Três atores, três filmes… com José Pedro Goulart

zepedrotresQuem acompanha o blog sabe que, no Festival de Cinema de Gramado do ano passado, fiquei completamente impressionado com Ponto Zero, filme dirigido pelo meu conterrâneo e colega jornalista José Pedro Goulart. Não vou esconder minha gafe: foi só depois de conferir o longa que investiguei os trabalhos prévios de Goulart, incluindo o célebre curta-metragem O Dia Em Que Dourival Encarou a Guarda, que ele assinou em parceria com Jorge Furtado em 1986 (não cometam o mesmo erro que eu e confiram já esse filme aqui). Ao longo de sua trajetória, o diretor fundou a Casa de Cinema de Porto Alegre, a Zeppelin Filmes e, em 2008, a Mínima. Sua carreira ainda passa por publicidade, crônicas e produção de obras que considero particularmente marcantes na cinematografia gaúcha como Ilha das FloresO Cárcere e a Rua. Sem falar, claro, de Ponto Zero, que tem previsão de estreia para o primeiro semestre deste ano e que espero que, para vocês, seja uma experiência tão impactante quanto foi para mim. Ou seja, currículo é o que não falta ao nosso primeiro convidado de 2016 da coluna, o que só aumenta a minha honra de tê-lo por aqui. Fiquem abaixo com as escolhas do diretor, todas com justificativas que são verdadeiras aulas sobre a importância do ator para o fazer cinematográfico.

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Sidney Poitier (No Calor da Noite)

No Oscar deste ano não há nenhum ator negro indicado a qualquer premiação. Imaginemos o inverso, todos os atores nominados sendo negros e nenhum branco.

De modo que esta pequena grande lista começa com um filme de 1967, de Norman Jewison,  No Calor da Noite, cujo ator principal é um negro tão escuro que obrigou que fosse feita uma iluminação especial – rebaixada, para que não lhe refletisse a pele demais -, Sidney Poitier.

O filme conta a história de um investigador policial (Poitier) que, de passagem por uma pequena cidade do sulista dos EUE, é detido, por preconceito, como suspeito de um crime recentemente cometido. Desfeita a engrisilha, ele acaba ironicamente retido na cidade para trabalhar na investigação do crime pelo qual foi acusado. Trata-se de um detetive arguto, mas tem que enfrentar a desconfiança de todos, primeiro por ser forasteiro, e principalmente por ser preto.

Durante toda  a carreira, Sidney Poitier, interpretou homens de cor que tinham que lidar com isto. De alguma forma, frontalmente ou ladinamente, o fato de ser negro estava contido na temática (o cinema demorou a considerar a cor um não assunto). Ou seja, parte da interpretação é extensão de sentimento. Maltratar um personagem por ser negro, interpretado por um negro, equivale a um ator judeu sofrendo  as circunstâncias em um campo de extermínio nazista.

A extensão favorece, claro, porém todo grande ator trabalha com cartas secretas –  e cada carta contém a capacidade de estabelecer verdade nas nuances, naquilo que não é tão aparente, mas faz a diferença. Poitier tem uma baralho completo no bolso. Ele não grita, é matreiro, elegante feito um gato, milimétrico nas expressões. Talvez porque soubesse que era isso que fazia a diferença: ele se sentia bem de gravata.

No filme de Jewinson, No Calor da Noite, há uma cena antológica que, reza a lenda, teria sido exigência do ator. Nela, o personagem de Poitier é esbofeteado por um sujeito rico e poderoso, quando este se vê acusado por ele de ser um criminoso. Poitier imediatamente revida, devolvendo o bofete no sujeito. A maneira inesperada com que tudo acontece, ação e reação, põe a questão do racismo no seu devido lugar.

Mas o filme vai além, trata de um assassinato e das conspirações para que ele não fosse resolvido, uma rasura no sistema, um esboço daquilo que viria a ser tratado na explosiva série recentemente lançada, Making a Murderer. Por fim, há a relação entre Tibbs (Poitier) e Gillespie (Rod Steiger – Oscar de melhor ator pelo filme).  Gillespie, um delegado durão, mas repleto de angústia naquele fim de mundo, onde se sente perdido e solitário, descobre-se de alguma forma em sintonia com Tibbs: começa o filme prendendo aquele negro suspeito, mas evolui numa intrigante relação. O diálogo de ambos na cena derradeira na estação de trem é antológica.

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Klaus Kinski (Aguirre, a Cólera dos Deuses)

Aguirre, a Cólera dos Deuses é um desafio do grande cineasta alemão Werner Herzog, ao se embretar na selva amazônica – isso no começo dos anos 70 – sem pai nem mãe, para contar a história de uma expedição espanhola em busca do reino perdido de Eldorado, fato histórico acontecido em 1560.  O filme é narrado como se fosse um documentário, as condições realistas vertendo na tela, e eis aqui o meu ponto para a escolha dele: a distância do cinema e o teatro na dramatização. Num outro filme de Herzog, Fitzcarraldo, muito parecido, o cineasta volta à selva, mostrando que obsessão não tem limites quando se trata de enfrentar… limites.

E se Poitier é um felino, um gentleman na frente e por trás das telas, esta lista faz um corte seco para um cão – condenado, desgraçado, desmiolado – Klaus Kinski, genial, mas cujos adjetivos de insanidade são insuficientes para catalogá-lo. Personagem e ator se confundem. Difícil imaginar onde a atuação começa e termina quando um louco interpreta um louco, ou talvez tenhamos que lidar com o fato sobrenatural de que a alma de Lope de Aguirre tenha se instalado em Klaus Kinski. A cena do barco, assaltado por centenas de macacos enquanto Kinski perambula alucinado entre eles, apanhando um ou outro a esmo, faz parte da coleção daquilo que o cinema fez de mais impressionante desde que foi inventado.

Werner Herzog, por sua vez não fica atrás: as filmagens de Aguirre e Fitzcarraldo, ambos com locações na selva, teriam custado centenas de árvores nativas, animais e até mesmo ceivado vidas de índios a serviço do projeto. As histórias que são contadas a respeito da saga conjunta Herzog/Kinski são incríveis – há um documentário, inclusive, assinado por Herzog, Meu Melhor Inimigo, cujo título explica muito da turbulenta relação profissional e pessoal dos dois (que durou anos).

E é tudo verdade: os ataques de megalomania de Kinski durante as filmagens, as falas desconexas, as agressões a outros atores. Em especial se destaca a história de que, quando Klaus Kinski ameaçou abandonar as filmagens de Aguirre, o próprio Herzog apontou um revólver carregado para ele: se ele fizesse isso o mataria e depois a si próprio. Ou de uma outra, de quando os índios se ofereceram a Herzog para matarem Kinski. Werner Herzog declinou da oferta e convenceu os índios dizendo que precisava de um ator para concluir o filme.

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Paulo José (Macunaíma)

Por fim, para completar a tríade proposta pelo blog, o oposto de Kinski: de Lavras do Sul para o mundo, Paulo José, um cara legal. Mais do que isso, trata-se de um artista maravilhoso, que protagonizou filmes notáveis como Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos de Oliveira, mas minha escolha aqui é Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade.

A partir de um texto original de Mário de Andrade, o filme tece um pano feito da linhagem que envolvia a nação. Por trás das peripécias de Macunaíma, um herói sem caráter que nasce negro (Grande Otelo) e vira branco (Paulo José), um tanto de Brasil raso e profundo. O país caloroso, tropical, cuja malemolência se autoexplica por um ritual permanente de autofagia.

Macunaíma é o encontro do Modernismo com Cinema Novo –, o manifesto da arte nativa, “tupy or not tupy”, bradava outro Andrade , o Oswald, por uma câmara na mão, uma ideia na cabeça, ainda outro Andrade, o Glauber (de Andrade Rocha) – em tudo a ideia era resistir. E reagir. Aquilo que vinha de fora não era lei, era preciso desconstruir na forma – linguagem é resistência.

Macunaíma nasce preto retinto e filho do medo da noite, passa seis anos sem falar, só de preguiça. Com a morte da mãe, aquela que lhe previu o destino (nome que começa por má, tem má sina), vira branco, sai do campo em direção à cidade, ao progresso, numa saga/paródia onde encontra a marginália: vadios, prostitutas, mendigos. E encontra o amor, Ci, uma guerrilheira urbana com quem tem um filho preto. Por fim, Macunaíma volta ao campo mais pobre do que saiu, carregando eletrodomésticos, badulaques da modernidade, algo imprestável naquele lugar. É o fim do herói.

A performance de Paulo José  é vivaz, tenho-a na memória, e vi o filme há mais de 30 anos. Havia uma questão que era a troca de atores para um mesmo personagem. E o filme começava com um Grande Otelo engraçadíssimo; moleque, brejeiro, safado. Era de se imaginar que o espectador fosse se ressentir da falta dele quando troca para o Paulo. Isso de fato acontece, mas não por muito tempo, em seguida o encantamento com o Macunaíma branco se refaz.

Acredito que a lente da câmara capture algo mais do que só a técnica do ator. Alguma coisa que não se explica, mas que é nítida, tanto na compreensão que o ator tem sobre a trama, mas também sobre a vida, sobre a arte, sobre as coisas. Lembro da primeira vez que ouvi a narração que o Paulo fez para o Ilha das Flores do Jorge Furtado – que coisa emocionante. Boa parte do sucesso do filme se deve a ele.

Abaixo um link de uma pequena mostra do talento, da compreensão do ofício do Paulo, recitando Drummond:

2 comentários em “Três atores, três filmes… com José Pedro Goulart

  1. Das atuações destacadas pelo José Pedro, só assisti à de Sidney Poitier, em “No Calor da Noite”, que é um verdadeiro filmaço!!!

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