Men e o terceiro protagonizado por Wolverine, Logan varre para baixo do tapete todos os longas anteriores de seu universo ao demonstrar que não só aprendeu como atualizar um personagem que surgiu pela primeira vez nas telas há 17 anos como também observou atentamente as possibilidades pioneiras da trilogia Batman dirigida por Christopher Nolan de unir entretenimento com sofisticação narrativa. James Mangold, um diretor que faz tudo que é tipo de filme mantendo uma boa média de qualidade (Johnny & JuneIdentidade, Garota, Interrompida), dá um notável salto artístico em seu trabalho atrás das câmeras: entre Wolverine: Imortal Logan existe uma clara vontade de proporcionar uma experiência diferente, algo que ele mesmo confessa quando fala sobre o roteiro, que, segundo Mangold, traz inspirações de longas célebres (Os Brutos Também Amam, no sentido de realizar um quase faroeste para um protagonista que procura uma mudança de vida rumo a dias mais isolados e pacíficos) e outros contemporâneos (Pequena Miss Sunshine, evocado aqui na abordagem de um road movie que oscila entre a melancolia e o humor com uma criança e um senhor no banco traseiro). 

Sem qualquer vilão querendo dominar o mundo ou tramas repletas de engenhosidades descartáveis (o que não deixava de sabotar Christopher Nolan em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, por exemplo), Logan é comandado com uma crueza embasbacante. Se antes Wolverine usava suas garras para aniquilar inimigos quase sem derrubar uma gota sequer de sangue em cenas de lutas mirabolantes, aqui Mangold abraça o realismo ao pesar a mão na medida certa em sequências que realmente encenam a gravidade do combate físico e cujas acrobacias foram de fato performadas pelos atores ou por seus dublês. É um ganho tremendo para um filme com clima de despedida como esse, já que o protagonista, ao atravessar cenários áridos e inóspitos, surge abatido pela idade (ele usa até óculos para ler!) e por seu duro passado. Em Logan, os heróis são falíveis, o que de certa forma não deixa, no sentido positivo, de desclassificar o filme de James Mangold como um filme herói. Antes de mais nada, a história é sobre seres humanos, onde os pés estão bem firmados no chão, o que não quer dizer que toda a mitologia dos quadrinhos não esteja presente aqui. 

Encenado em 2029, mas renegando futurismos idealizados (pelo contrário: é seguida a lógica de que, talvez, a humanidade realmente não melhore com o passar das décadas), Logan cumpre com louvor a missão de fazer uma despedida ao mesmo tempo em que introduz, com muita organicidade, possibilidades para que o universo tenha possíveis sobrevidas a partir de novos personagens e situações. É meticuloso esse roteiro que, em termos de ação, se sustenta a partir de uma única perseguição para falar sobre o quanto certas jornadas podem realmente nos transformar. Afinal, é meio ilusório acreditar que até mesmo o mais poderoso dos super heróis passe por tantas mortes, despedidas e traumas sem carregar pelo menos algumas cicatrizes internas. Pois Logan/Wolverine se abala sim: desesperançoso ao ponto de descontar a raiva com a vida no próprio carro, o personagem, por trás de uma barba mal feita, das rugas que o tempo trouxe e das garras que não saem de suas mãos com a naturalidade de antes, já nem mesmo compreende mais o que é se conectar com o próximo – e, por isso, não é à toa que se torna poderoso, tanto para ele quanto para nós, um carinho aparentemente cotidiano, mas tão negado a nosso protagonista, ao final da trama.

Hugh Jackman, que segura o personagem como poucos atores que estrelam filmes baseados em quadrinhos, alcança, em Logan, o seu auge como Wolverine. É injusto, no entanto, reduzi-lo a apenas a essa comparação: depois de ter apresentado performances grandiosas nos últimos anos em filmes como Os MiseráveisOs Suspeitos, Jackman entrega uma atuação digna de ser reconhecida independente de gênero cinematográfico. O trabalho, que desde já está destinado a ser lembrado como um dos seus pontos altos como intérprete, ainda é complementado por outro ator em momento digno de aplausos: Patrick Stewart. O veterano finalmente tem a chance que tanto lhe era negada nos filmes anteriores da franquia e abraça por completo a proposta de ser um homem tão abalado e fadigado quanto o protagonista. Com ação visceral e discussões comoventes, Logan marca uma revolução no cinema derivado de adaptação de quadrinhos, mas sem nunca negar sua origem ao brincar com referências, falar novamente sobre a caça aos mutantes e apresentar personagens com novos poderes. As decisões artísticas funcionaram porque, somente nos Estados Unidos, Logan foi a maior estreia de um filme com classificação indicativa máxima, ocupando mais de 4 mil salas de cinema. Ou seja, em termos de crítica e público, o filme é um sucesso. E com toda razão.

Três atores, três filmes… com Iradilson Costa

iradilsontresFoi o show da banda britânica Keane, no Credicard Hall, em São Paulo, lá em meados de abril de 2013, que me apresentou ao agora amigo Iradilson Costa. Pela música, descobri que esse paraibano também é um grande fã de cinema, e hoje, depois de quase quatro anos, já tenho uma série de opiniões em comum com ele, mas o mais importante: mesmo na hora de discordar, a troca é sempre amigável e divertida. Quem dera todas as trocas de ideia se dessem dessa maneira na internet. Para a nossa coluna, Iradilson selecionou desempenhos de alto nível, indo do clássico ao contemporâneo. Enquanto a grande Vivien Leigh e a dupla Victor Moore e Beulah Bondi fazem sua estreia no rol de atores mencionados pelos nossos convidados em mais de 30 edições da coluna até aqui, Daniel Day-Lewis conquista agora um bicampeonato ao ser novamente lembrado por seu irrepreensível desempenho em Sangue Negro. Confiram!

Victor Moore & Beulah Bondi (A Cruz dos Anos)
A Cruz dos Anos foi citado pelo Orson Welles como o filme mais triste que ele conhecia. Jean Renoir e John Ford também admiravam demais este trabalho. Não é um exagero. O casal que protagoniza o filme, interpretados por Victor Moore e Beulah Bondi, faz um trabalho inesquecível, entregando cenas carregadas de emoção. Recordo que na época que vi o filme pela primeira vez eu quase obriguei alguns amigos a assistirem também. Recomendo muito, pois é paixão eterna pelo casal de idosos mais maravilhoso do cinema.

Daniel Day-Lewis (Sangue Negro)
Sangue Negro é um filme árido, seco e muito difícil de acompanhar. E essa aridez é perfeitamente casada à interpretação do Daniel Day-Lewis neste belíssimo longa. Desde os seus primeiros e silenciosos momentos até o final impressionante, Sangue Negro está em função do Day-Lewis. Seus olhares, o peso dos seus movimentos, seus gritos… Tudo é um triunfo. É digna de nota, também, a interação do Day-Lewis com o Paul Dano, que foi injustamente esquecido nas principais premiações daquela temporada.

Vivien Leigh (Uma Rua Chamada Pecado)
Minha relação com a peça Um Bonde Chamado Desejo é antiga. Elia Kazan torna o material do Tennessee Williams um filme intenso e tão bom quanto o material original. Vivien Leigh carrega com muita competência as nuances da sua personagem. Destaco também a interação com o também excelente Marlon Brando, que torna os embates mais intensos do filme em densos materiais de estudo sobre dramaturgia, cinema e adaptação.

“Crisis in Six Scenes” ou como Woody Allen realmente entrou em crise

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Woody Allen na frente e atrás das câmeras de Crisis in Six Scenes: o veterano nunca escondeu seu desconforto em ter que lidar com o desenvolvimento de um seriado, o que está evidente na tela.

Vocês imaginem um seriado criado, escrito e dirigido por Woody Allen. Melhor ainda: também encomendado pela Amazon, onde inexistem limitações criativas por se tratar de uma plataforma on demand que, claro, não depende de audiência ou anunciantes para tomar decisões autorais. A ideia parecia infalível, e Crisis in Six Scenes tinha tudo para ser um grande evento, mas, no final das contas, ninguém viu ou muito menos comentou o seriado de Woody, cineasta que já acumula quatro Oscars em uma carreira até hoje irrefreável. E para compreender como Crisis in Six Scenes se tornou um fracasso retumbante do ponto de vista artístico e de público, é preciso retroceder ao Globo de Ouro 2015, quando a Amazon se consagrou ao ver Transparent, sua produção de estreia, faturando a categoria de melhor série de comédia/musical.

No embalo da vitória, os executivos da Amazon anunciaram, logo no dia seguinte, que Woody Allen era a mais nova aquisição de seu portfólio. Uma jogada estratégica de divulgação que, em contrapartida, foi amortecida pelo veterano: logo após seu contrato se tornar público, Woody fez questão de declarar que não sabia onde estava com a cabeça quando aceitou a proposta e que tinha dúvidas sobre o quanto realmente poderia contribuir para a concepção de um seriado. Ou seja, feita a trancos e barrancos do ponto de vista de um criador que já não tinha nem certeza sobre o quanto o projeto poderia dar certo, Crisis in Six Scenes se tornou, de repente, fadada ao fracasso. E foi o que aconteceu: à época do lançamento, em setembro do ano passado, o diretor atestou que não volta para uma segunda temporada e que, enquanto estiver vivo, não aceita mais se envolver com produções dessa natureza.

Woody Allen está coberto de razão em fazer de Crisis in Six Scenes a sua única experiência em séries, uma vez que, para começo de conversa, o que menos existe no programa é, justamente, uma linguagem do formato. Não bastasse abrir o episódio-piloto com os créditos iniciais que são uma assinatura facilmente reconhecível de sua carreira no cinema, o diretor e roteirista simplesmente conta uma história que indiscutivelmente foi concebida para um filme que acabou picotado em seis partes. Isso está explícito na forma como Crisis in Six Scenes estrutura seus capítulos com pouquíssimas cenas, todas longas e extremamente verbais, jamais compreendendo que, sim, uma temporada precisa criar um arco para uma temporada, mas um episódio também precisa se sustentar por si só – e não acabar de maneira abrupta ou com alguma situação curiosa criada de última hora apenas para criar a falsa ilusão de conclusão.

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Miley Cyrus chamou a atenção de Woody Allen ainda nos tempos de Hannah Montana, mas sua escalação não se justifica: ela é apenas mais um detalhe da série que não dá certo.

Novamente em cena para fazer o velhinho neurótico e falante, Woody Allen aqui aqui é Sidney J. Munsinger, um escritor frustrado que, nunca reconhecido pelas obras que escreveu, resolve investir na ideia de criar um seriado para a TV. Até o dia em que surge Lennie Dale (Miley Cyrus), uma jovem revolucionária que, em plenos anos 1960, é procurada pela polícia por querer promover mudanças radicais no sistema estadunidense com, por exemplo, fabricação de bombas. Só que a jovem é de uma família conhecida de Kay (Elaine May), que resolve abrigá-la secretamente, para o completo desespero de Sidney. Nesse contexto, a situação se dispersa até mesmo para um filme bastante mediano de Woody Allen, que se repete demais nas neuroses de seu protagonista e ao criar subtramas perfeitamente desinteressantes, como a do amigo da família que se apaixona por Lennie Dale.

Aliás, a personagem de Miley Cyrus é um dos principais problemas de Crisis in Six Scenes, pois o roteiro nunca torna instigante a sua influência direta não apenas na vida de um casal rotineiro e entediado, mas também na do próprio vizinho que se apaixona por ela. Lennie Dale não é curiosa nem misteriosa como deveria ser e, do ponto de vista de contribuição ao programa, serve apenas para proporcionar cenas mais descontraídas protagonizadas por Woody Allen e Elaine May, que chegam a pular de um terraço a outro para fugir da polícia! De resto, as discussões que a personagem suscita sobre os ideais de Fidel Castro e Che Guevara ou sobre como o Estados Unidos equivocadamente se intitula o melhor país do mundo se perdem em uma narrativa truncada, apática e conduzida por um diretor que nem precisaria admitir sua falta de afinidade com o formato para despertar no espectador a sensação de que pouco ali está realmente se encaixando.

Há coisas boas no meio do caminho e que até se parecem mesmo com situações feitas para um seriado. É inspirado, por exemplo, o cotidiano de Kay como terapeuta de casais, tratando situações curiosas como a do marido que tem fetiche em pagar mulheres por sexo (e isso inclui a própria esposa!) e do casal que é incapaz de enxergar qualidades um no outro. Woody Allen também segue tirando humor como ninguém de situações que só poderiam ser criadas e conduzidas por ele. Nada, entretanto, elimina a imensa sensação de frustração que é conferir Crisis in Six Scenes, uma produção que já não funcionaria como filme, mas que, como seriado, só evidencia um expressivo momento de crise criativa na carreira de seu criador.

Três atores, três filmes… com Vitor Búrigo

Ainda que a democratização dos blogs e, mais recentemente, da ideia de encarar a função de youtuber como algum tipo de profissão dê a equivocada impressão de que basta estar na rede para se tornar alguém, segue sendo imprescindível a relação entre tempo, dedicação e paciência para que se construa algum tipo de reputação, seja ela qual for. E quando se trata de cultura ou especificamente cinema, mais ainda: não basta ter opinião, é preciso ver filmes, ler, viver certas coisas e até, quem sabe, estar em alguns festivais por aí para entender de perto como funciona o dia a dia de quem faz cinema. Autor do CINEVITOR, o meu amigo cinéfilo Vitor Búrigo entende tudo isso, e foi uma verdadeira alegria encontrá-lo por Gramado e descobrir que, antes de tudo, ele é um cara apaixonado por cinema. Nada melhor do que estar por perto de quem primeiro faz as coisas simplesmente porque gosta. Há algo em comum ainda mais específico na minha identificação com o Vitor: a predileção por grandes desempenhos femininos, que é onde justamente ele procurou se focar para sua participação aqui no blog. Uma homenagem justa e de pura coincidência para antecipar o dia internacional da mulher e também uma lista de respeito para a 30ª edição dessa nossa coluna!

Sonia Braga (Aquarius)
Na história do cinema brasileiro, Sonia Braga tem um capítulo à parte. Sua estreia nas telonas aconteceu em 1968, no filme O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla. Depois disso, se destacou em diversos papéis, trabalhou com grandes diretores, fez sucesso no exterior, foi premiada e se destacou como uma renomada atriz que levou o nome do nosso país mundo afora por meio da sétima arte. Tieta, Gabriela, Dona Flor, Mulher Aranha: todas elas marcaram época, assim como Clara, de Aquarius, seu mais recente trabalho nos cinemas. No filme, dirigido por Kleber Mendonça Filho, Sonia interpreta uma jornalista aposentada, escritora e viúva, que enfrenta as investidas de uma construtora que pretende demolir o terreno onde fica seu aconchegante apartamento para dar lugar a um novo empreendimento. Porém, sua briga vai além do apego material e sentimental. Vai além do fato de demolir suas memórias e enterrar parte de sua história. O confronto é mais complexo e real e traz uma crítica social importante e necessária. Sonia Braga está espetaculosa na telona. Sua atuação cria uma personagem grandiosa, que domina todas as ações. Seu olhar, os gestos, as falas; tudo contribui para seu desempenho elogiável. E assim, mais uma vez, fomos presenteados com o talento de Sonia Braga, que, como de costume, brilhou em tapetes vermelhos, retornou brilhantemente a Cannes e foi premiada e aplaudida pelo mundo todo. Um ícone. Uma musa. Uma atriz talentosa.

Fernanda Montenegro (Central do Brasil)
O filme de Walter Salles ganhou o Urso de Ouro em Berlim, foi premiado no Globo de Ouro, no BAFTA, indicado ao Oscar e emocionou os espectadores ao contar a história de Dora, uma mulher que escreve cartas para analfabetos na Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Certo dia, ela conhece Ana e seu filho Josué. A moça pede que ela escreva uma carta para o pai do menino, pois ele sonha em encontrá-lo. Mas, na saída da estação, Ana é atropelada e Josué fica abandonado. Dora leva o menino para casa e decide viajar com ele em busca do pai, no interior nordestino. Coube a Fernanda Montenegro a missão de interpretar a protagonista dessa história comovente. Dama do teatro, sucesso na TV e destaque nas telonas, a atriz, uma das mais respeitadas e prestigiadas do Brasil, desempenhou com maestria seu ofício. Ao viver Dora, uma mulher rude, que esconde seus sentimentos em uma barreira emocional quase invisível, Fernanda dá um show de atuação, como de costume, e retrata a realidade de muitos brasileiros, que lutam diariamente pelo sustento e sobrevivência. Ainda que traga uma certa maldade em sua personalidade, em meio a pequenas corrupções cotidianas, Dora aceita se aventurar pelo país ao lado de um menino estranho em busca de sua felicidade. Emoções e sentimentos se misturam em um filme genuinamente brasileiro. Com Central do Brasil, Fernanda Montenegro foi eleita a melhor atriz do Festival de Berlim, em 1998, foi indicada ao Oscar, Globo de Ouro, premiada no Havana Film Festival, reconhecida pelos críticos de Los Angeles e Nova York, e também pela National Board of Review. Atuação magistral de uma atriz espetacular.

Isabelle Huppert (Elle)
Em Elle, de Paul Verhoeven, Isabelle Huppert interpreta Michèle Leblanc, uma mulher que aparenta ser indestrutível. Realizada profissionalmente, sua vida vira de cabeça para baixo quando é atacada em sua própria casa por um criminoso desconhecido. Quando decide procurar seu agressor, encara um jogo de curiosidade e suspense, que pode sair do controle a qualquer momento. A cada acontecimento é perceptível que somente Isabelle Huppert poderia ter interpretado esse papel. E de forma tão impecável. Sua feição, seu olhar e sua atitude diante dos fatos que desenrolam a narrativa tomam conta das cenas. A frieza da personagem, mesmo depois de ser violentada, é intrigante e traz diversas questões a serem analisadas e refletidas. Que Huppert é arrebatadora em cena já sabemos, mas, em Elle, ela vai além ao causar estranhamento e perturbação em meio a assuntos delicados explorados por Verhoeven. Sua atuação te faz sair da sala do cinema pensando e te deixa embasbacado com tamanho talento em cena. Que atriz!

A falência narrativa da terceira temporada de “The Affair”

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A francesa Irène Jacob, musa do diretor Krzysztof Kieslowski em A Fraternidade é Vermelha, é uma das desperdiçadas aquisições da terceira temporada de The Affair.

Quando o criador de uma série anuncia que está abandonando um programa que ajudou a tornar realidade por diferenças criativas com a emissora é porque algo está muito, mas muito errado em todo o processo. É o que aconteceu com Hagai Levi em The Affair, uma das séries recentes mais célebres do canal Showtime, que, convenhamos, é especialista em arruinar boas ideias (e não há a trajetória mais desastrosa para ilustrar essa afirmação do que a de Dexter). A situação é lamentável porque, partindo de uma ideia altamente criativa – a de narrar um caso extraconjugal a partir das diferentes perspectivas dos envolvidos na história -, o programa segurou bem a peteca mesmo na segunda temporada, quando já havia solucionado o principal conflito de sua trama.

Com o passar do tempo, The Affair passou a se debruçar cada vez mais sobre a imperfeição de seus personagens, todos seres humanos confusos que mentem, traem e, principalmente, agem por impulso. O Globo de Ouro, única premiação que reconheceu o programa em sua primeira temporada com os prêmios de melhor série e atriz drama, seguiu comprando a ideia ao inclusive premiar merecidamente a coadjuvante Maura Tierney pelo segundo ano. Contudo, a terceira temporada, que terminou no fim de janeiro deste ano, cumpre o trágico destino de basicamente todas as séries concebidas pela Showtime – e nem o Globo de Ouro, que costuma ser fiel a séries que só ele celebra (Mozart in the Jungle é outro exemplo) pode defender o que o programa se tornou.

Saltando no tempo para mostrar a nova vida de todos os personagens após a prisão de um deles, o terceiro ano de The Affair já não sabe mais o que fazer com o quarteto principal e muito menos com novos coadjuvantes que entram para o elenco, como a francesa Irène Jacob, musa do cineasta Krzysztof Kieślowski em A Fraternidade é Vermelha, cujo desperdício é tão lamentável quanto o de Charlotte Rampling na última temporada de Dexter. Pior ainda é que, por não dar conta de criar conflitos realmente interessantes para seus personagens, o programa cai novamente na armadilha de apostar em um mistério com a intenção de colocar algum tipo de tempero à mistura.

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Quase irreconhecível, Brendan Fraser é outra adição da temporada, amargando a storyline mais desinteressante e ineficiente de toda a série até aqui.

Só que além do tom do suspense não casar com a série (algo que já deveriam ter aprendido com as temporadas passadas), a investida resulta em uma das narrações mais pobres e inexpressivas já criadas por The Affair, o que não tem nada a ver necessariamente com a resolução profundamente decepcionante ou com o fato de tal problemática dar destaque excessivo a Brendan Fraser, um ator sempre inexpressivo. A situação misteriosa dispersa o espectador em relação ao que realmente importa na discussão dos roteiristas: a influência mesmo negativa que Noah Solloway (Dominic West) causa em todos a sua volta. Ele é de fato um personagem que faz de tudo para que o espectador o deteste – e West continua tomando frente dessa proposta com competência -, mas as desculpas que o roteiro inventa para que Noah, de um jeito ou de outro, nunca saia da vida dos outros personagens são frequentemente esfarrapadas.

Por colocá-lo como protagonista cada vez mais absoluto de The Affair (Ruth Wilson, que dividia acirradamente o estrelado com ele, hoje é quase coadjuvante), todos os múltiplos olhares da drama acabam se virando para o personagem. Mesmo quando não está em cena, Noah é a pauta dos acontecimentos, o que se revela um tremendo obstáculo que os roteiristas criem conflitos que não sejam relacionados a ele. Tomem como exemplo Cole (Joshua Jackson), o ex-marido de Alison (Wilson), que não tem mais razão de estar na história e que encara a ingrata missão de contracenar com uma personagem estereotipada vivida por uma insossa Catalina Sandino Moreno. É uma storyline perfeitamente descartável que a série não sabe como incrementar ou até eliminar de vez.

Estruturalmente, as narrativas distintas perderam também sua criatividade: enquanto antes elas acusavam as diferentes percepções de cada personagem acerca de importantes situações (até mesmo penteados e figurinos oscilavam entre os capítulos, reforçando que, dependendo do contexto, o ser humano é mesmo propenso a interpretar contextos como bem entende), agora servem apenas para, em uma distribuição previsível, se encaixar na linearidade da trama como um todo. Tudo parece ter falido em The Affair, das interpretações à vontade da série de fazer algo realmente original. O próprio visual, mais soturno do que o habitual, dá um certo cansaço ao resultado que, não restam dúvidas, só comprovam que o criador Hagai Levi tomou a mais sábia das decisões ao se afastar do projeto. Assim como ele, corto meus laços com a série por aqui.

Os vencedores do Oscar 2017

violaoscarfinalQuem considera engraçada a situação envolvendo a leitura errada do vencedor do Oscar de melhor filme certamente não compreende o quanto esse momento foi a coroação máxima da tragicidade da temporada de premiações de 2017. Em um ano que já havíamos comentado ser extremamente difícil do ponto de vista de discussões, onde cinéfilos fizeram da disputa uma arena onde filmes se digladiam como se tivessem nascido exatamente para isso, o equívoco só endossa o tom odioso das últimas semanas. Ver La La Land vencer para depois ter seu prêmio entregue para Moonlight foi algo lamentável de se ver – e o que dizer, então, de quem vivenciou isso. Todos saem perdendo: independente de preferências, imaginem a frustração de quem subiu ao palco, estava prestes a terminar o discurso de vitória e de repente recebe um cochicho no ouvido de que aquele prêmio não foi entregue corretamente. Igualmente chata – e isso já foi declarado por Mahershala Ali, vencedor como melhor ator coadjuvante por Moonlight – é a situação da equipe do filme de Barry Jenkins, que precisou subir ao palco para comemorar uma vitória diante da desgraça alheia de outra equipe. Ali, coberto de razão, diz que não se sentiu à vontade para celebrar qualquer coisa diante daquela confusão. 

O grande problema não está no erro em si, mas no tempo demorado para corrigir a situação. Afinal, se existe uma auditoria que, no backstage, tem em mãos o mesmo envelope que está sendo lido pelos apresentadores a fim de evitar qualquer tropeço, como demoraram tanto para barrar a vitória de La La Land, que, nesse meio tempo, se abraçou, subiu ao palco, pegou prêmio e ainda quase terminou um discurso? Houve também erro de Warren Beatty, que simplesmente não soube como agir quando percebeu que algo estava errado: qualquer vídeo que você assistir dá conta de mostrar o veterano visivelmente confuso com o resultado que tinha em mãos (ele ainda procura outro cartão dentro do envelope que esclarecesse sua dúvida), além de Faye Dunaway olhar para ele com uma expressão de preocupação e de Beatty entregar a bomba a ela para depois sussurrar “está escrito Emma Stone”. Mais grave ainda, no entanto, é o fato de nenhum representante do Oscar ter tomado frente da situação, deixando a ingrata missão para os próprios vencedores de La La Land. Nem a auditoria, que já se desculpou publicamente pelo ocorrido, sabe como o envelope de melhor atriz foi parar nas mãos de Beatty (dizem que ainda estão investigando), o que desmonta ainda mais a credibilidade do prêmio.

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Toda a situação é lastimável porque a vitória de Moonlight nunca será lembrada antes da gafe. O mico foi o verdadeiro marco da 89ª edição do Oscar. Por mais que ainda restem dúvidas sobre o quanto o Oscar realmente abraça a diversidade com sinceridade, um filme como o de Barry Jenkins merecia uma lembrança mais emblemática do que essa que está fadado a ter. Primeira história de cunho LGBT a ganhar o prêmio principal da Academia, Moonlight pode até ser um filme estruturalmente imperfeito (já comentei várias vezes sobre como o terceiro ato me decepciona profundamente), mas tem qualidades inegáveis e é uma obra incrivelmente catártica para os tempos que vivemos. Entretanto, quando digo que tenho minhas dúvidas sobre o quanto o Oscar realmente mudou é porque, em 2014, 12 Anos de Escravidão ganhou exatamente os mesmos prêmios de Moonlight – filme, roteiro adaptado e um de coadjuvante – para logo em seguida a vitória ser sucedida pelo ano do Oscar So White.

Mais do que isso: mesmo com a consagração do longa de Jenkins, o Oscar segue limitando os intérpretes negros a vitórias em categorias de coadjuvante e sem dar um prêmio de direção a um negro. Importante saber: o vencedor da categoria de melhor filme vem a partir de quem tem a melhor média de colocação no ranking de preferência que os votantes precisam fazer na hora de votar. Ou seja, de nada adianta La La Land ser o primeiro colocado em inúmeras listas se, em outras, aparece entre os últimos colocados. É mais benéfico para um filme, na categoria de melhor filme, estar em terceiro ou quatro lugar, mas de forma unânime na cédula da maioria dos votantes (eu próprio teria favorecido Moonlight, pois ele era o terceiro melhor na minha avaliação). Já o Oscar de de direção computa simplesmente quem recebeu mais votos. Ou seja, a vitória de Damien Chazelle por La La Land sugere mais sobre o Oscar do que estamos dispostos a admitir. A mudança poderia – e merecia – ser bem mais expressiva.

Em termos de distribuição de estatuetas, o Oscar preferiu seguir a tendência do BAFTA, que não deixou La La Land monopolizar os prêmios, fazendo suas escolhas de forma mais democrática. E, novamente, não podemos dizer que houve injustiças ali (até A Chegada foi lembrado)! É um saldo positivo, ainda que, particularmente, me entristeça Isabelle Huppert não ter vencido: poucas atrizes francesas tiveram uma trajetória tão promissora no Oscar por um filme tão atípico, o que, parando para pensar, já é por si só uma vitória tremenda. Jimmy Kimmel, que fez um bom trabalho como apresentador ao não ficar se enrolando em monólogos intermináveis e aparições infinitas, teve sacadas espertas e corajosas, como Twittar para Donald Trump em plena cerimônia e pedir para que Meryl Streep levantasse e recebesse o aplauso de uma plateia em pé, fazendo novamente uma clara provocação ao presidente estadunidense que, ao ser criticado por ela no Globo de Ouro, definiu a atriz como “superestimada”. Agora, um momento dessa cerimônia que precisa ficar mesmo marcado é a vitória de Viola Davis (merecida, por sinal), que fez um discurso emocionante e arrebatador sobre a honra que sente de fazer parte de uma profissão que tem o mágico dom de exumar corpos e dar protagonismo a histórias que, em vida, nunca foram contadas. Poucas vezes Viola esteve tão emocionada. E mal sabe ela que somos nós que recebemos o presente de vê-la consagrada. Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILMEMoonlight: Sob a Luz do Luar
MELHOR DIREÇÃO: Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações)

MELHOR ATRIZ: Emma Stone (La La Land: Cantando Estações)
MELHOR ATOR: Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Viola Davis (Um Limite Entre Nós)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALManchester à Beira-Mar
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Moonlight: Sob a Luz do Luar
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: O Apartamento (Irã)
MELHOR ANIMAÇÃOZootopia – Essa Cidade é o Bicho
MELHOR DOCUMENTÁRIOO.J.: Made in America
MELHOR FOTOGRAFIALa La Land: Cantando Estações
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃOLa La Land: Cantando Estações
MELHOR FIGURINOAnimais Fantásticos e Onde Habitam
MELHOR MONTAGEMAté o Último Homem
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “City of Stars” (La La Land: Cantando Estações)
MELHOR TRILHA SONORALa La Land: Cantando Estações
MELHOR MIXAGEM DE SOMAté o Último Homem
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: A Chegada
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Esquadrão Suicida
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Mogli: O Menino Lobo
MELHOR CURTA-METRAGEM: Sing
MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIOThe White Helmets
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃOPiper: Descobrindo o Mundo

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