Cinema e Argumento

A Cabana

Love always leaves a mark.

Direção: Stuart Hazeldine

Roteiro: Andrew Lanham, Destin Daniel Cretton e John Fusco, baseado no livro homônimo de William P. Young

Elenco: Sam Worthington, Octavia Spencer, Avraham Aviv Alush, Sumire Matsubara, Tim McGraw, Radha Mitchell, Alice Braga, Megan Charpentier, Gage Munroe, Amélie Eve, Graham Greene, Ryan Robbins

The Shack, EUA, Drama, 2017, 132 minutos

Sinopse: Um homem vive atormentado após perder a sua filha mais nova, cujo corpo nunca foi encontrado, mas sinais de que ela teria sido violentada e assassinada são encontrados em uma cabana nas montanhas. Anos depois da tragédia, ele recebe um chamado misterioso para retornar a esse local, onde ele vai receber uma lição de vida. (Adoro Cinema)

Se já é fácil ser impaciente e intolerante com filmes que apresentam histórias baseadas em valores e princípios distantes dos nossos, o que sobra, então, para aqueles que, além disso, repetem as mesmas fórmulas panfletárias e unidimensionais de outras obras ruins e de mesma proposta? Praticamente nada. É aí que se encaixa A Cabana, que, baseado no best seller homônimo de William P. Young, filosofa sobre nossa existência com um pano de fundo religioso repleto de representações batidas e dignas de um programa televisivo de auto-ajuda. Uma coisa é se deparar com isso em uma livraria, onde podemos ignorar a obra na primeira leitura da sinopse. Outra é investir tempo, dinheiro e boa vontade no cinema, esperando que um filme nos surpreenda ao quebrar qualquer preconceito que tenhamos com ele. Não é questão do que se discute em termos de conteúdo, e sim de execução, pois, quando se constata que A Cabana traz, pela milésima vez, entidades divinas vestidas de branco em um lindo jardim florido, ensolarado e cheio de borboletas, qualquer boa vontade em esperar algum exercício cinematográfico na obra vai por água abaixo.

Dirigido por Stuart Hazeldine, A Cabana opta pelo drama fácil sempre que possível, o que é um claro reflexo do seu material de origem, que, não há dúvidas, tornou-se um grande sucesso editorial por justamente não poupar esforços para comover o maior número de leitores. E, no cinema, onde palavras precisam ser transpostas para figurinos, trilhas sonoras, cenários e outros setores, a situação se torna mais atraente para quem curte a pegada e, claro, mais difícil para quem rejeita o formato. Não bastasse trazer o batido arco da família perfeita de comercial de margarina que, um belo dia, tem sua vida colocada de pernas para o ar por uma tragédia, A Cabana centra quase toda sua história em uma viagem motivacional onde o patriarca Mack (Sam Worthington), incapaz de superar a perda de um ente querido, passa um fim de semana transformador com Deus, Jesus e Espírito Santo. De vez em quando, ele ainda esbarra com figuras como a Sabedoria (sim, a virtude, vivida por Alice Braga), que, também vestida de branco e com um semblante extremamente acolhedor, ensinará o que ele precisa rever em sua vida para se recompor, voltar para casa e reunificar a família.

É fundamental não julgar o que A Cabana quer deixar de mensagem, mas sim como ele deixa que isso chegue ao espectador. Expositivo (a cena da Sabedoria não dispensa flashbacks para retomar acontecimentos já encenados), o fim de semana do protagonista junto a figuras divinas é tedioso porque não passa de um amontoado de conversas onde ele será persuadido a reavaliar muitas de suas ideias. Entre uma prosa e outra, Mack também corre pelas águas assumindo os poderes de Jesus Cristo, como se o filme tentasse fazer alguma graça para movimentar um relato que visivelmente não consegue ir além do trabalho verbal. Sem as longas cenas de reflexões onde Mack, afundado em tristezas, esbraveja para Deus que seu amor é seletivo ao permitir que pessoas morram diariamente de forma injusta no mundo, A Cabana é estático e, pior ainda, limitado nas associações visuais que faz em relação aos sentimentos do personagem e às diferentes fases vividas por ele ao longo da trama. Basta perceber como os momentos em que Mack passa por algum sofrimento possuem estilizações simplórias (as surras que leva do pai alcoolizado na infância, por exemplo, são encenadas de forma estridente em uma noite chuvosa e cheia de trovões), problema que é repetido nas sequências em que ele recebe algum alento (a primeira longa conversa com Deus acontece em uma cozinha aconchegante com um brilhante feixe de luz atravessando a janela). São construções óbvias, previsíveis e já usadas à exaustão em outros filmes. Daí vem a impaciência com A Cabana.

Muito dos defeitos e das simplificações do longa poderiam ser relevados se um ator de grande talento tivesse uma forte presença em cena. Não é o caso de Sam Worthington, que, além de não ter talento ou expressiva (até em Avatar ele era perfeitamente esquecível), torna A Cabana uma viagem ainda mais ingrata por não fazer com que o espectador tenha qualquer conexão com seu personagem. A história vivida por ele é triste, claro, mas não há texto que garanta emoção quando um intérprete precisa visivelmente se esforçar até para derramar uma lágrima. É um problema tremendo (talvez o maior) para um filme que, por outro lado, consegue ser um veículo de exercício para Octavia Spencer. Ela, que vem diminuindo a marcha de suas caricaturas em filmes como Estrelas Além do Tempo, está novamente humana e devidamente acalantadora ao assumir a responsabilidade de incorporar Deus. Inclusive, é muito bacana a diversidade encontrada na representação das figuras divinas, onde Deus, Jesus e Espírito Santo são interpretados por atores negros, árabes e orientais, respectivamente. Contudo, é mera questão de tempo para que A Cabana volte a repetir suas fórmulas e melodramas, perdendo a chance de ser o filme que poderia, pelo menos, fazer com que boa parte da plateia repensasse o preconceito que nutre por produções baseadas em best sellers de auto-ajuda.

Por que “The Good Fight” é o programa mais atual em exibição (mas não entende o que é um spin-off)?

O que prometia ser o grande voo solo de Christine Baranski acaba decepcionado: em The Good Fight, a atriz é tão coadjuvante (ou, muitas vezes, até mais) quanto em The Good Wife.

Quando surge pela primeira vez em The Good Fight, a advogada Diane Lockhart (Christine Baranski) está incrédula. E não é por menos: sentada frente à TV, ela acompanha a cerimônia de posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, algo que, para quem acompanhou The Good Wife ao longo de sete temporadas, é um momento deliciosamente divertido devido às marcantes posições políticas da personagem. No entanto, não há motivos para os leigos se preocuparem, pois, mesmo sendo um spin-off da premiada série estrelada por Julianna Margulies, o episódio-piloto de The Good Fight é exemplar na forma como arquiteta a extensão de um universo já extinto que não apenas preserva o excelente tino cômico de seu material de origem, mas também criar uma personalidade própria e, principalmente, procura trazer importantes discussões do mundo real para a narrativa ficcional.

Se a política é tão importante para a democrata Diane Lockhart, é fácil deduzir que The Good Fight, ao longo dos dez episódios de sua primeira temporada, não poupará esforços para discutir questões relacionadas ao tema. Enquanto Wife se passava na era Obama, Fight é encenada na era Trump, o que é prato cheio para os criadores extraírem muitas de suas ideias e provocações dos conceitos defendidos pelo novo presidente norte-americano. A partir desse cenário, Lockhart enfrentará situações que, entre outras, discutem a falência da reputação dos poderosos (e o quão incongruente é ter Trump como presidente nesse sentido), a batalha diária que é ser mulher em um ambiente de trabalho essencialmente masculino, o quanto a idade e a experiência às vezes podem ser pontos negativos em uma carreira profissional e o que significa realmente se dedicar a certas coisas na vida para, no fim das contas, elas não valerem nada.

Com questões atuais e provocações inteligentes, The Good Fight compensa a falta de criatividade em termos de execução com a contemporaneidade dos temas que levanta.

Atualíssima e representativa como poucos programas conseguem ser, The Good Fight se dedica plenamente a dar voz à diversidade, colocando três mulheres no centro de sua história: Maia Rindell (Rose Leslie), Luca Quinn (Cush Jumbo) e, claro, Diane Lockhart. Detalhes ainda mais importantes sobre elas: a primeira é lésbica, a segunda é negra e a terceira já passou dos cinquenta anos, todos nichos normalmente relegados a papeis coadjuvantes, seja em filmes ou seriados. Se a protagonista vivida por Christine Baranski já sabia que ser mulher em um universo jurídico de homens brancos e engravatados era difícil, logo ela descobre também que envelhecer pode acrescentar um sabor ainda mais azedo a uma realidade cotidianamente desafiadora. Esse é o pontapé inicial de The Good Fight: após anunciar sua aposentadoria, Lockhart se vê com a corda no pescoço quando, após um escândalo de corrupção, descobre que todo o seu dinheiro foi congelado. Não há outra escolha para se sustentar a não ser continuar trabalhando, mas a empresa da qual era sócia não aceita o retorno, lançando a veterana de volta à vida de bater de porta em porta para conseguir um emprego. E qual não é a surpresa dela ao descobrir que o mercado, por uma série de razões, não quer contratar uma mulher experiente em idade e profissão?

O que torna The Good Fight o programa mais atual em exibição e um relato conceitualmente forte é justamente centralizar sua trama em mulheres que se reinventam, que levantam a cabeça frente a adversidades e que enxergam os obstáculos da vida como porta de entrada para algo muito maior e necessário. Algo que, na realidade, precisam provar não para elas próprias, mas para uma sociedade que insiste em diminuí-las. A série começa com o pé direito, devendo absolutamente nada a sua série antecessora, mas, pouco a pouco, mostra que não consegue ir muito além de seus posicionamentos políticos afiadíssimos quando Diane Lockhart finalmente se estabelece em uma empresa administrada majoritariamente por advogados negros. A situação muda de cenário porque a história precisa sair dos conceitos que envolvem seus personagens e contextos para finalmente construir uma trama. Na prática, o spin-off volta a repetir vícios de The Good Wife e até a eventualmente lembrar o porquê do programa estrelado por Julianna Margulies ter sido cancelado após tantos episódios estagnados em forma e conteúdo.

Rose Leslie como Maia Rindell: a sensação de dèjá vu é grande, já que a personagem repete a fórmula da advogada que começa a entender como funcionam os bastidores da profissão.

Aliás, há vários aspectos que remontam a The Good Wife, o que só reforça a impressão de que The Good Fight conduz a sua história no piloto-automático. Ou não é puro comodismo novamente termos uma personagem que está chegando ao mundo da advocacia e que precisa aprender tudo sobre os trâmites da profissão? Não é que, na prática, a novata Maia Rindell se pareça com a Alicia Florrick de Julianna Margulies, mas tudo é muito familiar, repetindo desnecessariamente passagens que seriam evitáveis com um pouco mais de criatividade na hora de criar um personagem. O déjà vu relacionado a esses problemas também se encontra na construção dos casos jurídicos, que evocam antigos coadjuvantes sem reinventá-los em qualquer aspecto (por mais divertida que seja a Elsbeth Tascioni de Carrie Preston, fica claro que ela só está ali para fazer graça) e conflitos que obviamente só estão ali para disfarçar a falta de assunto, a exemplo do episódio em que Maia busca a real identidade de quem está espalhando falsos tweets em seu nome. Com exceção dos casos que endossam o inegável talento de The Good Fight em discutir temas atuais (sempre há espaço para cutucar Donald Trump sem qualquer medo, e isso é ótimo!), não há surpresa alguma no spin-off.

Ok, digamos que, como fã incondicional do universo de The Good Wife, seja possível perdoar tudo isso para ter um pedacinho do programa de volta. O que não dá mesmo para deixar passar é The Good Fight ter claros problemas em compreender quem é a sua real protagonista. Ora, um spin-off serve para dar protagonismo e trajetória própria a um personagem que, em outro seriado, estava longe de concentrar o protagonismo de uma história. Não é o que acontece com a Diane Lockhart de Christine Baranski: misteriosamente, ela é coadjuvante tanto quanto era em The Good Wife, com dilemas pessoais que são esquecidos com a mesma displicência que são retomados e passagens que soam como mero suporte para enaltecer outra figura em cena: no caso, Maia Rindell, a real protagonista do spin-off. Isso é simplesmente imperdoável por muitas razões, entre elas, a de trair as promessas de dar a devida dimensão a uma personagem interessantíssima e a de proporcionar uma chance de ouro a Christine Baranski, uma excelente atriz que merecia oportunidades muito melhores tanto no cinema quanto na TV. Eterna coadjuvante de musicais nas telonas (Mamma Mia!ChicagoCaminhos da Floresta), ela sempre brilhou como a elegante advogada que guarda com orgulho um retrato ao lado de Hillary Clinton em seu escritório. Por isso, The Good Fight parecia ser finalmente o seu grande momento. Não foi. E, sinceramente, isso é o que existe de mais imperdoável no programa. Inclusive, é o suficiente para que se corte relações com ele.

Rapidamente: “Batman vs Superman”, “Eu, Daniel Blake”, “Mulher do Pai” e “Mulheres do Século 20”

Mais um filme muito íntimo e pessoal do diretor Mike Mills, Mulheres do Século 20 se destaca pelo excelente trabalho do elenco feminino e de suas inteligentes referências e contextualizações.

BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA (Batman v Superman: Dawn of Justice, 2016, de Zack Snyder): Foi massacrado mundo afora, e com toda razão, já que só deve perder para Esquadrão Suicida como o pior filme de super heróis dos últimos anos. A lista do que não funciona é imensa: dos protagonistas inexpressivos (Ben Affleck não traz personalidade ao icônico Batman, enquanto Henry Cavill nunca funcionou mesmo como Superman) aos coadjuvantes que variam de caricaturas ineficientes (Jesse Eisenberg tenta fazer algo divertido, mas sem sucesso) a presenças desperdiçadas (dá pena ver Amy Adams tendo que se contentar com o papel da mocinha que só vive em função de seu homem), Batman vs Superman tem um roteiro dos mais problemáticos, onde nada é suficientemente consistente para nos convencer do confronto entre os herois. Porém, o mais decepcionante deve ser a concepção estética completamente pobre do filme, pois, se os universos dos dois heróis já não conversam direito, a situação só se agrava com uma direção que comanda cenas de ação no piloto-automático e apostando na velha e já inaceitável fórmula de cidades sendo inteiramente destruídas durante os confrontos só para mostrar algum tipo de grandiosidade. A própria luta entre os dois protagonistas é concebida de forma preguiçosa, como se fosse apenas uma brincadeira onde os dois alteram porradas com diversos poderes e artimanhas. E mais: o conflito tem uma solução das mais esfarrapadas imagináveis. Talvez Batman vs Superman não chegue a aborrecer tanto quanto Esquadrão Suicida, mas é um aventura ultrapassada demais, o que não nos dá nem desculpa de classificá-lo como uma homenagem ou uma experiência nostálgica para tentar defendê-lo.

EU, DANIEL BLAKE (I, Daniel Blake, 2016, de Ken Loach): Não está entre os casos mais graves, mas a Palma de Ouro para Eu, Daniel Blake não deixa de contribuir para as escolhas extremamente irregulares do júri presidido pelo cineasta australiano George Miller no Festival de Cannes em 2016. O novo filme de Ken Loach é muito simbólico e relevante em tempos que discutimos tanto os direitos trabalhistas no Brasil e no mundo, mas, em termos de execução, o resultado é bastante decepcionante. Acompanhando os difíceis dias de Daniel Blake (Dave Johns), que, após ficar desempregado em função do diagnóstico de um problema cardíaco, enfrenta as burocracias do governo para receber seus auxílios por direito, Eu, Daniel Blake não exige que a plateia já tenha compartilhado da mesma situação do protagonista para se indignar e até reconhecer as inúmeras situações absurdas relacionadas ao descaso do governo com a classe trabalhadora. O que acontece é que Eu, Daniel Blake, apostando em um ritmo bastante lento, se repete demais e, sempre que procura dar alguma guinada na trama, soa artificial. Por mais comovente que seja a interpretação de Hayley Squires como Katie, a amiga de Daniel que passa por problemas bastante semelhantes, seu conflito com o protagonista a respeito da profissão que resolve adotar para resolver problemas financeiros é executado com arbitrariedade. Mais decepcionante ainda é o desfecho que, nada sutil e imprevisível, ainda reserva uma última cena repleta de drama que, justamente, por ser consequência de uma escolha conduzida apressadamente pelo roteiro, não surte efeito algum. Em tese, Eu, Daniel Blake é necessário. Na prática, beira o esquecível. 

MULHER DO PAI (idem, 2017, de Cristiane Oliveira): Rodado na região de Dom Pedrito, no Rio Grande do Sul, Mulher do Pai faturou os prêmios de melhor direção, fotografia e atriz coadjuvante no Festival do Rio 2016, além de ter feito trajetória internacional ao ter sido selecionado para a mostra Generation do Festival de Berlim deste ano. Ao contrário dos festivais, já não compartilho o mesmo entusiasmo com esse trabalho de estreia da diretora Cristiane Oliveira, que, também autora do roteiro, opta por um caminho nobre em seu debut (o de economizar ao máximo as emoções de uma história que, centrada nas descobertas e no amadurecimento de uma jovem do interior que precisa cuidar do pai cego), mas que, por isso mesmo, resvala em outro o problema: o de que, muitas vezes, menos realmente é menos. Marat Descartes, como o pai da protagonista, é sempre ótimo, e Mulher do Pai ambienta muito bem a vida no interior. Mas falta visceralidade aqui, inclusive nas sutilezas: um exemplo claro disso é a relação da protagonista com a professora de artes (a ótima Verónica Perrota, vencedora do Kikito de melhor atriz em Gramado ano passado pelo uruguaio Las Toninas Van al Este), que, inicialmente interessante e cercada de delicadezas, se desenrola de forma previsível e nada catártica ao se transformar em conflito quando a professora se interessa pelo pai da menina. Existem outros problemas, como a geografia não ser devidamente explorada (a protagonista quer desesperadamente conhecer o Uruguai por questões culturais e, quando viaja até lá, quase nada é mostrado do país), que me desconectam bastante do filme. Tratando-se de um relato sobre a transição da adolescência para a vida adulta, o cinema brasileiro já nos trouxe histórias muito mais envolventes nos últimos anos.

MULHERES DO SÉCULO 20 (20th Century Women, 2016, de Mike Mills): Não é preciso retroceder tanto a carreira do diretor Mike Mills para constatar o quanto ele é apaixonado por histórias íntimas. Basta lembrar de Toda Forma de Amor, filme que rendeu o Oscar ao veterano Christopher Plummer pela personificação de um pai de família que, após a descoberta de um câncer, resolve finalmente sair do armário para o filho. Agora, Mills sai da relação de um personagem com o pai para falar sobre a influência de uma mãe (e de várias outras figuras femininas) na vida de um garoto adolescente. É bonito como o diretor consegue imprimir uma assinatura sem nunca se repetir, e Mulheres do Século 20 é particularmente marcante do ponto de vista pessoal, já que essa é uma história baseada na vida do próprio diretor. Pop e recheado de referências e contextualizações das mais variadas naturezas (da música ao cinema, passa até pelo marcante documentário Koyannisqatsi – Uma Vida Fora de Equilíbrio, de 1982), o relato é delicado ao retratar as relações familiares, especialmente nos momentos em entre mãe e filho. Falando em mãe, ela é vivida com talento e elegância por Annette Bening, que, com talento e elegância de sobra, cria uma figura interessantíssima que, aos poucos, parece também fazer parte da nossa família. Para não ser injusto, vale mencionar ainda Elle Fanning e Greta Gerwig, ambas em plena sintonia com Bening em um elenco feminino para lá de especial.

As mulheres imbatíveis e eternas de “Feud: Bette and Joan”

Bette Davis (Susan Sarandon) e Joan Crawford (Jessica Lange) em Feud: Bette and Joan: o que poderia ser uma mera diversão envolvendo a rivalidade entre duas mulheres se revela um profundo estudo sobre o machismo em Hollywood.

As atrizes Bette Davis e Joan Crawford faziam questão de afirmar que eram mulheres e profissionais bastante diferentes quando, na verdade, compartilhavam mais semelhanças do que estavam dispostas a admitir. Ambas abandonadas por seus respectivos patriarcas, Bette e Joan vieram de famílias pobres, tornaram-se famosas entre os anos 1920 e 1930, ganharam Oscar de melhor atriz, eram democratas e feministas, casaram quatro vezes, adotaram crianças e tiveram filhos que, posteriormente, ficariam famosos por escrever biografias que exploravam as complicadas relações que tiveram com suas mães. Isso só comprova como, no fundo, as duas estrelas de Hollywood sabiam que a lendária inimizade entre elas era uma situação criada por uma indústria machista e avessa ao envelhecimento das atrizes. No entanto, também compreendiam que, infelizmente, tal dinâmica era uma ferramenta de sobrevivência na indústria: sem essa tônica, faltavam as manchetes em jornais, as aparições em colunas sociais e até mesmo os papeis em filmes que já não vinham mais naturalmente. 

O que Bette Davis e Joan Croawford não sabiam é que, além das mazelas profissionais, a situação acarretaria profundas cicatrizes pessoais. E é com esse olhar que Feud: Bette and Joan, antologia criada por Ryan Murphy junto à dupla Jaffe Cohen e Michael Zam, procura abordar a tortuosa relação entre as atrizes, cuja inimizade foi muito além das gravações de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, filme que marcou o primeiro e único encontro entre as duas imortalizado nas telas do cinema. Ao longo de oito episódios, o primeiro ano da série que, em temporadas posteriores, contará outras rixas mundialmente famosas, tem o mérito de se esquivar da mera curiosidade cinéfila (esse poderia muito bem ser um relato cheio de referências e brincadeiras endereçado aos fãs da sétima arte) para se tornar um registro universal e, claro, profundamente atual, visto que, hoje, muita gente ainda lucra e se diverte com a inimizade entre mulheres, especialmente na indústria fonográfica, onde parece impossível enaltecer uma diva pop como Madonna ou Lady Gaga sem depreciar outra na mesma intensidade.  

Susan Sarandon é um milagre como Bette Davis. Além das semelhanças físicas, a atriz ressuscita toda a personalidade forte e o temperamento difícil de uma das intérpretes mais celebradas de todos os tempos.

Feud: Bette and Joan termina de forma bem diferente do que começou, transformando uma certa frustração em algo extremamente recompensador. Explico: inicialmente vendido como a reprodução dos bastidores de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, o projeto, já no quarto episódio, encerra as gravações do célebre filme para, aos poucos, ter sua trama cada vez mais concentrada na vida de Joan Crawford (Jessica Lange), cultivando no espectador a frustração de ver Bette Davis (Susan Sarandon) escanteada em cena. Afinal, como não lamentar o fato de Feud: Bette and Joan negar igual protagonismo a essa mulher forte e de trajetória vitoriosa que, entre tantas coisas, foi a primeira mulher presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, a atriz com o salário mais alto de sua época quando realizou A Malvada e, até hoje, a única mulher, ao lado de Greer Garson, a alcançar o recorde de cinco indicações consecutivas ao Oscar de melhor atriz? Só que não demora muito para a série nos atentar ao fato de que Bette, por uma série de razões, sempre será a grande protagonista da famosa relação com Joan Crawford, e que existe muito mais a ser contado por trás dessa história. Feud não deixa de fazer uma reparação ao apostar em uma abordagem bastante diferenciada: aqui, a maior parte do protagonismo está finalmente entregue a Crawford, que, riquíssima em conflitos, é dramaticamente mais interessante por, ao contrário de Bette, ser insegura, emocionalmente instável, secretamente desesperada pela aprovação da colega e incapaz de lidar com rejeições.

Tamanha é a conscientização da série acerca do danoso incentivo ao confronto entre mulheres que toda a diversão de ver Bette e Joan se sabotando nas gravações de O Que Terá Acontecido a Baby Jane? se transforma em puro mal estar, mais especificamente no episódio And the Winner is… (The Oscars of 1963), onde o diretor Ryan Murphy delicia os fãs do cinema com inúmeras recriações e referências (o plano-sequência de Crawford transitando entre os bastidores do Oscar é impecável) ao mesmo tempo em que usa tudo isso como munição para potencializar os conflitos internos das protagonistas. Enquanto uma vê seu sonho de ganhar um terceiro Oscar ser destruído pela colega (Crawford fez uma ampla e reconhecida campanha contra Bette após não receber uma indicação pelo mesmo filme), a outra encontra um falso e doentio conforto ao receber o Oscar de melhor atriz em nome de Anne Bancroft (O Milagre de Anne Sullivan), que superou o nome de Bette na disputa pela estatueta e não pôde comparecer à cerimônia devido a outros compromissos profissionais. A partir daí, é um soco no estômago atrás do outro, pois Feud: Bette and Joan não poupa esforços para mostrar o quanto envelhecer em Hollywood é algo extremamente doloroso para as mulheres em função da oferta quase inexistente de papeis e das humilhações que a indústria faz com que elas se submetam só para continuar trabalhando.

Vindo de uma trajetória vitoriosa na TV com American Horror Story, Jessica Lange brilha novamente como Joan Crawford. É pelo seu olhar que se desenvolve a trama de Feud: Bette and Joan.

Retratados como frouxos ou medíocres, mas devidamente explorados em suas dimensões, os homens da série tem papel fundamental nessa degradação. Se Jack Warner (Stanley Tucci), o magnata da Warner Bros., é inescrupuloso ao conscientemente jogar lenha na fogueira de Bette e Joan para conseguir promover mais um sucesso de bilheteria, Robert Aldrich (Alfred Molina), o diretor de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, prefere se enxergar como um homem inseguro e injustiçado ao ter que administrar tantas disputas no set e não como peça decisiva para acelerar ou frear a maliciosa engrenagem que coloca as atrizes em confronto. Ainda que muito do que as protagonistas colheram fosse fruto do que elas próprias plantaram (Joan especialmente tem um longo histórico de decisões destrutivas tomadas por pura vaidade e orgulho, como ter se recusado a promover Baby Jane junto a Bette, o que certamente influenciou sua indicação ao Oscar pelo filme), Feud: Bette and Joan jamais deixa de reforçar o fato de que elas são resultado inegável de um entorno que nunca foi generoso com qualquer uma das duas. É por isso que um episódio como Abandoned! dói tanto: o diálogo em que as duas atrizes, após uma discussão, baixam a guarda e se (re)conhecem na mesma situação de vida ao lembrar o quão prazeroso era sentir a alegria de serem as atrizes mais talentosas e bonitas de sua geração é de partir o coração. E, claro, um show de duas grandes intérpretes.

Por sinal, enfim chegamos a elas: Jessica Lange e Susan Sarandon, que encabeçam um elenco feminino excepcional. Dando orgulho a Bette e Joan não só pelas representações humanas e respeitosas dessas figuras, mas também por já passarem dos 60 anos com carreiras bastante ativas, Lange e Sarandon brilham em cena e são dignas de notas particulares. A primeira, que vem de um recente histórico vitorioso na TV com American Horror Story (foram dois Emmys pela antologia também criada por Ryan Murphy), abraça todas as imperfeições de Joan Crawford e torna a personagem crível mesmo quando fica difícil defendê-la em seus ataques de vaidade. Ela dá conta total da minissérie quando a trama se volta muito mais para sua percepção ao mesmo tempo em que estabelece um dinâmica sempre cercada de generosidade com Sarandon. Como Bette Davis, a colega de Lange é um milagre: além da semelhança física ao reproduzir filmes como A MalvadaPérfida, Sarandon capta a atriz de dentro para fora, trazendo à tona, com plena fidelidade e sensibilidade, a intensa personalidade que lhe era tão caraterística. Ao contrário do que a imprensa quis criar (Murphy diz ter sido procurado diversas vezes sobre uma possível inimizade entre as duas atrizes), estamos falando de uma dupla com pura sinergia. Juntas, elas são imbatíveis.

De forma mais racional, Feud: Bette and Joan tem lá suas fragilidades, como a artificialidade de encenar a gravação de um documentário onde atrizes como Olivia de Havilland (Catherine Zeta-Jones) e Joan Blondell (Kathy Bates) comentam a rivalidade do título da minissérie. O formato é artificial porque, além de subutilizar Kathy Bates (não há razão alguma para sua inclusão, já que ela sequer é introduzida na história de Bette e Joan), está ali apenas para fazer contextualizações (cinéfilas, na maioria das vezes), simplificar passagens do tempo e explicar determinadas situações que não são recriadas. Por outro lado, há de se entender que essa é uma ferramenta identificável e até necessária para os padrões da TV aberta, bem como o ajuste de fatos e datas para maior impacto dramático. Errado? De forma alguma. A obrigação com a fidelidade cirúrgica dos fatos pode ficar para os documentários, até porque Feud: Bette and Joan tem pleno domínio de suas emoções ao arquitetar aos ajustes honestos que faz. No embate entre as protagonistas, faz pensar. Já em qualquer momento de generosidade entre elas, consegue cortar até o coração mais pedregoso. Afinal, como o próprio título do episódio derradeiro indica ao relembrar uma frase clássica de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, elas realmente poderiam ter sido amigas durante todo aquele tempo.

Os registros pioneiros de “When We Rise”

Mary-Louise Parker e Rachel Griffiths em When We Rise: a minissérie criada por Dustin Lance Black reúne um excelente grupo de atores que fizeram carreira na TV.

Vencedor do Oscar de melhor roteiro original por Milk – A Voz da Igualdade, Dustin Lance Black diz que nunca houve um registro audiovisual tão amplo sobre a luta dos direitos LGBT quanto o da minissérie When We Rise. Criada, roteirizada e eventualmente dirigida por ele, a atração exibida em março pela ABC teve uma trajetória tímida em termos de repercussão, mas é importante que seja reconhecida exatamente pelo ineditismo citado por Black: começando em 1969 para chegar ao governo Barack Obama, que tornou inconstitucional a Proposição 8, iniciativa que bania a realização de casamentos de pessoas do mesmo sexo nos Estados Unidos, When We Rise é realmente ambiciosa e pioneira do ponto de vista de registro histórico, chegando a compensar as superficialidades e decisões comerciais tão inerentes a programas realizados originalmente para a televisão aberta norte-americana.

Com um elenco repleto de excelentes atores que fizeram carreira na TV ou pelo menos tiveram um momento de glória nela (Mary-Louise Parker, de Angels in America Weeds; Rachel Griffiths, de Six Feet UnderBrothers & Sisters; Carrie Preston, de True BloodThe Good Wife; e até Guy Pearce, que ganhou um Emmy como o interesse romântico de Kate Winslet na minissérie Mildred Pierce), When We Rise acerta ao narrar a trajetória de toda uma geração a partir de histórias íntimas e pessoais. Isso confere ao resultado um estofo dramático diferenciado em termos de relatos LGBT, já que uma quantidade significativa de produções com a temática prefere uma pegada mais documental, incluindo filmes como o próprio Milk, escrito por Black. Já When We Rise reúne personagens comuns, torna todos facilmente identificáveis e, a partir daí, explora a emoção que vem organicamente das batalhas coletivas em que todos eles se engajam.

De 1969 a 2008, When We Rise é, segundo o criador Dustin Lance Black, o maior registro audiovisual já feito sobre os direitos LGBT.

Mesmo lidando com uma infinidade de personagens e passagens de tempo, a minissérie tem um ótimo tino para fazer diferente em muitas de suas representações. Uma freira, por exemplo, pode sim ser compreensiva quando descobre um caso de homossexualidade em sua escola. When We Rise também não demonstra qualquer hesitação ao narrar as contradições e preconceitos que inacreditavelmente existem dentro de grupos que lutam pelas minorias – e, nesse sentido, é embasbacante a passagem em que um coletivo feminista se recusa a ajudar ou ter qualquer simpatia por gays portadores do vírus HIV porque eles supostamente não dão a mínima para o câncer de mama. Por sinal, o segmento que explora a disseminação do HIV nos Estados Unidos é um dos mais contundentes do programa porque também explora outra abordagem importantíssima: a dos políticos conservadores que usaram a doença como argumento para potencializar suas propostas políticas calcadas no preconceito e na intolerância.

Ao abraçar tantas representações diferenciadas, é possível até esquecer os personagens clássicos que When We Rise também coloca em cena, como o gay que vive no armário por ser filho de um político homofóbico, o casal de lésbicas que precisa lidar com a vontade da filha adotada de conhecer seu verdadeiro progenitor e, claro, o jovem que abandona os pais para viver em outra cidade e finalmente ser quem ele é. Mas assim é o mundo: diverso e com pessoas de histórias que já conhecemos como a palma da nossa mão ou que sequer imaginamos. Um adendo, no entanto, precisa ser feito: é importante lembrar que When We Rise foi produzida para a TV aberta, o que exige trilha sonora explicativa, arcos dramáticos mais palatáveis, escolhas estéticas simplificadas e uma série de outras escolhas que tornem o programa atraente para o maior número possível de espectadores. Compreendendo e principalmente aceitando esse formato, também há muito o que se garimpar na história.

Quando o drama se sobrepõe ao documental, When We Rise vai além dos registros pioneiros e se torna um programa vivo também em criações.

O que acontece, porém, com esse programa que desenvolve personagens envolventes, um olhar mais íntimo do que genérico e representações importantes mas tão preteridas pela maioria das produções audiovisuais? Na reta final, lá pelo sexto episódio, Dustin Lance Black não resiste e se entrega por completo à narrativa documental. Com convencionalidades, conclui conflitos e contextualiza conquistas sociais e políticas apoiado em um formato para lá de didático, deixando de escanteio o dia a dia dos personagens que antes acompanhávamos de tão perto. É quando reproduz ou reencena incontáveis gravações da vida real e momentos de tribunal que When We Rise passa a se arrastar e se atrasar. Além disso, faz com que os encaminhamentos finais de determinados personagens pareçam apressados (um casamento específico no episódio derradeiro ganha emoção por acontecer em um determinado contexto histórico e não necessariamente pela execução de cena). Quem sai perdendo é o elenco: com ótimas personificações, intérpretes como Mary-Louise Parker, Rachel Griffiths e, principalmente, Guy Pearce mereciam encantar também por méritos do texto e não somente deles próprios. É uma pisada na bola quase imperdoável porque a minissérie dava a entender que tinha dominado muito bem a sua concepção. Dramaticamente falando e à beira da conclusão, When We Rise realmente não precisava ter entrado na vala comum de tantos outros registros tradicionais sobre a temática LGBT.

Três atores, três filmes… com Bruno Kott

Com quinze peças de teatro no currículo, o ator e diretor Bruno Kott fez a estreia de El Mate, seu primeiro longa-metragem atrás das câmeras, no 44º Festival de Cinema de Gramado, em 2016, quando saiu do evento com o Kikito de melhor ator coadjuvante na mala. E foi lá que esbarrei com o Bruno, que, na conversa que tivemos para o site do Festival, revelou ser um artista que gosta de potencializar as mínimas coisas em seus projetos. Esse conceito não deixa de estar presente nas três escolhas do Bruno para a coluna, onde ele destaca, por exemplo, o desempenho do ótimo Guillermo Francella em O Segredo dos Seus Olhos quando quase todos só enaltecem Ricardo Darín e até Soledad Villamil. Não deixem de conferir as outras escolhas e todos os comentários do Bruno!

Guillermo Francella (O Segredo dos Seus Olhos)
O cinema argentino é recheado de grandes filmes. Além de ótimos roteiros e grandes diretores, destacam-se atores extremamente afiados e versáteis, como é o caso de Guillermo Francella e sua ótima atuação em o Segredo dos Seus Olhos. Conhecido nos anos 90 por papéis cômicos, Francella vem mostrando seu grande potencial dramático. Em O Segredo dos Seus Olhos, ele interpreta Sandoval, amigo íntimo do protagonista Benjamín Esposito, interpretado por Ricardo Darín. A linha tênue entre o carisma e a fragilidade que Francella imprime ao personagem leva o espectador de um singelo sorriso a grandes emoções.

Daniel Aráoz (O Homem ao Lado)
Ainda nos filmes argentinos, destaco também o ator Daniel Aráoz pela excelente atuação em O Homem ao Lado, de Gastón Duprat e Mariano Cohn. Neste thriller despretensioso de humor e suspense, Daniel interpreta Victor, o rústico vizinho de muro de um esnobe arquiteto que mora em uma casa projetada por Le Corbousier. Victor precisa abrir uma janela para obter um pouco de luminosidade para a própria casa, porém a casa do arquiteto não pode sofrer nenhuma alteração no projeto. Daniel, que também é conhecido na Argentina por seu trabalho como escritor e produtor, mostra grande versatilidade ao brincar com a violência e a doçura desse rico personagem.

Sean Penn (O Pagamento Final)
Por último, um clássico de ação norte americano, O Pagamento Final, de Brian de Palma. O filme conta com um grande elenco, mas é Sean Pean na pele do advogado de Al Pacino que rouba a cena. Além da transformação física do ator, Sean construiu um personagem dúbio e com muitas camadas. Sean Pean, sem dúvida, alguma é um dos grandes norte-americanos.

A Bela e a Fera

I want so much more than they’ve got planned!

Direção: Bill Condon

Roteiro: Evan Spiliotopoulos e Stephen Chbosky

Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Audra McDonald, Stanley Tucci, Nathan Mack, Haydn Gwynne, Hattie Morahan, Ray Fearon 

Beauty and the Beast, EUA, 2017, Musical, 129 minutos

Sinopse: Moradora de uma pequena aldeia francesa, Bela (Emma Watson) tem o pai capturado pela Fera (Dan Stevens) e decide entregar sua vida ao estranho ser em troca da liberdade dele. No castelo, ela conhece objetos mágicos e descobre que a Fera é, na verdade, um príncipe que precisa de amor para voltar à forma humana. (Adoro Cinema)

Sem reajuste de inflação, a versão live action de A Bela e a Fera ostenta, até o momento, o status de maior musical já produzido mundialmente para o cinema. Foram nada menos do que 160 milhões de dólares investidos nessa adaptação da animação homônima de 1991 dirigida pela dupla Gary Trousdale e Kirk Wise! O retorno financeiro que obviamente veio pelas bilheterias já era esperado pela Disney, mas o que justamente faz a diferença para o sucesso dessa versão dirigida por Bill Condon é o salto ambicioso dado pelo estúdio, o que, para total surpresa de quem assiste ao filme, logo se descobre que tem pouco a ver com dinheiro. Na verdade, A Bela e a Fera se diferencia do insosso Cinderela, por exemplo, ao redimensionar a animação em uma série de aspectos, principalmente no de dar ainda mais ênfase à música como pilar fundamental para a jornada da protagonista.

É o tipo de caso que vale alertar: A Bela e a Fera, muito antes de ser apenas uma transposição de um universo animado para outro de carne e osso, é um grande musical, com direito a diálogos cantados e até resoluções que se desenham a partir da música. Isso mesmo, a adaptação de Bill Condon se sustenta a partir de uma cantoria quase incessante, o que revela primeiro a já comentada ambição do estúdio de fazer algo diferenciado e segundo a confiança em um diretor que foi chamado justamente por sua aproximação com o gênero (para quem não lembra, Condon dirigiu, em 2006, Dreamgirls – Em Busca de um Sonho). Missão duplamente cumprida: não só A Bela e a Fera consegue brilhar no universo de repetitivas adaptações de animações como também tem pleno domínio da narrativa musical. E o fato do mestre Alan Menken, compositor do longa de 1991, ter retomado seu posto só qualifica ainda mais o projeto.

Mais longo do que a animação (são 45 minutos a mais, com três novas canções, três outras estendidas, novos personagens e detalhes adicionais sobre a vida dos protagonistas), A Bela e a Fera chegou a ser idealizado pela Warner Bros. com Guillermo Del Toro na direção. A ideia, entretanto, acabou ficando mesmo com a Disney, que custou a comprar a ideia de que a adaptação deveria ser um musical, algo rapidamente incentivado por Condon em suas conversas com o estúdio. O longo processo de idealização e o alto investimento financeiro são percebidos na tela muito mais pelo alinhamento técnico de todo o filme do que pela extensa etapa de pós-produção (as gravações terminaram em agosto de 2015!): é digna de nota a grandiosidade estética da adaptação, que, com figurinos exuberantes de Jaqueline Durran e imponente design de produção de Sarah Greenwood, faz jus ao imaginário de toda uma geração apaixonada pela animação e também de quem é fã de musicais. 

Em termos de história há de se considerar leituras cada vez mais consideradas nos dias de hoje como A Bela e a Fera narrar um romance que nasce a partir do aprisionamento da mocinha por um príncipe que logo a encantará com um castelo imenso e bibliotecas impressionantes. Ainda é válido questionar o quanto a representação de LeFou (Josh Gad) é correta, uma vez que ele não passa de um personagem gay que, obcecado pelo amigo hétero, unidimensional e até mesmo machista, abre mão a todo momento de sua própria personalidade para causar algum tipo de impressão ao moço. De resto, A Bela e a Fera, mesmo com alguns excessos na história, é uma experiência encantadora aos olhos e aos ouvidos, entregando, com doses certeiras de ambição, a transposição para o live action que há tempos merecíamos conferir. 

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