Cinema e Argumento

Um Limite Entre Nós

Some people build fences to keep people out, and other people build fences to keep people in.

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Direção: Denzel Washington

Roteiro: August Wilson, baseado na peça de teatro homônima e de autoria própria

Elenco: Denzel Washtington, Viola Davis, Stephen Henderson, Jovan Adepo, Russell Hornsby,  Mykelti Williamson, Saniyya Sidney, Christopher Mele, Lesley Boone,  Jason Silvis

Fences, EUA, 2016, Drama, 138 minutos

Sinopse: Baseado na aclamada e premiada peça teatral homônima. Um homem, que sonhava em se tornar um grande jogador de beisebol durante sua infância, acaba frustrado na vida como um catador de lixo. (Adoro Cinema)

Denzel Washington says his character, Troy, "thinks he can control death and the devil, and he finds out in the worst way that he can't." Washington stars alongside Viola Davis in Fences</em

De acordo com Denzel Washington, ele e Viola Davis se apresentaram 114 vezes nos palcos dos Estados Unidos com Um Limite Entre Nós. Revival da celebrada peça homônima de 1987 que chegou a vencer prêmios emblemáticos como o Tony e o Pullitzer, a nova versão estrelada pela dupla preservou o texto de August Wilson sem mexer uma vírgula sequer. O autor, falecido em 2005, era rígido quanto ao seu texto: antes de morrer, escrevia ele próprio uma adaptação cinematográfica, exigindo que, caso fosse de fato levada às telas, deveria ser assinada somente por um diretor afro-americano. Nada mais lógico, portanto, que Denzel Washington, profundo conhecedor do texto de Wilson, resolvesse comandar a primeira adaptação do espetáculo. As 114 apresentações contabilizadas por ele fizeram toda a diferença, pois, segundo Denzel, filmar Um Limite Entre Nós, depois de tantas experiências com a história nos palcos, foi mera questão de reajuste. Porém, se esse reajuste foi um facilitador para as questões de bastidores, o que recebemos do lado de cá da tela não deixa de ser frustrante, uma vez que o filme cai na clássica armadilha de se contentar em ser apenas um teatro filmado ao invés de construir uma identidade cinematográfica. Tanta proximidade simplesmente não fez bem ao projeto.

Considerando exemplos mais recentes, os dramas DúvidaÁlbum de Família também podem ser acusados do mesmo problema, mas de forma infinitamente menos prejudicial. Afinal, enquanto o primeiro transita por diversos pontos de uma grande escola católica para capturar o dia a a dia de professores, alunos, padres e freiras, o segundo, apesar de encenado exclusivamente em uma casa, conta com uma infinidade de personagens cujas relações se entrelaçam das formas mais diferentes possíveis. Já Um Limite Entre Nós não tem a configuração de nenhum dos dois, assemelhando-se mais ao que Roman Polanski fez em Deus da Carnificina (uma comparação bastante depreciativa, diga-se de passagem). Ou seja, na adaptação dirigida e estrelada por Denzel Washington, tudo se resume a um único ambiente com a ação concentrada em pouquíssimos personagens, sendo muitos deles figuras que estão apenas de passagem. A partir disso e com a ideia de manter tal e qual o texto escrito por August Wilson para o cinema, abre-se margem para cenas longuíssimas, diálogos verborrágicos, ritmo maçante e interpretações que, mesmo impactantes, estão muito mais para um palco de teatro do que para uma tela de cinema.

A proximidade de Denzel com o material surge como empecilho porque sua carreira como diretor não é lá muito expressiva (foram dois trabalhos antes desse: os medianos Voltando a ViverO Grande Debate), o que amplia a ideia de que, tratando-se de Um Limite Entre Nós, atuar é uma coisa e dirigir é outra. No entanto, o que falta nessa transição é mesmo estofo na direção para que a história ganhe contornos cinematográficos. Denzel não é lá muito criativo atrás das câmeras, aproveitando pouquíssimo do poder da tão fundamental mise-en-scène em adaptações teatrais e do próprio fluxo entre as cenas (é seca demais, por exemplo, a revelação de um segredo para a plateia e depois para o personagem que será abalada por ele). Isso faz com que Um Limite Entre Nós dependa ainda mais de seu texto, e é quase sempre nele que a maioria das adaptações cinematográficas de obras teatrais consegue ter alguma força. Não é diferente aqui, onde o autor August Wilson, ambientando muito bem a questão de ser um negro de origens humildes na racista sociedade estadunidense dos anos 1950, centraliza seus drama na influência da figura patriarcal e como ela reverbera por toda uma vida. E não qualquer patriarca: Troy Ryan, que acredita não ter obrigações de afeto com qualquer pessoa (nem mesmo com o filho) e que impõe sua autoridade como homem e pai até mesmo quando não é necessário.

Felizmente, a exemplo de Steve Jobs, Um Limite Entre Nós acerta ao ter um protagonista de difícil temperamento cercado por pessoas que clamam por sua humanidade. Isso é importante porque, se já é complicado acompanhar um teatro filmado (e de quase duas horas e meia!), a situação só piora com um protagonista difícil de gostar. São os demais personagens que tornam o retrato de Ryan complexo e interessante, afinal, essa é uma história sobre como sua presença forte e suas atitudes duras atingem os que estão a sua volta (não à toa, ele faria um ótimo par com a Violet Weston de Meryl Streep em Álbum de Família). É aí que Viola Davis, protagonista em tempo de cena, mas coadjuvante em função narrativa, emerge como o detalhe perfeito para balancear o clima quase sufocante que Troy constrói dentro de casa: emotiva e compreensiva, sua Rose não deixa de ser questionadora e combativa quando o marido ultrapassa certas barreiras. Viola, que a interpreta com a sua força habitual e natural, é grande junto a Denzel Washington, que, aí sim, mostra que a sua longa vivência com o projeto só incrementa uma excelência em atuação que ele já não precisa mais provar. Como filme de dupla, Um Limite Entre Nós é mesmo um show. Como obra de cinema em sua totalidade, desperdiça potenciais que muito provavelmente só seriam maximizados por um diretor que tivesse certa distância do projeto.

Rapidamente: “Festa da Salsicha”, “Perfeita é a Mãe!”, “Pets” e “O Que Está Por Vir”

BAD MOMS

Tinha tudo para ser uma diversão perfeitamente esquecível, mas Perfeita é a Mãe! tem um elenco em plena sintonia e sabe ser divertidíssimo mesmo com as situações mais simples.

FESTA DA SALSICHA (Sausage Party, 2016, de Conrad Vernon e Greg Tiernan): Festa da Salsicha nasceu para causar controvérsias, e isso é excelente. Com uma proposta onde é fácil agradar um público ao mesmo tempo em que ofende outro, o filme não tem a intenção de ser democrático, o que lhe restringe a uma plateia muito específica. Sim, a comédia de Festa da Salsicha é cheia de palavrões e piadas sobre sexo. Cabe a você decidir se isso é bacana. Até porque estamos falando de uma animação. Particularmente, a piada me convenceu, e, dada a circunstância, me diverti horrores com o que a dupla Conrad Vernon e Greg Tiernan subverte com essa trama protagonizada por uma salsicha que, dentro de um supermercado, descobre a terrível verdade que todos os alimentos saem de lá para serem devorados, o que imediatamente causa pânico geral. Não é preciso dizer que os menores devem ficar longe de Festa da Salsicha, mas também é bom poupar os mais sensíveis da sessão, pois o filme não poupa na subversão quando encena decapitações e até mesmo uma morte a partir da mistura de Coca-Cola e Mentos! Visualmente criativo, o filme, apesar do aparente fiapo de história, consegue se sustentar muito bem a partir de uma infinidade de personagens curiosos. Das duas uma: ou o espectador despreza o que esta na tela ou se diverte à beça. E não tenho pruridos em dizer que me desarmei para viver a segunda experiência. Até porque Festa da Salsicha dá boas razões para isso.

PERFEITA É A MÃE! (Bad Moms, 2016, de Jon Lucas e Scott Moore): Render ótima diversão com um material simples é trabalho raro, e é por isso que Perfeita é a Mãe! se revela uma grata surpresa. Espécie de Meninas Malvadas versão maternal, a comédia dirigida pela dupla Jon Lucas e Scott Moore pegas temas cotidianos e exclusivamente femininos para, em meio a saídas fáceis, mas eficientes no humor, questionar, entre outros tópicos, o papel da mulher na sociedade. Toda mãe precisa ser perfeita? Mas, afinal, o que é ser perfeita? É abdicar qualquer respiro na rotina para atender todas as vontades dos filhos? Ou ser uma executiva exemplar e conseguir chegar em casa a tempo para fazer a janta e colocar as crianças na cama? Perfeita é a Mãe! brinca (muitas vezes de forma séria, como toda boa comédia) com essas questões que cada vez mais batem na porta de uma sociedade inegavelmente machista. O filme tem trilha pop, ritmo ágil, situações divertidas e principalmente um elenco que não veio para uma brincadeira qualquer: Mila Kunis está em um de seus desempenhos mais espontâneos, a sempre ótima Kathryn Hahn se esbalda com muito talento no papel papel mais chamativo da história, Kristen Bell acerta o ponto de uma personagem que vai da ingenuidade à libertação e Christina Applegate bem que poderia ser a mãe de Rachel McAdams no já citado Meninas Malvadas tamanho o veneno disfarçado por dinheiro, maquiagem e bons saltos altos. Vá sem medo porque a diversão é garantida.

PETS: A VIDA SECRETA DOS BICHOS (Pets, 2016, de Chris Renaud e Yarrow Cheney): Não tenho receio algum em dizer que é o tipo de animação que evito sem pensar duas vezes: aquelas que os estúdios produzem apenas para divertir as crianças. Basicamente o Toy Story dos animais de estimação (na verdade, não apenas deles, já que aparecem até jacarés e cascavéis nas ruas de Nova York!), Pets: A Vida Secreta dos bichos é exclusivamente dos pequenos no sentido de fazer de tudo para conquistá-los visualmente. No filme assinado pela dupla Chris Renaud e Yarrow Cheney, importa mais o coelho fofinho se revelar maquiavélico com mil caras e bocas do que propriamente desenvolver alguma história sobre ele. Tudo é pretexto para que gatos, cachorros, passarinhos e hamsters saiam pelas ruas se metendo em todo tipo de enrascada, mesmo que muitas delas sejam bastante exageradas, como os inúmeros acidentes de trânsito que os bichinhos causam quando estão na direção de caminhões (!!!). É sempre um mau sinal em termos criativos: enquanto as crianças certamente se divertem com a infinidade de animais, não é muito difícil que os adultos se sintam entediados com uma trama esquecível, onde o apelo visual se sobrepõe ao conteúdo já bastante frágil. A boa ideia – muitos filme infantis já foram irresistíveis ao falar sobre a relação dos animais com os seres humanos, a exemplo de Aristogatas, o meu clássico particular nesse sentido – é desperdiçada por esse projeto carente de uma verdadeira história.

O QUE ESTÁ POR VIR (L’avenir, 2016, de Mia Hansen-Løve): Como é de praxe na carreira da francesa Isabelle Huppert, 2016 foi mais um ano prolífero para atriz. Além de chegar aos cinemas brasileiros com Mais Forte Que Bombas, Fique ComigoO Vale do Amor e, claro, Elle, a atriz também teve boa repercussão no circuito alternativo com O Que Está Por Vir, assinado por Mia Hansen-Løve, outra profissional francesa. Provando novamente ser uma das grandes intérpretes do cinema mundial por transitar em qualquer tipo de papel, Huppert aqui é uma professora de filosofia que, após ser abandonada pelo marido que sai de casa para viver com outra mulher, precisa reconstruir toda uma vida dada como certa até então. Sem nunca se repetir (seria fácil qualquer tipo de comparação, já que sua Michèle LeBlanc, de Elle, até hoje está muito presente em nosso imaginário), Huppert registra as transformações dessa protagonista madura de forma muito sutil mesmo quando verte lágrimas ao sentar no ônibus e ver o ex-marido com a nova mulher. Os louros também devem ser dados – e de forma muito merecida – para a diretora, que jamais procura fazer da vida da personagem um dramalhão. O maior exemplo disso é a cena em que o marido anuncia a traição e o desejo de divórcio. Ali, não há escândalos, discussões, choros irrefreáveis ou vasos sendo quebrados. Ao mesmo tempo, sapos não são engolidos, provando que, mesmo não seja necessariamente marcante, O Que Está Por Vir é um filme de gente grande e que sabe encontrar um equilíbrio invejável entre o menos e o mais.

Melhores de 2016 – Ator

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Erro comum na apreciação de interpretações, a supervalorização do trabalho físico poderia ofuscar o que realmente existe de mais belo na performance do grande Nelson Xavier em A Despedida. No entanto, o trabalho que o ator realiza de dentro para fora é forte a ponto de não permitir que as representações físicas de seu Almirante, um homem de 92 anos que decide viver a última noite de amor com a sua amante de 37, definam o show do ator. Claro que a entrega de Xavier à reprodução corporal de um homem que parece prestes a desmantelar a qualquer momento é impressionante, mas o poder que o ator tem de transformar seu personagem em um homem espirituoso e muito mais vivo do que sua idade sugere é o que pontua sua atuação como a mais tocante entre os atores de 2016. Ao longo de um dia na vida de Almirante, A Despedida proporciona tudo o que um grande ator como Xavier merece: a chance de explorar o poder das palavras e dos gestos a partir de uma interpretação que precisa sintetizar toda a personalidade de um homem quase centenário a partir de um dia aparentemente corriqueiro de sua vida. Do grande ato que divide com a ótima Juliana Paes aos breves encontros que tem com outros personagens coadjuvantes, Nelson Xavier brilha em todas as formas possíveis. Ainda disputavam a categoria: Domingos Montagner (De Onde Eu Te Vejo), Hugh Grant (Florence: Quem é Essa Mulher?), Jacob Tremblay (O Quarto de Jack) e Michael Fasbender (Steve Jobs).

EM ANOS ANTERIORES: 2015 – David Oyelowo (Selma: Uma Luta Pela Igualdade) | 2014 – Jake Gyllenhaal (O Abutre) |  2013 – Joaquin Phoenix (O Mestre) | 2012 – Rodrigo Santoro (Heleno) | 2011 – Colin Firth (O Discurso do Rei| 2010 – Colin Firth (Direito de Amar| 2009 – Sean Penn (Milk – A Voz da Igualdade| 2008 – Daniel Day-Lewis (Sangue Negro| 2007 – Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)

Lion: Uma Jornada Para Casa

I’m lost.

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Direção: Garth Davis

Roteiro: Luke Davies, baseado no livro “A Long Way Home”, de Saroo Brierley

Elenco: Dev Patel, Sunny Pawar, Nicole Kidman, Rooney Mara, David Wenham, Abhishek Bharate, Priyanka Bose, Shankar Nisode, Tannishtha Chatterjee, Nawazuddin Siddiqui, Menik Gooneratne

Lion, EUA/Reino Unido/Austrália, 2016, Drama, 118 minutos

Sinopse: Quando tinha apenas cinco anos, o indiano Saroo (Dev Patel) se perdeu do irmão numa estação de trem de Calcutá e enfretou grandes desafios para sobreviver sozinho até de ser adotado por uma família australiana. Incapaz de superar o que aconteceu, aos 25 anos ele decide buscar uma forma de reencontrar sua família biológica. (Adoro Cinema)

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O caso de Lion: Uma Jornada Para Casa é muito semelhante ao do recente Manchester à Beira-Mar: ambos são filmes que, na teoria, despertam até ligeira desconfiança pela proposta convencional, mas que, quando ganham vida, surpreendem pela eficiência com que transformam ideias simples em experiências envolventes. Há, porém, uma diferença fundamental entre eles: enquanto Manchester à Beira-Mar não faz concessões em seus dramas dificílimos, Lion cria conflitos para quase sempre oferecer alentos. A pegada não deixa de surpreender, visto que o novo filme estrelado pelo jovem Dev Patel leva a assinatura de Garth Davis, que debuta em longas de ficção após assinar três episódios de Top of the Lake, a minissérie soturna e complexa criada pela célebre Jane Campion. E o que se constata é que o talento de Davis para contar histórias se preserva em outras esferas, pois, ainda que Lion visivelmente não equilibre sua qualidade narrativa quando a trama precisa dar um salto temporal, a direção consegue dosar certeiramente elementos que sustentam o filme, sem deixar que ele se torne apenas mais uma obra motivacional perfeitamente irrelevante.

Para narrar a história de um garoto indiano que, 25 anos após se perder de sua família e ser adotado por um casal australiano, decide ir atrás de suas verdadeiras origens, Lion abandona as idas e vindas no tempo e aposta na linearidade. A decisão é arriscada, pois, a partir dela, Garth Davis correria o risco de trabalhar dois filmes dentro de um, o que felizmente não acontece. Pelo contrário: por mais que a primeira parte seja mais interessante do que a segunda, o longa nunca se prejudica pela estrutura narrativa claramente divida porque é fácil enxergar Saroo tanto na espontaneidade do pequeno Sunny Pawar quanto na adolescência ao mesmo tempo madura e perdida que é encarnada por Dev Patel. É fácil porque o primeiro ato contribui para que nos importemos plenamente com o protagonista, e isso vai além da grande simpatia de Pawar: sem nunca ter a pretensão de discutir a identidade social e econômica de uma Índia grandiosa, Lion simplesmente acredita na força das imagens para encená-la, especialmente quando a jornada de um protagonista até então criança é ambientada com o mínimo de diálogo e a preferência por movimentação em cena (nesse sentido, o diretor diz ter trazido como inspiração a fórmula que o excepcional WALL-E usa para apresentar seu protagonista na primeira meia hora quase muda da animação). Como técnica e narrativa, Lion é indiscutivelmente envolvente nesse seu primeiro relato, além de preservar, em seu pequeno herói, todo o senso de inocência e aventura tão inerentes às crianças, bem como acontece com o famoso robozinho da Pixar.

A situação muda um pouco de cenário quando Saroo cresce, e isso se deve exclusivamente ao fato de que a história em si se amorna a partir daí: já adolescente e muito estabelecido com seus pais australianos, o personagem está às voltas com uma namorada (Rooney Mara) e prestes a se especializar em administração hoteleira. Até que um dia, ao enxergar uma comida que marcou o seu imaginário infantil, ele acorda para a ideia de que precisa ir atrás de sua família indiana. O despertar é mal regulado porque as crises existenciais de Saroo servem mais como pretextos quaisquer para trazer algum tipo de movimentação à trama do que aprofundar a personalidade do protagonista, o que afeta diretamente a personagem de Rooney Mara, por exemplo, que já tem uma missão ingrata por si só como a namorada sem uma história própria e que só serve para tentar acalmar Saroo ou incentivá-lo a criar coragem para procurar sua família. Se Garth Davis acerta no olhar carinhoso que lança ao protagonista e ao amor de sua mãe adotiva, proporcionando os momentos que Nicole Kidman merecia há tempos (não deixem de se atentar a dois momentos: emocionante abraço que ela recebe do filho recém adotado e a conversa onde ela revela sua percepção sobre o poder da adoção), o diretor volta e meia é prejudicado pelo roteiro de Luke Davies, que tropeça quando precisa introduzir as problematizações que o filme necessita. Por isso mesmo, os surtos repentinos de problematização de nosso protagonista surgem mais irritantes do que compreensíveis.

Para falar de Lion, também é importante citar o jovem Dev Patel, que viajou o mundo com o sucesso de Quem Quer Ser Um Milionário? e depois ficou relegado a escalações óbvias como o indiano piadista em comédias como O Exótico Hotel Marigold. Aliás, as origens trabalharam contra a carreira profissional de Patel nos últimos anos: rejeitado pelos produtores de As Aventuras de Pi por ser uma escolha óbvia demais para o papel, o jovem quase perdeu o papel de Lion pela mesma razão, em um teste de elenco que durou aproximadamente seis horas entre as hesitações da equipe e os argumentos do próprio ator, que, após aceito, mergulhou em horas diárias na academia para se assemelhar fisicamente ao Saroo da vida real, estudou sotaque australiano e dialetos da Tasmânia, visitou orfanatos indianos para conhecer a realidade das mais de 80 mil crianças que se perdem anualmente no país e escreveu um diário sobre os seus oito meses de preparação para o papel. Tudo está na tela, já que Lion é, indiscutivelmente, o papel mais expressivo e autêntico da carreira de Patel aqui. E pode até ser exagero a afirmação do jovem ator de que o roteiro do filme é o melhor já lido por ele (o próprio texto de Quem Quer Ser Um Milionário? era melhor), mas não há o que se negar: Lion, que tem seus problemas e carrega, entre outras coisas, na trilha de Dustin O’Halloran e Volker Bertelmann  para comover, é tradicional sem perder o frescor de uma autenticidade hoje tão esquecida em filmes supostamente inspiradores, mas meramente panfletários e estrelados por Will Smith.

Melhores de 2016 – Roteiro Adaptado

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Manter a essência do material original e ainda assim ajustar aspectos dele na hora da transposição ao cinema é uma tarefa complicada que Phyllis Nagy cumpre com louvor em Carol. Adaptando o romance homônimo de Patricia Highsmith, Nagy, que antes só havia escrito o roteiro de um telefilme muito mediano (Mrs. Harris, com Annette Benning e Ben Kingsley), é fidelíssima ao preservar a abordagem íntima do livro lançado por Highsmith nos anos 1950 sob o título de The Price of Salt e o pseudônimo de Claire Morgan. O romance é o retrato de uma época difícil que Highsmith, por ser homossexual, conhecia muito bem, além de ser o registro pessoal de uma grande paixão que, com a habilidade da escritora, tem o mérito de se tornar reconhecível a qualquer leitor. E o roteiro de Carol preserva tudo isso na versão cinematográfica, utilizando-se de uma narrativa onde os significados dos pequenos momentos pesam muito mais do que qualquer reviravolta possível. Por sinal, o roteiro do filme consegue ser ainda mais econômico (ou delicado, como quiserem) na construção do relacionamento de Carol (Cate Blanchett) e Therese (Rooney Mara), ajustando a dimensão de conflitos (o namorado de Therese, que, no livro, tem presença muito maior e conflituosa, surge mais comedido na versão cinematográfica) e o timing de determinados acontecimentos (tanto a verbalização do amor entre as protagonistas quanto a resolução do relacionamento ao final do longa se desenvolvem de forma muito apurada). É o equilíbrio perfeito de um roteiro delicado e respeitoso com o material de origem, mas ao mesmo tempo construído personalidade própria. Ainda disputavam a categoria: A ChegadaElleO Quarto de Jack e Steve Jobs.

EM ANOS ANTERIORES: 2015 45 Anos | 2014 Garota Exemplar | 2013 Azul é a Cor Mais Quente | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – A Pele Que Habito | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – Desejo e Reparação | 2007 – Notas Sobre Um Escândalo

Aliados

Je t’aime, québécois…

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Direção: Robert Zemeckis

Roteiro: Steven Knight

Elenco: Brad Pitt, Marion Cotillard, Xavier De Guillebon, Camille Cottin, Vincent Latorre, August Diehl, Daniel Betts, Sally Messham, Charlotte Hope, Celeste Dodwell, Ami Metcalf, Angus Kennedy

Allied, EUA/Reino Unido, 2016, Drama/Romance, 124 minutos

Sinopse: Em uma missão para eliminar um embaixador nazista em Casablanca, no Marrocos, os espiões Max Vatan (Brad Pitt) e Marianne Beausejour (Marion Cotillard) se apaixonam perdidamente e decidem se casar. Os problemas começam anos depois, com suspeitas sobre uma conexão entre Marianne e os alemães. Intrigado, Max decide investigar o passado da companheira e os dias de felicidade do casal vão por água abaixo. (Adoro Cinema)

Marion Cotillard plays Marianne Beausejour in ALLIED. ©Paramount Pictures. CR: Daniel Smith.

Marion Cotillard passou por uma barra muito pesada com Aliados – e tudo por causa de fatores exteriores ao filme. Quando Brad Pitt anunciou sua separação de Angelina Jolie, logo se procurou uma culpada. Assim, nada mais lógico do que, em um mundo machista, ela ser a atriz francesa, que acabara de estrelar, junto a ele, um filme sobre dois espiões que, designados a incorporar a identidade de um casal para uma missão secreta, acabam se apaixonando. É quase a mesma lógica de Sr. & Sra. Smith, onde Brad e Angelina se apaixonaram fazendo papeis basicamente parecidos. Casada e com um filho que ganhara há pouco tempo, Cotillard foi atacada pela imprensa e pelos usuários de redes sociais sem fundamento algum, como se fosse o óbvio pivô da separação, reforçando a ideia distorcida de que, claro, são as mulheres que seduzem homens e destroem casamentos. O escândalo colocou Aliados nos holofotes, mas que decepção constatar que o novo filme de Robert Zemeckis será lembrado apenas por essa teoria maluca criada por fofoqueiros de plantão. Afinal, cinematograficamente falando, o projeto sequer consegue o mérito de acender, na tela, alguma faísca entre o casal.

Sem realizar um trabalho realmente marcante desde Náufrago, de 2000, Robert Zemeckis é um desses diretores que transitam pelos mais diferentes gêneros e estilos sem necessariamente carregar uma assinatura. Às vezes, isso é um trunfo (James Mangold, de filmes como Johnny & JuneIdentidadeGarota, Interrompida é um ótimo exemplo), em outras, pode denotar falta de personalidade, como é o caso de Zemeckis nos últimos anos: fora a repentina temporada produzindo medianas animações (O Expresso PolarOs Fantasmas de ScroogeA Lenda de Beowulf), o diretor, desde Náufrago, foi da adaptação de fatos reais (A Travessia) a dramas mais convencionais que se focavam no ser humano (O Voo), mas tudo sem deixar uma marca ou proporcionar grandes experiências. É lógico fazer essa retrospectiva porque ela nos remete a um dos maiores problemas de Aliados: a falta de atmosfera. Zemeckis não consegue instigar o espectador em relação ao grande conflito história (a real identidade de sua protagonista) por uma série de razões, entre elas a forma como o filme tenta ser muitas coisas (romance, drama de guerra, thriller) sem conseguir ser nenhuma delas e o próprio desenrolar desinteressante dos fatos, que culminam em uma resolução melodramática e, por que não, covarde para uma obra que depende tanto de seu desfecho.

Há problemas cronológicos claros na trama, onde o roteiro escrito por Steven Knight, profissional que oscila entre produções interessantes (Coisas Belas e SujasSenhores do Crime) e outras desastrosas ou inexpressivas (O Sétimo FilhoA 100 Passos de Um Sonho), se atrapalha ao entender que o tempo é fundamental para a construção de todo o clima. Uma prova disso é a primeira metade ansiosa de Aliados, que une Max (Brad Pitt) e Marianne (Marion Cotillard) sem entender que frases fáceis e repentinas como “venha para Londres e case comigo!” jamais compensarão a ausência de uma narrativa que desenvolva uma relação (em especial a amorosa) nos pequenos momentos de um cotidiano. Por trabalhar fatos meramente pontuais ao invés dos sentimentos intrínsecos neles, Aliados se sabota, não criando a intimidade necessária entre o casal para o que o espectador se importe com os personagens. Dessa forma, uma cena como a que Marianne dá luz à filha em meio a um bombardeio da Segunda Guerra Mundial serve mais como uma passagem para ilustrar a passagem do tempo – ao estilo de manjadas novelas da TV aberta, diga-se de passagem – do que como um importante momento para a construção íntima da trama.

Com a falta de consistência na relação entre os dois protagonistas, Aliados chega ao conflito sobre Marianne ser ou não uma espiã infiltrada causando suspense pela natureza óbvia da dúvida e não por méritos do filme em si. Que frustrante, portanto, constatar como o filme, ao invés de crescer em tensão, apenas se amorna a partir daí – e não há nada que Marion Cotillard, lindamente fotografa com os belíssimos figurinos assinados por Joanna Johnston, possa fazer para se engrandecer com uma personagem que deveria ser fascinante para além da questão estética. É óbvio que Brad Pitt não ajuda em absolutamente nada – e não é exagero dizer que boa parte da inexpressividade do filme vem dele, que poucas vezes esteve tão inerte, sem presença e indiferente -, mas Zemeckis simplesmente não sabe tornar a situação consistente, tornando frágil e inorgânica até a transição do marido em plena confiança da esposa para homem consumido pela dúvida. Para completar, o diretor se entrega por completo ao melodrama em uma conclusão abrupta que prova, outra vez, que um profissional de visão mais apurada faria de Aliados uma experiência rica em conflitos, e não esse desperdiço de potenciais que beira ao ostracismo. Cotillard, que comeu o pão que o diabo amassou por conta do projeto, poderia pelo menos ter sofrido por algo melhor.

Melhores de 2016 – Fotografia

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Foi um encontro no Festival de Cinema de Gramado em 2012 que revelou ao diretor gaúcho José Pedro Goulart quem seria o diretor de fotografia de Ponto Zero, o seu primeiro longa depois de célebres curtas-metragens como O Dia Em Que Dourival Encarou a GuardaO Pulso. E o encontro foi com ninguém menos que Affonso Beato, responsável pela fotografia de filmes como Tudo Sobre Minha MãeCarne TrêmulaA Rainha, que sugeriu a Goulart o nome de Rodrigo Graciosa, com quem Beato havia convivido em uma temporada na Oficina de Direção de Fotografia que ministra na TV Globo. A sugestão foi aceita, e o resultado correspondeu ao voto de confiança: em Ponto Zero, Graciosa realiza um trabalho excepcional ao registrar, no poder das imagens, a claustrofóbica vida de um garoto preso a um ambiente familiar problemático e que, em uma noite de libertação, enfrenta uma cidade chuvosa e mergulhada na imensa escuridão da noite. No desenho de luz, conforme o próprio Graciosa explica, o conceito para a casa de Ênio (Sandro Aliprandini) foi a luz vir de fora, convidando o garoto a sair. Já nas noturnas, foi construir uma atmosfera opressora. Trabalhando com dois balizadores – a iluminação pública de Porto Alegre para as externas noturnas com a livre movimentação dos atores e a câmera nos interiores – a fotografia transita por propostas muito diferentes (a vida de Ênio à luz do dia e seu delírio fantástico à noite), mas todas em perfeita sintonia na unidade do filme. Ainda disputavam a categoria: A Bruxa, A Chegada, Fogo no Mar e O Regresso.

EM ANOS ANTERIORES: 2015 – Macbeth: Ambição e Guerra | 2014 – Ida | 2013Gravidade | 2012 – As Aventuras de Pi | 2011 – A Árvore da Vida | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Ensaio Sobre a Cegueira