Cinema e Argumento

45º Festival de Cinema de Gramado #13: “Bio”, de Carlos Gerbase

Maria Fernanda Cândido é uma das atrizes de repercussão nacional que integram o extenso elenco de Bio, novo filme do gaúcho Carlos Gerbase em forma de falso documentário.

Pela relação com o evento e pela longa e prolífera carreira no cinema gaúcho, a presença do diretor Carlos Gerbase na edição comemorativa de 45 anos do Festival de Cinema de Gramado é muito bem-vinda. O mais importante, no entanto, se deve – e muito mais – ao fato de Bio, que integra a mostra competitiva de longas-metragens brasileiros – ser, possivelmente, o trabalho mais consistente de sua carreira. Contando, através do modelo falso documentário, a história de um homem fictício que viu mais de 100 anos e que nunca aparece no filme, Bio se esquiva da mera brincadeira com o formato para criar um conceito próprio e se apoiar na lógica que molda todo (bom) documentário: a de que qualquer vida, até mesmo a mais cotidiana, é suficientemente grande para ser celebrada tanto quanto a do mais célebre ser humano. 

Reunindo um elenco gigantesco, que contempla desde talentos gaúchos (Werner Schünemann, Deborah Finocchiaro, Zé Victor Castiel) a nomes de repercussão internacional (Maitê Proença, Maria Fernanda Cândido), Bio não soa datado porque, além de usar o formato de falso documentário para expandir dramaticamente uma vida aparentemente simples, o faz com uma estrutura bem diferente, que atravessa diversas décadas, como se o documentário tivesse acompanhado a vida do protagonista desde antes de seu nascimento. E Gerbase, que, pela primeira vez, investe no  estilo em sua carreira de longas, tem tino para entrar nas brincadeiras do gênero, acertando especialmente no tom cômico e no saudosismo que permeia os depoimentos de personagens que lembram do protagonista com muito carinho. Por falar nele, é sábia a decisão do filme de nunca mostrá-lo, afinal, a imaginação pode ser um agente muito mais fascinante e funcional. 

Com tantos depoimentos, a montagem de Milton do Prado tem papel decisivo para que Bio flua de forma dinâmica e nunca confusa. Como em tantas produções que destrincharam de forma bem sucedida o formato de falso documentário, especialmente nos Estados Unidos, ela também serve para costurar o bom humor que permeia praticamente toda a obra. Ademais, por dar vida a tantos personagens ao longo de tantos anos em quase duas horas de projeção, Bio, em certo ponto, tem lá suas barrigas, com depoimentos menos agregadores e passagens que poderiam ser claramente eliminadas para que a obra fosse um pouco mais concisa e menos abarrotada de relatos e informações, mas, à parte esse detalhe, o que fica mesmo, além da vitória de Gerbase em um filme mais específico, é esse carinho com que ele trata pequenos momentos da vida, como se não houvesse diferença entre eles e aqueles vividos por, sabe-se lá, uma grande celebridade. E a moral da história é que, no final das contas, realmente não há. A vida sempre pulsa. Em qualquer dimensão.

45º Festival de Cinema de Gramado #12: “Pela Janela”, de Caroline Leone

Magali Biff é superlativa no drama Pela Janela. Como Rosália, ela acompanha o tom do filme de Caroline Leone ao adotar um desempenho que mostra tudo sem mostrar nada.

Frequente colaboradora do cineasta Esmir Filho desde os tempos do curta-metragem Saliva, a montadora Caroline Leone também resolveu contar suas próprias histórias em narrativas longas. E começou com o pé direito: antes de fazer sua estreia nacional no 45º Festival de Cinema de Gramado, Pela Janela foi selecionado, ainda em sua gestão de roteiro, para a Fabrique des Cinémas du Monde, projeto organizado pelo Institut Français de Paris, em parceria com o Festival de Cannes e o Marché du Film para apoiar o desenvolvimento de projetos assinados por diretores que estão produzindo seus primeiros ou segundos longas-metragens. Mais do que a validação tanto do Fabrique des Cinémas quanto do Festival de Cinema de Gramado, Pela Janela é realmente uma produção bem sucedida. Reforçando o olhar feminino destacado na Serra Gaúcha este ano (quatro dos sete filmes selecionados para a mostra brasileira levam a assinatura de cineastas mulheres), essa coprodução Brasil/Argentina se debruça a falar sobre um nicho que, em Hollywood, por exemplo, somente a diretora Nancy Meyers parece se atentar: o das mulheres de meia-idade que, sim, são protagonistas de suas próprias vidas e passam por dilemas e transformações dignas de cinema.

Há, contudo, uma diferença crucial nessa comparação extremamente simplista, o que nada tem a ver com a valoração dos diferentes olhares: ao passo que Nancy Meyers fala basicamente sobre mulheres ricas que sofrem por amor, Caroline Leone vai muito mais afundo na vida feminina de meia-idade ao registrar o mundo de uma personagem que, ao perder o emprego de anos em uma fábrica, precisa reconstruir sua vida. O primeiro passo para essa jornada acontece a partir de uma viagem em que ela embarca junto ao irmão para a Argentina. Não se engane, entretanto, ao pensar que Leone, também autora do roteiro, percorrerá os caminhos conhecidos de um road movie ou de filmes sobre mulheres maduras. As lógicas clássicas de um filme do gênero estão ali -particularmente, gosto sempre da ideia de encontrar, ao fim da estrada, uma personagem diferente da que entrou -, mas Pela Janela tem um tempo próprio e caminha com passos lentos, o que nos leva a uma narrativa sem pressa, sem agonia e que dá uma dimensão muito mais interessante a dramas que descambariam para cenas hiperbólicas em projetos sem muita criatividade. Nesse sentido, percebam como o longa finalmente solta o choro há muito tempo preso pela protagonista: ele acontece quando Rosália (Magali Biff) está lavando o rosto, como se ela própria não se permitisse verter lágrimas mesmo em um universo privado, o que diz muito sobre essa mulher calada e introspectiva que acompanhamos ao longo de 85 minutos.  

Registrando com discrição a cultura latina quando viaja pelas estradas da Argentina, Pela Janela faz a sábia escolha de não usar a geografia simplesmente como cartão-postal, rejeitando a ideia de ser um road movie leve e com reflexões fáceis sobre a maturidade. Tudo é muito mais delicado do que qualquer ponto turístico poderia traduzir, a exemplo da clara transformação que a protagonista sofre ao ganhar uma camisa que, em um primeiro momento, considera um tanto estapafúrdia, mas que, após determinadas vivências que até então lhe eram desconhecidas, passa a vestir até mesmo com certa vaidade. A cena nas cataratas, representando uma comunhão com a natureza e uma metáfora da libertação das lágrimas presas, também é emblemática. Sendo assim, é por olhar com calma e proximidade uma fase da vida onde as pequenas mudanças podem causar as maiores das reviravoltas internas que Caroline Leone entrega um filme que, como todo bom cinema, cresce pouco a pouco com o espectador ao longo tempo. Se não for por isso, que a experiência valha, ao menos, pelo desempenho maravilhoso de Magali Biff, uma atriz que, apesar de trabalhar com dramaturgia desde os anos 1980, especialmente no teatro, ganha uma de suas chances mais preciosas. Assim como o longa, ela aproveita cada minuto de projeção com a maior das delicadezas, mostrando tudo sem mostrar nada. E isso é coisa só de gente grande.

45º Festival de Cinema de Gramado #11: Eliane Giardini celebra o agora em “A Fera na Selva”

À frente e atrás das câmeras: Eliane Giardini atua, dirige e coproduz A Fera na Selva, drama baseado na novela homônima do inglês Henry James. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Não é exagero dizer que A Fera na Selva, novela escrita pelo inglês Henry James em 1903, mudou a vida da atriz Eliane Giardini. “Fiquei muito impactada quando li pela primeira vez há cerca de 25 anos. Foi um choque de realidade”, lembra. O “choque de realidade”, segundo ela, veio pela identificação com o protagonista da história, um homem que, à espera de um grande acontecimento que o possa distinguir de todas as outras pessoas, esquece de viver o agora e as coisas simples da vida. Para Eliane, esse é um exercício que agora ela precisa fazer diariamente: “Isso é muito do ser humano: pensar no passado e projetar o futuro, mas esquecer o presente. Depois de entrar em contato com essa obra, passei a exercitar muito mais a consciência do aqui e do agora. É quase uma meditação, e isso é muito difícil”.

É justamente essa discussão que norteia A Fera na Selva, o filme que Eliane agora dirige em parceria com Paulo Betti e Lauro Escorel e que compete na mostra de longas-metragens brasileiros do 45º Festival de Cinema de Gramado. Também replicando em cena o papel que dividira com Paulo na versão teatral do texto, Eliane não deixa de observar que A Fera na Selva é uma obra que também pode ser questionada através dos anos, em especial Maria, a personagem que interpreta. “Ela é essa mulher do século passado que é a parceira, que fica do lado do homem e se submete, servindo de confirmação para a história do homem, como se essa fosse a única maneira de se sentir incluída em alguma coisa. Graças a Deus isso está mudando hoje em dia, mais do que nunca”, comemora.

Por falar em adaptação, A Fera na Selva nasceu como um projeto colaborativo, onde Paulo Betti discutia o texto de Henry James com o público, em uma espécie de clube de reflexão que servia de laboratório para a construção da versão cinematográfica. O mesmo espírito de compartilhamento se estendeu à direção, onde Eliane, Paulo e Lauro formaram um trio de pura sintonia. O resultado, segundo a atriz, é um filme que pouco se assemelha ao que o público está acostumado a ver. “Sabíamos que esse era um texto ‘palavroso’, trabalhado em cima de uma questão filosófica e que daria vida a um filme fora da curva, com ritmo totalmente diferente do que se vê”, avalia. No entanto, a recepção da primeira exibição mundial do filme em Gramado agrada a atriz-diretora: “É uma experiência que afirmou o que eu pensava sobre o nosso trabalho. Imaginei que, por ser um filme de ritmo mais próprio e meio ‘emburacado’, pudesse haver uma debandada, mas as pessoas foram extremamente respeitosas com o que realizamos”. 

Já trabalhando no roteiro de um novo longa-metragem, Eliane Giardini volta a participar do Festival de Cinema de Gramado depois de 14 anos. A última vez foi em 2003, quando apresentou o evento ao lado do ator gaúcho Werner Schünemann, durante o enorme sucesso da minissérie A Casa das Sete Mulheres. “Fazia realmente muito tempo que eu não vinha, e o que percebo é que a cidade está muito diferente, incrivelmente melhor, e o Festival ajuda nesse sentido”. Assim como sua colega de profissão Camila Morgado, que recentemente esteve na Serra Gaúcha representando o longa Vergel, Eliane endossa o discurso: “Vir aqui em tempos onde a cultura está sendo literalmente desmontada também é um ato de resistência. Precisamos celebrar”.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 45º Festival de Cinema de Gramado

45º Festival de Cinema de Gramado #10: um pouco sobre os curtas

Não vemos o rosto de Sara, mas vemos a personagem por completo. O Quebra-Cabeça de Sara é um dos destaques da mostra competitiva de curtas-metragens do Festival até aqui.

Entre um e outro longas, há ainda, no 45º Festival de Cinema de Gramado, um amplo e nobre espaço para os curtas-metragens (os brasileiros são exibidos antes de cada longa e os gaúchos ao longo do primeiro fim de semana em sessões vespertinas). Agora tiro um pouco de tempo para sobre alguns dele. Começo com A Gis, muito provavelmente o melhor filme da mostra que vi até agora – e acho difícil qualquer outro superar. O curta narra em forma de documentário a vida da transexual brasileira Gisberta Salce, que foi brutalmente assassinada em Portugal no ano de 2006. Poderoso e comovente, A Gis arrebata pela maneira completa e respeitosa com que narra a trajetória de sua personagem, devidamente relembrada por amigos, familiares e até mesmo pelo policial que encontrou seu corpo. Além de reproduzir A Balada de Gisberta, linda canção gravada na voz de Maria Bethânia em homenagem à Gis (confira abaixo uma apresentação ao vivo da cantora), o curta se torna universal a partir do íntimo e do particular, o que considero sempre muito bonito e insuperável.

Uma dobradinha perfeita em termos de qualidade e temática é O Quebra-Cabeça de Sara, de Allan Ribeiro, cineasta que anos atrás esteve aqui em Gramado com outro curta-metragem, O Clube. Filmado inteiramente no apartamento do próprio diretor com a diarista que trabalha quinzenalmente por lá, O Quebra-Cabeça de Sara é caseiro na forma, mas contundente e complexo no conteúdo. Nas imagens, nunca vemos o rosto de Sara e apenas acompanhamos seu trabalho como diarista ao mesmo tempo em que ouvimos uma narração em que ela conta a descoberta da homossexualidade da filha. Ela trabalha com gays, mas prefere que a filha seja uma “vadia” do que lésbica. Sara admite o preconceito e diz que é assim mesmo que pensa. Negra, nem a própria cor ela poupa ao afirmar que tem coisa errada que “só preto faz”. É complicado, mas vitorioso o trabalho de Allan porque Sara não simplesmente destila um discurso odioso. Na verdade, tudo ali é humanizado, onde o diretor evidencia a complexidade dos preconceitos. Normalmente não ouvimos nem procuramos enxergar a dimensão de ideias e valores contrários aos nossos. O Quebra-Cabeça de Sara ouve e procura. Um pequeno grande filme.

Um outro curta-metragem em competição me provocou na leva apresentada até aqui. É Sal, de Diego Freitas. Difícil falar sobre o filme porque toda sua curiosidade gravita em torno da resolução, que é justamente o que traz o impacto de todo o filme. Em linhas gerais, dois homens marcam um encontro e a partir daí divagam sobre as etapas do que estão prestes a fazer nessa noite que logo se revela irreversível para ambos. O objetivo comum dos protagonistas é revelado nos últimos segundos da história, mas Sal se sustenta muitíssimo bem até lá, principalmente porque os protagonistas Eucir de Souza e Guilherme Rodio são muito bons e porque o diretor Diego Freitas consegue criar um clima indiscutivelmente eficiente: é impossível não ficar intrigado e até mesmo nervoso com os misteriosos diálogos dos dois personagens. A revelação é perturbadora, e o mais impactante: baseada em fatos reais. Certamente, um título que não passa despercebido aqui na Serra Gaúcha, pelo assunto que descortina e por suas qualidades como cinema.

No mais, há curtas bacanas, mas que não me comoveram ou instigaram como os que citei acima. Embarcando no plano infanto-juvenil, temos dois exemplares: O Espírito do BosqueMédico de Monstro. Duplamente exibidos, tanto na mostra gaúcha quanto na nacional, TelentregaMãe de Monstros, ambos de Porto Alegre, são realizados com um admirável esmero técnico, mas o primeiro se destaca mais pela provocação de seu desfecho e o segundo pelo bom exercício do cinema de gênero (no caso, o terror). Já a animação Caminho dos Gigantes tem um magnífico trabalho de som e alta qualidade técnica, ao mesmo tempo em que entrega uma história repleta de metáforas e leituras. Por enquanto, em maior ou menor grau, a competição de curtas brasileiros é bem representada, com três filmes especialíssimos. Já está de bom tamanho. A programação completa do 45º Festival de Cinema de Gramado está disponível no site http://www.festivaldegramado.net.

45º Festival de Cinema de Gramado #9: “As Duas Irenes”, de Fabio Meira

Priscila Bittencourt e Marco Ricca como pai e filha em As Duas Irenes, o delicado e completo drama de estreia do diretor Fabio Meira.

Não há como assistir ao drama As Duas Irenes sem imediatamente associar o longa-metragem de estreia do diretor Fabio Meira ao lindíssimo À Deriva, assinado por Heitor Dhalia em 2009. Ambos são obras centradas na vida de jovens garotas que, em meio às transformações e efervescências da adolescência, descobrem que seus pais vivem casos extra-conjungais. Porém, o que difere As Duas Irenes de À Deriva é que o primeiro traz um elemento muito mais complexo: não só o pai de Irene trai a esposa como também vive uma vida à parte com outra família, onde a filha também se chama Irene. Ao descobrir esse segredo que devastaria e intrigaria qualquer pessoa, a jovem decide se tornar amiga dessa outra Irene, tentando compreender primeiro o que levou o pai a criar e sustentar um outro núcleo familiar e segundo a sua própria identidade a partir de uma menina que carrega seu mesmo nome e sangue, mas com personalidade e história de vida inteiramente diferentes.

A situação é desconfortável, e o que fascina em As Duas Irenes é o poder do diretor Fabio Meira, também autor do roteiro, em fazer com que o espectador olhe para as descobertas da protagonista com a mesma curiosidade que ela própria olha. Nesse sentido, é bem possível dizer que o longa se sustenta a partir de uma tensão ininterrupta, seja pela forma como o filme desbrava a figura do pai sem mostrar seu íntimo (o que não é motivo para tratá-lo de forma unidimensional) ou pela nova identidade com que Irene assume para conhecer a meia-irmã, o que faz com que ela engate uma mentira atrás da outra para sustentar uma nova vida. O conflito dá total ritmo para o filme, que, em cada situação vivida pela personagem, desdobra situações importantes e que nos fazem refletir sobre o antiquado modelo patriarcal que ainda hoje rege a sociedade, em especial a de cidades menores. 

Com uma interpretação reveladora da jovem Priscila Bittencourt, As Duas Irenes é delicado e sutil ao tratar o íntimo de todos os personagens, capturando com precisão a turbulência silenciosa dos sentimentos de cada um deles. Enquanto a Irene de Priscila entra em pleno conflito na relação com o pai sem jamais revelar o segredo para a mãe – o que obviamente também ilumina o inegável afeto que ela sente por ele -, outros coadjuvantes ganham suas devidas dimensões, como a mãe da segunda Irene, que, em um momento super discreto mas emotivo, chora por um conflito com o marido. Mais uma prova de que As Duas Irenes tem uma costura muito fina é o trabalho de Marco Ricca como esse pai que, apesar de refletir o comportamento machista e característico de toda uma geração, também tem momentos de afeto e carinho com ambas as famílias. Contido e ao mesmo tempo pulsante, o filme ainda não esquece de de contemplar as emoções, fragilidades, medos e pulsões físicas da fase adolescente. Nada previsível, clichê ou fora de tom. Tudo no lugar. Uma verdadeira pérola.

45º Festival de Cinema de Gramado #8: Camila Morgado encara o luto e o renascimento no drama “Vergel”

Camila Morgado é a protagonista de Vergel, drama que será exibido sexta-feira (25) no Palácio dos Festivais. Foto: Diego Vara/Pressphoto

Não há gênero que a atriz Camila Morgado rejeite ou olhe com preconceito. Aliás, esse seu desprendimento com os gêneros do cinema é consequência natural de uma curiosidade que Camila sempre teve, antes mesmo de migrar do teatro para a telona: a de mergulhar em tudo o que existe de fascinante em qualquer ser humano. “Foi o que sempre interessou: o nosso comportamento, a forma como nos vestimos, falamos, reagimos à vida. É esse meu objetivo como atriz e é isso o que me leva a passear por tantos gêneros”, conta a atriz, que, recentemente se divertiu na comédia Divórcio, encarou a tensão no thriller O Animal Cordial e mergulhou nos processos de luto com o drama Vergel – este último fazendo sua estreia nacional na mostra competitiva de longas-metragens brasileiros do 45º Festival de Cinema de Gramado.

Com Vergel, Camila Morgado novamente se entrega ao drama, gênero que pontuou momentos cruciais de sua relação com o grande público, primeiramente com a minissérie A Casa das Sete Mulheres, em 2003, e depois com Olga, em 2004, filme de abertura do 32º Festival de Cinema de Gramado, em exibição hors-concours. Apesar do sucesso, ela não esconde, por outro lado, que foram tempos de reflexão do ponto de vista profissional. “Ali a situação me preocupou um pouco porque o público pensava que eu só sabia chorar ou fazer trabalhos densos. Não queria ficar com esse estereótipo, então a busca por uma certa desmistificação da minha carreira foi plenamente consciente”, lembra. E ela conseguiu, novamente sem preconceitos: “Quando fiz Até Que a Sorte nos Separe, questionei muita coisa. Por que não posso fazer um filme para me divertir? Ou que leve toda a família para o cinema só para dar risada e comer pipoca? Não há mal nenhum nisso”.

Já em Vergel, a situação, claro, é bem diferente. Interpretando uma mulher sem nome que é levada à beira da loucura por um luto repentino, ela se entrega a um tipo de história que sempre teve o desejo de contar. “O luto nos leva a um estado de suspensão, onde você precisa encontrar o seu próprio tempo para renascer, se recriar, se reconstruir. É um estado muito primitivo, peculiar. Nunca havia entrado em contato com isso na minha carreira, e era algo que eu queria fazer”, afirma a atriz. Junto ao tema, o roteiro escrito pela diretora Kris Niklison também foi o que chamou Camila para o projeto: “Nós só falamos de luto com o terapeuta e talvez com amigos muito próximos. É um tema difícil, que causa muita dor e nos deixa em um estado perdido, mas a Kris escreveu tudo de forma tão delicada que eu simplesmente me apaixonei, assim como todos os envolvidos no projeto”.

Uma coprodução Brasil/Argentina, o longa-metragem foi rodado em torno de 45 dias, com baixíssimo orçamento e com a equipe emprestando apartamento e bicicletas para que a equipe de produção passasse uma temporada na Argentina. O que parecia um obstáculo se tornou, na realidade, um ganho. “Foi uma delícia. Os hermanos foram muito gentis, e nós sempre nos apoiamos muito. Éramos uma equipe que ficava junta para fazer de um sonho uma realidade. No final das contas, o meu maior medo era que roubassem a bicicleta que me emprestaram”, brinca a atriz. Sobre a relação com a diretora Kris Niklison, Camila diz que o olhar feminino fez toda a diferença para a história contada em Vergel, “já nos ensaios eu via que ela tinha um olhar muito rebuscado em relação ao feminino. E quando vi o filme pronto, fiquei impressionada com o quanto ela filma bem essa figura feminina, o corpo dessa mulher que passa por tantas compulsões sexuais para de alguma forma perceber que ainda está viva”.

Retornando ao Festival de Cinema de Gramado após mais de 10 anos, a atriz sente que a celebração dos 45 anos do evento representa mais do que o tradicional encontro entre amigos e profissionais do cinema brasileiro e latino. “É importante o Festival acontecer nesse momento porque a cultura está cada vez mais marginalizada. A cultura faz parte da vida de todo mundo, e por isso deve ser sempre um estímulo. Em tempos de movimentos tão feios da política de direita, o Festival é também um ato de resistência”, defende Camila.

“Vergel” será exibido no Palácio dos Festivais dia 25 de agosto, sexta-feira, a partir das 21h30.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 45º Festival de Cinema de Gramado

45º Festival de Cinema de Gramado #7: A busca de Laís Bodanzky pelo mais simples do ser humano

A cineasta Laís Bodanzky concorre ao Kikito no 45º Festival de Cinema de Gramado com o drama Como Nossos Pais. Foto: Diego Vara/Pressphoto

A diretora Laís Bodanzky conhece a vida de seu público. Isso, no entanto, não se restringe ao fato de ela produzir filmes como As Melhores Coisas do Mundo, Chega de Saudade e o célebre Bicho de Sete Cabeças, que falam justamente sobre pessoas comuns, “gente como a gente”. Na verdade, é o que a própria Bodanzky diz ouvir da plateia quando sai, por exemplo, de uma sessão de Como Nossos Pais, seu mais novo longa-metragem que fez estreia em território nacional no 45º Festival de Cinema de Gramado. “O encontro com o público validou e completou tudo o que eu pensava sobre esse trabalho. A maneira como as pessoas levantam questões vem no mesmo tom que o filme. Elas dizem ‘como você conhece a minha vida!’, quase como se estivessem em uma terapia”, conta a diretora.

Narrando o dia a dia de Rosa (Maria Ribeiro), uma mulher que busca ser perfeita em todas suas obrigações como profissional, mãe, filha, esposa e amante, Bodanzky lança novamente um olhar humano e contemporâneo para o tipo de história que marcou a sua trajetória até aqui. Mais do que isso, Como Nossos Pais vem da necessidade da diretora de falar sobre uma questão efervescente: a representação feminina, o que ela garante ter sido o “tema de redação” de seu longa já há muitos anos. Evocando a clássica música de Belchior eternizada na voz de Elis Regina, o universo feminino é visto pela cineasta sob a luz das relações familiares, especialmente das trocas promovidas entre diferentes gerações: “Eu queria falar sobre o que a gente pega e transforma de uma geração e entrega para a próxima, o que a gente ensina para nossos pais e sobre quando começa essa inversão de papeis”.

A mistura, claro, leva tons autobiográficos – e Bondazky diz que não poderia ser de outra maneira se tratando de cinema -, mas a provocação também deu uma importante tônica ao roteiro. “A mãe vivida pela Clarisse Abujamra é uma mulher da geração intelectual dos anos 1960, que viveu a contracultura com certa entrega e liberdade. Já Rosa, a filha, é careta. E isso acho bonito: ao mesmo tempo em que critica os pais, Rosa ganha de presente uma mãe que a ensina a ser muito mais libertária, muito mais livre, a correr riscos, transgredir. É no conflito que vem o aprendizado.”, reflete a diretora.

Antes de exibir Como Nossos Pais, seu primeiro longa-metragem em competição no Festival de Cinema de Gramado, Bondanzky só havia visitado o evento na década de 1990, quando exibiu o média-metragem Cine Mambembe – O Cinema Descobre o Brasil no Palácio dos Festivais em 1999. O retorno ao Festival traz muitas alegrias para a diretora, entre elas perceber como o evento se transformou ao longo dos anos. “Agora é outra coisa, até porque o próprio cinema brasileiro é outro. De qualquer forma, a curadoria é fina e me chamou muito a atenção porque reflete o cinema que vivemos hoje e porque está atenta a essa necessidade de fazer um contraste entre novos cineastas e nomes já consolidados”, avalia. O charme do evento também não passa despercebido por ela, que reforça a ideia de que o glamour característico do Festival aliado ao requinte cinematográfico trazido pela curadoria promove “um encontro atômico para o cinema brasileiro”.

Pela frente, Bodanzky tem como objetivo seguir na mesma linha de buscar a humanidade no lado mais simples do ser humano, mas, segundo ela, novamente com certa provocação: “Pedro” contará a história de Dom Pedro I, sob o viés de… Pedro, a pessoa. Não o Dom. É mais um capítulo a ser escrito em uma carreira que a diretora assume ser propositalmente sobre nós mesmos.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 45º Festival de Cinema de Gramado

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