Cinema e Argumento

E o que se leva, no final das contas, de “Big Little Lies”?

Big Little Lies é uma vitória da força feminina em resposta aos bastidores de Hollywood, mas um programa que, na prática, não marca tanto quanto merecia.

Foi intrigante acompanhar Big Little Lies, a nova minissérie da HBO estrelada por um elenco dos sonhos (Reese Witherspoon! Nicole Kidman! Laura Dern! Shailene Woodley!). Lamentavelmente, não porque a história instiga a partir de um misterioso assassinato para narrar as aparências, os anseios e as complexidades de mulheres riquíssimas que vivem na cidade de Monterey, nos Estados Unidos, mas por motivos exteriores ao programa: afinal, o que levou o público a se encantar tanto com um resultado tão morno? Produzida por Reese e Nicole, que compraram os direitos do livro homônimo de Liane Moriarty e desistiram de outros projetos para dar vida à adaptação (a primeira do novo filme de Alexander Payne, a segunda do blockbuster Mulher-Maravilha), Big Little Lies terminou no último domingo (03) como uma unanimidade entre público e crítica. Já o escriba que vos fala só tem pontos de interrogação para lançar ao diretor canadense Jean-Marc Vallée acerca desse trabalho irregular realizado com um elenco tão excepcional.

Para início de conversa, é preciso refletir sobre essa necessidade cada vez mais presente em séries e minisséries de construir histórias que partem de um assassinato revelado a partir de idas e vindas no tempo. Afinal, quantos programas realmente se beneficiaram com essa estrutura? Citanto exemplos mais recentes, é fácil lembrar de The Affair, que perdia metade de seu envolvimento com um assassinato que não combinava com sua pegada dramática; de Bloodline, que teria muito mais impacto se não revelasse tão cedo a identidade de sua vítima; ou de How to Get Away With Murder, que não se afundaria tanto caso se preocupasse mais em contar uma história do que chocar com revelações que, muitas vezes, transbordam o implausível. No caso de Big Little Lies, é problemático adotar a mesma estrutura em função do fator expectativa, já que o roteiro não se preocupa em satisfazer qualquer curiosidade do espectador: é somente no último episódio, mais especificamente nos últimos 15 minutos, que será revelada a identidade da vítima (e também de quem a matou!). Tanta demora, contudo, não é o problema. O mais grave é não existir uma construção em torno do crime, tornando o fatídico acontecimento uma mera curiosidade, como se Big Little Lies fosse uma atração de TV aberta que precisasse manter a curiosidade do espectador a cada episódio para garantir audiência.

Expectativas e teorias não são recompensadas em Big Little Lies. Além de respondidas tarde demais, as interrogações são frequentemente repetitivas.

Como se não bastasse a longa espera, Big Little Lies dificilmente surpreenderá alguém com suas revelações, até porque não é preciso ser nenhum perito para, lá no terceiro episódio, associar tematicamente dois personagens e deduzir que, apesar da implausibilidade das coincidências, é nessa conexão que está concentrada boa parte das respostas da trama e do misterioso crime que o roteiro insiste tanto em martelar ao longo de todo o arco dramático do programa. Enquanto as resoluções não chegam, é impossível não criar teorias e expectativas com conflitos que, como logo descobrimos, simplesmente não levam a nada, a exemplo da tão falada peça de teatro de Madeline (Reese Witherspoon) ou da vontade rapidamente esquecida de Celeste (Nicole Kidman) de voltar a advogar depois de abandonar a carreira para se dedicar ao lar e cuidar dos filhos. Há outro tempero da mistura que começa saboroso, mas gradativamente se revela insosso: a relação entre as mães e seus pequenos filhos. E se há um momento digno de nota nesse sentido e que deveria ter servido de referência para todas as outras situações da minissérie, esse é o que a professora da escola acusa, no meio da rua, o adorável Ziggy (Iain Armitage) de agredir Amabella (Ivy George). A cena é um verdadeiro choque porque evidencia, com muita crueza e um roteiro afiadíssimo, o quanto a maturidade entre adultos e crianças podem perfeitamente se inverter em situações de conflito.

Com razão, muito se comparou Big Little Lies à comédia Desperate Housewives, que não deixa de ser a irmã mais velha do novo programa da HBO: ambas apresentam histórias que, dadas as proporções, têm como base o forte laço de amizade entre mães ricas e suburbanas que se veem envolvidas em uma série de mistérios e eventuais assassinatos. Desperate Houewives, por se tratar de uma comédia, sabia tirar graça de muitas de suas superficialidades (em um drama, a dondoca Gabrielle Solis de Eva Longoria poderia ser apenas uma rica mimada sem qualquer problema palpável), algo que não acontece com Big Little Lies, onde, em sua maioria, o roteiro tenta dar alguma dimensão aos famosos white people’s problems. Entre 80 pares de sapatos no closet, festas riquíssimas de aniversário e caravanas para espetáculos da Disney, as protagonistas são uma representação da ideia de que os ricos também sofrem, quando, na realidade, deveriam dar vida a questões mais profundas e pertinentes a todos nós, como aquela em que Renata Klein (Laura Dern) explica ao marido que existe uma diferença gigantesca entre fazer sexo todo dia no casamento e se sentir de fato uma mulher desejada após tantos anos de matrimônio.

Mesmo contracenando com um personagem unidimensional, Nicole Kidman, com o passar dos episódios, toma para si as atenções com os conflitos mais incômodos de Big Little Lies.

Desestimula Big Little Lies ser tão rasa mesmo em suas discussões mais sérias (há quem ache um primor de revelação as cenas de Nicole Kidman na terapia, mas não há nada dito ali que se aproxime, por exemplo, dos embates complexos e frequentemente abusivos protagonizados por Josh Charles e Embeth Davidtz na já extinta In Treatment) porque o programa tem, claro, um elenco formidável, mas também personagens riquissímas. Kidman, que acumulou as melhores críticas pelo programa, tem o papel mais fácil de brilhar: como a esposa que ultrapassa a barreira da negação para perceber que é vítima de um relacionamento abusivo, ela tem um de seus papeis mais desafiadores em anos. Mesmo que não pareça, o trabalho de Reese Witherspoon também é complicadíssimo, pois sua Madeline costuma agir por impulsos, sem medir palavras e ações, além de ser o estereótipo da mulher rica que não pensa duas vezes antes de usar a influência de seu status para estabelecer certas relações de poder. Ainda na linha das missões difíceis, Laura Dern dribla um papel facilmente odiável e oferece ao espectador pelo menos certa compreensão por uma mãe que, ao tentar defender a filha em uma missão desconfortável, acaba se descontrolando perante todo um círculo social. Já a Jane de Shailene Woodley não está nem perto de ser rica, mas vem como um alento humano e um olhar exterior para esse subúrbio tão submerso em picuinhas e competições causadas por dinheiro, status e, óbvio, pelo incentivo ao ódio entre mulheres.

É muito simbólico ver as personagens juntas no desfecho do programa para literalmente lutar por uma causa muito maior do que a disputa cotidiana entre elas porque Big Little Lies, mesmo que decepcionante em diversos aspectos, é uma verdadeira resposta aos bastidores de Hollywood, onde estúdios e executivos continuam a fazer escolhas baseadas em idade e sexo. Na TV, a situação é bem diferente, já que nela existe espaço para atrizes como Reese Witherspoon e Nicole Kidman investirem em seus próprios projetos e até mesmo serem alvos de disputa (a HBO ganhou uma corrida acirradíssima com a Netflix pelos direitos de Big Little Lies). E o que dizer, então, quando a TV faz de um programa produzido e protagonizado por quatro intérpretes femininas um grande evento em sua grade de programação? Isso é coisa rara de se ver. Os ventos têm sido favoráveis para as mulheres nos formatos seriados (não deixem também de acompanhar Feud, que continua a ser exibida e tem sido altamente representativa nesse sentido de visibilidade), e isso ninguém pode jamais questionar. Posso desgostar bastante do resultado final de Big Little Lies. Agora, não reconhecer a importância de um projeto como esse ganhar vida… Isso sim é coisa de maluco. 

 

A Piscina

We’re all obscene. Everyone’s obscene. That’s the whole fucking point.

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Direção: Luca Guadagnino

Roteiro: David Kajganich, baseado em história de Alain Page

Elenco: Tilda Swinton, Matthias Schoenaerts, Ralph Fiennes, Dakota Johnson, Corrado Guzzanti, Aurore Clément, Lily McMenamy, Elena Bucci, Salvatore Gabriele, Francesco Lo Pinto, Youness Zrhaiba

A Bigger Splash, Itália/França, 2015, Drama, 125 minutos

Sinopse: A estrela do rock Marianne Lane (Tilda Swinton) passa férias em uma ilha italiana na companhia de seu parceiro (Matthias Schoenaerts) quando é surpreendida por Harry (Ralph Fiennes), um ex-caso que aporta no paraíso com a filha (Dakota Johnson) e desencadeia uma onda de nostalgia e perigosos jogos de sedução. (Adoro Cinema)

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Vivida por Tilda Swinton, a estrela do rock Marianne Lane é a perfeita síntese de toda a dramaticidade de A Piscina, longa que marca a quarta colaboração entre a atriz e o diretor italiano Luca Guadagnino. Recuperando-se de uma cirurgia nas cordas vocais, a cantora praticamente não consegue falar e precisa evitar ao máximo qualquer expressão de voz. Para tanto, Marianne opta por se refugiar com o namorado Paul (Matthias Schoenaerts, o par romântico de Marion Cotillard em Ferrugem e Osso) em uma belíssima ilha italiana, onde, por coincidência, acaba vivendo justamente o contrário, pois é lá que também está de férias o excêntrico Harry Hawkes (Ralph Fiennes), ex-marido da artista que também produziu e agenciou sua carreira musical durante anos. E se grande parte dos cineastas faria desse encontro um verdadeiro melodrama sobre um amor mal resolvido que renasce a partir do acaso, Guadagnino usa um pincel muito mais fino: quando Harry canta, dança, fala o tempo inteiro e faz o que bem entende em qualquer lugar como um verdadeiro furacão para qualquer círculo social, A Piscina se torna um estudo sobre tudo o que nasce a partir do silêncio em meio ao caos – e por isso é tão simbólico uma estrela da música se encontrar praticamente muda em um turbilhão interno tão intenso.

Inteligentemente, Harry está longe de ser um sujeito meramente insuportável. Sua necessidade de estar constantemente falando e chamando atenção revela, na verdade, uma autenticidade que, sim, extrapola a paciência e o limite de muita gente, mas que não deixa de ser… autenticidade. O próprio personagem questiona: por que ele precisa pedir desculpas por simplesmente ser quem é? Isso nos leva à ideia de que Harry tem um mérito que, parando para pensar, é raríssimo em boa parte das relações que estabelecemos. A própria Marianne compreende isso (e não à toa esse parece um dos aspectos que fizeram com que ela um dia caísse de amores por ele), o que, em contraste, não amortece a incômoda sensação de tê-lo de volta em sua vida que, no exato momento retratado por A Piscina, é muito bem estabelecida do ponto de vista profissional e amoroso. Toda a ação do filme de Luca Guadagnino parte dessa chegada turbulenta de Harry, que ainda viaja com uma filha adolescente (Dakota Johnson) que diz recém ter descoberto existir. Na convivência do quarteto (Marianne e seu namorado, Harry e sua filha), A Piscina apresenta dilemas sexuais, amorosos e até mesmo sociais partindo de cotidianidades. Os subtextos que surgem desde uma mera diversão no karaokê até um duvidoso passeio de campo reforçam o naturalismo do longa, que, como outros do diretor italiano, prefere lançar um olhar microscópico para situações corriqueiras ao invés de apostar em reviravoltas para criar estofo dramático.

Saindo dos registros bucólicos de Um Sonho de Amor para as paisagens veranis de A Piscina, Luca Guadagnino segue filmando histórias com grande requinte estético. Se Tilda Swinton novamente é um deslumbre com figurinos invejáveis (todo o guarda-roupa dela foi desenhado pela Gucci, incluindo o icônico óculos de sol usado do início ao fim) e as paisagens litorâneas da Itália são de encher os olhos, o diretor nunca deixa que a estética seja apenas um personagem extra do filme ou que  sirva apenas para tornar ainda mais atraente a inegável beleza de Matthias Schoenaerts, por exemplo. Tudo tem um propósito: a sofisticada roupagem de Tilda justifica seu status de estrela da música mundialmente reconhecida e as praias criam um clima de despojamento que é fundamental para a o desejo físico que se cria secretamente ou não entre os personagens. Afinal, assim são os filmes que reverberam como A Piscina: grandes também nos detalhes técnicos e não apenas no roteiro. Por falar em texto, aqui o roteirista David Kajganich revela um talento surpreendente. Responsável pelos péssimos Invasores (a ficção estrelada por Nicole Kidman e Daniel Craig em 2007) e Renascido das Trevas (mais uma bagunça dirigida por Joel Schumacher, dessa vez um terror com Henry Cavill), Kajganich é pontual ao administrar a ciranda de sentimentos entre os personagens de A Piscina, todos muitíssimos bem desenvolvidos em suas personalidades e na forma como elas se afetam.

Muito da verossimilhança de A Piscina se dá pelo alto nível de interpretação do quarteto de atores reunidos no longa, incluindo até mesmo Dakota Johnson, que, com um papel consideravelmente menor em tempo de projeção se comparado ao de seus colegas, consegue transmitir toda a esperteza de uma jovem que tenta compreender (ou quem sabe se aproveitar?) dos conflitos a sua volta. Mas se Tilda Swinton já dispensa comentários há anos (aqui está novamente fantástica com um papel que só poderia ser dela) e faz uma ótima dupla com Matthias Schoenaerts, que interpreta um homem atraente e comum na medida exata, quem realmente dá show é o sempre subvalorizado Ralph Fiennes. É claro que seu personagem, por ser o centro das atenções (e da ação), já ganharia destaque naturalmente, mas Fiennes sabe calibrá-lo com grande precisão, atentando-se a dois pontos fundamentais: primeiro o de Harry como um homem verborrágico que torna qualquer momento um grande acontecimento e segundo como sujeito confiante que, muito no fundo, aos poucos compreende que não pode controlar tudo nesse mundo (a cena em que Marianne pergunta por que Harry não consegue aceitar a ideia de ela ser feliz sem sua presença é uma das melhores do filme). Em uma das entrevistas que concedeu para divulgar A Piscina, Guadagnino diz que trabalhar com esses atores foi a melhor experiência que já teve com um elenco em toda a sua carreira. Se como espectador é fácil acreditar na grande verdade dessa afirmação, imagine estando lá…

Rapidamente: “A Estranha Passageira”, “Amores Urbanos”, “Minha Vida de Abobrinha” e “Toni Erdmann”

Distante das mulheres geniosas e de temperamento forte que tanto marcaram sua carreira, Bette Davis tem, em A Estranha Passageira, um de seus desempenhos mais camaleônicos.

A ESTRANHA PASSAGEIRA (Now, Voyager, 1942, de Irving Rapper): Com a estreia da minissérie Feud, que conta os bastidores das filmagens de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, longa de 1962 estrelado por Bette Davis e Joan Crawford, volta a vontade de rever ou vasculhar o que ainda não vimos da filmografia das duas atrizes. Foi justamente o programa de Ryan Murphy que me levou a continuar a missão de ver, pelo menos, todas as indicações de Bette ao Oscar (foram dez, ao total, todas como protagonista). Nessa jornada, cheguei recentemente ao longa A Estranha Passageira, que traz uma das interpretações mais camaleônicas dessa atriz marcada por quase sempre interpretar mulheres de gênio difícil, temperamento forte ou simplesmente de má índole. Definitivamente não é o caso do filme de Irving Rapper, onde Bette dá vida a Charlotte Vale, jovem que, rejeitada e massacrada pela mãe, nunca viveu sua própria vida, até o dia em que resolve se libertar das amarras familiares e se tornar a mulher que sempre quis ser. A transição de filha submissa que se porta quase como alguém da terceira idade para uma figura feminina elegante, autêntica e dona de seu próprio destino ganha tônica surpreendente nas mãos da atriz, compensando a duração excessiva do filme e arcos dramáticos perfeitamente melodramáticos ou conduzidos de forma óbvia até para a época (é imperdoável que a mãe da protagonista seja reduzida a uma pessoa apenas maquiavélica e desagradável). Bette, sem dúvida, garante o encantamento que falta ao filme como um todo. Aos brasileiros, uma curiosidade extra: é durante uma viagem ao Rio de Janeiro que Charlotte finalmente se descobre uma nova pessoa.  

AMORES URBANOS (idem, 2016, de Vera Egito): Não vou negar que, como um jovem de 25 anos, saí da sessão de Amores Urbanos com um gosto amargo na boca. E isso se deve exclusivamente ao retrato fidelíssimo que a diretora Vera Egito faz da juventude contemporânea. Em seu filme de estreia como diretora, ela se diferencia da infinidade de filmes sobre adolescentes ao pegar uma faixa etária muito mais madura (os protagonistas já estão na casa dos 30 anos) e ao utilizar, como o próprio título indica, a questão urbana como elemento fundamental para todas as questões emocionais do roteiro, escrito pela própria Vera. Habitantes de uma São Paulo efervescente em histórias e oportunidades, mas também intimidante e excludente por conta de seu tamanho gigantesco, Júlia (Maria Laura Nogueira), Diego (Thiago Pethit) e Micaela (Renata Gaspar) pouco sabem o que estão fazendo da vida, seja na forma um tanto confusa como as relações se configuram nos dias de hoje, na compreensão deles próprios sobre suas personalidades e nos impulsos ou na indefinição de uma vida profissional cobrada cada vez mais cedo pela sociedade. É no turbilhão de tentar conciliar tudo isso e de encontrar um ponto de equilíbrio entre o que queremos fazer e que os outros esperam de nós que Amores Urbanos se revela um filme dramaticamente antenado e relevante. Pode ser que, na forma, a história não se esquive de estereótipos para chegar a determinadas discussões, mas o filme tem um tino tão grande sobre a geração em questão que fica fácil relevar seus caminhos fáceis.  

MINHA VIDA DE ABOBRINHA (Ma Vie de Courgette, 2016, de Claude Barras): Como não lamentar o fato do Oscar de melhor animação estar sempre reservado para produções Disney/Pixar? A mais recente vítima dessa sistemática preguiçosa dos votantes da Academia é Minha Vida de Abobrinha, a animação mais sincera e delicada que você verá em muito tempo. Partindo de uma premissa corajosa para o gênero (os dias de um garoto que, após perder a mãe em um acidente causado por ele próprio, passa a viver em um orfanato), o filme de Claude Barras já prometia uma imensidão de sutilezas somente por ter como roteirista a francesa Céline Sciamma, que dirigiu, com muita dignidade e humanidade, o ótimo Tomboy. E ela não desaponta em Minha Vida de Abobrinha: tratando de forma muito discreta, mas nem por isso rasteira, a identidade das crianças que foram parar no orfanato (algumas por terem pais abusivos, outras simplesmente por terem sido rejeitados ao nascimento), Sciamma extrai beleza da inusitada circunstância desse garoto que aprende o significado do amor justamente em um lugar habitado por crianças que não sabem o que é tal sentimento. De forma objetiva, Minha Vida de Abobrinha, que não chega a ter 70 minutos de duração, constrói dramas sem qualquer previsibilidade, além de fazer graça não com situações criadas exclusivamente para balancear o drama ou fisgar os pequenos, mas com a própria personalidade das crianças, todos únicas em suas características. É uma experiência emocionante e altamente expressiva, dos personagens feitos com massinha à maneira como lida com assuntos dificílimos, como o abandono infantil e a depressão.

TONI ERDMANN (idem, 2016, de Maren Ade): Poucas vezes fiquei tão ansioso com a ideia de Hollywood refilmar um filme de língua não-inglesa. Isso porque a versão estrelada por e a pedido de Jack Nicholson para Toni Erdmann pode reparar aquele que considero o maior problema do filme de Maren Ade: a quantidade expressiva de excessos. Demasiadamente longo tanto na metragem em si quanto na forma como o filme prolonga muitas de suas sequências, Toni Erdmann, em contrapartida, acerta na pegada curiosa que adota para tratar sobre o difícil relacionamento entre pai e filha. Obviamente, por abraçar tanto a comédia, o filme dividiu opiniões: há quem ache o resultado genial, enquanto outros chegam a dizer que é puro constrangimento. À parte identificações com o material cômico, é preciso compreender que é somente através dos absurdos dessa vertente que um sujeito como Winfried (Peter Simonischek) poderia se reaproximar de Ines (Sandra Hüller), uma filha bastante linha dura e avessa a diálogos. A química entre os dois atores é fantástica e muito de Toni Erdmann se sustenta em função da dupla, o que só aumenta a sensação de que, caso tivesse, no mínimo, meia hora a menos, essa comédia alemã poderia brilhar ainda mais em suas qualidades e resultar menos exaustiva. Se o remake já acumularia expectativas por finalmente trazer Jack Nicholson de volta e por dar um grande papel que parece cair como uma luva para Kristen Wiig, particularmente fico mais ansioso pela possibilidade da releitura aparar muitas arestas do filme original.

Fragmentado

The broken are the more evolved. Rejoice.

Direção: M. Night Shyamalan

Roteiro: M. Night Shyamalan

Elenco: Anya Taylor-Joy, James McAvoy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica Sula, Izzie Coffey, Brad William Henke, Sebastian Arcelus, Neal Huff, Robert Michael Kelly, M. Night Shyamalan

Split, EUA, 2016, Suspense, 117 minutos

Sinopse: Kevin (James McAvoy) possui 23 personalidades distintas e consegue alterná-las quimicamente em seu organismo apenas com a força do pensamento. Um dia, ele sequestra três adolescentes que encontra em um estacionamento. Vivendo em cativeiro, elas passam a conhecer as diferentes facetas de Kevin e precisam encontrar algum meio de escapar. (Adoro Cinema)

Se o diretor M. Night Shyamalan tem senso de humor e é tão inteligente quanto gosta de se proclamar, o título Fragmentado pode ser interpretado como uma referência a sua carreira de altos e baixos desde que ganhou o mundo e chegou a concorrer ao Oscar em seis categorias com o marcante O Sexto Sentido. Um dos cineastas mais mitológicos do início dos anos 2000, Shyamalan conquistou notoriedade internacional ao dirigir outras obras célebres como Corpo FechadoSinais, mas passou a despertar, de forma plenamente compreensível, a aversão do público naquela que é a derrocada artística mais lamentável já enfrentada por um diretor nas últimas décadas. O declínio não começou tão cedo como muitos apontam (A Vila, de 2004, é sim uma grande obra incompreendida), o que, claro, não amortece os crescentes fiascos criativos de Fim dos TemposO Último Mestre do Ar Depois da Terra. Já em 2015, com orçamento muito menor, escala de produção mais comedida e ambição criativa redimensionada, o diretor retorna com A Visita, filme que considero implausível em sua premissa mais básica, mas que, segundo a razoável recepção da crítica, injetava uma considerável dose de ânimo na carreira desse cineasta que parecia ter esgotado todo seu talento e desaprendido a construir suspenses minimamente instigantes.

Eis, então, a brincadeira que pode ser levantada a partir de uma suposta ironia do título Fragmentado: afinal, como é possível um diretor ter sido ao mesmo tempo tão inovador e desprezível ao longo de quase duas décadas prolíferas de trabalho? Pois a fragmentada carreira de Shyamalan tem tudo para, agora sim, ganhar novo gás: ao contrário de A Visita, Fragmentado apresenta muitos dos elementos que tornaram o cineasta um dos mais cultuados de sua geração. Dessa forma, mesmo que, em algumas passagens, faltem as sutilezas que tornaram, por exemplo, O Sexto Sentido uma aula sobre como esconder dos espectadores um segredo que esteve o tempo inteiro embaixo de seus narizes, é tempo de baixar a guarda: neste novo suspense estrelado por James McAvoy e pela revelação Anya Taylor-Joy, que estrelou o já marcante A Bruxa, Shyamalan, depois de muitos anos, cria uma experiência repleta de atmosfera e boas ideias. Talvez não seja a grande obra que todos esperam (é sempre assim: todos exigem o máximo de quem já fez o máximo, principalmente quando o profissional em questão tenta se reerguer de uma fase ruim), mas pense na hipótese: caso esse fosse o primeiro filme assinado pelo indiano, é bem provável que fosse reverenciado como a estreia promissora de um cineasta independente.

Com um cartaz que remonta a Corpo Fechado sem se limitar apenas a essa brincadeira comercial (quem conhece a carreira do diretor encontrará, no filme, outras brincadeiras referentes ao filme de 2000 estrelado por Bruce Willis), Fragmentado volta a apresentar um Shyamalan que, antes de criar a atmosfera básica de um filme do gênero, pensa bastante no embasamento dramático de seus personagens e na situação em que eles estão inseridos, o que, vale lembrar, foi uma das fórmulas do sucesso de O Sexto Sentido, que sobrepunha o drama ao suspense. Ao criar uma trama centrada em personagens com distúrbios mentais ou ao menos assombrados por passados traumáticos – enquanto Kevin (James McAvoy) tem 23 personalidades distintas, Casey (Anya Taylor-Joy) é a jovem estranha de uma turma que ainda enfrenta os fantasmas de uma infância conturbada -, o roteiro, além de delinear com competência o estofo dramático individual dos protagonistas, aos poucos converge para o caminho que torna o suspense de Fragmentado ainda mais envolvente: o processo de percepção de Casey acerca de como suas inadequações sociais, emocionais e semelhantes as de Kevin podem apontar para saída do cativeiro em que ele a mantém junto a outras duas colegas de escola.

Quando faltam sutilezas a Fragmentado é porque Shyamalan prefere criar, por exemplo, uma narrativa paralela de flashbacks para explicar o passado da jovem Casey ao invés de simplesmente trabalhá-lo a partir das interações estabelecidas por ela com as 23 personalidades do sequestrador. Além disso, são muito mais fascinantes as simbologias criadas dentro do cativeiro para falar sobre qualquer assunto, como o momento em que Casey, vindo de uma crescente esperança de fuga, se depara com um desenho feito pela personalidade infantil de Kevin. Metaforicamente, ali é revelada a lógica que a jovem precisa adotar para se desenvencilhar da situação: a saída não está, digamos, em uma janela, mas sim no poder da imaginação. Para não ambientar toda a trama de Fragmentado em um único lugar (isso exigiria um exercício muito mais complexo de roteiro, além de infinitas exigências do estúdio para comprar a ideia), o diretor expande sua história para o olhar de Karen Fletcher (Betty Buckley), a psiquiatra de Kevin. É uma forma de tornar a história mais dinâmica e, principalmente, de dar verossimilhança médica ao filme, que jamais se perde no grande número de facetas de Kevin (nem todas são de fato apresentadas na história) e introduz muito bem todo o processo interno do distúrbio mental em questão. O único defeito a ser levantado em relação a Fletcher é que, por mais que ela funcione como um personagem explicativo de vida própria (também são pinceladas informações sobre a vida da psiquiatra, que diz ter nos pacientes os filhos que preferiu não ter), Fragmentado se aproveita demais de sua figura para, no fim, tratá-la como uma coadjuvante qualquer. Fletcher merecia um desfecho mais condizente com seu tempo em cena e sua função narrativa.

Apoiando-se na imprevisibilidade de como é estar refém de um homem que, a qualquer momento, pode assumir até a personalidade de uma mulher para criar seu suspense, Fragmentado é mais do que um filme de sequestro porque compreende que o mérito desse tipo de história não está no sequestro ou na fuga em si, mas na relação entre sequestrado e sequestrador. No plano psicológico, Shyamalan leva seu mais novo trabalho a uma abordagem que, repleta de representações que merecem releituras, foge do lugar-comum e o livra de ter que cumprir o passo a passo de um filme do gênero. Beneficiados pelo retorno criativo de um diretor que parecia fadado a não acertar mais estão James McAvoy e Anya Taylor-Joy, ambos merecedores de elogios pontuais por suas interpretações. Ele, que assume inicialmente destinado Joaquin Phoenix, tem aqui um dos grandes momentos de uma carreira já conhecida por bons papeis (O Último Rei da EscóciaDesejo e ReparaçãoDois Lados do Amor, os novos X-Men), onde seu maior é certo é nunca cair na caricatura e sempre tornar críveis cada uma das personalidades do protagonista. Já Anya confirma a presença forte que tinha em A Bruxa ao ultrapassar todas as leituras fáceis da jovem excluída e problemática que, no fundo, tem mais a oferecer do que qualquer uma de suas colegas supostamente mais bonitas e interessantes. É com uma construção muito climática (se atentem ao envolvente trabalho de West Dylan Thordson na trilha sonora!) que M. Night Shyamalan coloca tudo isso em uma mistura que, finalmente, podemos considerar a responsável por novamente fazer dele um cineasta interessante. Se a crítica não concordar, pelo menos a Universal pode comemorar com os bolsos cheios: Fragmentado, até a data de publicação desse texto, já faturou 28 vezes mais do que seu orçamento de 9 milhões de dólares. 

Logan

So this is what it feels like…

Direção: James Mangold

Roteiro: James Mangold, Michael Green e Scott Frank, baseado em história de James Mangold

Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen, Boyd Holbrook, Stephen Merchant, Elizabeth Rodriguez, Richard E. Grant, Eriq La Salle, Elise Neal, Quincy Fouse, Reynaldo Gallegos

EUA, 2017, Ação/Drama, 137 minutos

Sinopse: Em 2029, Logan (Hugh Jackman) ganha a vida como chofer de limousine para cuidar do nonagenário Charles Xavier (Patrick Stewart). Debilitado fisicamente e esgotado emocionalmente, ele é procurado por Gabriela (Elizabeth Rodriguez), uma mexicana que precisa da ajuda do ex-X-Men para defender a pequena Laura Kinney / X-23 (Dafne Keen). Ao mesmo tempo em que se recusa a voltar à ativa, Logan é perseguido pelo mercenário Donald Pierce (Boyd Holbrook), interessado na menina. (Adoro Cinema)

Quando o diretor James Mangold recebeu carta branca para fazer Logan com classificação indicativa máxima, a conquista foi motivo de celebração, já que, muito além de poder realizar um filme com violência infinitamente mais gráfica, ele poderia contar uma história sem ter a obrigação de agradar a todo tipo de plateia. Com isso, foram escanteados a significativa quantidade de alívios cômicos tão inerentes aos blockbusters, a predileção pelo CGI em cenas de ação grandiosas e principalmente os arcos dramáticos perfeitamente previsíveis. Tudo isso já poderia por si só diferenciar o último longa-metragem de Wolverine estrelado por Hugh Jackman, mas o conceito foi muito além: melancólico e com tom de urgência, Logan é uma produção que surpreende por sua abordagem profundamente triste ao acompanhar os dias de um herói que, com um rosto envelhecido e cansado, precisa enfrentar, literal e metaforicamente, a maior batalha que todos nós também estamos fadados a enfrentar: aquela contra nós mesmos.

Décimo filme da franquia X-Men e o terceiro protagonizado por Wolverine, Logan varre para baixo do tapete todos os longas anteriores de seu universo ao demonstrar que não só aprendeu como atualizar um personagem que surgiu pela primeira vez nas telas há 17 anos como também observou atentamente as possibilidades pioneiras da trilogia Batman dirigida por Christopher Nolan de unir entretenimento com sofisticação narrativa. James Mangold, um diretor que faz tudo que é tipo de filme mantendo uma boa média de qualidade (Johnny & JuneIdentidade, Garota, Interrompida), dá um notável salto artístico em seu trabalho atrás das câmeras: entre Wolverine: Imortal Logan existe uma clara vontade de proporcionar uma experiência diferente, algo que ele mesmo confessa quando fala sobre o roteiro, que traz inspirações assumidas de longas célebres (Os Brutos Também Amam, no sentido de realizar um quase faroeste para um protagonista que procura uma mudança de vida rumo a dias mais isolados e pacíficos) e outros contemporâneos (Pequena Miss Sunshine, evocado aqui na abordagem de um road movie que oscila entre a melancolia e o humor com uma criança e um senhor no banco traseiro). 

Sem qualquer vilão querendo dominar o mundo ou tramas repletas de engenhosidades descartáveis (o que não deixava de sabotar Christopher Nolan em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, por exemplo), Logan é comandado com uma crueza embasbacante. Se antes Wolverine usava suas garras para aniquilar inimigos quase sem derrubar uma gota sequer de sangue em cenas de lutas mirabolantes, aqui Mangold abraça o realismo ao pesar a mão na medida certa em sequências que realmente encenam a gravidade do combate físico e cujas acrobacias foram de fato performadas pelos atores ou por seus dublês. É um ganho tremendo para um filme com clima de despedida como esse, já que o protagonista, ao atravessar cenários áridos e inóspitos, surge abatido pela idade (ele usa até óculos para ler!) e por seu duro passado. Em Logan, os heróis são falíveis, o que de certa forma não deixa, no sentido positivo, de desclassificar o filme de James Mangold como um filme herói. Antes de mais nada, a história é sobre seres humanos, onde os pés estão bem firmados no chão.

Encenado em 2029, mas renegando futurismos idealizados (pelo contrário: é seguida a lógica de que, talvez, a humanidade realmente não melhore com o passar das décadas), Logan cumpre com louvor a missão de fazer uma despedida ao mesmo tempo em que introduz, com muita organicidade, possibilidades para que o universo tenha sobrevidas a partir de novos personagens e situações. É meticuloso esse roteiro que, em termos de ação, se sustenta a partir de uma única perseguição para falar sobre o quanto certas jornadas podem realmente nos transformar. Afinal, é meio ilusório acreditar que até mesmo o mais poderoso dos super heróis passe por tantas mortes, despedidas e traumas sem carregar pelo menos algumas cicatrizes internas. Pois Logan/Wolverine se abala sim: desesperançoso ao ponto de descontar a raiva com a vida no próprio carro, o personagem, por trás de uma barba mal feita, das rugas que o tempo trouxe e das garras que não saem de suas mãos com a naturalidade de antes, já nem mesmo compreende mais o que é se conectar com o próximo – e, por isso, não é à toa que se torna poderoso, tanto para ele quanto para nós, um carinho aparentemente cotidiano, mas tão negado a nosso protagonista, ao final da trama.

Hugh Jackman, que segura o personagem como poucos atores que estrelam filmes baseados em quadrinhos, alcança, em Logan, o seu auge como Wolverine. É injusto, no entanto, reduzi-lo a apenas a essa comparação: depois de ter apresentado performances grandiosas nos últimos anos em filmes como Os MiseráveisOs Suspeitos, Jackman entrega uma atuação digna de ser reconhecida independente de gênero cinematográfico. O trabalho, que desde já está destinado a ser lembrado como um dos seus pontos altos como intérprete, ainda é complementado por outro ator em momento digno de aplausos: Patrick Stewart, que finalmente recebe a chance que tanto lhe era negada nos filmes anteriores da franquia, abraçando por completo a proposta de ser um homem tão abalado e fadigado quanto o protagonista. Com ação visceral e discussões comoventes, Logan marca uma revolução no cinema derivado de adaptação de quadrinhos, mas sem nunca negar sua origem ao brincar com referências, falar novamente sobre a caça aos mutantes e apresentar personagens com novos poderes. As decisões artísticas funcionaram porque, somente nos Estados Unidos, Logan foi a maior estreia de um filme com classificação indicativa máxima, ocupando mais de 4 mil salas de cinema. Em termos de crítica e público, o filme é um sucesso. E com toda razão.

Três atores, três filmes… com Iradilson Costa

iradilsontresFoi o show da banda britânica Keane, no Credicard Hall, em São Paulo, lá em meados de abril de 2013, que me apresentou ao agora amigo Iradilson Costa. Pela música, descobri que esse paraibano também é um grande fã de cinema, e hoje, depois de quase quatro anos, já tenho uma série de opiniões em comum com ele, mas o mais importante: mesmo na hora de discordar, a troca é sempre amigável e divertida. Quem dera todas as trocas de ideia se dessem dessa maneira na internet. Para a nossa coluna, Iradilson selecionou desempenhos de alto nível, indo do clássico ao contemporâneo. Enquanto a grande Vivien Leigh e a dupla Victor Moore e Beulah Bondi fazem sua estreia no rol de atores mencionados pelos nossos convidados em mais de 30 edições da coluna até aqui, Daniel Day-Lewis conquista agora um bicampeonato ao ser novamente lembrado por seu irrepreensível desempenho em Sangue Negro. Confiram!

Victor Moore & Beulah Bondi (A Cruz dos Anos)
A Cruz dos Anos foi citado pelo Orson Welles como o filme mais triste que ele conhecia. Jean Renoir e John Ford também admiravam demais este trabalho. Não é um exagero. O casal que protagoniza o filme, interpretados por Victor Moore e Beulah Bondi, faz um trabalho inesquecível, entregando cenas carregadas de emoção. Recordo que na época que vi o filme pela primeira vez eu quase obriguei alguns amigos a assistirem também. Recomendo muito, pois é paixão eterna pelo casal de idosos mais maravilhoso do cinema.

Daniel Day-Lewis (Sangue Negro)
Sangue Negro é um filme árido, seco e muito difícil de acompanhar. E essa aridez é perfeitamente casada à interpretação do Daniel Day-Lewis neste belíssimo longa. Desde os seus primeiros e silenciosos momentos até o final impressionante, Sangue Negro está em função do Day-Lewis. Seus olhares, o peso dos seus movimentos, seus gritos… Tudo é um triunfo. É digna de nota, também, a interação do Day-Lewis com o Paul Dano, que foi injustamente esquecido nas principais premiações daquela temporada.

Vivien Leigh (Uma Rua Chamada Pecado)
Minha relação com a peça Um Bonde Chamado Desejo é antiga. Elia Kazan torna o material do Tennessee Williams um filme intenso e tão bom quanto o material original. Vivien Leigh carrega com muita competência as nuances da sua personagem. Destaco também a interação com o também excelente Marlon Brando, que torna os embates mais intensos do filme em densos materiais de estudo sobre dramaturgia, cinema e adaptação.

“Crisis in Six Scenes” ou como Woody Allen realmente entrou em crise

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Woody Allen na frente e atrás das câmeras de Crisis in Six Scenes: o veterano nunca escondeu seu desconforto em ter que lidar com o desenvolvimento de um seriado, o que está evidente na tela.

Vocês imaginem um seriado criado, escrito e dirigido por Woody Allen. Melhor ainda: também encomendado pela Amazon, onde inexistem limitações criativas por se tratar de uma plataforma on demand que, claro, não depende de audiência ou anunciantes para tomar decisões autorais. A ideia parecia infalível, e Crisis in Six Scenes tinha tudo para ser um grande evento, mas, no final das contas, ninguém viu ou muito menos comentou o seriado de Woody, cineasta que já acumula quatro Oscars em uma carreira até hoje irrefreável. E para compreender como Crisis in Six Scenes se tornou um fracasso retumbante do ponto de vista artístico e de público, é preciso retroceder ao Globo de Ouro 2015, quando a Amazon se consagrou ao ver Transparent, sua produção de estreia, faturando a categoria de melhor série de comédia/musical.

No embalo da vitória, os executivos da Amazon anunciaram, logo no dia seguinte, que Woody Allen era a mais nova aquisição de seu portfólio. Uma jogada estratégica de divulgação que, em contrapartida, foi amortecida pelo veterano: logo após seu contrato se tornar público, Woody fez questão de declarar que não sabia onde estava com a cabeça quando aceitou a proposta e que tinha dúvidas sobre o quanto realmente poderia contribuir para a concepção de um seriado. Ou seja, feita a trancos e barrancos do ponto de vista de um criador que já não tinha nem certeza sobre o quanto o projeto poderia dar certo, Crisis in Six Scenes se tornou, de repente, fadada ao fracasso. E foi o que aconteceu: à época do lançamento, em setembro do ano passado, o diretor atestou que não volta para uma segunda temporada e que, enquanto estiver vivo, não aceita mais se envolver com produções dessa natureza.

Woody Allen está coberto de razão em fazer de Crisis in Six Scenes a sua única experiência em séries, uma vez que, para começo de conversa, o que menos existe no programa é, justamente, uma linguagem do formato. Não bastasse abrir o episódio-piloto com os créditos iniciais que são uma assinatura facilmente reconhecível de sua carreira no cinema, o diretor e roteirista simplesmente conta uma história que indiscutivelmente foi concebida para um filme que acabou picotado em seis partes. Isso está explícito na forma como Crisis in Six Scenes estrutura seus capítulos com pouquíssimas cenas, todas longas e extremamente verbais, jamais compreendendo que, sim, uma temporada precisa criar um arco para uma temporada, mas um episódio também precisa se sustentar por si só – e não acabar de maneira abrupta ou com alguma situação curiosa criada de última hora apenas para criar a falsa ilusão de conclusão.

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Miley Cyrus chamou a atenção de Woody Allen ainda nos tempos de Hannah Montana, mas sua escalação não se justifica: ela é apenas mais um detalhe da série que não dá certo.

Novamente em cena para fazer o velhinho neurótico e falante, Woody Allen aqui aqui é Sidney J. Munsinger, um escritor frustrado que, nunca reconhecido pelas obras que escreveu, resolve investir na ideia de criar um seriado para a TV. Até o dia em que surge Lennie Dale (Miley Cyrus), uma jovem revolucionária que, em plenos anos 1960, é procurada pela polícia por querer promover mudanças radicais no sistema estadunidense com, por exemplo, fabricação de bombas. Só que a jovem é de uma família conhecida de Kay (Elaine May), que resolve abrigá-la secretamente, para o completo desespero de Sidney. Nesse contexto, a situação se dispersa até mesmo para um filme bastante mediano de Woody Allen, que se repete demais nas neuroses de seu protagonista e ao criar subtramas perfeitamente desinteressantes, como a do amigo da família que se apaixona por Lennie Dale.

Aliás, a personagem de Miley Cyrus é um dos principais problemas de Crisis in Six Scenes, pois o roteiro nunca torna instigante a sua influência direta não apenas na vida de um casal rotineiro e entediado, mas também na do próprio vizinho que se apaixona por ela. Lennie Dale não é curiosa nem misteriosa como deveria ser e, do ponto de vista de contribuição ao programa, serve apenas para proporcionar cenas mais descontraídas protagonizadas por Woody Allen e Elaine May, que chegam a pular de um terraço a outro para fugir da polícia! De resto, as discussões que a personagem suscita sobre os ideais de Fidel Castro e Che Guevara ou sobre como o Estados Unidos equivocadamente se intitula o melhor país do mundo se perdem em uma narrativa truncada, apática e conduzida por um diretor que nem precisaria admitir sua falta de afinidade com o formato para despertar no espectador a sensação de que pouco ali está realmente se encaixando.

Há coisas boas no meio do caminho e que até se parecem mesmo com situações feitas para um seriado. É inspirado, por exemplo, o cotidiano de Kay como terapeuta de casais, tratando situações curiosas como a do marido que tem fetiche em pagar mulheres por sexo (e isso inclui a própria esposa!) e do casal que é incapaz de enxergar qualidades um no outro. Woody Allen também segue tirando humor como ninguém de situações que só poderiam ser criadas e conduzidas por ele. Nada, entretanto, elimina a imensa sensação de frustração que é conferir Crisis in Six Scenes, uma produção que já não funcionaria como filme, mas que, como seriado, só evidencia um expressivo momento de crise criativa na carreira de seu criador.

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