Cinema e Argumento

Extraordinário

Because I’m your mom, it counts the most.

Direção: Stephen Chbosky

Roteiro: Jack Thorne, Stephen Chbosky e Steve Conrad, baseado no livro homônimo de R.J. Palacio

Elenco: Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson, Izabela Vidovic, Noah Jupe, Mandy Patinkin, Danielle Rose Russell, Bryce Gheisar, Elle McKinnon, Daveed Diggs, Nadji Jeter, Millie Davis

Wonder, EUA/Hong Kong, 2017, Drama, 113 minutos

Sinopse: Auggie Pullman (Jacob Tremblay) é um garoto que nasceu com uma deformação facial, o que fez com que passasse por 27 cirurgias plásticas. Aos 10 anos, ele pela primeira vez frequentará uma escola regular, como qualquer outra criança. Lá, precisa lidar com a sensação constante de ser sempre observado e avaliado por todos à sua volta. (Adoro Cinema)

Desde que nasceu com uma deformação facial, o pequeno Auggie Pullman (Jacob Tremblay) passou por mais de 20 cirurgias plásticas. Os procedimentos repararam vários de seus sentidos prejudicados, como a visão e a audição, mas jamais lhe conferiram qualquer estética aceitável aos olhos da sociedade. Por isso, se o nosso rosto é o registro mais explícito de tudo aquilo que já vivemos através dos anos, Auggie, com apenas dez, tem história até demais para exibir ao mundo e principalmente ao amedrontador universo escolar que agora lhe aguarda. Eis a verdadeira tragédia que impulsiona a emoção de Extraordinário: não a deformidade física, e sim o fato de um garoto tão jovem e doce precisar compreender, logo cedo na vida, que nem sempre o ser humano consegue ser generoso com o que lhe parece diferente.

Sucesso estrondoso de bilheteria nos Estados Unidos, Extraordinário deve repetir sua trajetória bem sucedida com plateias no Brasil e em todos os cantos do mundo, pontuando mais um grande êxito na carreira do diretor Stephen Chbosky, que, em 2012, escreveu e dirigiu o adorado As Vantagens de Ser Invisível. O efeito é semelhante: tanto Extraordinário quanto As Vantagens de Ser Invisível foram abraçados por público e crítica, mas o diálogo entre os dois filmes é muito mais interessante no sentido de tentar entender o porquê de ambos conseguirem congregar com tanta facilidade dois públicos normalmente distintos. Afinal, como adaptar com tal excelência um best seller emotivo, motivacional e de viés comercial de maneira que ele não caia nas mesmas fórmulas e fragilidades das inúmeras produções que faturam alto nas bilheterias mas não impressionam a parcela da plateia que espera uma narrativa acima da média?

Entre tantos aspectos, é preciso, claro, procurar diferentes ângulos daquilo que já conhecemos. Definitivamente é o que faz Extraordinário, que, baseado no livro homônimo de R.J. Palacio, coloca outros personagens no centro da narrativa para levantar diferentes percepções quanto ao protagonista, como a da irmã mais velha, que nunca teve qualquer protagonismo em casa frente aos tantos cuidados físicos e emocionais com o caçula, e a do colega da escola que, aos poucos, se torna a primeira amizade verdadeira conquistada por Auggie. Dessa forma, Extraordinário deixa de ser um monólogo de seu protagonista para se tornar um filme que, sim, sempre converge para a discussão central, mas a partir de múltiplos caminhos. Essa estrutura traz dinâmica e curiosidade para uma história que poderia apenas se acomodar nas difíceis circunstâncias de um personagem dramático por si só.  

Chbosky, que escreve a adaptação ao lado de Jack Thorne e Steve Conrad, traça um paralelo estimulante em Extraordinário: de um lado, toda a graça de uma infância cercada de imaginação (Auggie é fã de Star Wars e encontra conforto ao sonhar que é popular na escola por levar o icônico Chewbacca ao pátio da escola!); de outro, a dura realidade de uma sociedade que, quando não comete bullying, dificilmente esconde o olhar torto e assustado para um garoto que, lá no fundo, preferem que fique bem longe como se fosse uma praga. E Chbosky cumpre os rituais para um filme de natureza assumidamente comercial (há, claro, a trilha do brasileiro Marcelo Zarvos que vai e vem para sublinhar emoções e eventos que surgem apenas para estender um pouquinho mais as lágrimas), mas a leveza e a tristeza são muito bem comandadas por uma direção graciosa e que, no geral, está atenta ao quanto deve açucarar a jornada emocional do longa.

Com o carisma do elenco, ainda há como incrementar o resultado: compensando o fato do talentoso Jacob Tremblay (lembram como ele era magnífico em O Quarto de Jack?) estar embaixo de uma pesada maquiagem que praticamente impossibilita uma composição mais minuciosa do ator, todo o elenco de suporte é consistente em talento, de Julia Roberts, uma atriz que gosto demais em papéis dramáticos, a outros jovens atores, como Noah Jupe, que interpreta o amigo Jack Will, e Izabela Vidovic, que dá vida à irmã de Auggie. Misturando drama e otimismo (uma combinação praticamente infalível para obras dessa natureza), Extraordinário revela mais do que um sucesso de bilheteria que remonta a boa e velha definição do filme-família: tomando certa perspectiva, é mais do que clara a consolidação de um cineasta que tem tudo para manter uma carreira bem sucedida com filmes populares e ainda comover novas plateias. Se eu fosse vocês, também ficaria de olho em Stephen Chbosky.

Rapidamente: “De Canção em Canção”, “Escravos do Desejo”, “A Vingança Está na Moda” e “Your Name”

Bette Davis e Leslie Howard em Escravos do Desejo: o filme foi produzido na década de 1930, mas a composição da história segue transgressora mesmo após oito décadas.

DE CANÇÃO EM CANÇÃO (Song to Song, 2017, de Terrence Malick): Recentemente o diretor italiano Luca Guadagnino (Um Sonho de AmorUm Mergulho no Passado) alfinetou o cinema do canadense Xavier Dolan com certa razão: Guadagnino diz ter problemas com Dolan porque não acredita que um cineasta possa exercitar a criação artística lançando filmes anualmente, sem reservar uma temporada na agenda para o amadurecimento de ideias. O comentário também poderia ser aplicado à carreira recente de Terrence Malick, um diretor que já chegou a ficar 20 anos sem filmar e que hoje dá indícios de dirigir por encomenda. Só isso para explicar a série de longas genéricos e redundantes lançados por ele desde A Árvore da Vida. Olhando em retrospecto, é fácil constatar que Amor PlenoCavaleiro de Copas e esse mais recente De Canção em Canção são obras viciadas na fórmula de A Árvore da Vida. A câmera gira, atravessa paisagens, captura o pôr-do-sol e gruda na caminhada de personagens que falam frases soltas, se encaram e vagam pelo nada sem chegar a lugar algum. De Canção em Canção poderia ser um filme lindíssimo sobre a beleza e a tragédia dos relacionamentos humanos, em especial os amorosos, tão intensos, reveladores, desnorteantes, sufocantes e finitos. Ao invés disso, o filme parece não ter fim por repetir maneirismos de forma incansável, deixando de dar qualquer profundidade a personagens que, defendidos dentro do possível por um elenco de alto nível (Rooney Mara! Michael Fassbender! Ryan Gosling! Natalie Portman! Cate Blanchett!), inspiram mais tédio e inércia do que qualquer outra coisa. Um período de férias não faria mal ao diretor.

ESCRAVOS DO DESEJO (Of Human Bondage, 1934, de John Cromwell): Reza a lenda que Bette Davis, uma atriz ainda desconhecida no início dos anos 1930, quis fervorosamente protagonizar Escravos do Desejo porque pressentia que esse papel lhe daria o tão esperado estrelado em Hollywood. Bette, que foi também visionária em tantos outros pontos posteriores de sua carreira, já fazia a aposta certa desde o princípio, pois, além de trazer a sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz, Escravos do Desejo já representava muito bem o tipo de cinema e de papel que eternizariam essa prestigiada intérprete norte-americana. Por mais que tenha problemas em regular a intensidade e, por que não, a verossimilhança de tantos fatos e reviravoltas em pouco mais de 80 minutos, o filme surpreende pela coragem com que trata representações que, ainda hoje, são tão delicadas para a indústria, como a da mulher, que, aqui, mesmo vista sob a luz da vilania, faz o que bem entende, além de rejeitar qualquer padrão que a sociedade queira lhe impor. Ainda em 2017, é raríssimo encontrar relatos onde o homem corra atrás de uma mulher que lhe é indiferente, invertendo a clpassica fórmula perpetuada por Hollywood ao longo de sua História. Com uma performance realmente reveladora de Bette Davis, interpretando uma das megeras menos conhecidas de sua carreira, Escravos do Desejo segura o interesse do espectador ao tornar imprevisível cada ação da protagonista, uma mulher cuja trajetória jamais se rende ao moralismo da redenção, reforçando a ideia de que Escravos do Desejo foi e ainda é uma obra transgressora.  

A VINGANÇA ESTÁ NA MODA (The Dressmaker, 2015, de Jocelyn Moorhouse): Trazendo o roteiro mais dispersivo e desorganizado da carreira de P.J. Hogan (O Casamento do Meu Melhor AmigoO Casamento de MurielOs Delírios de Consumo de Becky Bloom), A Vingança Está na Moda é uma produção australiana que beira o irritante pela quantidade de indecisões que guiam tanto os rumos da história quanto o próprio tom escolhido pela diretora Jocelyn Moorhose, que não tem qualquer destreza para regular a mistura entre drama e comédia de uma história que não diverte na comédia nem no drama. Kate Winslet até consegue causar certa graça ao desfilar lindamente pela cidade do interior que abandonara anos atrás e que agora volta a ser seu lar, mas o roteiro não molda com clareza a personalidade de uma protagonista repleta de incógnitas. Tudo é abrupto, apressado, mal explicado e, acima de tudo, sem objetivo definido. A Vingança Está na Moda atira para todos os lados e se perde em meio a tantos personagens coadjuvantes que, de vez em quando, ganham inexplicável espaço na trama. Pode até ser que o romance homônimo escrito por Rosalie Ham no qual o longa se baseia também queira se esquivar do clássico arco dramático da protagonista que, após anos, volta para a cidade natal para enfrentar fantasmas do passado, mas a recusa ao óbvio se perde ainda mais na direção: Moorhouse não tem talento desenvoltura para brincar com caricaturas e muito menos delicadeza para fazer a sempre tão refinada alquimia entre o riso e o choro, o que termina comprometendo ainda mais a adaptação já dispersiva.

YOUR NAME (Kimi No Na Wa, 2016, de Makoto Shinkai): Sucesso avassalador no Japão, onde se tornou a maior bilheteria da história do país para uma animação, superando o clássico A Viagem de Chihiro, do mestre Hayao Miyazaki, Your Name faz por merecer tanto badalo: em qualquer recorte de tempo ou espaço, esse filme assinado por Makoto Shinkai seria mesmo uma revelação por toda a sua criatividade. As linhas gerais da sinopse não fazem justiça à obra (dois jovens que passam a trocar de corpos de forma esporádica e sem razão aparente), o que não deve ser motivo de desânimo. É questão de pouco tempo de projeção para que Your Name comece a surpreender com uma narrativa intrincada, surpreendente e gradativamente emotiva. Durante boa parte da história o filme se garante com a comédia, com o carisma dos personagens e com uma trilha sonora irresistível, mas é quando começa a revelar suas artimanhas que a animação ganha uma perspectiva ainda mais interessante. Dificilmente uma experiência para os pequenos (além da trama não-linear que, pouco a pouco, demanda total atenção do espectador, há de se considerar todo o detalhamento da cultura japonesa, tão essencial para o encaixe das peças do quebra-cabeça), Your Name tem um pique invejável e consegue um feito cada vez mais raro, inclusive para filmes com pessoas de carne e osso: o de surpreender a todo momento e de sempre estar muito à frente do espectador, jamais permitindo que ele anteveja suas resoluções. Imperdível!

A Guerra dos Sexos

I’m done talking. Let’s play.

Direção: Valerie Faris e Jonathan Dayton

Roteiro: Simon Beaufoy

Elenco: Emma Stone, Steve Carell, Sarah Silverman, Andrea Riseborough, Bill Pullman, Alan Cumming, Elisabeth Shue, Eric Christian Olsen, Fred Armisen, Martha MacIsaac, Lauren Kline, Mickey Sumner

Battle of the Sexes, EUA/Reino Unido, 2017, Drama/Comédia, 121 minutos

Sinopse: Uma disputa de tênis entre o ex-campeão Bobby Riggs (Steve Carell) e a líder da classificação mundial Billie Jean King (Emma Stone) se torna centro de um debate global sobre igualdade de gêneros. Presos sob a atenção da mídia e com ideologias diferentes, Riggs tenta reviver as glórias do passado, enquanto King questiona sua sexualidade e luta pelos direitos das mulheres. (Adoro Cinema)

Com uma grande dose de incredulidade, conferi A Guerra dos Sexos percebendo que, mesmo ambientado em meados da década de 1970, esse é um filme lamentavelmente atual. E é por isso que não deixa de ser estranho que o filme assinado por Valerie Farris e Jonathan Dayton, do icônico Pequena Miss Sunshine, tenha repercutido de forma tão morna tanto nos Estados Unidos quanto aqui no Brasil. Aliás, mais do que por suas questões temática, essa é uma injustiça também com as qualidades do filme em si, que, contado através de uma narrativa assumidamente tradicional, consegue se esmerar no formato com graça, inteligência e discussões dramáticas cercadas de sutilezas.

Encenando a história verídica de Billie Jean King (Emma Stone), tenista que lutou pela igualdade de gênero no esporte, participando, inclusive, de uma partida emblemática com o veterano Bobby Riggs (Steve Carell) que levou os Estados Unidos à loucura, A Guerra dos Sexos chega a ser inacreditável quando mostra a quantidade cavalar de ofensas direcionadas às mulheres não apenas no cotidiano esportivo, mas também em plena rede nacional, onde comentaristas do segmento afirmavam que o sexo feminino é inferior ao masculino simplesmente pela natureza menos resistente de seus portes físicos. Das piadas danosas aos comentários grosseiros, mulheres só eram vistas como pessoas relevantes no quarto ou na cozinha, o que, convenhamos, dependendo das circunstâncias, não é muito diferente nos dias de hoje.

Do ponto de vista cômico e dramático, esse embate efervescente seria primeira escolha como a linha de condução da história, mas A Guerra dos Sexos coloca os protagonistas em rota de colisão apenas no terço final para antes contar de forma paralela a trajetória individual de duas pessoas indiscutivelmente diferentes, mas também semelhantes na essência. Afinal, tanto Billie quanto Bobby encaravam o esporte como uma alternativa para duras realidade: enquanto ela mantinha um casamento de fachada ao mesmo tempo em que não conseguia florescer sua homossexualidade em tempos conservadores, ele era um desocupado que, agarrado a um passado de glória já distante, lidava com o fato de ser um apostador compulsivo sem jamais reconhecer o seu próprio problema.

A partir de um recorte específico, A Guerra dos Sexos se dedica muito mais à perspectiva de Billie, escolha que, uma vez ou outra, traz certas barrigas para o filme como um todo (seu romance com a cabeleireira toma tempo demais, quase tornando a história um relato sobre identidade sexual), mas que, no geral, é um grande acerto para dimensionar as dificuldades femininas em ambientes machistas. E se A Guerra dos Sexos não deixa de, em determinados momentos, apresentar discursos prontos, ao menos o faz com firmeza e bom humor, estando do lado mais interessante de uma trincheira cuja batalha principal, ao final do filme, será capaz de fazer com que o mais machão dos homens, de repente, também esteja torcendo pela vitória de uma protagonista reprimida por suas escolhas, por sua natureza e por seu próprio sexo.

Emma Stone, que aqui está tão boa, se não até melhor do que em La La Land: Cantando Estações, defende a personagem com admirável firmeza, sem cair em estereótipos ou no puritanismo de intérpretes que, por melhor que sejam, encarnam papeis gays com certa distância. Emma mergulha de cabeça: o primeiro encontro da personagem com sua futura paixão é capturado com delicadeza tanto pela atriz quanto pela dupla de diretores, ao passo em que o beijo lésbico da personagem é carregado com todo o medo e a aventura de uma importante descoberta como essa. Já Carell, que sempre foi um grande ator na TV com The Office e no cinema com A Grande ApostaFoxcatcher, citando dois títulos mais recentes, toma uma decisão sábia: ao invés de vilanizar Bobby Riggs, ele simplesmente o retrata como um homem demente e vulnerável, já que, ao final do dia, depois de tantas ofensas proferidas às mulheres, ele não conseguia viver sem o conforto emocional e financeiro de uma esposa que, ironicamente, mandava na casa.

Além da direção certeira de Farris e Dayton, que, pela primeira vez são creditados na tela com os nomes invertidos desde sua estreia em Pequena Miss Sunshine, há de se reconhecer o bom trabalho do roteiro assinado por Simon Beaufoy, de Quem Quer Ser Um Milionário? e de Em Chamas (o melhor capítulo da saga Jogos Vorazes), ao criar um texto que, mesmo linear e pouco surpreendente na forma, condensa um tema importante sem fazer com que a questão temática sintetize o filme em si (algo que já discuti, por exemplo, no texto de As Sufragistas, uma obra lembrada pela discussão que levanta e não por seus méritos cinematográficos). As bilheterias e as recepções mornas dizem o contrário, mas no que me toca, A Guerra dos Sexos, na medida do possível e de suas dimensões, tem uma receita bastante consistente para agradar ao público de biografias e dramédias bem contadas.

Rapidamente: “Certo Agora, Errado Antes”, “Corra!”, “Depois Daquela Montanha” e “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”

Narrando duas versões de uma mesma história de amor, Certo Agora, Errado Antes fala sobre reparações com delicadeza e bom humor.

CERTO AGORA, ERRADO ANTES (Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da, 2015, de Sang-soo Hong): Com delicadeza e bom humor, Certo Agora, Errado Antes fala sobre reparação usando uma estrutura que não deixa de testar o espectador em tempos em que a instantaneidade, o ritmo e e agilidade são tão reivindicados: aqui, acompanhamos duas versões de uma mesma história de amor, onde a grande sacada é justamente o roteiro mostrar como tudo na vida pode ser diferente a partir de decisões aparentemente corriqueiras. As diferenças entre as duas versões contadas ultrapassam o plano dos acontecimentos da história para brincar inclusive com a composição dos personagens, que se tornam pessoas completamente distintas quando enfrentam variações das mesmas situações. Até mesmo o ritmo de Certo Agora, Errado Antes se transforma entre os dois relatos, comprovando o talento do diretor Sang-soo Hong ao lidar com a proposta que foi trabalhada de perto com os atores: como forma de laboratório, os protagonistas só filmaram a segunda versão depois de assistir a primeira finalizada, com o objetivo de refletir afundo toda a composição do que ainda estava por ser rodado. Evocando os amores passageiros, por vezes impossíveis, que já foram belamente registrados em filmes mais recentes como Encontros e Desencontros e a trilogia Antes…, de Richard Linklater, Certo Agora, Errado Antes não deixa de, ao final da projeção e de sua própria maneira, também se tornar parte desse time.

CORRA! (Get Out, 2017, de Jordan Peele): Versando sobre o racismo em sua forma mais perigosa (a velada, onde uma família de classe alta formada apenas por pessoas brancas diz não ter preconceito algum, mas curiosamente só contrata empregados negros para cuidar da casa), Corra! é uma experiência surpreendente tanto em termos de sua solidez como filme de gênero quanto das discussões que traz à tona como um filme de terror que ancora seu medo não necessariamente na ameaça de mortos, serial killers ou criaturas indecifráveis, mas na forma amedrontada e paranoica com que o protagonista se vê obrigado a viver como um jovem garoto negro em uma sociedade que pode ser terrivelmente cruel com a sua cor. Tudo é tão crível que logo embarcamos na insegurança do personagem, que namora uma menina branca e que a acompanha em um fim de semana onde finalmente será apresentado aos pais da garota. Tudo vai aparentemente bem, até que logo fatos estranhos começam a acontecer, e é a partir daí que Corra! se torna um exercício de terror instigante: indo da hipnose a macabros procedimentos cirúrgicos, o filme, comandado por uma direção surpreendentemente segura do comediante Jordan Peele em seu primeiro longa-metragem, foi abraçado pela crítica, mas nem tanto pelo público que, arrisco dizer, acabou não embarcando no projeto por ficar apenas no corriqueiro processo de desvendar um mistério quando, na realidade, deveria se colocar em outra perspectiva para compreender que Corra! só utiliza os elementos de terror para canalizar algo que vai muito além do simples entretenimento.

DEPOIS DAQUELA MONTANHA (The Mountain Between Us, 2017, de Hany Abu-Assad): O diretor israelense Hany Abu-Assad já chegou a concorrer duas vezes ao Oscar de melhor filme estrangeiro: em 2005, com Paradise Now, e em 2014, com Omar. Entre um e outro,, rodou longas entre a Palestina e a Grécia, chegando agora aos Estados Unidos com Depois Daquela Montanha, adaptação do best seller homônimo escrito por Charles Martin em 2010. Se já é comum diretores estrangeiros estrearem em Hollywood sem muita sorte do ponto de vista criativo, imagine, então, quando eles são indicados a comandar adaptações de best sellers. É definitivamente o caso de Depois Daquela Montanha, espécie de filme-sobrevivência com toques de romance que não chega a causar maior comoção, seja na paixão ou na adrenalina. Não há problemas em seguir o passo a passo de um determinado tipo de história – e é exatamente o que acontece aqui -, mas quando falta senso de diversão ou força dramática, a indiferença toma conta. Parte dessa sensação vem, por exemplo, das interpretações apenas corretas e sem muitas faíscas de Kate Winslet e Idris Elba e da possibilidade de prever todo o desenrolar da  principal jornada emocional do filme, que também dificilmente nos faz acreditar que algo realmente radical pode acontecer aos protagonistas. Em suma, tudo é muito linear e empacotado para uma carreira junto ao grande público, contribuindo para as experiências cada vez menos enérgicas que o cinema comercial tem nos proporcionado.

HOMEM-ARANHA: DE VOLTA AO LAR (Spider-Man: Homecoming, 2017, de Jon Watts): A nova aventura do mais famoso herói aracnídeo pode não ser uma revolução ou sequer se equivaler aos dois primeiros filmes dirigidos por Sam Raimi, mas, ao contrário das versões estreladas por Andrew Garfield e Emma Stone, esse reboot pode ao menos encher o peito para dizer que tem personalidade própria. Dois fatores importantíssimos contribuem para esse mérito. Primeiro, claro, é o fato de Homem-Aranha: De Volta ao Lar se negar a contar pela milésima vez toda a origem do protagonista. Nessa nova versão, Peter Parker já é um herói bem ciente de seus poderes e de suas responsabilidades, o que resulta em uma bela economia de tempo para o filme e para o próprio espectador (o que não quer dizer que o filme deixe de comentar eventualmente o passado do protagonista). E segundo é incorporar sua essência sem qualquer medo, assumindo ser um filme basicamente jovem, cômico e repleto de referências. Dessa forma, por mais simples, passageiro e pouco criativo que seja na prática, Homem-Aranha: De Volta ao Lar prefere ser muito bem endereçado a um respectivo público ao invés de simplesmente tentar se camuflar em um universo de adaptações de quadrinhos que tentam ser algo maior do que realmente são. Além de tudo, o jovem Tom Holland, que já era uma revelação desde os tempos de O Impossível, cai como uma luva para o papel, compensando os vazios da aventura (não existe aqui sequer uma cena de ação mais marcante) e provando que é mesmo um dos novos nomes de Hollywood que devemos acompanhar de perto.

“Ozark”, uma pérola escondida no catálogo da Netflix

Evocando Breaking Bad apenas na questão temática, Ozark caminha com suas próprias pernas e dá o pontapé inicial para uma trajetória promissora na Netflix.

Há razão nas comparações feitas entre OzarkBreaking Bad, ambas séries sobre pais de família envolvidos em negócios ilegais e que precisam fazer mil malabarismos para administrar tanto as aparências quanto a vida como ela realmente é. O problema dessa comparação é que ela coloca Ozark em uma missão incrivelmente desleal: a de tentar sair das sombras de Breaking Bad, uma das séries mais mitológicas lançadas na última década. Fora isso, a comparação é equivocada porque o programa lançado em julho deste ano pela Netflix herda apenas a temática de Breaking Bad e porque ele jamais tem a pretensão de tentar se equiparar ao seriado de Vince Gilligan em estilo, ritmo ou visual. Dessa maneira, se você só consegue saborear Ozark tecendo comparações com Breaking Bad é porque está deixando escapar o mundo de qualidades que a autêntica série estrelada por Jason Bateman e Laura Linney tem a oferecer.

Atendo-se somente à superfície já é possível constatar o quanto Ozark é diferente de Breaking Bad: rejeitando firulas introdutórias, a série logo nos mostra um protagonista envolvido com o cartel mexicano em um grande esquema de lavagem de dinheiro. Isso quer dizer que seus negócios escusos não passarão pelo clássico arco da descoberta, pois é questão de pouquíssimo tempo para que a história revele o quanto a esposa é cúmplice do marido e o quanto ambos não nutrem prazer ou fascínio por aquilo que fazem, ao contrário do icônico Walter White de Bryan Cranston. Mas também sejamos justos: Quando bem trabalhadas, as introduções de jornadas facilmente reconhecíveis podem ser envolventes, mas, levando em consideração que Ozark é equivocadamente cobrada a partir de comparações com Breaking Bad, a objetividade se revela um ponto positivo para uma série que, passada a sua premissa mais básica, caminhará muito bem com as próprias pernas.

De estética coesa e narrativa disciplinada, o seriado alcança solidez com uma trama que não se preocupa em entregar momentos de catarse.

Partindo de um universo onde todos não são o que parecem ser, Ozark se debruça em um protagonista extremamente pragmático, que soluciona crises e desata nós de forma clínica, mesmo que, muitas vezes, lá no fundo, ele claramente esteja em desespero, como quando, já no episódio-piloto, descobre o caso extraconjugal de sua esposa, assunto que é tratado com economia e maturidade pela série. Por sinal, é na dinâmica de Martyn Byrde (Bateman) com a esposa Wendy (Linney) que Ozark defende as suas melhores qualidades: ao utilizar a traição como mecanismo para que Martyn e Byrde passem a ver um ao outro como meros sócios na gestão de um lar e parceiros no crime, Ozark, a partir dessa escolha, mais uma vez renega caminhos fáceis, o que não quer dizer que a traição deixe de despertar nos personagens os sentimentos conflituosos que eles acabam escanteando diante das decisões cada vez mais rápidas e instantâneas que são exigidas por seus negócios perigosos. 

Ao definir com verossimilhança seu universo particular, Ozark prefere agir com discrição, acertando na fervura branda que dá aos acontecimentos. Desprovido de momentos enérgicos em termos de suspense, mas extremamente sólido na consistência do estilo que adota, o seriado preserva a economia inclusive quando chega ao extremo de determinados conflitos, sem desqualificar a tensão inerentes a eles. A baixa fervura se reflete em uma parte técnica ao mesmo tempo simples e refinada: a nebulosa fotografia do trio Ben Kutchins, Michael Grady e Pepe Avila del Pino traz personalidade para a geografia física e emocional do seriado, assim como a trilha sonora assinada por Danny Bensi e Saunder Jurriaans acerta pelo minimalismo em que se mostra presente na trama, sem cometer o tão frequente equívoco de composições que pesam a mão na hora de sublinhar momentos que já falam por si só.  

Laura Linney e Jason Bateman: protagonistas no ponto perfeito de papeis que demandam o olhar comum e pragmático para situações que clamam pelo instinto.

O elenco ajuda a encenar esse american way of life que Ozark radiografa mais pelo cotidiano do que pelas reviravoltas, com destaque para pelo menos três atores: Jason Bateman, que, além de dirigir quatro episódios (boa parte deles entre os melhores da temporada), escapa da marca cômica registrada de sua carreira para criar um homem perfeitamente comum e cercado de dramas; Laura Linney, que sempre dispensou comentários, prova mais uma vez que serve para qualquer papel; e a jovem Julia Garner, que, como a geniosa Ruth, consegue criar uma personagem que aprendemos a temer pela imprevisibilidade e pelos impulsos, mesmo se tratando de uma simples adolescente criada em um ambiente essencialmente adulto e masculino (aliás, sua trajetória de autodescoberta é a mais interessante desenhada pelo roteiro).

Já renovada para uma segunda temporada, Ozark tem descompassos para ajustar até seu retorno, como as fragilidades resultantes de momentos em que os personagens partem do plano pragmático para as decisões tomadas em nome da emoção. Várias passagens desse primeiro ano soam um tanto artificiais quando os personagens dão guinadas menos racionais, em particular nos episódios derradeiros, onde, por exemplo, Ruth toma uma drástica decisão envolvendo sua família para beneficiar Martyn. A própria temporada se encerra com um nível até açucarado em sua lição familiar! Por outro lado, não é nada que abale as expectativas para o segundo ano, que, caso mantenha o nível desse primeiro, pode muito bem tornar Ozark uma das melhores séries que poucos descobrem no catálogo da Netflix.  

Bom Comportamento

Something happened. I don’t know exactly what.

Direção: Benny e Josh Safdie

Roteiro: Josh Safdie e Ronald Bronstein

Elenco: Robert Pattinson, Benny Safdie, Jennifer Jason Leigh, Barkhad Abdi, Taliah Webster, Necro, Peter Verby,  Saida Mansoor, Gladys Mathon, Rose Gregorio, Hirakish Ranasaki, Maynard Nicholl

Good Time, EUA, 2017, Drama, 101 minutos

Sinopse: O plano de Constantine Nikas (Robert Pattinson) era assaltar um banco e descolar uma boa quantia em dinheiro, mas nada sai como o planejado e seu irmão mais novo acaba sendo preso. Decidido a resgatá-lo, Constantine embarca em uma perigosa corrida contra o relógio, e onde ele mesmo é o próximo alvo da polícia. (Adoro Cinema)

Desde que estreou mundialmente na competição do Festival de Cannes deste ano, Bom Comportamento tem transformado a carreira do jovem Robert Pattinson, que, antes execrado (com toda razão) por seu desempenho apático e inexpressivo na saga Crepúsculo e em filmes como Água Para ElefantesPoucas CinzasBel Ami – O Sedutor, agora, de repente, desponta como um ator promissor (ele fez Cosmópolis, com David Cronenberg, onde também era elogiado, mas, ali sua palidez servia aos propósitos do personagem, o que não lhe dava muitos méritos). Entretanto, Pattinson, que realmente está revigorado em Bom Comportamento, é apenas a porta de entrada para que sejam descobertas todas as outras qualidades desse filme que é um entretenimento consistente, mas que, como todo bom filme de ação, ultrapassa a linha de perseguições, assaltos ou sequestros para narrar uma jornada emocional.

Sem precisar de discursos prontos, Bom Comportamento é desolador ao evocar destinos que, à parte o que se faça pelo caminho, já parecem traçados desde a maternidade: Connie (Pattinson) faz tudo com a maior das boas intenções em relação ao irmão mais novo, mas os resultados são sempre catastróficos, seja por suas escolhas atrapalhadas e impulsivas ou simplesmente pelo azar do próprio acaso. Prático, mas ansioso e tempestuoso, o protagonista vive, em menos de 24 horas, uma jornada onde parece não haver luz ao final do túnel. Tudo o que Connie executa de forma inegavelmente torta é para tentar mudar ou ao menos amenizar uma história que sempre lhe foi imposta – e se não for para ele que seja ao menos para o irmão, que já sofre tanto no mundo com suas próprias limitações (ao que tudo indica, ele sofre de algum nível de surdez, além de problemas mentais, o que não é muito bem explicado pela trama).

Para cada momento em que Connie parece ter finalmente acertado algum plano em uma busca desenfreada, há sempre consequências que tornarão sua trajetória novamente problemática, o que se revela uma dinâmica eficiente para que o longa se torne devidamente gastante (e, nesse caso, o adjetivo realmente deve ser interpretado como algo positivo). E não é só pela estrutura da história, contada de forma crua e quase rústica, que Bom Comportamento traz sentimentos incômodos: o estilo de direção dos irmãos Benny e Josh Safdie amplia a sensação de claustrofobia emocional com cenas filmadas basicamente em ambientes pequenos, escuros, e fechados. Até mesmo cenas de ação decisivas se configuram dessa forma, como a que conta com a participação de Barkhad Abdi em um parque de diversões desligado à noite e a de uma negociação envolvendo uma garrafa de ácido e um pitbull.

Com ritmo exemplar, Bom Comportamento é um filme elétrico, que, por vezes, causa mal estar ao não dar alento para um protagonista que está sempre em estado de alerta. E Robert Pattinson mergulha na proposta sem qualquer tipo de vaidade e com toda a segurança do mundo, sem mostrar qualquer tipo de hesitação ou limitação como em todas as obras anteriores de sua filmografia. Ainda que Bom Comportamento não seja um filme necessariamente de interpretação, é importante que o protagonista tenha presença em cena, o que definitivamente é o caso aqui. Pattinson é parte de tantos outros méritos que merecem ser descobertos e que minimizam as soluções eventualmente fáceis do roteiro, como os acasos um tanto impossíveis e que até exigem uma dose boa vontade do espectador (os policiais descuidados, as pessoas certas nos momentos certos, os golpes devidamente certeiros em situações de desespero). Mais do que continuar nessa batida de atuação, se Pattinson continuar optando por projetos assim, é de se esperar mesmo um futuro muito interessante para a sua carreira. Tomara que tenha aprendido com a colega Kristen Stewart.

Recarregando as energias

O corpo pede, a mente também, então vamos lá: hora de uma pausa para recarregas as energias. O blog vai tirar alguns dias de férias, mas espero, claro, contar com vocês quando for a hora de retornar. Até porque, retomando as atividades, o que teremos é filme de sobra para comentar por aqui. See you soon

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